Perfume “Aqua dos Açores” ou como cheirar o arquipélago num frasco com sustentabilidade

Desde 2008 que a italiana Cinzia Caiazzo decidiu com o marido, ter uma ligação mais forte com a ilha do Faial. Compraram uma casa de campo e passaram a dividir as férias entre a cidade de Florença e os Açores. Em 2016 quiseram algo mais definitivo e mudaram-se para o Capelo, mesmo junto ao vulcão dos Capelinhos.
Apostaram num negócio de agricultura, que já estão a tentar expandir, mas em 2018 Cinzia Caiazzo teve a ideia de se dedicar à perfumaria de nicho. Em 2019 idealizou inteiramente o projecto para se dedicar à perfumaria de pesquisa nos Açores, já que queria transpor para um frasco “os perfumes naturais que aqui se sentem”.
Para Cinzia Caiazzo “viver nos Açores é uma experiência muito diferente do que viver na cidade. Agora percebo a diferença. Se vou a Lisboa ou a outra cidade, percebo que há zonas com o cheiro de poluição, com o cheiro de carros. Aqui é possível perceber os perfumes naturais de uma maneira muito forte, em oposição ao que acontece no continente nas cidades”.
Então, teve a ideia de “contar” os Açores através dos perfumes e assim nasceu a marca “Aqua dos Açores”, uma marca que associa também, de certa forma, Itália aos Açores. Aqua porque “é uma tradição da perfumaria, é muito usada e temos muitas marcas de perfumaria que têm a palavra “aqua” e depois porque estamos no meio da água, no meio do oceano”, explica Cinzia. Escolhido o nome, foi criada a marca, foi registada e deu-se início ao projecto no início de 2020 para “dar a conhecer as ilhas através dos seus perfumes”.
Assim nasceu o perfume “Flores”, que conta a terra, e “Azul” que conta o mar, bem como perfumes para a casa que contam o vinho. “São perfumes dos Açores que tentei contar através dos produtos”, explica.
Mas “nunca foi feito um projecto de perfumaria de pesquisa, ou seja, de perfumaria artesanal de alto nível” nos Açores e por isso não foi possível concretizar todo o projecto no Faial. Cinzia confessa que pretendia “criar aqui um laboratório, que teoricamente seria possível, mas é um compromisso grande. Um laboratório de perfumaria não pode viver só com um cliente. Os laboratórios de perfumaria especializados, têm uma complexidade em termos de maquinaria, de locais, da base alcoólica. Por isso não seria possível”. No entanto, sendo italiana e havendo uma grande tradição, como em França, de “muitos séculos de perfumaria de nicho”, foi escolhido um laboratório italiano para concretizar as fragrâncias.
Cinzia Caiazzo começou por fazer um estudo sobre as plantas dos Açores, endémicas e não endémicas “porque para os Açores foram importadas muitas plantas, mediterrâneas, dos trópicos, ao longo dos anos, como uma alquimia de plantas, que aqui encontraram um habitat muito favorável”. Depois do estudo feito, foram escolhidas as que melhor se conjugavam e “foram criados estes perfumes com acordos olfativos específicos, a partir de plantas presentes no arquipélago”.
Para isso também foram usados óleos essenciais, destilados nos Açores. Primeiro de uma empresa do Pico, que foram usados nas fragrâncias já lançadas, e agora está já a ser estabelecida uma parceria com uma empresa de São Miguel “que está a destilar óleos essenciais biológicos de plantas dos Açores” e que serão usados na próxima produção e nas novas fragrâncias.
No fundo, Cinzia Caiazzo acredita que estes perfumes “Aqua dos Açores”, cujo logótipo é uma Rosa dos Ventos, “uma flor de muitas pétalas, uma magnífica síntese do passado e do presente, indicando não só um local de desembarque bem como tantas outras direcções”, são também um encontro de culturas diferentes “como a própria história dos Açores que quando foram descobertos eram ilhas se pessoas, que foram colonizadas progressivamente com povos de diferentes países”. Por isso Cinzia acredita que “Aqua dos Açores” também pode ser uma “homenagem à História, porque temos os Açores que são a inspiração, temos as plantas e os óleos, mas também uma especialização que não é dos Açores – porque não existe cá – e chega de outro país”, revela.

A que cheiram os Açores?
O “Flores” tem notas de saída: aquáticas, estragão; notas de coração: gardénia, pittosporo, flores de laranjeira; notas de fundo: almíscar branco, conteira. Com essências naturais de Néroli, Pittosporum, gengibre Kahili, Ylang Ylang, Tuberoso, Jasmim e Bergamota.
Já o “Azul” apresenta notas de saída: notas ozónicas, notas marinhas, bergamota; notas de coração: sálvia, madeiras, gerânio, lentisco, jasmim; notas de fundo: âmbar-cinzento, madeiras, davana, criptómeria, opoponax. Apresenta também essências naturais de Cryptomeria, Bourbon Gerânio, Salva Esclereia, Lentisco, Bergamota, Davana e Opoponax.
Nas fragrâncias para a casa, o “Vinhas Velhas Tinto” apresenta-se com notas de saída: vinho tinto, groselha; notas de coração: romã, rosa damascena; e notas de fundo: jasmim, almíscar. Com óleo de grainha de uva.
Já o “Vinhas Velhas Branco” apresenta notas de saída: vinho branco, limão, rum; notas de coração: notas verdes, néroli; notas de fundo: folha de violeta, âmbar-cinzento. Conta com óleos de sementes de uva.

Sustentabilidade
Para Cinzia Caiazzo este projecto só faria sentido tendo por base a sustentabilidade. “Como estamos a contar a história dos Açores, os Açores são um lugar que podemos considerar único no mundo. É um “hotspot” de biodiversidade mundial, é um lugar muito preservado do ponto de vista natural mas também cultural. Os Açores são dos açorianos. Parece banal mas não é. Em lugares com um turismo muito massificado, a situação é muito diferente. Aqui, felizmente, o isolamento dos Açores ajudou à preservação natural e cultural deste arquipélago”, conta.
Por isso o tema sustentabilidade “é fundamental”. Daí que os perfumes usem 90% de produtos de origem natural. “O álcool que utilizamos tem origem natural, é produzido da destilação de melaço, da cana-de-açúcar”, explica. Para a responsável pelo projecto a “naturalidade dos ingredientes percebe-se de uma maneira muito forte porque a qualidade é muito elevada. Depois, todos os perfumes são produzidos num pequeno laboratório artesanal, então a maior parte do processo de fabricação é manual”.
Os frascos também são minimalistas e são recicláveis, com tampa de madeira, para levarem os perfumes “naturais, veganos e cruelty free” e que não usam derivados de petróleo. “Utilizamos para o packaging um papel natural completamente reciclável, que chega de fontes sustentáveis com certificação FSC. Não utilizamos celofane. As nossas embalagens são brancas, não por ser mais delicado, mas porque eu tomei a decisão de não usar celofane para reduzir o consumo de plástico. O conceito da sustentabilidade é fulcral no conceito do branding”, explica.

Novas fragrâncias
Os perfumes “Aqua dos Açores” estão disponíveis na loja online da marca (https://www.aquadosazores.com) mas também em lojas especializadas como o El Corte Inglés ou as lojas d’A vida Portuguesa, na Mercearia dos Açores, e também em São Miguel no aeroporto e no Infante Real. Os perfumes também podem ser encontrados no Reino Unidos, Itália e Estónia, Letónia e Lituânia. Cinzia revela que antes da pandemia já começavam a receber vários contactos para representar os perfumes dos Açores e estava já a começar a ser criada uma rede de distribuição mas “com a pandemia tudo parou”.
Com a pandemia o trabalho é feito maioritariamente na internet, para divulgar a marca que passou o seu segundo ano de actividade em plena pandemia. Mas para Cinzia esta paragem das lojas físicas não implicou menos trabalho. “O que fiz foi trabalhar todos os dias, todo o dia. Sempre, sempre a trabalhar. Eu criei esta marca sozinha, eu sou sozinha, tenho apoio para a parte gráfica de design, para tudo o que é o projecto e a gestão, como a empresa é muito pequena, eu sou sozinha a fazer tudo”, explica.
Por isso também teve tempo para se dedicar aos novos perfumes que foram idealizados, projectados e criados no decurso de 2020 mas que só deverão ser lançados em Janeiro ou Fevereiro de 2021. “Já temos duas novas fragrâncias que são fantásticas e estão prontas, no nosso laboratório. Está tudo pronto, mas esperamos poder engarrafar no início de 2021”, refere.
Enquanto isso Cinzia Caiazzo vai continuar a trabalhar para dar visibilidade à marca e isso já começa a dar resultados. “Agora começamos a ter maior visibilidade na internet, porque influenciadores de diferentes países estão a apresentar os nossos produtos”, refere.
Todos querem saber “a que cheiram os Açores?” e Cinzia Caiazzo consegue responder a esta pergunta.

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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