Marca de Romeu Bettencourt regista aumento de “mais de 100%” nos pedidos online para criação de jóias após o confinamento

Se para muitos empresários este período de pandemia continua a ser um constante desafio, sendo difícil prever em muitos casos como será o próximo ano, para Romeu Bettencourt, conceituado joalheiro micaelense, 2020 tem-se vindo a revelar nada mais, nada menos que uma agradável surpresa, tendo não só mantido como aumentado a sua facturação.
Isto é, apesar de nos meses correspondentes ao período de confinamento ter assistido a uma queda do volume de trabalho que tinha entre mãos, sobretudo devido aos cancelamentos que foram chegando e que fizeram cair os vários pedidos pendentes para alianças de casamento, com o terminar do confinamento refere que houve um grande aumento no número de novos clientes e de novos pedidos que surgiram.
“Depois do desconfinamento houve um “boom” de pedidos que eu achava estranho. Muitos pedidos em ouro. Comecei a pensar se as pessoas por se sentirem fechadas começaram a sentir a necessidade de gastar dinheiro e de investir nisto. Foi de tal modo que no Verão não consegui tirar férias, foi impossível, e nunca tive um Verão tão cheio como neste ano”, adianta o joalheiro.
Em acréscimo, o artista refere ainda que as pessoas que o procuraram não tinham, por norma, um orçamento estabelecido, algo que estranhou também. Em vez disso, conta, os novos clientes procuraram-no “com pedidos especiais e pedras especiais com certificado, pedras essas que têm um valor mais alto”, uma vez que são examinadas e certificadas num laboratório próprio.
Com esta afluência de pedidos, que se deu sobretudo devido a um aumento de pedidos de noivado quando em comparação com épocas anteriores, o joalheiro percebeu que “as pessoas estão muito exigentes perante o que compram, e quando compram querem ter a certeza do que compram, e houve muita gente a pedir esse tipo de peças com um valor mais alto”.
Para além dos locais, também constam da sua lista de clientes vários residentes de Portugal continental que tencionavam fazer os seus pedidos de casamento em São Miguel e que procuraram, por esse motivo, um joalheiro que fosse em simultâneo um habitante da ilha, o que de acordo com o próprio, apesar de ser uma agradável surpresa, é algo “que não tem explicação”.
Por outro lado, outra boa surpresa foi também o impacto que a pandemia teve nas suas vendas e contactos criados com recurso à internet, uma vez que as vendas online através do seu site aumentaram “em mais de 100% em relação àquilo que era, chegando por isso à conclusão de que “compensa muito mais vender através de um contacto online do que ter uma loja física, porque com o contacto online quase que não há gastos”.
Tendo isto em conta, o joalheiro micaelense refere que pretende manter um contacto de proximidade pela via digital com os seus clientes, podendo alcançar outros mercados tanto nas restantes ilhas dos Açores como em Portugal continental, e tendo também a oportunidade de – sempre que possível – ter um contacto directo com o cliente no ateliê.
Actualmente, para além do trabalho que faz directamente com os clientes que o procuram, Romeu Bettencourt é também um dos designers da marca de alta joalharia Viana Blue, lançada há cerca de um mês, onde predomina a arte da filigrana em ouro com diamantes.
Segundo o joalheiro, esta é uma marca que trabalha essencialmente com o mercado externo, e o facto de trabalhar apenas como designer – sendo o responsável pela Reunion Collection, inspirada em linhas geométricas e no conceito da palavra “saudade” – permite-lhe ter a sua própria marca independente, podendo assim dedicar-se a outros projectos e a outros clientes que o agradam igualmente.
Apesar de esta ser uma marca recente, Romeu Bettencourt conta que este é um projecto mais antigo, remontando ao ano de 2016, ano em que ganhou o prémio Designer Revelação em joalharia, quando ainda estava no Porto, revelando que uma das suas principais preocupações em aceitar esta proposta de trabalho se prendia precisamente com o facto de não saber se este processo de criação iria chocar com o seu estilo e gosto enquanto joalheiro.
Ser distinguido com este prémio foi o que lhe permitiu realmente começar a trabalhar com outras ourivesarias, conta, tal como acontece com a Anselmo – ourivesaria com várias lojas distribuídas pelo país e com a qual trabalha ainda hoje –, surgindo depois outras ourivesarias interessadas em Aveiro e em Lisboa.

O regresso a São Miguel 
e os desafios actuais

Contudo, e apesar de o volume de trabalho ter vindo a crescer ao longo dos anos, por sentir que em São Miguel existia uma lacuna no que diz respeito a este tipo de serviço de joalharia, Romeu Bettencourt arriscou regressar a São Miguel há cerca de dois anos, conseguindo desde aí garantir uma proximidade maior com o cliente que o procura.
Com o seu regresso à ilha surgiu também a ideia de abrir uma loja física no centro de Ponta Delgada, onde poderia vender as suas jóias de uma forma mais directa, mas esta foi uma ideia que acabou por não concretizar por considerar precoce ter o seu próprio espaço em tão pouco tempo após o seu regresso.
“Cheguei a pensar em abrir uma loja física aqui e a ideia não foi para a frente não pela pandemia, mas porque achava que não seria o momento. Tinha acabado de chegar à ilha, e seria um bocado imaturo abrir logo uma loja”, conta, adiantando que esta foi uma decisão tomada depois de fazer um pequeno estudo do mercado em 2019, onde tentou perceber quais as condições que necessitava de reunir antes de dar este passo.
Mesmo sabendo que a sua situação não é das piores, uma vez que se encontra actualmente a dar resposta aos vários pedidos e solicitações que lhe chegam quer dos clientes directos, quer das marcas com as quais trabalha, o joalheiro procura deixar claro que o trabalho de um empreendedor tem também as suas dificuldades e desafios, começando pela quantidade de horas do dia que são dedicadas ao exercício da profissão e à empresa.
“O trabalho de um empreendedor não tem horário. A qualquer hora temos que pensar no próximo passo e no próximo objectivo, como é que se vai conseguir transmitir os seus produtos ou qual será o próximo produto. Há que haver impacto para não criar uma monotonia do negócio. Não pode ser sempre a mesma coisa, tem que criar impacto nos clientes e nas pessoas que seguem o seu trabalho”, realça.
Por esse motivo, salienta a importância da criatividade nas empresas, especialmente numa altura marcada pela pandemia, onde é necessário “tentar levar isto como uma lição e tentar ver qual a melhor maneira de contornar esta situação toda e como ganhar dinheiro no meio disto tudo, o que não é fácil”, realça, referindo que no seu caso acredita que tudo tenha sido “uma questão de sorte”.
Entre as estratégias que encontrou para ultrapassar esta época está, por exemplo, a hipótese que as pessoas têm de reciclar as peças de ouro que já não usam e, assim, através de algo que já têm, dar vida a uma nova peça.
“Desde a pandemia que tento alertar as pessoas/clientes de que podem reciclar as peças que já não usam. Faço projectos em que, caso o cliente tenha e queira, pode utilizar ouro que já tenha para fazer uma peça nova”, diz Romeu Bettencourt, referindo ainda que tem tido clientes que demonstram interesse neste tipo de projectos.

O passado e o futuro

Enquanto artista, tendo a capacidade de fazer jóias tão distintas e para ocasiões tão diferentes, Romeu Bettencourt considera que existem dois projectos que foram particularmente especiais no seu percurso profissional.
O primeiro deles, diz, está relacionado com a Schmuck, a exposição de jóias que concretizou na Alemanha quando ainda nem era licenciado, uma vez que a partir dessa exposição pública as suas peças de joalharia contemporânea acabaram por ser requisitadas para exposições em países onde nunca tinha ido. 
Em segundo lugar, destaca o cálice que ofereceu a D. José Avelino Bettencourt em 2019, que foi depois oferecido ao Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres, peça esta que – relembra – embora tenha demorado muito tempo a idealizar, ganhou a sua forma final em apenas uma hora de grande inspiração, sendo de imediato aceite pelo Santuário.
“Isto dá uma força bastante boa para quem sempre fez peças pequenas e de adorno pessoal. Fazer uma peça grande é diferente. Através disso também comecei a ter pedidos para padres e pedidos especiais ligados à igreja, a ourivesaria sacra”, diz Romeu Bettencourt, destacando que para este tipo de trabalhos é também “preciso conhecer a parte da teologia e o que está por trás dos cânones da igreja”.
No que ao futuro diz respeito, o joalheiro espera reunir as condições necessárias para abrir uma loja física em Ponta Delgada que o ajude a consolidar entre o público os aspectos diferenciadores do seu trabalho, embora não saiba ainda quando poderá isso acontecer.
Entre aquilo que é possível concretizar no momento, pretende “aumentar a capacidade do ateliê para obtenção de outras tecnologias que sejam mais sustentáveis”, tendo também como objectivo garantir “um contacto mais directo com o cliente” através do qual possa trabalhar em conjunto com quem o procura, inserindo também uma vertente mais educacional e na qual possa transmitir ao cliente o conhecimento relacionado com os materiais e as pedras utilizadas.
Resta, no entanto, a certeza de que pretende continuar a desenvolver os seus trabalhos em São Miguel, salientando que embora se tenha afastado de casa, regressar sempre foi um dos seus objectivos, algo que apenas não aconteceu mais cedo porque achou “impossível” fazer este tipo de trabalho a partir da ilha: “Tinha poucos recursos, mas afinal morar na ilha não é uma fatalidade”, conclui.

Joana Medeiros
 

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