A pandemia trouxe aos idosos do Lar e seus familiares “tristeza, angústia e isolamento”

 Correio dos Açores - A Covid-19 alterou o modus vivendi  das pessoas, das famílias e da sociedade em geral. Essa alteração também se estendeu aos Lares de idosos. Como é ser enfermeira num Lar de idosos com a Covod-19?
 Enfermeira Pereira da Rosa (Coordenadora dos Serviços nos Cuidados Continuados e do Lar da Levada da Santa Casa da Misericórdia de Ponta Delgada) - Nunca estamos preparados para os problemas que nos atingem, podemos ler dezenas de livros ou ser cientistas capacitados, no entanto continuamos sem dar solução a problemas complexos como este surto viral que nos atingiu e que tem feito milhares de vítimas.
As rotinas e a vivência da sociedade alterou-se mas aqueles que, devido à idade e a patologias associadas alterou-se ainda mais, por precisarem de maior vigilância e protecção. Claro que essa protecção veio alterar as rotinas do Lar através do isolamento social e familiar, com privação de visitas e cessação de entrada de produtos, excepto medicação.
Procedeu-se ainda à alteração de circuitos para os trabalhadores, maior distanciamento físico dos idosos na sala de actividades e no refeitório assim como o uso contínuo de mascaras e lavagem e desinfecção frequente das mãos por parte destes.
As zonas de isolamento profilático para os idosos que são admitidos no Lar ou aqueles que tenham estado internados no hospital por alguma situação de doença foram criadas a fim de evitar algum foco de contágio, mas não descuramos também zonas de isolamento caso surja alguém suspeito de estar contaminado.
Apesar de tudo isto, ser chamado “novo normal”, trouxe aos idosos do Lar e aos seus familiares, tristeza, angústia, isolamento que nem sempre é aceite da mesma forma, porém na sua grande maioria os idosos e seus familiares sentem e até verbalizam que tudo isto tem como fim a protecção e preservação das suas vidas.
O papel da Enfermagem é, sem dúvida, preponderante na gestão de toda esta situação através dos conhecimentos adquiridos pela profissão.
O plano de contingência elaborado pela Enfermagem atenta à maioria das situações que possam surgir e como evitá-las. Além disso, as adendas criadas ao referido plano são reforçadas pelas notas emanadas pela DGS e DRS.
O apoio dado à enfermagem e a colaboração de todo o staff foi, e continua a ser importantíssimo, pois todos perceberam a gravidade da situação e contribuíram para a definição de estratégias.
Pela essência da profissão sentimos que apesar das nossas fraquezas, das nossas debilidades dos nossos medos temos o dever de cuidar e tentar preservar a vida dos nossos idosos.

Que alterações houve quanto aos hábitos entre os cuidadores e utentes?
A Covid-19 veio acentuar o medo e a ansiedade das pessoas e estimular novos hábitos.
As crises obrigam à união e ao reforço do trabalho em equipa quer seja nos hospitais querem seja nos lares ou até mesmo na comunidade.
A nossa grande preocupação consistiu na preparação básica dos trabalhadores para que, da forma mais adequada, pudessem prestar cuidados aos idosos com o menor risco possível usando máscara, lavagem e desinfecção das mãos de utente para utente e procedem á desinfecção dos espaços, mobiliário e outros com a regularidade recomendada.
Outras medidas foram tidas em conta como o arejamento dos espaços e a reorganização dos mesmos para podermos diminuir riscos de contágio.
As soluções alcoólicas para desinfecção das maõs encontram-se em locais visíveis e de fácil acesso.
As manifestações de carinho como abraços e beijos encontram-se suspensas, porém reforça-se o diálogo e a atenção, reforçam-se as actividades lúdicas a fim de minimizar outras carências. 
 
Como reagem as famílias que ficam privadas do contacto com os seus parentes?
O Homem, pela sua natureza, é um ser gregário e nesse mundo encontra a sua razão de ser. É, sobretudo, no meio familiar e social que nos conectamos e criamos amor e respeito por tudo que nos rodeia e contribui para a nossa formação como pessoas.
Como seres humanos sentimos necessidade de nos ocuparmos dos outros ainda mais se esse outro faz parte do nosso eu a sua presença torna-se uma necessidade afectiva.
Mas, o ser humano tem uma capacidade de adaptação muito grande e compreende que a satisfação das suas necessidades afectivas podem por em risco a sua vida e  então aceita e prepara a sua estrutura mental de forma positiva embora com algum sofrimento.
A reacção das famílias, salvo raras excepções, tem sido positiva e colaborante e para minimizar as ausências procede-se a vídeo chamadas que adormecem um pouco as saudades e ainda visitas presenciais através dos janelões de vidro existentes no rés-do-chão do Lar, sendo o diálogo feito através do telemóvel. Sabemos que não é tudo mas queremos com isto poder diminuir a carga emocional que a saudade dos abraços possa trazer.

Quais os maiores impactos que a pandemia poderá ter sobre os  idosos designadamente quanto à repercussão de capacidades cognitivas e sociais, decorrente da alteração ao sistema de visitas, alteração a algumas das actividades que existiam na instituição e convívios com outras entidades e pessoas do exterior? 
O coronavirus ficará na História como a pandemia mais mortal até hoje conhecida, trazendo consigo problemas sociais e económicas muito graves, mas a restrição do convívio e do isolamento, sobretudo dos grupos de risco, é uma situação que não podemos ignorar.
Uma das nossas grandes preocupações é manter a saúde mental e a não deterioração das capacidades cognitivas daqueles que ao nosso lado se vêem privados de determinadas liberdades. 
As entidades máximas responsáveis pelas instituições têm de repensar a sua forma, as suas estruturas assim como as suas dotações. Os idosos merecem todo o nosso respeito, todo o nosso apoio, toda a nossa solidariedade e todos os benefícios que lhe possamos dispensar pois já deram o seu contributo à sociedade que agora tem o dever de os proteger.
Sem dúvida que toda esta alteração de vida veio alterar e diminuir algumas capacidades, os convívio com pessoas de outras instituições, as saídas com os familiares e amigos os passeios elaborados pelo lar sem duvida deixaram uma lacuna difícil de colmatar. 

Com o isolamento imposto pela pandemia, os cuidadores passaram a ser como que a família dos utentes. Como profissional de saúde, acha que a solidão e a falta do contacto familiar foram superadas, ou estão a ser superadas?
As medidas impostas pela pandemia do coronavirus limitaram os contactos com o exterior e com as pessoas trazendo sentimentos de solidão.
O Homem como ser bio-psico-social não pode dissociar-se dos variados sentimentos experienciados pela solidão e que levam muitas vezes a dificuldades emocionais que podem causar depressão.
Estamos atentos de forma a tomarmos medidas que possam alterar essas situações. Todos nós precisamos de dar importância às nossas vidas, precisamos de amar e ser amados pois só assim encontramos o conforto necessário que justifica a nossa saúde mental.
A falta do apoio familiar próximo faz com que o utente canalize a sua afectividade de forma muito acentuada e por vezes com dependência afectiva, para os cuidadores, mas isto não supera toda a afectividade pois mesmo através da vidraça os sentimentos de alegria espelham-se no rosto aquando da visualização dos seus familiares.
Todos sabem que a situação não será eterna mas quando nos perguntam quando acaba a resposta torna-se difícil e amarga. Mas um dia será e poderemos aguardar aquele abraço, aquela manifestação de amor que esperamos há tanto tempo, essa é a nossa resposta.

Como antevê os Lares de idosos, no pós pandemia?
Existe sempre um antes de e um depois. Tudo vai depender da retoma económica e ainda da capacidade dos nossos políticos para solucionar a retoma económica.
A afectação do turismo, das companhias aéreas, da restauração e da hotelaria, entre outros, antevêem uma retoma muito lenta e difícil. Ainda assim mantenho-me optimista esperando um futuro melhor para todos os lares e residências de idosos.
Através das nossas crenças e valores esperemos que esta crise venha melhorar os nossos valores e que alterações significativas possam acontecer pós Covid pois por conhecimento de outras crises mundiais sempre que o mundo sofre alguma crise há sempre como um “acelerador de futuro” que dispara.
A crise financeira poderá ser um travão para que possamos desacelerar os consumos e os desperdícios e fazendo com que o Planeta possa suportar os nossos gastos e estes sejam repartidos de forma saudável por aqueles que nada têm.

Que mensagem pode deixar às famílias dos idosos, nesta conjuntura difícil para todos? 
Quero agradecer a todas as famílias pela colaboração e ajuda que nos tem dispensado, pela paciência com tem esperado pelo fim do confinamento e pela espera da cura e da vacina.
Sem o apoio de todos não teria sido possível chegar até aqui por isso continuamos a contar com todos os familiares para continuarmos a nossa luta contra a Covid -19, que veio fazer de 2020 um ano terrível.
                                                       

C.A.

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima