Apesar do rasto que a pandemia deixa agora na restauração da ilha de São Miguel, João Pereira, chef no Restaurante Largo 2 de Março, recorda que no início deste ano não estava muito preocupado com a chegada do vírus, uma vez que, no seu entender, pudesse ser uma situação passageira e que teria pouco impacto a nível local.
Deste modo, quando em Março foi anunciado o encerramento dos restaurantes, o cozinheiro adianta ter “aceitado de bom grado” a interrupção no funcionamento do seu restaurante, tendo em conta que esta seria a oportunidade de, em conjunto com a esposa, ter alguns dias de férias, algo que não acontecia há pelo menos três anos.
No entanto, aquilo que seria apenas um breve período de interrupção para os empresários acabou por se tornar em meses de inactividade e de acrescidos prejuízos, mesmo com a adesão ao lay-off simplificado, afirmando o chef que a reabertura da restauração veio a confirmar que tudo “descambou completamente”.
Tendo em vista a reabertura da restauração, que viria a acontecer no final do mês de Maio, João Pereira e a esposa pensaram que seria apenas uma questão de tempo até recuperarem o número total de clientes que recebiam diariamente e que faziam com que fossem servidos 50 a 60 almoços com frequência, sobretudo, a clientes locais.
“Felizmente, ou infelizmente, não tínhamos grande expressão no turismo, alguns turistas apareciam para jantar mas não era algo que fizesse grande diferença no nosso dia-a-dia. O nosso forte era o nosso cliente local, quem trabalha na cidade, tal como os funcionários públicos, Marinha, GNR e PSP”, diz o empresário ligado ao sector da restauração, referindo que neste momento “a clientela está muito reduzida”.
Dos praticamente 60 almoços que preenchiam as salas do restaurante antes da pandemia, actualmente são servidos entre 17 a 25 refeições durante o dia, o que se reflecte numa quebra de 60% que coloca estes empresários numa posição difícil.
Contudo, reconhece que há quem esteja a encarar “situações piores”, e que o facto de ser a família à frente do restaurante facilita também esta situação, uma vez que para além da esposa e dos filhos que ocasionalmente ajudam os pais, há apenas dois funcionários exteriores à família, o que ajuda a “segurar a casa”, embora “com muitas dificuldades”.
No que diz respeito às regras impostas à restauração para que esta mantivesse as portas abertas, o empresário refere que tendo em conta a capacidade para 106 pessoas nas duas salas do restaurante com a actual limitação existente, o que tem vindo a prejudicar o ritmo do negócio é, sobretudo, o medo que ainda existe entre a população e, também, a aquisição de novos hábitos como o de levar comida para o trabalho.
“As regras que foram impostas não nos afectam, é o medo. Os nossos clientes não deixaram de trabalhar. Sabemos que há muitos em teletrabalho e esta é uma realidade que abala um bocado o nosso movimento, mas as pessoas não ficaram sem trabalhar. Há muitos que nos dizem que se habituaram a trazer a marmita de casa, estão mais reservados e percebemos isso perfeitamente. Mas há um medo generalizado nas pessoas que evitam ao máximo frequentar sítios que sejam muito movimentados”, explica.
Já que a restauração “não explodiu neste Verão” conforme se esperava, resta então aguardar pelo próximo e esperar que com ele venham também melhores dias e uma certa retoma à normalidade de uma forma geral, uma vez que não é apenas a restauração que se ressente com esta situação.
“Para além da restauração há hotéis que estão fechados e isso é péssimo para as famílias e para os funcionários que estão em casa. Independentemente de estarem a receber ou não, nunca é um salário normal ou como se recebia porque há sempre percas ora nas gorjetas, ora nas horas que não se faz”, refere.
Em acréscimo, apesar de nos meses de Maio e Junho considerar que “houve uma pequena retoma que não foi algo que fizesse a diferença”, a realidade é que a cidade de Ponta Delgada tem estado “completamente deserta à noite”, o que faz com que servir jantares seja apenas sinónimo de prejuízo para os empresários deste sector.
Foi por esse motivo que João Pereira e a esposa tomaram a dura decisão de começar a encerrar o estabelecimento às 17h00 e de encerrar também ao Domingo. As excepções acontecem às Sextas-feiras, quando há reservas para o jantar em número suficiente, conta o cozinheiro.
Em parte, também a localização do restaurante terá impacto no número de clientes que ali param diariamente, tendo em conta o seu afastamento relativamente a um dos pontos mais centrais da cidade de Ponta Delgada.
“Nós já temos um problema de distanciamento em relação ao centro da cidade, estamos no centro histórico, claro, mas ficamos um pouco desviados do centro da Matriz, por exemplo, da zona em que há mais restaurantes. Lá os restaurantes estão mais centralizados do que nós”, diz, relembrando as noites de Verão em que os turistas passavam à porta do restaurante.
“Aqui a rua tinha um bom movimento durante o Verão, com turistas. (…) Muita gente passava por aqui e nós víamos os turistas a passar em grupos, muitos paravam, outros continuavam e iam para outros sítios, mas havia mais movimento e notava-se que havia clientes para todos. Agora, neste momento, dá para poucos”, salienta.
Para além da variedade de pratos do dia que, em tempos, chamava muitos locais ao restaurante durante o dia, também o Natal era um período de muito trabalho para o cozinheiro, tendo em conta os “muitos, muitos, muitos jantares e festas de Natal” que ali tomavam lugar. Porém, este ano, como seria de esperar, “não há nenhuma marcação para este fim”.
Quanto a apoios, ficou aliviado por não ter a necessidade de recorrer às moratórias disponibilizadas, uma vez que a sua empresa não tem encargos bancários referentes ao edifício ou despesas associadas a rendas, o que por si só é um ponto a seu favor neste período de recuperação. Já no que diz respeito às linhas de crédito, teme poder arrepender-se de não ter aderido a elas, mas afirma que não o fez por pensar que esta situação traria consigo menos impactos negativos.
“Se calhar agimos mal ao não pedirmos apoio financeiro, mas optámos por não recorrer a eles porque pensávamos que a situação seria mais ligeira e não queríamos estar a arranjar compromissos a longo prazo, por isso optámos por não nos candidatar a essas linhas de apoio. Vamos vivendo com os nossos meios e não pagar renda é uma grande vantagem”, refere, tendo por isso uma maior margem de manobra no horário em que se mantém de portas abertas.
Apesar de ter recentemente a oportunidade de descansar e de reflectir sobre o seu percurso, João Pereira afirma que “se voltasse atrás no tempo quatro ou cinco anos não teria hoje este negócio”, salientando que seria preferível ter apostado noutras áreas fora a restauração.
A escolha pela restauração adveio da necessidade de criar uma alternativa à qual os filhos pudessem dar continuidade mais tarde, porém, nenhum dos dois filhos parece realmente interessado em seguir os passos dos pais.
Esta nova crise veio mostrar de que forma este é um sector exigente e difícil, onde há “muitas horas dedicadas” à empresa e onde há resultados que “não são o que se espera no final”, explica o empresário, esperando no entanto que – mesmo com as baixas que possam ocorrer – que entre Maio e Junho do próximo ano haja alguma retoma à normalidade, desde que as pessoas retomem a confiança no comércio local e nas viagens.
“Claro que a pandemia veio complicar muito a situação e a vida das pessoas, e há muita gente que não vai resistir, principalmente se isto se mantiver durante um ano. Espero que entre Maio e Junho isto esteja um bocado diferente, mas também é preciso que os locais e que os turistas retomem a confiança e não sei se isso será muito fácil”, diz, prevendo que “os próximos dois anos sejam um pouco complicados”.
Do mesmo modo, com o terminar de certos apoios ao emprego, como lay-off, o empresário teme que exista “um aumento dos despedimentos”, tendo em conta que os empregadores, face às grandes quebras de negócio, “não terão mãos a medir nem a capacidade financeira para se segurarem”, conclui.
Joana Medeiros