Joaquim Neves nos 50 anos da Sayonara que se celebram amanhã

“Não seria muito difícil transformar o centro de Ponta Delgada num centro comercial a céu aberto”

 Em meados de 1940 chegava a São Miguel Américo Francisco das Neves. Natural de Castanheira de Pêra, distrito de Leiria, vinha juntar-se ao irmão, Joaquim, que já era comerciante na baixa da cidade de Ponta Delgada, e trazia consigo a esposa e os dois filhos, Joaquim Dinis Neves e Fernando Dinis Neves. A relação comercial entre Américo e Joaquim não estava a resultar bem e Américo Francisco das Neves adquire um estabelecimento onde se lança a vender fazendas a metro, calçado, etc. Em 1951 adquiria outro estabelecimento, na rua Hintze Ribeiro, que acabou mais tarde por trespassar, e em 1961 constitui sociedade com os dois filhos, surgindo assim a empresa “Américo das Neves & Filhos, Lda”.
Mas antes de serem formalmente sócios na empresa, já há muito que os irmãos Joaquim e Fernando ajudavam o pai. Joaquim Neves recorda que estava no 7º ano do Liceu, com perspectivas de tirar um curso de Engenharia, mas sempre que podia ia ajudar o pai nas vendas. “Faltava às aulas que não eram obrigatórias, como ginástica e religião e moral, para trabalhar na actividade comercial” e acabou por se “entusiasmar” e acabou por desistir de ir para engenharia para ingressar na actividade comercial. 
Em 1961 a empresa familiar adquire a antiga loja “Violeta”, na rua António José de Almeida, e depois de remodelar e transformar o edifício nasce ali o novo projecto: a loja “Capri”. “Desenvolvemos a actividade comercial de pronto-a-vestir que não existia na cidade de Ponta Delgada com a envergadura que lhe conseguimos dar. Era uma loja que tinha perfumaria e marcas bastante importantes na época”, recorda Joaquim Neves que conta agora com mais de 68 anos de actividade comercial.  
Entretanto Joaquim Neves casa com Ermelinda Neves, que chefiava os Serviços Materno Infantis de São Miguel, e que acabou por abandonar a enfermagem para se dedicar ao negócio da família Neves e em conjunto fundam, a 9 de Dezembro de 1970, a loja Sayonara “embora um espaço pequeno”. 
Em 1973 Joaquim Neves vende a parte da empresa “Américo das Neves &Filhos, Lda” ao irmão para se lançar a solo com a esposa. Resolve ir para Londres, onde ficou seis meses a tirar um curso na Pitman School, e onde aproveitava para “andar no comércio a ver o que havia em Londres. Andei sempre a trabalhar. Os meus colegas iam aos parques e eu ia para a City e pelo comércio, para não ficarmos atrás de Londres. Ponta Delgada tinha de estar a par de Londres”, revela. 
Quando regressa dedica-se por completo à Sayonara. Desenvolve a empresa que acaba por dividir em dois espaços: o Peter’s, com moda masculina, e a Sayonara, com a secção feminina. 
Ermelinda Neves recorda que no primeiro dia da loja, na rua António José de Almeida, “fizemos 20 contos, que era muito dinheiro, e fiquei entusiasmada. Eu era enfermeira e não tinha a percepção do negócio e achei que aquilo era o máximo”. 
O conceito era apelativo, uma loja de pronto-a-vestir como nunca se tinha visto em São Miguel, aliado a marcas de renome da época. “Abrimos a Sayonara com um perfume “Paco Rabanne” e o representante em Portugal deu-nos um boião enorme de perfume, que nós espalhámos pela rua António José de Almeida. As pessoas quando entravam naquela rua sentiam o perfume, que não sabiam que era “Paco Rabanne” e diziam que era o perfume da Sayonara, e nós vendíamos imenso daquele perfume. Foi aí que começou o nome da Sayonara, aliada ao “Paco Rabanne””, conta Ermelinda Neves. Depois vieram outras marcas internacionais, como a francesa “Delfieu” que “ainda hoje homens e senhoras nos vêm dizer que têm calças e casacos da Delfieu”. 
A empresa vai prosperando e Joaquim Neves adquire uns armazéns na rua Machado dos Santos, adjacentes aos Armazéns Cogumbreiro. Recuperado o edifício e modernizado, a loja Sayonara muda-se para a rua Machado dos Santos “já com secções específicas e com uma grande secção de perfumaria, onde vendíamos Paco Rabanne, Chanel, Hermés. Foi a primeira loja que lançou em Ponta Delgada uma linha de cosméticos para senhora, que não existia, com a Stendhal”, recorda Ermelinda Neves.
Entretanto o edifício onde tinha funcionado a Sayonara, na rua António José de Almeida, é adquirido pela empresa. Demolido, reedificado e modernizado, a loja mãe volta àquela rua, agora pedonal. O espaço na Machado dos Santos fica destinado a outros projectos. É o caso do primeiro franchising nos Açores, as lojas CASA. Mais tarde passou a ser KA (Kilo Americano), com cortinados e sofás, e depois a Pier Import. 
Entretanto encerraram estas marcas, e a Sayonara voltou a mudar-se para a Machado dos Santos. O prédio da rua António José de Almeida passou para outros projectos, como a Triumph, e o espaço onde antes tinha funcionado a “Capri” estava à venda. Joaquim Neves adquiriu-o pelo “grande amor que tinha àquele espaço” e é ali que funciona agora a BeShop. O cimo da rua, onde funcionou a Ourivesaria Universal também foi adquirido para se instalar ali a loja Esprit. Entretanto, também houve espaço para marcarem lugar no Centro Comercial Parque Atlântico com duas lojas, mas “fechámos e quisemos desenvolver o centro histórico”, entre as duas ruas de grande movimento da cidade.
Depois, surge outra oportunidade de negócio com a compra dos armazéns de Domingos Dias Machado e Joaquim Neves aposta também no turismo com a construção do Hotel Casa Hintze Ribeiro. “Estarmos sempre actualizados e prontos a trazer para os Açores o que de melhor se comercializa lá fora. Vamos sempre ver as colecções e ver o que há de melhor para trazer para cá”, revela Ermelinda Neves.
Quanto ao segredo para o sucesso, Ermelinda e Joaquim têm visões diferentes. Ermelinda diz que é o “trabalho” a chave, enquanto Joaquim garante que “o crescimento não tem segredos”. Passa sim por planeamento e avançar-se com passos seguros “umas vezes com crédito bancário e outras vezes não é necessário. Conhecer o meio, conhecer bem o público com quem vamos trabalhar”, explica.
E o sucesso não se fica pelas quatro lojas e um hotel. Joaquim Neves diz que “já há novos planos para novos investimentos”. Sem avançar pormenores, porque ainda está tudo no “plano interno” e em fase de estudo, o certo é que o empresário de 85 anos garante que não se vai ficar por aqui.

Melhorar Ponta Delgada
Mas estes tempos de pandemia não têm sido fáceis. Em 2019 o hotel Casa Hintze Ribeiro “esteve sempre praticamente cheio” e agora nem por isso. Ao nível das lojas “temos sentido bastante”. A época de Natal, e os 50 anos que a Sayonara vai celebrar já amanhã dia 9 de Dezembro, “deve ajudar a melhorar um bocadinho”. Março e Abril, com o confinamento, “foram meses péssimos” e os próximos tempos a partir de Janeiro também não se vislumbram muito melhores. “Estamos a aguardar dias muito maus para a nossa actividade. Contamos com apoios governamentais, porque temos de ter, e esperamos que isso seja ultrapassado o mais rapidamente possível. Principalmente com as vacinas”, refere Joaquim Neves que acredita que em finais de 2021 a normalidade da facturação se prepare para subir “e acredito que em 2022 estejamos com a actividade normal”. Até no turismo: “em que espero que dentro de um ano ou dois no máximo, já estejamos a notar esse aumento do turismo”.
Mas para fazer face às dificuldades, também é necessário haver ajudas e as entidades camarárias e governamentais também têm de ajudar os empresários. Joaquim Neves queixa-se que “as entidades públicas criam dificuldades no desenvolvimento. Sentimos isso. Acho que os investimentos deviam ser mais acarinhados, mais apoiados. Quando se inicia um projecto, são tantas dificuldades para a aprovação, que leva a pessoa a desistir. Só a grande força de vontade é que mantém a pessoa activa para investir”, desabafa. Perante tamanha burocracia e por vezes a falta de dar a conhecer determinadas condições “leva a que não se apresente tudo e o tempo que levam a dizer que falta isto ou aquilo e o tempo que levam a aprovar um projecto, prejudica e desmotiva o investimento”.
Mas Joaquim Neves lembra que é a actividade económica que criar empregos, paga impostos e leva ao desenvolvimento. “É preciso que as entidades que estão a gerir saibam bem disto, que facilitem, e quando uma pessoa desiste do investimento, devia ser do interesse das entidades públicas perceber porque o projecto não foi para a frente. Devia haver uma ligação entre as entidades oficiais e os investidores para que se progrida, que se criem postos de trabalho. Mas temos sentido entraves e dificuldades”, afirma.
Além dessa agilização das burocracias, também seria importante dinamizar o centro histórico de Ponta Delgada, “ouvindo as opiniões dos comerciantes”, como diz Joaquim Neves, mas também tornando mais apetecível as compras no centro histórico e transformando o centro histórico num centro comercial ao ar livre. “Podia-se chegar lá. Não seria muito difícil, com apoios da Câmara Municipal, com consultas que as entidades oficiais deviam fazer aos comerciantes, ouvir as opiniões dos comerciantes. Muito havia a fazer para tornar a cidade muito agradável e atrair o turismo no centro da cidade”, refere.
“Com parques de estacionamento subterrâneos”, acredita Ermelinda Neves. “A dinamização passa por várias coisas. Em primeiro lugar temos o estacionamento. As pessoas têm muita dificuldade em vir aos centros históricos, porque não têm estacionamento. Sugeria parques de estacionamento subterrâneos para que as pessoas pudessem vir ao centro histórico para se tornar um centro comercial ao ar livre. Porque não algumas ruas cobertas, não cobertas como túneis, mas com coberturas ou velas de navio. A rua António José de Almeida e a rua Hintze Ribeiro prestam-se muito a isso, tal como a rua do Valverde. Com bancos para as pessoas se sentarem, para se tornar o centro histórico um verdadeiro centro comercial”, acredita.
Joaquim Neves recorda que os estacionamentos subterrâneos poderiam ter sido feitos aquando de grandes obras feitas em locais estratégicos da cidade como no Largo da Matriz ou junto ao Museu. “Foram duas oportunidades perdidas”, acredita o empresário que acrescenta que essas obras são custeadas “por fundos europeus e acho que ainda estaríamos a tempo para avançar com esses espaços para fazer parques subterrâneos”, tal como se aproveitou para fazer na Avenida marginal. 
“Temos uma Presidente de Câmara de Ponta Delgada, que sinto tem muita vontade de desenvolver o centro histórico. E penso que é possível que esse assunto seja revisto para bem do centro histórico de Ponta Delgada e do seu desenvolvimento”, acredita Joaquim Neves.

O futuro 
O empresário que há 50 anos está na área comercial reconhece que “as dificuldades não são poucas” mas os tempos são diferentes de quando começou. “Era mais fácil” vingar, acredita ao recordar que quando começou a Sayonara “o comércio estava adormecido em Ponta Delgada. Nós abrimos e com muita facilidade o sucesso surgiu. Vingava-se com mais facilidade. Agora a concorrência é muito maior, o público está mais informado”, revela.
Mas optimista por natureza, Joaquim Neves não se deixa abater e acredita que as perspetivas de futuro são boas. “Isto há-de normalizar, o turismo vai melhorar e as coisas vão avançar. Vamos ter apoios comunitários e oficiais para que o desenvolvimento continue a aumentar. Temos mais projectos para desenvolver”, afirma.
E para isso, acrescenta Ermelinda Neves, está uma mais-valia que já está na empresa há 30 anos: a filha Teresa Neves. Tal como a mãe, depois de um curso de línguas bem sucedido e alguns tempos a leccionar, abandonou o percurso profissional para o qual estudou e dedicou-se também ao negócio da família. Tinha 26 anos.
“Agora está integrada e é a nossa mais-valia. A nossa perspectiva de futuro é positiva porque temos quem dê continuidade ao nosso trabalho. Se não tivéssemos essa continuidade acredito que não tivéssemos grande perspetivas de futuro e temos este estímulo para continuar a trabalhar”, relevam os empresários.
E Teresa Neves não se importa de dividir o amor dos pais pelos “irmãos”, ou seja pelos projectos que Ermelinda e Joaquim puseram de pé e que consideram serem também filhos. Ermelinda Neves confessa que o ponto alto da carreira de sucesso do Grupo Sayonara é efectivamente a abertura de cada nova loja e a concretização de cada novo projecto. “Sempre que inaugurávamos uma loja era um momento alto. Cada momento de crescimento era um momento alto para nos dar estímulo para crescermos mais. Uma abertura de uma loja é quase como o nascimento de um filho. A Sayonara é uma filha para mim. Somos os primeiros a chegar e os últimos a sair. As nossas lojas são os nossos filhos. Os momentos altos são os nascimentos dos nossos filhos”, afirma.
Joaquim Neves, mais comedido e mais reservado, diz que apesar do prazer que lhe a abertura de cada novo projecto, não o faz “por ambição”, mas pelo prazer de executar e desenvolver um projecto. “Dar continuidade ao trabalho e tomar a iniciativa de desenvolver e apresentar do melhor que há. Faço por gosto. Não é a ambição de ter, mas o gosto de executar, de fazer. É esse prazer que me move. Não é a ambição”, confessa.
E sendo optimista por natureza, admite que as queixas por vezes têm de ficar em segundo plano para que não seja permitido desmoralizar. “Se fizermos queixas ao que sentimos, vamos desmoralizar. Temos de ter condições para nos estimular e não o inverso. Sentimos dificuldades, mas isso abrange todos e nós não somos excepção. Nas despesas, tem de haver receita para cobrir a despesas, temos de pagar a mercadoria. E há períodos em que não conseguimos pagar as despesas. Mas o que nos suporta é o gosto pela actividade, o nosso entusiasmo. E é isso que nos leva a querer voltar a investir mais”, refere com alento enquanto acrescenta que “o crédito bancário está baixo, o que nos anima também. Por mais 50 anos, pelo menos”. 
Mas antes da empresa celebrar o centenário, há que focar energias nos 50 anos que vão ser celebrados já amanhã, dia 9 de Dezembro. Este ano o cenário pandémico não vai permitir que se concretize o que estava já idealizado há muito. Teresa Neves conta que o objectivo era haver um bolo e pequenas ofertas para os clientes que quisessem celebrar a data com os empresários. “Mas infelizmente devido à pandemia é difícil” e por isso os planos foram ligeiramente alterados. Em vez de bolo há “descontos especiais para os nossos clientes, e por isso convidamos todos a vir celebrar connosco, cumprindo as regras de segurança”. Teresa Neves, na empresa há 30 anos, diz que é fundamental partilhar com os clientes que ajudaram a marca a crescer e a desenvolver-se, uma data tão marcante como o meio século. “50 anos é uma data que é bom marcar”, comenta. 
E tal como os clientes, que se têm mantido fiéis ao Grupo e que nas várias lojas conseguem encontrar várias gamas de preço com opções “para todos os bolsos”, Teresa Neves também faz questão de lembrar os colaboradores. Alguns estão na empresa há mais de 30 anos. É o caso de Nélia, na empresa há 37 anos, e de Natália, que há 32 anos trabalha na Sayonara. “É um trabalho de equipa. Os clientes, os colaboradores e nós”, destaca Teresa Neves.
Aos 50 anos, o Grupo Sayonara já não é só uma marca incontornável no pronto-a-vestir e também no turismo aposta na elegância e na sofisticação. Novos projectos já estão a ser pensados e o Grupo vai continuar a manter-se no centro histórico de Ponta Delgada que, acreditam, é onde devem estar para ajudar a cidade a estar em pé de igualdade como outras capitais europeias.  

                                                Carla Dias/JP


 

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Autor: CA

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