“É muito difícil admitir que se é alcoólico em São Miguel”, diz alcoólico anónimo

‘José’, nascido há 67 anos é natural de Ponta Delgada e tal como o próprio começa por referir “sou alcoólico desde que nasci. Eu desde que me conheço sempre bebi e fi-lo até aos 28 anos”, admite. Sem consumir álcool desde então, já lá vão quase quatro décadas, começa a contar a sua história.
“O meu pai era alcoólico e a minha mãe também bebia uns copos, mas pelas estatísticas e por aquilo que eu sei, não é hereditário. Sabemos que existem pais que são excelentes pessoas e que tem maus filhos. Infelizmente ninguém pode apontar o dedo”, afirma.
Após o falecimento dos pais, ‘José’ casou, revelando que “nessa época já era alcoólico. Julguei que a situação ia melhorar mas ainda descambou mais e agravou-se (…) Tanto foi assim que, já depois de estar casado, o meu alcoolismo foi tão forte que a minha esposa estava grávida e pronta para ir para a maternidade e eu ‘desapeguei-me’. Quando cheguei a casa às quinhentas e quase sobre a manhã, ainda fui bater à porta do meu sogro a perguntar pela minha mulher que já estava no hospital a dar à luz do meu filho mais velho”, recorda.
Como o próprio refere “não nos tornamos alcoólicos num dia. Vamos bebendo, vamos gostando tanto do sabor como do efeito e quando menos esperamos já temos a doença e já não se consegue fazer nada sem o álcool. Eu cheguei àquela fase em que tremia (…) dizia que controlava e que bebia quando queria, mas era mentira. Estava a enganar-me a mim próprio e quando dei conta já não conseguia fazer nada sem o álcool”. 
‘José’ lembra esses tempos, afirmando que a esposa não o deixou “porque antigamente os divórcios eram uma vergonha para a família”. Mais tarde e depois de muita pressão, foi dado o passo do internamento na Casa de Saúde de São Miguel. 
“Não fui para lá de livre vontade e 15 dias depois de lá estar, pensei num estratagema para sair e para vir a Ponta Delgada resolver uma coisas. Não me deixaram sair e fiquei cheio de raiva, aquelas coisas do alcoolismo”, afirma.
Só mais tarde “houve qualquer coisa que se abriu” e que o levou a lutar contra a doença, relembrando que pensou que “tinha primeiro de fazer por mim, para depois fazer pela minha esposa, pelos meus filhos e pelas outras pessoas”. Nessa época surgem os primeiros contactos com os grupos de apoio e as reuniões.
“Na terceira reunião a que fui, depois de me ter caído a ficha, percebi que o que os outros estavam a partilhar era praticamente a minha vida (…) Eram as mesmas asneiras, os mesmos desgostos nas esposas. Tinha feito exactamente as mesmas coisas que eles tinham feito e estava ali uma parte da minha vida. Foi aí que comecei a fazer a desintoxicação”, admite.
‘José’ acentua que “não há tratamento” para o alcoolismo e que a desintoxicação tem o intuito de “limpar o organismo” e de a pessoa deixar de necessitar fisicamente do álcool, mas que depois, “está tudo na nossa mentalidade”.
Deixado o consumo de álcool, refere que a “vida deu uma volta. Para chegar ao ponto em que estou hoje agarrei-me sempre às pequenas reuniões que havia e para pôr cá para fora o que sentia”, já lá vão perto de 40 anos.

Os Alcoólicos Anónimos
As reuniões que surgiram depois do internamento, da aceitação e do reconhecimento da doença são para ele fundamentais e por isso, em 2000, resolveu dar o passo de abrir um grupo de alcoólicos anónimos em São Miguel. O grupo que se reúne todas as Quintas-feiras, a partir das 20h30, na Casa do Povo da Fajã de Baixo é de fácil acesso, tal como explica.
“É só aparecer. Não há nada a pagar nem quaisquer requisitos. Depois de entrar na sala vê como é que funciona e identifica-se. Esse é o primeiro passo que é preciso dar; admitir que temos a doença (…) O recém-chegado é a pessoa mais importante nas nossas reuniões. Quando vejo uma pessoa que entra pela primeira vez na sala, lembro-me logo do meu passado e das minhas primeiras reuniões. A pessoa só fala se quiser e quando quiser. Não é obrigada a fazer nada. Chega lá, senta-se e tem de identificar-se. É natural que exista algum receio, algum nervosismo e que até não vá compreender logo na primeira reunião o que aquilo significa”. 
Desde a abertura, ‘José’ que é actualmente o responsável pelo grupo admite que por lá “aparecem vários tipos de pessoas”.
“Há aquela que fica e que se adapta. Há aquela que julga que já está boa, vai-se embora e depois continua na mesma por que existem muitas recaídas. Infelizmente é a realidade. Quando disser a mim próprio que estou bom e que não preciso de reuniões, amanhã estou com um copo na mão”, afirma.
Este é um dos pontos em que ‘José’ dá mais ênfase voltando a afirmar que o alcoolismo “é uma doença que não passa. Se houvesse cura fazia-se um tratamento e pronto. Mas psicologicamente isto continua cá dentro, ainda está na cabeça e qualquer coisa que não corra muito bem, a tendência é ir sempre para ali”.
Analisando o fenómeno do alcoolismo na região que apresenta números superiores ao resto do País, surge desde logo a questão da aceitação social que existe perante o álcool e que dificulta o reconhecimento do próprio problema.
“Na nossa ilha é muito difícil admitir que se tem a doença. O álcool é social e a qualquer sítio que vamos ele existe. Vai-se a qualquer mini mercado ou hiper mercado e ele está por debaixo dos pés. É muito, muito difícil aceitar que temos a doença”, afirma.
Para além dos problemas que um alcoólico inflige a si mesmo, a doença afecta também o núcleo familiar.
“Quando estamos na fase da doença, não queremos saber de mais nada, a não ser de nós próprios. Não queremos saber se os outros estão a sofrer ou não. Para um alcoólico tanto faz e isso é irrelevante. Fui aquela pessoa que chegava a casa já alcoolizado, pensava uma estratégia para arranjar uma confusão para sair de casa e ir beber mais”, conta. ‘José’ admite que só mais tarde, depois de ter alcançado a sobriedade é que percebeu como a sua doença influenciou as outras pessoas ao seu redor.
“Pode haver o dinheiro todo deste mundo, mas a felicidade nunca existe e nunca é atingida. Nem para o próprio, nem para a família que convive com ele. As nossas famílias são afectadas e também se tornam dependentes, apesar de não beberem. A preocupação somos nós e como vamos chegar a casa. Só percebi isso depois da sobriedade, porque enquanto bebia nunca o vi”, admite.
O responsável pelo grupo de Alcoólicos Anónimos, alerta ainda para o facto da pandemia de Covid-19 ter levado a que muitos alcoólicos passassem a consumir em casa, com os problemas que daí podem advir.
“Os estabelecimentos como cafés fecharam, mas as superfícies comerciais ficaram abertas. As pessoas habituaram-se durante a quarenta a beber em casa e já não se vê as pessoas que se viam pelos cafés. Compram a bebida mais barata, gastam menos dinheiro, embebedam-se e as consequências são maiores em casa. Estou a perceber esse fenómeno por aquilo que vou ouvindo nas salas de que, em vez de muita gente consumir nos cafés, passaram a fazê-lo em casa”, salienta.
A terminar, ‘José’ deixa uma mensagem final em jeito de apelo, pedindo às pessoas que sofram desta doença para procurarem a ajuda de que necessitam.
“As pessoas que tenham problemas com o álcool venham ter connosco porque vão encontrar pessoas com a mesma doença. Somos todos iguais lá. Existe a vergonha de assumir o facto de ser alcoólico mas depois vai ser pior, porque pode ser tarde. O anonimato é fundamental e o que é falado dentro daquela sala fica e morre ali dentro”, explica. 
                                            
                                           

Luís Lobão
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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