Face a Face!... com Luís Henrique Sequeira de Medeiros

“Há que repensar toda a fileira do leite na produção e na transformação”

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Luís Henrique Sequeira de Medeiros - Nasci em Ponta Delgada, onde fiz os meus estudos primários e secundários, respectivamente no externato “A Colmeia” e no Liceu Nacional de Ponta Delgada, hoje Escola Secundária Antero de Quental.
Após a conclusão do Liceu, ingressei na Escola Superior de Medicina Veterinária da Universidade Técnica de Lisboa, tendo concluído licenciatura em 1974.
Sou casado, pai de três filhos e avô de cinco netos.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social.
Após a conclusão do meu curso surgiram alguns convites e oportunidades para seguir uma carreira académica na Universidade de Lisboa; contudo, o apego à terra e o facto de ela ter estado na base da escolha da minha profissão (nunca me imaginei veterinário noutro sítio), fizeram-me regressar quase de imediato.
Comecei a trabalhar como técnico Médico Veterinário na antiga Intendência de Pecuária de Ponta Delgada, onde éramos muito poucos, e, como se costuma dizer, fui “pau para toda a obra”. Todavia, foi nas áreas do Melhoramento Animal e da Sanidade Pecuária, designadamente, na direcção do Centro de Bovinicultura e nas campanhas de saneamento da tuberculose e brucelose bovinas, que a minha actividade foi mais intensa, mercê também das formações específicas que tive a oportunidade de adquirir/desenvolver.
Fui Director Regional de Veterinária durante 9 anos e, posteriormente, durante igual período, fui Presidente da Direcção do Instituto de Alimentação e Mercados Agrícolas – IAMA.
Fui eleito como deputado independente nas listas do PSD à Assembleia Regional, funções que exerci entre 2000 e 2004.
Regressei à actividade veterinária nos Serviços de Desenvolvimento Agrário de São Miguel, estando presentemente reformado.

Como se define a nível profissional?
As funções que fui chamado a desempenhar, quer como Director Regional de Veterinária, quer como Presidente do IAMA, no período que envolveu a integração do país na CEE/União Europeia, confrontaram-me com um enorme conjunto de situações que iam muito para além dos horizontes da profissão veterinária. Uma tal situação e a multiplicidade das questões que então se colocavam, o facto de ter responsabilidades de âmbito regional, conferiram-me uma visão muito mais abrangente da problemática agrícola dos Açores, bem como a oportunidade de estudar, propor e executar as soluções que foram julgadas mais adequadas. 
Porém, nunca deixei de ser veterinário e foi a minha formação como Médico Veterinário que me permitiu enfrentar os muitos desafios que me foram colocados no desempenho de todas as funções que me foram atribuídas ao longo de uma carreira de quase 40 anos.

Quais as suas responsabilidades?
Para além de ser Presidente da Assembleia Regional dos Açores da Ordem dos Médicos Veterinários, como reformado, não tenho quaisquer outras responsabilidades profissionais. Presentemente, as minhas responsabilidades são para com a família, sobretudo as que resultam de ser pai e avô.

Que impactos tem o desaparecimento da família tradicional?
Para mim, a família continua a ser o alicerce do sistema social. É no seio da família que se transmitem, de geração em geração, valores como o afecto, o respeito pelo outro, a tolerância e a orientação para a solidariedade, valores essenciais para a formação de pessoas de bem. Temo que nos tempos que correm a família esteja a ser secundarizada em relação a outros interesses, conduzindo, inevitavelmente, a uma sociedade mais egoísta e menos solidária

Como descreve a família de hoje?
O número crescente de famílias desestruturadas, fruto do egoísmo atrás mencionado, é preocupante.
Pai e mãe trabalham, cada um com as suas responsabilidades e preocupações que, naturalmente, nem sempre ficam no emprego. Chegam a casa cansados e não há grande disponibilidade mental para ouvir e falar com os filhos, que ficam muito entregues a si próprios, com todos os prejuízos que daí advêem para a sua formação, para o seu equilíbrio emocional e para a consolidação dos laços afectivos.
Por outro lado, assusta-me o papel que as novas tecnologias comunicacionais têm vindo a assumir no relacionamento familiar, quando utilizadas sem medida. É frequente verem-se famílias num restaurante, por exemplo, em que todos estão debruçados sobre os seus telemóveis, tablets, etc.. Não falam uns com os outros, as crianças não estão convivendo com os pais, mas sim com amigos distantes ou estão entretidas em jogos alienantes, e os pais … estão descansados. Não me parece um bom caminho!
A família continua a ser o centro da minha vida.

A relação entre pais e filhos é, quase sempre, foco de tensões...?
Julgo que sempre foi assim e é um fenómeno natural. Os pais são velhos aos olhos dos filhos, têm, por vezes, dificuldade em acompanhar a velocidade com que o mundo evolui, mas adquiriram experiência, o que muitas vezes aparentemente aos filhos não parece compatível com as imensas certezas de que se julgam possuidores e com a impetuosidade com que querem ver tudo resolvido. E os choques podem surgir, porém, nada que os laços familiares, a compreensão, a tolerância, a par de uma preocupação em incutir o sentido de responsabilidade pelos seus actos e opções não possam atenuar.

Que importância têm os amigos?
Os amigos, aqueles em quem se confia sem discussão, para além do prazer do convívio e da partilha, são fonte de equilíbrio e de estabilidade.

Que actividades gosta de desenvolver?
Continuo a ter bastante interesse pelas coisas agrícolas e mantenho uma pequena exploração agro-pecuária que me ocupa bastante. A leitura e a investigação sobre temas do nosso passado também me atraem e preenchem muito tempo.

Vê televisão? Que canais?
Vejo televisão e, para além dos noticiários e programas de debate, de um ou outro filme ou série mais interessantes, prendem-me sobretudo os canais temáticos.

Que sonhos alimentou em criança?
Ser veterinário e, eventualmente, saber pilotar um avião.

Qual o seu clube de futebol? É um adepto ferrenho?
Não sou ferrenho, mas sou benfiquista desde que me conheço.

O que mais o incomoda nos outros?
A inveja e a hipocrisia.

Que características mais admira no sexo oposto? 
Para além dos atributos naturais inerentes, a inteligência, a delicadeza e a sinceridade.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição.
Gosto muito de ler e leio muito. Os interesses foram diversos ao longo das várias fases da vida e há muitos, não apenas um, que continuam a ser referências importantes.

Como se relaciona com  as redes sociais?
Não me relaciono.

Costuma ler jornais?
Diariamente. 

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Gosto muito. Ao Chile e aos fiordes da Noruega.

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Considero-me aquilo a que se chama uma pessoa de “boa boca”, e, preferindo a carne ao peixe, é na cozinha tradicional portuguesa e açoriana que encontro as minhas preferências.

Que noticia gostaria de ler no jornal?
Que o SARS-CoV 2 deixou de ser uma ameaça e o fantasma da pandemia desapareceu.

Qual a máxima que o/a inspira?
A de um velho chefe Sioux que orava ao seu Deus, pedindo:
“Nunca me deixes julgar o meu semelhante sem andar uma légua com os mocassins dele calçados.”

Em que Época histórica gostaria de ter vivido?
Na actual, porque tem sido fabulosa!

Como define a política?
São muitas as definições de política mas nunca deixará de ser a arte ou, se quisermos, a ciência de bem governar os povos. E, para isso, é necessário que as pessoas que a ela se dedicam tenham espírito de serviço, humildade, saber, capacidade para ouvir e compreender os problemas das populações que governam e, com bom senso, definir rumos e encontrar as melhores soluções possíveis.

Que opinião tem sobre os políticos??
Felizmente que os há com qualidade. Porém e lamentavelmente, também há muitos que fazem da política um modo de vida, faltando-lhes conhecimento, experiência e dimensão para exercerem dignamente as funções a que se propõem.

Se fosse governante quais as medidas prioritárias que assumiria na actualidade?
Prioridade das prioridades, a educação! Em minha opinião, é urgente rever todo o sistema. Custa-me muito admitir que um jovem com o 9º ano de escolaridade, e infelizmente são muitos nessas circunstâncias, não saiba interpretar um texto que lê ou fazer uma simples conta de dividir. Isto, para não falar já de uma quase total ausência de conhecimentos noutras áreas como as Ciências ou a História.

Como tem evoluído a medicina veterinária nos Açores? 
Quando comecei a trabalhar em São Miguel, existiam 5 médicos veterinários municipais e 5 na Intendência de Pecuária. Hoje em dia somos mais de 120. Para além dos Municípios (nem todos têm ainda Médico Veterinário Municipal, lamentavelmente) e dos Serviços Oficiais, há muitas empresas, sobretudo no ramo agro-alimentar, com veterinários nos seus quadros. E a assistência clínica às explorações pecuárias, a cargo das Associações Agrícolas, dá uma cobertura total do efectivo. Por outro lado, presentemente, as acções de campo da luta contra as zoonoses bovinas (brucelose, tuberculose e leucose) estão entregues aos veterinários das Associações, o que tem permitido um controlo mais eficaz dessas doenças.
O interesse pelos animais de companhia fez proliferar as clínicas e hospitais veterinários que prestam cuidados aos chamados “pequenos animais” em moldes modernos e que contribuem, também, de modo determinante, para a prevenção de doenças dessas espécies transmissíveis ao homem.
Uma outra área de grande importância na actividade veterinária é a da segurança alimentar, abordada hoje numa perspectiva integrada e que se sintetiza na tão conhecida expressão “do prado ao prato”.
Numa região como a nossa, produtora e exportadora de agro-alimentos, há que garantir um sistema integrado de controlo da higiene e salubridade do produto, na exploração, na transformação e na distribuição e venda, identificando perigos, avaliando riscos e controlando pontos críticos, com vista a uma certificação segura e credível.
Tudo isto é feito, mas julgo que é uma área da actuação veterinária que, com vantagem, poderá ser repensada, reestruturada e agilizada.

Foi Director Regional de Veterinária. Que medidas realça de entre aquelas que teve de tomar enquanto exerceu estas funções?
Foram muitas as acções levadas a cabo nessa época, que foi de grande mudança e altamente motivadora, mas, de uma forma resumida, destacaria a reestruturação dos serviços veterinários regionais e a dotação de cada uma das ilhas com, pelo menos, um médico veterinário; a intensificação da luta contra a brucelose em todas as ilhas e a erradicação da fasciolose em São Miguel; os projectos de desenvolvimento da ovinicultura nas ilhas de Santa Maria e Graciosa; e o processo de integração na CEE nas áreas da competência da Direcção Regional.

Pelas estatísticas recentes, a brucelose bovina está praticamente erradicada das manadas dos Açores...?
Sob o ponto de vista sanitário, a situação presente é muito boa e poderá dizer-se que todas as zoonoses bovinas, se não ainda completamente erradicadas, estão controladas. Há que haver o cuidado de não afrouxar a vigilância e controlar o mais possível as origens e entradas de animais provenientes do exterior.
No que se refere aos aspectos zootécnicos, a aposta no gado holandês/holstein provou ter sido uma aposta ganha. A Região termina o século XX com um efectivo holandizado/holsteinizado a 100% e com performances produtivas notáveis em qualquer parte.
Entretanto, têm surgido algumas vozes alertando para a conveniência na exploração de raças não tão produtivas em volume, mas com maiores capacidades nos componentes sólidos do leite, menos exigentes em termos alimentares e com uma maior adaptabilidade às nossas condições de pastoreio.
Tudo bem. Os responsáveis pela transformação do leite e o próprio mercado terão uma palavra a dizer nesta matéria. Não se pode é cair na indisciplina e deixar que a introdução de novas raças acabe por permitir a ocorrência de cruzamentos desordenados e o consequente retrocesso na qualidade do efectivo.

Em sua opinião, como deve evoluir a fileira do leite na Região?
Se olharmos para a história da agricultura açoriana e para os diversos “ciclos” que a caracterizaram, verificaremos que foram sempre os mercados externos os factores determinantes do seu aparecimento e do seu fim. O leite, com certeza, não foge à regra. 
O aparecimento da tecnologia do leite em pó, que permitiu que o leite passasse a ser um produto armazenávele transportável, com prazo de validade alargado, e a permanente carência de leite no continente para abastecimento das populações e como matéria-prima para algumas novas indústrias, promoveram um crescimento, até aí impensável, da produção açoriana. O leite UHT apareceu a seguir e cresceu com o mesmo destino. Infelizmente, quer um quer outro, não são produtos geradores de grandes mais valias.
Entretanto, o fim das quotas leiteiras, a livre circulação de mercadorias no mercado único europeu, as facilidades nas comunicações e nos transportes terrestres alteraram profundamente as condições do mercado, colocando ao produto açoriano situações de concorrência difíceis de superar, causadoras de apreensão.
Há pois que repensar todo o sistema, na produção e na transformação. Temos de aproveitar, ao máximo, a nossa principal vantagem comparativa - a erva e a forragem produzida localmente - e tentar racionalizar os custos de produção, evitando, na medida do possível, a importação de alimentos. Como atrás já foi mencionado, procurar animais com maior capacidade para o regresso ao pastoreio, talvez produzindo menos volume, mas mais sóbrios e com um leite mais rico em proteína e gordura. Aqui, parece-me que seria conveniente a revisão do sistema de pagamento do leite aos produtores, devidamente avaliado e negociado, caminhando-se no sentido de reduzir o valor pago por litro e valorizando melhor a quantidade de matéria gorda e proteica entregues.
No dia em que formos iguais aos produtores europeus, produzindo leite nos mesmos moldes, deitamos a perder aquilo que nos diferencia e que o mercado poderá reconhecer e remunerar – a produção de leite em moldes naturais, ambientalmente sustentáveis; leite com características bioquímicas ímpares, favoráveis à saúde de quem o consome.
Haverá que promover o consumo dos nossos queijos, melhorando as condições da sua apresentação na bancada do supermercado.
Naturalmente que a sazonalidade da produção existirá sempre e nunca se poderá abandonar totalmente a secagem. No entanto, havendo inovação e tecnologia, talvez novos produtos e novas apresentações sejam possíveis, criando oportunidades para uma melhor presença nos mercados.

Qual a relevância do IAMA e que outras missões deve ter?
O IAMA surgiu como sucedâneo do Instituto Regional dos Produtos Agro-Pecuários-IRPA, organismo da Administração Regional que, por sua vez, herdara, digamos assim, as funções que se encontravam a cargo dos antigos organismos de coordenação económica, designadamente, da Junta Nacional dos Produtos Pecuários e da Junta Nacional das Frutas. Foi criado aquando da integração europeia. Assim, para além da prossecução das funções atribuídas ao IRPA, nomeadamente, o funcionamento da rede regional de matadouros, a execução da classificação do leite à produção, o controlo da produção de ananás, etc., foram-lhe atribuídas novas funções no âmbito da aplicação na região das Políticas Comuns na esfera dos Mercados Agrícolas. 
Para além das funções já mencionadas, destaco a própria criação do Instituto e a concepção da sua nova orgânica funcional; a estruturação da aplicação do sistema de prémios e ajudas das políticas comunitárias aos Açores, a criação da respectiva legislação regulamentar e o controlo da sua execução; a gestão do sistema das quotas leiteiras; o apoio à reestruturação da indústria cooperativa; a representação da região em diversos Comités de Gestão de produtos agrícolas junto da Comissão Europeia; o estudo e proposta da atribuição de Denominações de Origem Protegida a diversos produtos regionais, designadamente, o Queijo de São Jorge, Queijo do Pico, Ananás dos Açores/S.Miguel, Maracujá dos Açores/S.Miguel, Mel dos Açores; a concentração do abate num único matadouro em cada ilha, promovendo o encerramento das casas de matança e matadouros municipais; o estudo da nova rede regional de abate e o início da sua reestruturação; finalmente, permito-me destacar ainda a contribuição para a criação do POSEIMA e para a estruturação e execução do regime por ele instituído. 
O papel do IAMA não se esgotou aqui e julgo que poderá assegurar um apoio importante à inovação e desenvolvimento tecnológico das nossas indústrias, à criação de novos produtos, à busca de novos mercados e na certificação da genuinidade e qualidade dos produtos regionais.
                                                         

João Paz

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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