Sócios-gerentes do restaurante O Museu apelam à diminuição de impostos para que a restauração continue a trabalhar

Obrigados a “mudar de táctica” devido à chegada da pandemia aos Açores, Roberto Botelho, Paula Botelho e Carlos Raposo estão, desde o passado mês de Março, empenhados em fazer sobreviver o projecto que abraçaram há cerca de 20 anos quando, em conjunto, abriram as portas do restaurante O Museu, homenageando o centro da cultura açoriana localizado mesmo à sua frente.
O esperado para 2020 seria “um ano para estoirar”, diz Roberto Botelho, tendo em conta o reconhecimento mundial que os Açores estavam a alcançar pelo turismo, temendo-se mesmo que não existissem condições para receber todos os visitantes devido à grande procura do destino até à chegada da pandemia; no entanto, a realidade é outra.
No caso específico d’O Museu, à semelhança do que aconteceu também com outros empresários, os sócios-gerentes – pela impossibilidade de entrarem também eles em lay-off e pela ausência de clientes – viram-se obrigados a aderir às linhas de crédito propostas para o sector para fazer face aos efeitos nefastos da pandemia na economia e também às moratórias.
Por esse motivo, sem vencimento desde Março, os sócios referem que se não fossem as moratórias não teriam possibilidade de pagar as contas que restam por pagar, referindo que, se por um lado, as ligações familiares podem ajudar a gerir melhor o dinheiro que entra em caixa, por outro lado podem significar a ruína da família, uma vez que quando algo corre mal todos são prejudicados, como actualmente.
De uma forma geral, mesmo reconhecendo os benefícios que o lay-off trouxe para garantir a manutenção do emprego, os sócios afirmam que foi a entidade patronal a mais prejudicada e aquela que foi obrigada a arregaçar as mangas sem ter muito tempo para pensar em formas criativas de gerir as empresas.
“Quem tem dinheiro ficou em casa, quem teve direito ao lay-off em casa ficou, quem beneficiou do Estado, beneficiou, mas a entidade patronal, que neste caso somos nós, não beneficiou. Deixou-se de pagar o funcionário que ficou em casa, correcto, mas não se ajudou a empresa porque não pudemos e fechar a porta, tivemos que trabalhar para facturar.
(…) Podia ter um espaço de manobra, um tempo para pensar ou para gerir o negócio se tivesse um funcionário a trabalhar para mim, mas neste momento não tenho e tanto eu como a minha esposa e o meu cunhado estamos cansados”, diz Roberto Botelho ao Correio dos Açores.

Diminuição de impostos 
seria fundamental

Do lado das soluções apontadas para a problemática em causa, os empresários salientam que – ao não existirem mais apoios financeiros para conceder – existem outras medidas que podem ser aplicadas para ajudar a restauração, nomeadamente a partir da diminuição de impostos.
“Se o governo não nos apoiar financeiramente então que reduza a Taxa Social Única (TSU) para podermos trabalhar, que reduza o imposto do IVA e que reduza o IRC para podermos salvaguardar-nos e nós chegaremos lá devagarinho.
Não posso é pagar uma TSU ao mesmo preço, pagar o IVA ao mesmo preço – é certo que eu vou ter que pagar o que facturei – mas não temos ajuda. O turismo não vai aparecer nem tão cedo, vai subir devagarinho mas não vai ser como era em Fevereiro ou Janeiro deste ano, era impossível. Posso dizer que facturei mais dinheiro em Janeiro do que facturei em Agosto. Eram meses fortes e Janeiro é uma época baixa. Agora não, agora está a ser difícil”, explica. 
Para Paula Botelho a esperança tem vindo a ser cada vez menor, partilhando que se sente muito preocupada ao “ver a restauração a cair sem conseguir ver uma luz ao fundo do túnel” com todas as limitações existentes actualmente, salientando que o facto de haver “dias bons” não tem sido suficiente para um regresso à normalidade mais definitivo.
Por outro lado, para que estes três sócios pudessem ter direito a mais algum apoio, teriam que declarar percas superiores a 40%, sendo que neste momento, quando em comparação com 2019, as quebras de negócio no restaurante rondam os 38%, algo que Roberto Botelho não pretende “aldrabar”.
“Estamos nós a dar a cara e as coisas vão caindo. A nossa sociedade não tem direito a nada, e para termos direito a alguma coisa o governo pede-nos para ter uma quebra de 40%, mas não podemos fazer isso porque a realidade não nos permite, temos que facturar todos os dias para ter algum benefício”, dizem.
 Conforme explicam, estas quebras reflectem sobretudo a ausência dos turistas, já que neste período a grande maioria dos clientes são locais, um tipo de cliente que, segundo afirmam os sócios, “sempre foi importante” e que faz d’O Museu o seu local paragem, sobretudo na hora de almoço.
Tendo esta preferência de horário em conta, os empresários resolveram fechar portas no horário de jantar entre segunda e quinta-feira, estando o restaurante disponível caso haja algum contacto prévio, conforme descrito à entrada do estabelecimento, sendo esta uma forma eficiente para diminuir algumas das despesas do restaurante.
Outra estratégia que os empresários se viram obrigados a utilizar para reduzir os custos no restaurante envolve directamente os seus fornecedores, acabando por comprar apenas aquilo que será gasto a curto prazo e cujos custos sejam suportáveis face à receita que entra.
“Com esta situação sou obrigado a recorrer ao mais barato. Antes via o meu armazém sempre carregado e com mercadoria para trabalhar e agora não, há menos quantidade e até o vinho é comprado à garrafa quando antes era comprado às caixas”, diz Roberto Botelho, sustentado por Paula Botelho que afirma que as coisas devem ser feitas “consoante as condições” existentes.
No entanto, a muito custo, Roberto Botelho acabou também por tomar uma decisão relativamente ao fluxo de clientes que surgia no restaurante com maior frequência durante o Inverno, nomeadamente as equipas desportivas a quem O Museu prestava serviço.
“Trabalho muito com o desporto no Inverno, mas este ano não me candidatei a nada porque o desporto vem para cá por um dia ou dois. Era um risco sempre que tinha que tomar, um pau com dois bicos, porque chegavam num dia, iam no outro e podia receber um telefonema depois de fazerem o teste a dizer para fechar a porta. Obviamente que perdi algum dinheiro, mas tive que salvaguardar a minha segurança e a segurança da minha empresa”, reconhece.
Os dois lados da medida 
‘Ponta Delgada à Prova’ 

Apesar de reconhecerem que a recente iniciativa levada a cabo pela Câmara Municipal de Ponta Delgada que coloca os restaurantes da cidade “à prova” é positiva, uma vez que para além as pessoas a frequentarem os restaurantes aderentes estes são reembolsados com 7,5 euros sempre que um cliente pede o menu registado na campanha, Roberto e Paula Botelho referem que, por outro lado, aderir a esta medida é triste, uma vez que significa também servir com menos frequência os pratos de que mais se orgulha. 
“(…) Aderir à iniciativa ‘Ponta Delgada à Prova’ é triste porque significa baixar a qualidade do meu serviço. Os 15 euros pagam o prato que eu faço, mas se eu quiser mostrar a qualidade do meu serviço com o bife à Museu, o bife tradicional à moda regional – um bife com 200 gramas –, ou bacalhau na telha não consigo. Por outro lado, é normal que o povo queira pratos baratos, e se eu tiver uma boa casa ao jantar com 15 euros por pessoa fico muito satisfeito nesta era de hoje”.
Sendo O Museu um dos restaurantes que mais recentemente aderiram ao desafio proposto pela Câmara Municipal, que pretende também colocar na ribalta as receitas regionais confeccionadas com ingredientes locais, no primeiro dia foram pedidos nove menus, número este que não considera mau.
Contudo, para além de muitas das pessoas não terem sequer interesse em verificarem a ementa completa que os restaurantes têm para oferecer, esta medida pode também vir a colocar um travão nas vendas dos pratos do dia, ou na tradicional comida de panela, que tem um custo maior “e que as pessoas não podem pagar”, diz Roberto Botelho.
De qualquer das formas, apesar de nos últimos dias dos anos as pessoas estarem por norma mais recolhidas nas suas casas, ainda mais num cenário pandémico como o que actualmente se vive, reconhece que esta é uma medida que irá “ajudar a dar uma volta nesta recta final do ano”.
Contudo, os empresários apenas acreditam que será possível “levantar a cabeça e alargar um bocadinho a corda quando chegar a vacina aos Açores”, uma vez que, na sua opinião, só nesse momento a população irá perder o receio de sair de casa e assemelhar-se à rotina que antes mantinha, até porque há muito para recuperar nos próximos anos em termos financeiros, conclui.

Joana Medeiros 
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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