Instituições juntam-se para garantir refeições aos sem abrigo no Natal”

A Associação Novo Dia é uma das instituições nos Açores que presta auxílio e que trabalha na vertente de integração de pessoas sem abrigo e que se encontram perante cenários de grande vulnerabilidade.   
Hélder Fernandes, Coordenador da Unidade Móvel da Novo Dia, uma das valências da instituição, começa por destacar que a Novo Dia “intervém junto de 100 pessoas em situação de exclusão social grave. A nível de acolhimento temos actualmente 37 pessoas”.
O Coordenador da Unidade Móvel da Novo Dia considera que o número de sem abrigo tem vindo a diminuir nos últimos tempos.
“Em termos do acompanhamento que tem sido efectuado, pessoas na condição de sem abrigo que tem vindo a recorrer aos nossos serviços penso que tem existido uma ligeira diminuição. A média era sempre de 12 pessoas e neste momento estamos à volta dos 8. Em termos de acolhimento acaba por ser muito volátil”, afirma.
Uma outra explicação para esta diminuição de casos pode, segundo refere Maria João Correia, estar relacionada com a época do Natal que se aproxima.
“Normalmente nesta altura de Natal há uma diminuição e depois mais tarde há um aumento de pedidos de acolhimento. No caso das mulheres, as pessoas tentam aguentar durante o período das festas e depois normalmente esse pedido acontece depois das festividades”, realça a Secretária Geral da Associação Novo Dia.
Precisamente estes problemas familiares derivados aos comportamentos adictivos, constituem-se como um dos principais impulsionadores dos pedidos de ajuda.
“As pessoas fazem esses pedidos de acolhimento o porque existe uma saturação por parte da família, um ruptura familiar e as pessoas acabam por recorrer às instituições com vista a serem acolhidas por ter existido essa ruptura familiar”, destaca.
Hélder Fernandes confirma que a grande maioria dos pedidos de ajuda que recebem e das pessoas sobre as quais intervêm esta associação têm problemas relacionados com comportamentos adictivos.
“Há várias problemáticas associadas e uma delas é a questão dos comportamentos aditivos, álcool e outras substâncias. Não tem de ser necessariamente todas essas situações derivadas aos consumos, no entanto grande parte das pessoas que recorrem aos nossos serviços são pessoas com doença mental e com comportamentos adictivos (…) acolhemos as pessoas com comportamentos adictivos porque temos uma valência específica para essa população. O nosso Centro de Acolhimento de Emergência tem a particularidade de acolher pessoas que estão sob o efeito de substância e que podem permanecer lá”, explica.
O Coordenador da Unidade Móvel especifica ainda as valências que a Associação Novo Dia possui no presente.
“A nossa instituição tem 3 centros de acolhimento. Um direcionado para senhoras e menores, um outro para homens sem qualquer tipo de consumos e o Centro de Emergência que é para pessoas que têm consumos de álcool e substâncias e que estejam em condição de sem abrigo (…) Para além disso temos uma equipa de rua que, diariamente, faz as rondas por Ponta Delgada e que em situações de sinalização dirige-se à pessoa com o sentido desta ser acolhida por nós”, refere.
Sobre o período que se aproxima das festividades natalícias e de final de ano, Hélder Fernandes revela que este ano, devido à pandemia de covid-19, houve uma articulação das várias instituições ligadas a esta área para que se possam assegurar e garantir as refeições durante estas datas.
“Nesta época tem havido aqui articulação entre várias instituições com o objectivo de garantir que nestes dias e todos os dias, haja pessoas que possam beneficiar de refeições. A Associação costuma fazer um almoço no dia de Natal, mas derivado à situação actual de pandemia e não sendo possível realizar esse almoço, porque não conseguimos garantir o distanciamento social e todas as regras e orientações da Saúde, optamos por fazer algo diferente. Será atribuído um cabaz de Natal a todos os nossos utentes que têm acompanhamento externo. Para além disso serão assegurados nas ruas as refeições, quer no dia 24, 25, 26 e 27 e também no dia 31”, afirma. 
O Coordenador da Unidade Móvel da Associação Novo Dia refere igualmente a importância de existir essa articulação constante entre as várias instituições que trabalham nesta vertente social.
“Esta articulação tem vindo a acontecer durante todo o ano porque realizamos reuniões semanalmente. Este ano em particular houve o cuidado de fazermos aqui um calendário para garantir que todos esses dias seriam cobertos tendo em conta que será um fim de semana prolongado”, realça.
Sobre o caso de um utente que foi agredido recentemente nas imediações das instalações da Associação, Hélder Fernandes explica que este caso trata-se “de um utente que inicialmente não estava a ser intervencionado”. O Coordenador da Equipa Móvel explica ainda a instituição “continua a tentar essa intervenção” mas “havendo uma recusa por parte das pessoas tem de haver aqui um trabalho de relacionamento e isso pode levar algum tempo”. Hélder Fernandes explica que a instituição tenta servir de “mediador entre as pessoas que se encontram nestas situações e a própria comunidade”.
Também a sensibilização social é destacada por Hélder Fernandes como uma das vertentes essenciais para estas intervenções, explicando que muitos das pessoas sem abrigo sofrem muitas vezes de problemas mentais.
“Acredito que existam muitas pessoas sensíveis a essas situações. Acontece que as pessoas que vivem diariamente e que estão mais perto dessas situações sentem alguns constrangimentos. O nosso trabalho também vai aqui no sentido de sensibilizar essas mesmas pessoas que alguns sem-abrigo têm problemas do foro mental. Tentamos fazer um trabalho para que essa pessoa com problemas seja inserida na sociedade e isso leva algum tempo. É um trabalho que nem sempre é fácil”, realça.
Apontando para o futuro, a Novo Dia revela dois projectos que pretende implementar nos próximos tempos. O primeiro deles “é um trabalho de investigação que tem como objectivo realizar um estudo sobre as pessoas que se encontram na condição de sem abrigo a nível regional. Fazer uma caracterização das pessoas que se encontram nessa condição. Perceber o que tem sido feito, o que necessita ser feito e ouvir aqui, tanto a perspectiva dos profissionais como das próprias pessoas que se encontram nessa condição. É um projecto de investigação que decorrerá durante 2 anos”, especifica. Hélder Fernandes revela igualmente um outro projecto que consiste na realização de “formações dirigidas a pessoas que se encontram em situação de exclusão social grave. Destinado aos nossos utentes e aos que beneficiam das outras instituições e que fazem parte da Rede de que a Novo Dia faz parte”.
Maria João Correia, Secretária Geral da Associação, apela “à tolerância das pessoas. Somos uma das entidades que está no terreno a tentar minimizar a situação dos nossos sem abrigo, mas não podemos ser a única resposta”.

Projecto Casa dos Manaias
Outra das instituições que presta apoio aos cidadãos sem abrigo da cidade de Ponta Delgada é o Projecto ‘Casa dos Manais’, responsabilidade da autarquia.
Margarida Pais é a Chefe da Divisão Social da Câmara Municipal de Ponta Delgada e a actual responsável pelo projecto, começa por referir que são apoiadas “diariamente 22 pessoas que neste momento estão todas integradas em quartos”. 
A responsável pela Casa dos Manaias explica igualmente que a estratégia “tem por objectivo manter estas pessoas nas suas habitações para não haver muito contacto, muitos ajuntamentos. Isto faz parte das medidas de protecção que temos vindo a implementar”, afirma.
Para além destas 22 pessoas alojadas, os Manaias apoiam outras 15 pessoas “que estão em situação de sem abrigo e que estão a receber apoio ao nível de higiene e de alimentação”.
Relativamente à época de Natal, Margarida Pais confirma que este ano existirá uma parceria entre várias instituições que trabalham nesta área de forma a garantir que todos terão refeição durante este período.
“Fazemos isto para garantir que ninguém fica sem a sua ceia de Natal, nem o almoço de Natal. Toda a gente terá a sua refeição assegurada”, assegura.
A parceria que ocorrerá entre as várias instituições é algo destacado por Margarida Reis.
“Este trabalho em equipa e em cooperação tem evoluído muito positivamente. Acho que só poderia ser assim para bem dos utentes e da população que está em situação de sem abrigo ou de vulnerabilidade social. Penso que é uma obrigação que todos temos, enquanto responsáveis por este trabalho, trabalhar em conjunto e não de costas viradas. Se o trabalho for feito em parceira os resultados serão diferentes”, afirma.
A responsável pelo Projecto Casa dos Manaias fala sobre as mudanças que foram introduzidas por parte da instituição, lembrando o que está a ser feito para minimizar os riscos. 
“Obrigou a várias mudanças e durante este período já tivemos duas situações. Um dos casos foi um caso suspeito e noutro foi um confirmado. Isto obrigou a colocar todos os utentes numa situação de isolamento. Claro que isto originou alterações no funcionamento e nas actividades do Centro Ocupacional. Neste momento essas actividades estão muito reduzidas porque não podemos ter muita gente no mesmo espaço e, portanto, vamos tentando recebê-los em número reduzido e de forma alternada ao longo da semana”, explica.
Margarida Pais elogia ainda o comportamento e a compreensão dos próprios utentes perante as alterações que tiveram de ser implementadas.
“Temos feito algumas alterações, mas eles têm sido pessoas extremamente compreensivas e respeitadoras das regras que temos estabelecido. Ao contrário do que as pessoas possam pensar eles se sentirem respeitados também respeitam as regras. Às vezes precisam de um pouco mais de atenção e de algum carinho também”, realça.
Como maior dificuldade com que se depara presentemente, a responsável pela Casa dos Manaias aponta para a falta de espaço e explica porquê.
“Essas dificuldades têm a ver com o espaço físico. A Casa dos Manaias está localizada no centro da cidade. É um edifício antigo e que já não tem as dimensões que eram importantes para podermos fazer um trabalho mais diversificado e proporcionar mais actividades ocupacionais. Era importante aumentar a dimensão do centro ocupacional”, afirma.
Margarida Pais destaca igualmente o apoio que a sociedade civil tem prestado e disponibilizado à instituição.
“Temos tido a colaboração de muitas pessoas, de muitas instituições e de muitas lojas que colaboram connosco e que nos ajudam a proporcionar até algumas formações (…) Já temos recebido donativos de várias entidades, com materiais, por exemplo, para desenvolvermos alguns trabalhos. Portanto penso que as pessoas estão despertas e têm colaborado muito connosco”, salienta.
Margarida Pais admite que ainda se mantêm situações de sem abrigo nas ruas de Ponta Delgada apesar de os serviços estarem a trabalhar “no sentido de os retirar da rua, mas nem sempre é fácil fazê-lo”. A responsável pela Casa dos Manaias apela igualmente à colaboração da população no sentido de ajudar estas pessoas sem abrigo.
“As pessoas continuam a dar esmolas e enquanto isso continuar a acontecer é difícil trabalhar e motivá-los para que eles saiam dessa situação. São pessoas com dependências e quando estão a pedir, não o fazem para comer. As instituições asseguram as refeições. A esmola serve, infelizmente, para os consumos e enquanto eles conseguirem esse dinheiro na rua, não querem aderir aos apoios dados pelas instituições. Isso acaba por ser um obstáculo no trabalho com esta população”, afirma.      
                                  
                                  Luís Lobão   

                        

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Autor: CA

Categorias: Regional

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