É a primeira grande operação de testagem em massa nos Açores em tempo de pandemia. Rabo de Peixe - que totalizava ontem 78 casos activos - foi o primeiro local a realizar os testes rápidos a toda a população, com resultados em 15 minutos. Estão envolvidos nesta operação, que começou por estabelecer uma cerca sanitária a toda a Vila, mais de 270 profissionais de saúde, distribuídos por cinco unidades móveis e dois pontos fixos para realização de cerca de nove mil testes até Domingo ao fim do dia.
A prioridade no primeiro dia foi para o pessoal da pesca mas a adesão massiva da população criou alguns constrangimentos nos postos de recolha, já que apesar das colheitas estarem programadas para começar a ser feitas às 9h00, muitos foram os que pelas 8h30 já se estavam a preparar para guardar lugar na fila. Foi o que aconteceu no posto de colheitas do Clube Naval, para onde neste primeiro dia de testes deveriam acorrer moradores de três ruas (Rua do Pires, Rua da Cruz e Rua Dr. Rui Galvão de Carvalho e travessas adjacentes). Mas o facto é que “quando souberam que iam fazer testes aqui, toda a gente quis vir porque isto não é brincadeira. Estamos todos com receio”, explicou um jovem pescador que preferiu não ser identificado.
E a fila começou a engrossar. Todos se mantiveram de forma ordeira à espera da sua vez mas a falta de distanciamento era o que mais se destacava. Maioritariamente homens do mar, mantiveram-se firmes à espera da vez lamentando “falta de organização” e de “barreiras ou fitas” que pudessem até ditar o distanciamento entre quem estava na fila para fazer o teste e quem fazia uma outra fila durante 15 minutos à espera do resultado.
Todos estavam de máscara mas só se afastavam mais uns dos outros quando os profissionais de saúde saiam do posto de testagem e aconselhavam o distanciamento. O conselho era dado também a quem esperava pelo resultado. De pouco servia já que “queremos despachar isto para ir para as nossas vidas”, diziam uns enquanto outros pediam calma para que os profissionais pudessem trabalhar.
“Estou preocupado, não só por mim mas pela minha família, pela comunidade, porque têm aparecido muitos casos”, explica um outro pescador que acredita que esta testagem em massa é “uma boa medida”. E alertou que a “falta de organização” passará “na televisão” uma imagem negativa da Vila “como vem sendo costume”. Alerta que “o pessoal está comportado, não tem havido problemas” mas está sem distanciamento em grandes filas “e depois é isso que vão dizer de Rabo de Peixe, quando não há é ninguém aqui para nos orientar de como devemos fazer”.
“Maria” (que prefere não ser identificada) é uma das poucas mulheres que estava àquela hora no posto de testes do Clube Naval. Já fez o teste com os três filhos (com mais de seis anos) e espera do resultado enquanto a mãe também entra para ser testada. Dizia que está ali desde as 8h30 porque ainda vai ter de “passar a cerca” para ir trabalhar, mas “ao menos vou descansada, sabendo que estou negativa” desabafa depois de ser informada, 15 minutos depois, que o teste deu negativo. Trabalha em Ponta Delgada, em atendimento ao público, e confessa-se apreensiva com o aumento do número de casos na Vila. Talvez por isso, diz que há muita gente em São Miguel que discrimina ainda mais Rabo de Peixe devido à imposição das cercas sanitárias e dos testes rápidos a toda a população. “Há quem diga a brincar, mas sei que muitos dizem a sério quando me dizem que não se chegam para mim porque eu sou de Rabo de Peixe e tenho Covid. Mais uma vez Rabo de Peixe está nas bocas do mundo, mas não se podem esquecer que não é só aqui que há Covid”, desabafa.
Entretanto são quase 11 horas e chegava um dos postos móveis para auxiliar nos testes e ajudar a dispersar a grande fila. O efeito é quase imediato e junto à ambulância com seis profissionais de saúde forma-se uma nova fila. Apela-se ao distanciamento e o profissional de saúde alerta que será necessário o número do cartão de cidadão e um contacto telefónico para registo. A fila começa a avançar e António, um dos armadores presentes, é o primeiro a ser testado. Perguntam-lhe se já fez algum teste e, à resposta negativa, avançam com a retirada de material genético para testagem. Tem de esperar agora cerca de 15 minutos para saber o resultado.
“Estes testes são uma boa medida para podermos saber quem tem este vírus que está por todo o mundo. Rabo de Peixe não pode ser criticado porque o vírus não está só aqui. Porque é que só falam nos casos de Rabo de Peixe? Toda a ilha tem casos e praticamente todas as ilhas têm casos, todo o mundo tem casos”, questiona. António confessa-se apreensivo com a evolução dos casos na Vila e diz que a própria comunidade “está com medo porque não se sabe quem é que tem”. Diz que toda a freguesia “está contente com esta medida de fazerem os testes a todos” e isso ficou bem visível na adesão em massa à testagem.
Noutros pontos estratégicos, também na zona litoral da Vila, onde se encontravam alguns postos móveis de testagem o cenário era semelhante ao que se verificava no Clube Naval. Uma grande fila até à ambulância para serem testados, todos de máscara, e de forma ordeira à espera da sua vez. Mais uma vez, a falta de distanciamento era o único senão a apontar.
Nas Quintas do Mar, onde estava inicialmente a ambulância que seguiu depois para auxiliar o Clube Naval, o distanciamento conseguia ser cumprido. Foram poucos os que ainda conseguiram ali fazer o teste, até porque aquela zona da Vila só está programada ser testada no próximo Domingo. Mas quem optou por se dirigir àquele posto móvel fê-lo consciente de que “esta é uma boa medida” e vai ajudar a travar o surto que surgiu na Vila, dando garantias de segurança à população.
Maria dos Anjos Pereira acredita nisso mesmo e concorda com a cerca sanitária e com a realização de testes “porque é melhor fazer o teste e saber do que estar sempre na dúvida. Vamos à loja, vamos para casa e podemos levar alguma coisa. Tenho de zelar pela saúde dos meus, principalmente porque tenho crianças”. Preocupada com o número de casos acredita que os testes são “um mal menor, porque a Vila é grande e muita gente não respeita”. Cláudia Amaral é da mesma opinião e acredita que “é melhor fazer os testes e saber se estamos negativos” e assim ficar mais tranquila.
Preocupada com o aumento de casos já que o marido tem problemas crónicos “e pode afectar a saúde dele” estava também Tânia Amaral que concorda com a cerca sanitária e com os testes a toda a população. “Assim sabem ao certo quem está infectado e onde estão essas pessoas”, para poder conter-se o surto. Isto porque apesar de saber que há casos em Rabo de Peixe “não conheço ninguém que esteja infectado. Sei que há muitos casos mas não conheço ninguém” que esteja positivo, explica.
“Queremos proteger a população”
O Presidente da Junta de Freguesia de Rabo de Peixe, Jaime Vieira, tem estado no terreno a acompanhar esta operação que vai testar cerca de nove mil pessoas em três dias e é a ele que a população se dirige quando quer tirar dúvidas. Junto ao posto de testes do Clube Naval de Rabo de Peixe ia tentando acalmar os ânimos quando se queixavam da demora nas filas. Foi falar com quem não gostou de ver agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP) presentes no local, e com quem criticou o reforço de agentes naquele local, informando que são equipas que estão a percorrer os vários pontos da Vila para verificar a ordem pública nos postos de testagem.
Foi a Jaime Vieira que recorreram vários pescadores, informando que o resultado do teste tinha sido negativo e questionando quando poderiam obter a declaração da Junta de Freguesia atestando o resultado, para poderem ir trabalhar.
Sem mãos a medir, o Presidente da Junta de Freguesia de Rabo de Peixe enaltece o trabalho de todos os envolvidos nesta operação coordenada pela Unidade de Saúde de Ilha de São Miguel (USISM) e acompanhada no terreno pelo Director Regional da Saúde, Berto Cabral.
“O primeiro dia está a correr da maneira possível. Temos uma grande adesão por parte da população e ainda há situações que estamos a resolver, mas no geral está tudo a correr dentro da normalidade, anormal, em tempo de pandemia”, explicou referindo-se ao aglomerado de gente junto ao Clube Naval. A justificação é simples: “tínhamos intenção de testar nesta primeira fase o pessoal da pesca, porque depois as ambulâncias iam deslocar-se a outras ruas. Mas as pessoas quiseram fazer logo os testes e foi assim, o teste leva o seu tempo e verificou-se um grande aglomerado de pessoas”. Com um reforço de meios, através de um posto móvel, “ficou tudo resolvido”, explica ao assegurar que “uma operação de grande magnitude como esta, estou muito satisfeito de ver como as coisas estão a correr”.
A testagem da maioria da população em apenas três dias é, no entender do Presidente da Junta de Freguesia “uma boa medida, porque está a ser possível testar em massa e as pessoas estão com o único sentimento de testar para ver a sua situação”, explica.
Ciente de que os testes em massa poderão ditar uma escalada nos números, Jaime Vieira reconhece que isso pode vir a acontecer “mas em qualquer outra freguesia isso ia acontecer”, refere. “Sabemos o que está em causa e o que queremos é proteger a população. Testar, testar e testar e isolar os positivos” para quebrar o surto na Vila. À hora em que Jaime Vieira falou ao Correio dos Açores não tinha conhecimento de casos positivos que já tivessem sido detectados através dos testes rápidos, ciente que até às 20 horas – altura em que termina o primeiro dia de testagem – tal poderia acontecer. “A gente de Rabo de Peixe está habituada a dificuldades e vamos ultrapassar mais esta dificuldade todos em conjunto”, referiu ao deixar uma palavra de agradecimento aos habitantes de Rabo de Peixe e a todos os envolvidos nesta operação.
PSP faz balanço positivo da operação
Com agentes a controlar as entradas e saídas da Vila de Rabo de Peixe desde as 00h do dia 3 de Dezembro, a Polícia de Segurança Pública (PSP) faz uma balanço “extremamente positivo” da operação até ao momento. O Comissário Nuno Costa, porta-voz do Comando Regional da PSP nos Açores, destaca uma actuação “pedagógica e sensibilizadora na comunidade quanto à interdição das deslocações e na recomendação aos cidadãos do cumprimento do dever geral de recolhimento domiciliário”, sem incidentes a registar e com a população a ter “uma atitude bastante responsável”.
Numa operação que conta com a articulação do Governo Regional, Câmara Municipal da Ribeira Grande e Junta de Freguesia de Rabo de Peixe, a PSP destaca quatro grandes grupos de intervenção em termos operacionais: às vigilâncias activas; aos cidadãos em confinamento obrigatório; à obrigatoriedade do uso de máscara em espaços públicos; e ao encerramento às 20 horas dos estabelecimentos de restauração, bares e outros, bem como a lotação máxima destes estabelecimentos.
O Comissário Nuno Costa apela ao “sentido de responsabilidade e cidadania” dos habitantes de Rabo de Peixe, para que acatem as indicações das autoridades de saúde e da PSP e refere que a polícia vai “evitar o recurso a meios coercivos mas não hesitaremos em fazê-lo sempre que ocorram comportamentos de desobediência”. A articulação entre todas as entidades tem sido “bastante profícua e objectiva” e por isso a operação a decorrer em Rabo de Peixe até às 23h59 de 8 de Dezembro deve decorrer sem sobressaltos. C.D.
Carla Dias