Pandemia pode ter um efeito positivo para as famílias que têm pessoas dependentes

“Familiares ou conviventes significativos que prestam cuidados a alguém com necessidades de apoio ou de assistência por dependência e que o fazem de forma voluntária, não remunerada e não mediada por uma estrutura profissional”, é assim que Hélder Pereira, enfermeiro de formação e Professor na Escola Superior de Saúde da Universidade dos Açores, define todos aqueles que dedicam parte do seu dia-a-dia a cuidar de quem precisa, colocando-se, muitas vezes, em segundo plano em prol da pessoa dependente.
Ainda assim, apesar de se considerar que, tal como aconteceu a nível nacional, também nos Açores possa ter havido um aumento do número de pessoas que se tenham deparado com a necessidade premente de cuidar dos seus familiares devido à chegada da pandemia.
A ser assim, esta necessidade terá surgido tendo em conta a reorganização das respostas sociais existentes, salientando o professor universitário que esta poderá ser uma oportunidade para as famílias se reorganizarem para melhor, ideia que deixou à margem do seminário organizado ontem pela Academia Sénior da Universidade dos Açores através da plataforma Zoom, intitulada “Cuidar de si: Reflexões para quem cuida de familiares com dependência”.
Isto é, apesar de esta ser uma “situação diferente e para a qual não estávamos preparados”, com a possibilidade de muitas pessoas trabalharem à distância e com o confinamento em casa, “havendo uma boa capacidade de reorganização familiar, poderá também esta ser uma oportunidade de reorganizar as respostas no seio familiar”, havendo aqui uma margem de manobra para melhor “dividir as responsabilidades do apoio aos familiares” que, num anterior momento recairiam “apenas num ou outro membro da família”.
Será precisamente esse familiar que mais sentirá as limitações existentes nas respostas sociais actuais, tendo em conta os “recursos que entretanto deixaram de estar disponíveis e que, portanto, também diminuíram a qualidade e a capacidade das pessoas cuidarem de si, tais como a facilidade da visita, a facilidade de ter recursos e convívio na comunidade”.
Através desta reorganização, reflecte, há a possibilidade de as famílias “valorizarem quem cuida e poderem providenciar a quem está com esse cuidado e responsabilidade alguns momentos de pausa e de descanso no cuidar, de descanso sem culpa”.
Essa será uma forma de a pessoa cuidadora poder desenvolver as suas próprias actividades e de dar atenção a outras dimensões da sua vida, explica Hélder Pereira, tendo em conta que quem cuida de alguém dependente “não deixa de ser pai, mãe, filho, membro de uma comunidade ou de uma associação porque está devotado a cuidar de alguém que tem uma dependência”, adiantando que esta pode ser a maior mais-valia desta reorganização.
Conforme refere, é frequente pensar-se que a responsabilidade sobre um indivíduo dependente recai apenas sobre uma única pessoa, “quando na realidade todos nós podemos dar um contributo, seja enquanto membros de uma família, de um grupo, de uma comunidade ou da própria sociedade”.
Por esse motivo, há também diferentes níveis de resposta que podem ser mobilizados para apoiar não apenas a pessoa dependente, mas também “quem está horas e grande parte do seu dia a cuidar de outra pessoa”, uma vez que isso tem “um desgaste inerente” que aumenta quanto maior for o tempo dedicado à pessoa dependente sem que haja descanso de qualidade, até porque este é um trabalho que é realizado, frequentemente, “sete dias por semana e por semanas a fio”.
De reter que, no que diz respeito a patologias como a depressão, a ansiedade e a síndrome de burnout, “uma das consequências que a investigação [científica] tem vindo a documentar é que o impacto de cuidar de uma pessoa dependente, uma vez que há estímulos continuados de stress e incerteza, pode ter maior desgaste e maior evidência de sintomas depressivos, de negligência pela própria saúde, o desenvolvimento de hábitos mais sedentários e consumos mais nocivos que podem, no limite, prejudicar a própria saúde física e mental”.
Também por esse motivo, neste momento “de viragem e de reorganização pessoal” é importante que o cuidador consiga colocar um limite em si próprio, “percebendo que a própria pessoa não se esgota no facto de estar a cuidar de alguém, por mais gratificante, importante e válido que isso seja considerado”.
Neste domínio, é importante que o cuidador informal “tenha um projecto para si próprio ao qual também deve atender, e quando essa ponte de viragem existe, esta pessoa está num ponto em que pode mobilizar e reorganizar os recursos da comunidade, da família e tentar gerir a situação de cuidado de maneira a que ela própria possa identificar quais as pausas que precisa, e perceber em que projectos se pode envolver do ponto de vista social para combater o isolamento ou a solidão”.
Ao conseguir definir estes limites e ao se dedicar a algo mais para além da pessoa dependente, o cuidador impedirá que se “queimem as pontes” em relação ao seu futuro, quer por falecimento da pessoa dependente ou por esta acabar por integrar uma estrutura residencial para idosos, sem que chegue ao ponto de ficar sem contactos sociais e sem envolvimento em projectos que valorize.
Caso não seja possível haver esta reorganização familiar, Hélder Pereira destaca que uma das estratégias que podem ser desenvolvidas são os chamados “momentos roubados”, explica, nos quais o cuidador informal pode aproveitar para fazer alguma actividade de que goste quando a pessoa dependente dos seus cuidados se encontra num momento de maior acalmia.
Ao longo da sua carreira, sendo enfermeiro de formação, Hélder Pereira interessou-se pela enfermagem comunitária, acabando “por investigar e ter algum interesse pessoal nas questões associadas aos cuidadores informais”, tendo em 2013 editado um livro intitulado “Subitamente cuidadores informais”. 
“O livro fala de experiências e também de pessoas que, de um momento para o outro, sem estarem à espera, tiveram que começar a cuidar de um familiar: de um pai, de uma mãe, de um esposo ou, noutras situações, de um familiar”, explica o professor da Escola Superior de Saúde da Universidade dos Açores, destacando que esta mudança súbita criava, muitas vezes, “fortes tensões, dificuldades e ansiedades”, levando-o por isso a investigar e aprofundar as experiências das pessoas que passavam por esta situação, tal como as famílias que acompanhava de perto quando trabalhava numa enfermaria do Serviço de Neurologia.
Ao perceber e acompanhar as experiências destas pessoas, percebeu também que – na maior parte dos casos – o cuidador da família “é muitas vezes uma esposa, uma mulher ou uma filha”, sendo esta a responsável por assumir “a quase totalidade dos cuidados” de um trabalho que é, em muitos dos casos, invisível.
“Algumas visitas esporádicas apenas vêem o resultado final do trabalho, como um pico de um icebergue, sem valorizar ou compreender toda a exigência de prestação física de cuidados, de modificação das rotinas do dia dessa pessoa, do isolamento de que pode ter, sendo apenas uma das faces visíveis que é alguém que está cuidado, sentado num sofá numa hora de visita”, explica.
Apesar de tudo, embora muitas vezes a tónica se centre nos impactos negativos que são gerados a partir da responsabilidade de bem cuidar de alguém dependente, diz Hélder Pereira, “a verdade também há impactos positivos, como o facto de haver uma maior proximidade com as pessoas, a existência de uma sensação de gratificação por cuidar bem de alguém ou um aspecto moral de retribuir alguém – já que muitas vezes estamos a falar de alguém que tem uma convivência significativa connosco”.
Quanto às respostas sociais que têm vindo a ser concretizadas, como o estatuto do cuidador informal e o gabinete de apoio ao cuidador informal, estabelecido no passado mês de Novembro, Hélder Pereira destaca que “o facto de se começarem a dar passos para o conhecimento desta realidade e de se criarem as respostas que podem ainda ser limitadas pelo facto de serem muito recentes, que tocam nestes pontos” demonstra haver “preocupação com esta realidade” e aparenta ser uma forma de “valorizar o papel dos cuidadores informais na sociedade”, conclui.

                                   Joana Medeiros
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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