Paulo Braga, Director da Casa de Saúde de São Miguel

“É insustentável fazermos um trabalho rigoroso de acompanhamento de alcoólicos sem termos um financiamento adequado”

Desde quando é que a Casa de Saúde intervém nesta área ligada ao alcoolismo?
A Casa de Saúde já faz tratamento de pessoas com alcoolismo há muitas décadas. A Casa de Saúde foi fundada em 1928, embora os primeiros registos de tratamentos específicos de alcoólicos sejam da década de 60. Desde essa altura para cá temos tido sempre um papel importante na comunidade e naquilo que se refere ao tratamento ao alcoolismo, quer seja na prevenção, no tratamento e na reabilitação. Em 1991, foi inaugurado o Centro de Tratamento de Alcoólicos (CTA) e em 1998, a Clínica São João de Deus que é a nossa actual valência de adictologia.

Quantas pessoas estão actualmente internadas com problemas ligados ao álcool?
A valência de adictologia tem capacidade para 35 camas. Normalmente está sempre com a capacidade máxima preenchida. A lista de espera é relativamente longa, agora o tempo médio de espera para internamento não é muito longo, entre um mês e meio a dois meses no máximo. Temos uma equipa multidisciplinar com enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, médicos de medicina geral e familiar, médicos psiquiatras. Em 2019, deram entrada 132 pessoas com problema ligados ao álcool, dessas, cerca de 30% teve alta por abandono, 3% teve alta disciplinar e cerca de 67% teve alta por indicação médica. Mas mais do que estes números de entrada, temos um Sistema de Gestão da Qualidade implementado e recentemente certificado que nos permite ter indicadores mensuráveis daquilo que é a nossa actividade. Por exemplo e em relação a 2019, cerca de 53% dos utentes que tiveram alta mantiveram-se abstinentes 6 meses após a alta. Passado um ano esse número baixa um pouco e situa-se nos 46%. Não são os resultados ideais mas de certa forma deixam-nos satisfeitos e motivados para continuarmos a trabalhar.

Existem muitos casos de reinternamentos?
Sim, é normal. Nós aqui fazemos a parte do tratamento e quando eles voltam para a comunidade notamos que há alguma falta de sensibilidade e alguma dificuldade por parte, principalmente das estruturas de saúde, de dar o devido acompanhamento. Antes tínhamos um centro de consultas, que era financiado e que fazia o acompanhamento pós alta, mas esses centro deixou de ter financiamento, com a esperança de que os centros de saúde dariam a resposta adequada. A realidade é que sabemos que os médicos de família não conseguem atender todos e tem-se sentido muitas vezes essa dificuldade, tanto é que, depois da alta, vêm cá para pedir receituário ou algum tipo de acompanhamento e nós temos facultado este acompanhamento de forma gratuita.

O que deveria ser feito para melhorar essa vertente do acompanhamento pós-alta?
Não há uma resposta certa nem ideal. A nossa percepção é que deveria existir um maior envolvimento entre Saúde, Solidariedade Social, Habitação, ou seja, entre os diferentes departamentos governamentais para que trabalhemos todos em conjunto para prevenir as recaídas desses utentes. Aquilo que acontece actualmente é que os utentes têm alta, fazem um tratamento adequado e vão lá para fora exactamente para o mesmo meio. Não têm uma ocupação, não têm um trabalho, os vizinhos consomem, os hábitos de ir para o café mantêm-se e as recaídas acontecem muito. Se houvesse uma articulação entre os vários departamentos era muito mais fácil para todos.
Qual é a na sua opinião a principal razão para existirem tantos problemas ligados ao álcool nos Açores?
A resposta é muito difícil, mas o álcool apesar de ser uma substância psicoactiva, é legal e social e culturalmente aceite. Muitos hábitos são incutidos desde que as pessoas são muito jovens, com as sopas de cavalo cansado, por exemplo. É algo que culturalmente já está muito instituído e é difícil desenraizar. Deve-se apostar cada vez mais na prevenção numa fase mais precoce, principalmente entre os alunos do segundo e terceiro ciclo. Os primeiros consumos nos jovens vão muito pelos exemplos dos pais, dos familiares e também muito pela pressão do grupo de pares. 

Na sua opinião deveriam existir mais restrições ao consumo e venda de álcool?
Temos as leis todas bem fundamentadas, temos todos os programas de prevenção e planos do Governo. Temos toda a documentação; falta depois é replicá-la na prática. Basta dar uma volta à noite por Ponta Delgada para ver os jovens a consumirem sem qualquer tipo de fiscalização. Nesse sentido tem de existir uma fiscalização muito mais forte e incisiva. 

Falando agora mais do internamento aqui na instituição, como é que isso se processa exactamente?
Existem várias maneiras de chegar até nós. A pessoa pode vir por iniciativa própria. A pessoa decide, num determinado momento, que necessita de ajuda e pode dirigir-se directamente à Casa de Saúde ou a qualquer outra instituição de saúde que trabalhe na área das dependências e comportamentos adictivos. Pode vir por referenciação de qualquer estrutura na comunidade, quer seja através das consultas com o seu médico de família ou de outra especialidade; através das equipas que trabalham na área da redução de riscos e minimização de danos; através das comissões de dissuasão para a toxicodependência ou por qualquer outra entidade que trabalhe no âmbito comunitário ou social. Qualquer entidade pode referenciar um utente para nós. Por fim, também podem vir por determinação judicial. O importante aqui é dizer que depois dessa referenciação existe sempre uma consulta de triagem. Nessa consulta avaliamos o nível de dependência, percebemos se foi um abuso agudo ou se é algo continuado e depois temos uma série de critérios para priorizar a admissão. Os internamentos não são feitos por ordem de chegada e estão dependentes desses critérios. Para além disso o grau de motivação também é muito importante. Através de uma escala percebemos se a pessoa está motivada para o internamento.  

O que é feito concretamente durante o período internamento?
Fazemo-lo através de uma abordagem psicofarmacológica, psicoterapêutica e educação para a saúde. Incluímos nos nossos programas os cuidados médicos, de enfermagem, o apoio psicológico, intervenção social, ou seja, uma série de estratégias, com várias técnicas como psicoeducação, terapia de grupo, a técnica de prevenção da recaída, entrevista motivacional entre outras. É importante referir também que o tratamento não é um ‘fato à medida que sirva a todos’. Cada utente tem as suas especificidades, os seus níveis de consumo, tem um grau de dependência que é só seu, ninguém é igual a ninguém, por isso tentamos personalizar ao máximo o tratamento de cada pessoa adequando-o. Quando intervimos numa pessoa que tem problema de alcoolismo, não podemos intervir apenas naquela pessoa. Intervimos nele e na sua família que também é muito envolvida em todo este processo. Não vale de nada estarmos a tratar uma pessoa dois meses, porque o programa demora 56 dias, e quando chega a casa a primeira coisa que lhe pedem é que vá comprar um pacote de vinho branco para cozinhar. Não pode ser. Tem de haver uma reestruturação de toda a dinâmica familiar. Daí cada um utente ter o seu PII, construído com o envolvimento do utente, técnicos, famílias e/ou pessoas de referência. 

E a família é de facto muito importante em todo este processo… 
É um pilar fundamental no processo de recuperação de um utente. Muitas vezes, quando os utentes chegam, a família já vem completamente destruturada e também, temos de fazer esse trabalho junto da família e do utente para voltarem a criar pontes para que volte a existir uma dinâmica familiar saudável. Sabemos, hoje em dia, que o álcool é provocador de várias situações no seio familiar, principalmente de casos de violência doméstica que tem como consequência a ruptura familiar. A pessoa que consome deixa de desempenhar o seu papel no seio da própria família, gerando um ambiente tenso e conflituoso que não é nada saudável para aquilo que se pretende.

Depois do internamento e do tratamento o que é necessário fazer para que estas pessoas tenham uma taxa de reincidência menor?
O que é necessário é que exista um acompanhamento de maior proximidade no pós-alta. Quer seja através das consultas de psicologia, médicas, de serviço social ou de enfermagem, para haver uma monitorização constante desses casos. Muitas vezes os utentes saem e acabamos por perder o rasto. Fazemos inquéritos por telefone para perceber as taxas de absentismo, enquanto na Madeira fazem análises sanguíneas. Cá ainda não chegamos a esse ponto. Tem de existir muito maior financiamento para as estruturas que trabalham nesta área. A diária de internamento cá é de 45,20 euros e no continente já é de 75 euros. Na área de saúde mental a diária de internamento aqui é de 37,5 euros, na Madeira, no próximo ano essa diária será de 47 euros. É insustentável fazermos um trabalho de qualidade, rigoroso e de acompanhamento sem termos os meios adequados. 
Com a pandemia e com o confinamento, muitas pessoas com problemas ligados ao álcool passaram a estar a casa, levando a que se começassem a agudizar certas situações como a violência doméstica.
Este ano, e apesar de não conseguir dizer se houve um aumento de pedidos, a minha percepção é que os consumos mantiveram-se. Os consumos não são apenas no café. Quem tem uma dependência alcoólica tem de consumir senão o organismo ressente-se, a pessoa entra em privação e tem de consumir de qualquer forma. O que provavelmente se passou é que ficaram mais visíveis porque houve uma série de episódios de violência doméstica, de agressões e de discussões no seio da família porque as pessoas foram obrigadas a conviver muito mais tempo entre si enquanto antes, uma pessoa estava alcoolizada no café ou na rua e a família não se apercebia ou não valorizava. Neste momento começou a aperceber-se muito mais disso. Não posso dizer que os consumos aumentaram; agora provavelmente aconteceram muitos mais casos de pessoas, que já eram alcoólicas, em que nunca tinha existido um alerta e agora a família poderá ter-se apercebido que realmente existe um problema. O isolamento social também poderá ter despoletado algumas situações e problemas ao nível da saúde mental. Stress, ansiedade, alguma angústia, alguma tristeza maior devido à situação que atravessamos. Aqui na Casa de Saúde, devido à pandemia, temos um plano de contingência activo, não temos visitas e os utentes têm de estar o máximo de tempo possível, confinados à sua unidade. Temos dado o nosso contributo o melhor que podemos para apoiar a comunidade, disponibilizando por exemplo, o Centro de Reabilitação Juvenil, preconizado no nosso Plano de Contingência como unidade covid e a nossa logística instalada, para acolher casos suspeitos ou confirmados de situações na comunidade, como aconteceu bem recentemente.

Sendo os Açores a região do País com mais problemas ligados ao álcool não deveriam existir mais estruturas como a Casa de Saúde de São Miguel?
Na região temos duas estruturas; a Casa de Saúde de São Miguel e a Casa de Saúde de São Rafael na Terceira. Depois existem várias estruturas que dão apoio em ambulatório como a Arrisca, o Novo Dia ou a Alternativa. O tempo médio para internamento não é muito longo e não sei até que ponto se justificam mais camas.             
                                       Luís Lobão   

                        

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Autor: CA

Categorias: Regional

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