Face a Face!... com Nuno Melo Alves

“Este Governo tem o melhor perfil para lidar com a situação actual nos Açores”

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Nuno Alberto Lopes Melo Alves. Sou casado, e pai de três filhos e tenho uma irmã. Nasci em Angra do Heroísmo, tendo vivido na Terceira até aos11 anos, altura em que fomos viver para a Califórnia. A minha adolescência foi passada naquele estado norte-americano, o que acabou por ter uma grande influência na minha visão e perspectiva em relação a vários aspetos económicos e sociais. Em 1988 regressei a Portugal, para frequentar o curso de Economia na Universidade Nova de Lisboa, e após a conclusão do curso, por lá fiquei a trabalhar até 1995, ano em que regressei aos Açores.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Completei a quarta classe em Portugal e estava no quinto ano quando ocorreu o sismo de1980. Tendo ido para os EUA pouco depois, fiz o resto do ensino básico, secundário e dois anos de Junior College na Califórnia. A partir dos 14 ou 15 anos, e enquanto estudante, tive alguns empregos, trabalhando como vendedor numa cadeia de lojas e como operário numa empresa de construção de jardins e espaços exteriores, entre outras coisas. A licenciatura foi em Lisboa, e por lá fiquei a trabalhar na área de consultadoria de projectos imobiliários. Em 1995 regressei aos Açores, comecei a trabalhar cá, casei-me em 1996 e nesse mesmo ano comecei a minha participação na vida política na Região. 

Como se define a nível profissional?
Sou ponderado e rigoroso.

Quais as suas responsabilidades?
Sendo economista de formação, tenho trabalhado maioritariamente na área de gestão de empresas.

Que impactos tem o desaparecimento da família tradicional na sociedade açoriana?
A família tradicional é uma referência e uma matriz que reflecte a herança cultural e social, sendo também o principal suporte da continuidade desses valores. Contudo, não desapareceu, mas partilha o espaço que antes lhe era quase exclusivo com outros modelos de família. O desafio de uma sociedade perante estas adaptações e mudanças é o equilibrar a tradição com a mudança e de conseguir, perante a amálgama e diversidade de situações, manter a sua matriz identitária, sem excluir. Devido à facilidade de comunicações que a era digital e global consolidou, penso que o facto de se tratar de uma sociedade insular é cada vez menos pertinente para se analisar os impactos das mudanças no modelo da família na sociedade açoriana.

Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
A família é o núcleo da nossa vida em sociedade, seja qual for a forma da família. E, por isso mesmo, deve ser valorizada, apesar de algumas tendências individualizadoras tenderem a quebrar esse núcleo: por exemplo, os meios de transporte individualizado ou as oportunidades de viagens baratas compradas à última da hora a baixos preços são tendências que afastam a sociedade da preservação da família. 

A relação entre pais e filhos é, quase sempre, foco de tensões. Que abordagens, em sua opinião, devem ser feitas?
Os pais têm sempre preocupação com os filhos: com a sua saúde, com a sua alimentação, com o seu comportamento, com o seu desempenho, com as suas companhias. Mal seria se assim não fosse, e mal é quando assim não acontece. E os filhos, naturalmente, querem trilhar o seu percurso. As tensões, e às vezes o choque, são inevitáveis. Em teoria, os pais precisam de transmitir os valores e dar o espaço que os filhos necessitam para assumirem esses valores e os adaptarem à sua maneira de ser e de ver o mundo. Na prática, é preciso que haja respeito mútuo, mas não há guião para as abordagens nem tenho qualquer visão especializada sobre estas complexas relações.

Que importância tem os amigos na sua vida?
Toda: os amigos são a família que acrescentamos.

Que actividades gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Os convívios são sempre importantes, sejam à mesa ou noutra modalidade. Quando posso, gosto de dar umas voltas de bicicleta e como sempre gostei das tecnologias, passo algum tempo a acompanhar as modernices e as novidades em gadgets. 

Vê televisão? Quais os canais que mais o atraem?
Vejo alguns programas da RTP-A, alguns canais de notícias nacionais, filmes e séries diversas, em canais de cabo ou streaming, e sempre tive um fascínio pelos documentários relacionados com a natureza.

Que sonhos alimentou em criança?
O sonho que ainda me recordo, devido ao percurso marcado pela mudança radical de vida em 1980, era o de poder viver em muitos sítios ao longo da vida, mudando com frequência de cidade, estado e país.

Qual o seu clube de futebol? É um adepto ferrenho?
Sou adepto do Futebol Clube do Porto, mas não sou ferrenho.

O que mais o incomoda nos outros?
A traição e a falsidade.

Que características mais admira no sexo oposto? 
A inteligência e o sentido de humor.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Gosto, embora tenha cada vez menos tempo para ler por prazer ou lazer. Em vez de um, três: “1984” e o “Triunfo dos Porcos”, de George Orwell, e “O Processo” de Franz Kafka, pela altura em que os li e pela forma como se mantêm actuais.

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
Relacionou-me pouco, fazendo uso limitado e espaçado das redes sociais, apesar de serem quase obrigatórias nos dias que correm.

Costuma ler jornais?
Sim, regionais e nacionais.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Gosto muito de viajar. Fiz algumas viagens memoráveis, com família e amigos, mas talvez a que mais gostei, foi a primeira que fiz depois de casar, às Seychelles.

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Se tivesse que reduzir a poucos gostos, diria que as minhas comidas favoritas são a americana – pela fusão de paladares de vários países do mundo – e a mexicana (a mistura tex-mex, mais propriamente). Existem outras referências gastronómicas, como a chinesa e a italiana que também aprecio. E, claro, last but not least, a comida açoriana e portuguesa.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Há tanta coisa a correr mal neste mundo que podiam ser muitas as boas notícias no jornal de amanhã. A escolher uma, seria a descoberta de uma solução para se acabar com a pobreza, a fome e a miséria, de forma sustentada e sistemática.

Qual a máxima que o/a inspira?
Live and let live

Em que Época histórica gostaria de ter vivido?
Gosto muito desta época e, sinceramente, não vejo outra em que mais gostaria de ter vivido. Porém, a não ser nesta, gostaria de viver numa época do futuro, para ver como se desenrolaram certas coisas…

Como define a política? E que forma de fazer política temos nos Açores?
A política é fazer o melhor pela sociedade, é garantir uma sociedade justa e livre para todos. A dificuldade na política está na conciliação de vontades antagónicas, o que nem sempre é possível. A política que temos nos Açores é condicionada pela pequena dimensão das nossas comunidades, que tornam a política mais próxima. Isso é uma vantagem na medida em que permite avaliar e perceber melhor os anseios da população, mas também acarreta o risco de se focar apenas nas árvores e não ver a floresta.

Que opinião tem sobre os políticos de hoje?
Não é fácil estar na política hoje em dia. A percepção generalizada (e simplista) é que a política não tem dado as respostas que a sociedade quer e que os políticos são os culpados disso. Na verdade, a estrutura que condiciona a política e os políticos envolve uma panóplia de parceiros sociais, com as tais vontades muitas vezes antagónicas, e com um conjunto de restrições que muitas vezes impede que as soluções ideais sejam possíveis.  Além disso, a rapidez com que a informação circula ajuda a leituras simplistas e muitas vezes infundadas e/ou erradas, que resultam em apreciações que não correspondem. Mas mesmo que as decisões sejam as melhores perante as condicionantes, correm o risco de serem incompreendidas. Como em qualquer actividade, há políticos melhores e piores.

Se fosse governante quais as medidas prioritárias que assumiria?
A primeira seria simplificar e desburocratizar. Talvez seja ainda uma reacção a Kafka.

Embora seja um dirigente influente do CDS/PP, não surgiu na primeira linha da lista de deputados (onde podia ser, por exemplo, cabeça de lista pelo Círculo de Compensação) nem ao nível do Governo de coligação. Porquê?
Os dirigentes do CDS/PP que integram o novo Poverno foram deputados na XXI legislatura, portanto há uma continuidade que importa preservar. Além disso, o Presidente do CDS/PP faria sempre parte do Governo, se assim entendesse que isso seria no melhor interesse da Região e do Partido. É verdade que existem outros dirigentes com qualidade e competência para integrar o Governo, mas perder-se-ia alguma ligação com o mandato anterior. Este Governo é de uma coligação de três partidos suportada por acordos parlamentares, e não pode ter uma dimensão que o torne pouco operacional. 
Existem muitas formas de participar na vida do Partido e da política. Já fui candidato a deputado durante vários anos e já exerci essa função em dois mandatos diferentes. Neste acto eleitoral não fui candidato, mas isso não significa que não venha a colaborar de forma activa ou directa com o novo Governo Regional, que, como é sabido, está suportado por acordos e entendimentos entre várias forças políticas e enquadra equilíbrios a vários níveis.

Apoiou a decisão do CDS/PP de coligar-se ao PSD e ao PPM para formar governo com acordos parlamentares com o Chega e o IL? Que análise faz à situação política regional?
Sim, apoiei, na medida em que a interpretação do resultado eleitoral a isso obriga. Os partidos à direita foram os principais responsáveis pela perca de maioria absoluta do Partido Socialista. À esquerda, o PAN foi eleito, mas o PCP não foi, pelo que os partidos de esquerda além do PS mantiveram o mesmo número de deputados. Foi a direita que cresceu e, como consequência de não haver uma maioria absoluta, assumiu a responsabilidade de encontrar uma solução para formá-la na Assembleia. O resultado eleitoral de 25 de Outubro tem que ser analisado em várias ópticas. Foi efectivamente a comparação de projectos políticos diferentes, mas não só. Foi mais do que isso. Foi emitido um juízo de valor num contexto de 24 anos de governação do mesmo partido, 20 em maioria absoluta. Não pode ser visto apenas na óptica de um resultado comparativo de diferentes projectos para os 4 anos seguintes. 
A política regional está muito marcada pelos longos ciclos governativos que tem caracterizado a democracia da Autonomia Regional. Isso provoca crispações, entrincheiramentos e conflitualidades além da normal disputa democrática e institucional, que, depois, conduzem a algumas disfunções democráticas. Saliente-se que Vasco Cordeiro tem sido exemplar na forma positiva como tem colaborado e tratado de assegurar a transição para o novo Governo Regional. O novo Governo Regional já manifestou que irá corresponder e não cederá à tentação de perseguições e limpezas nos diversos sectores de Governo e Administração Regional, por várias razões: pela vontade de despartidarizar a Administração, pela utilidade de aproveitar o conhecimento acumulado e a capacidade técnica de muitos dos que têm estado nos lugares e como pelo sinal de coerência democrática.

Qual a sua opinião sobre o novo Governo de coligação liderado por José Manuel Bolieiro?
Este Governo tem o melhor perfil para lidar com a situação actual, perante os desafios imediatos, sociais, económicos e de saúde pública, num quadro político de coligação e de acordos parlamentares, e num quadro internacional de incertezas. É equilibrado, com perfis políticos e técnicos, e conta com pessoas com experiência governativa prévia, o que se revela da maior importância face aos tais ciclos longos e às necessidades mais prementes. 

A perca de população das ilhas pequenas demonstra que o desenvolvimento harmónico dos Açores tem sido um objectivo inalcançável? Em sua opinião que medidas devem ser tomadas para travar o despovoamento de algumas ilhas dos Açores pelos açorianos que lá residem? E que medidas devem ser adoptadas para motivar a natalidade nestas ilhas? 
Não acho que seja um objetivo inalcançável, mas antes um objetivo ainda por concretizar. A tendência de criar escala e dimensão prejudica as periferias, as ultraperiferias e, no caso dos Açores, as ilhas com menos população. A falta de resultados no desenvolvimento harmónico, criando divergência económica e social entre as diversas ilhas, conduz ao despovoamento, que, por sua vez, tende a agravar a divergência, entrando-se num círculo vicioso. É urgente reverter as tendências de divergência e de despovoamento, que, deixadas por si, irão agravar-se e acentuar ainda mais a debilidade económica das ilhas onde esses fenómenos se registam que, em bom rigor, são quase todas. 
A descentralização económica e o desenvolvimento dos mercados locais, com produção local, a par do aproveitamento dos recursos endógenos, é um dos caminhos necessários para quebrar o círculo vicioso. A existência de ligações, estruturantes para o desenvolvimento económico e social, é outra condição necessária. Como também é a proximidade de serviços de estado, sejam eles sociais, administrativos ou económicos.É muito importante valorizar a eficácia das medidas e não analisar apenas a eficiência, cuja lógica pode ditar a concentração e o afastamento do desígnio do desenvolvimento harmonioso.

A pandemia provocada pela doença da Covid-19 está a criar sérias dificuldades à economia açoriana e praticamente arrasou a fileira do turismo. Haveria outra forma de reduzir, com maior intensidade, os impactos da pandemia na economia regional?  
Infelizmente, será difícil haver uma retoma plena do sector turístico enquanto a questão da saúde pública não estiver resolvida, ou com uma vacina ou com tratamentos eficazes. Além deste aspeto, fundamental para fomentar a procura nos mercados emissores, também a retoma económica nesses mercados é necessária para que o turismo possa retomar a sua expansão na Região.
Foram tomadas medidas de dois tipos: umas visando preservar a saúde pública regional através do isolamento; outras com o objetivo de fomentar a actividade económica. As primeiras tinham a preocupação de evitar o colapso do serviço regional de saúde, como aconteceu aos serviços de saúde em vários países da Europa, e chegaram a ser drásticas – como foi o isolamento da Região, e como foram as quarentenas obrigatórias. Surtiram efeito, pois a expansão da pandemia nunca atingiu por cá as proporções doutras zonas do país, mas tiveram um preço económico pesado. O desafio será encontrar o ponto de equilíbrio, até que a questão da vacinação ou do tratamento esteja resolvida, entre a contenção da pandemia e a necessidade de conviver na maior normalidade possível com o vírus. Há alguns equilíbrios que podem ser melhorados, até por comparação com o que se faz fora da Região e noutros países.
As segundas, como o fomento ao turismo interno, visaram impedir a quebra económica e podem servir de inspiração para dinamizá-lo de forma mais permanente. A adesão ao turismo interno ajudou a atenuar os impactos da quebra do turismo nalgumas ilhas, pese embora com níveis de adesão diferentes quer como destinos quer como emissoras de turistas açorianos.
Em relação aos impactos na economia no seu todo, as medidas não conseguiram evitar quebras de atividade económica, no emprego e no produto interno, mas sem aplicar mais recursos dificilmente seria possível apoiar mais a economia. Muitas empresas conseguiram adaptar-se e reduzir os impactos negativos da crise decorrente, mas muitas outras e, nalguns casos sectores económicos inteiros, não conseguem reinventar-se, estando dependentes da retoma económica (ou, em último caso, de apoios públicos extraordinários). Contudo, os recursos públicos são escassos e limitados e, para estarem disponíveis para apoiarem a economia, não podem ser aplicados noutros lados.

É administrador da EVT – Empresa de Viação Terceirense. De Que forma, em particular, esta pandemia está a afectar os transportes terrestres? As medidas adoptadas pelo governo para este sector têm sido suficientes?
Não sou administrador nem integro o quadro da EVT, mas tenho exercido funções de gestão nalgumas empresas detidas ou participadas pela EVT, ligadas à actividade comercial, mais recentemente de equipamentos e maquinaria agrícola..Não posso fazer essa apreciação em relação aos transportes terrestres. 
Em termos gerais, e para as empresas ligadas ao comércio, as moratórias de créditos e os layoffs simplificados foram medidas que ajudaram a aliviar os custos e desembolsos de tesouraria, mas, face ao tardar da retoma económica, e à segunda vaga (e à possível terceira vaga) da pandemia, poderão não ser suficientes. 

Tem algo mais a acrescentar que considere interessante e/ou importante no âmbito desta entrevista?
Resta-me felicitar o Correio dos Açores pelo papel que tem na informação regional. 
                                                         

João Paz

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Autor: CA

Categorias: Regional

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