Face a Face!... com Leonor Anahory

“É grave a situação de abandono dos idosos pelas próprias famílias e da violência praticada sobre eles”

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Leonor Anahory nascida na cidade de Ponta Delgada, na Ilha de S. Miguel, de uma família numerosa,  em que o dividir, partilhar era uma necessidade que acabava se tornando uma regra de casa, oportunidade para aprender a dar mais valor ao que se tinha, desenvolvendo, na minha percepção, uma consciência sustentável, proporcionando o crescimento de amar, onde o amor e as alegrias eram infinitamente maiores na sua dimensão.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social.
Foi nesta minha cidade natal, cheia de história e  encanto, que iniciei o meu ingresso na vida académica, onde realizei no Colégio de S. Francisco Xavier as minhas primeiras aprendizagens escolares ao nível da primária e parte do secundário, completando os restantes estudos  no Colégio das Oblatas em Lisboa, cidade moderna e cosmopolita, inspirando-me para um traçado de percurso profissional, pelas opções que fiz da minha formação que foram constando e enformaram o  meu curriculum existencial.
Com o curso de  Educadora de Infância pela Escola Superior de Educadores de Infância Maria Ulrich, ingressei numa especialização da área de Deficiência Visual Cegos e Amblíopes de 1971 a 1973 através da então Direcção Geral de Assistência do Ministério da Saúde em Lisboa, sendo, posteriormente, convidada para Orientadora Pedagógica do Instituto de Cegos Branco Rodrigues (na linha de Cascais ).
Diplomada, mais tarde, em Estudos Superiores Especializados em Necessidades Especiais pela Escola de Educação Superior de Lisboa, e com um CESE em Formação Pessoal e Social, estava de regresso à minha Ilha, com transferência para o Centro de Educação Especial dos Açores a acompanhar meu marido, Armando Anahory, que veio trabalhar no então Hospital de Ponta Delgada.
Com a criação da Escola Especial de Ponta Delgada, (em substituição do Centro de Educação Especial dos Açores,) e de acordo com a sua estrutura orgânica, fui eleita Presidente do Conselho de Escola. Um ano depois candidatei-me ao cargo de Directora da referida Escola onde permaneci no exercício destas funções por 10 anos, sendo também a Presidente do Conselho de Administração para os projectos Comunitários de crianças e jovens com Necessidades especiais.
Com a criação na Região do Centro de Recursos de Educação Especial, após extinção da estrutura anterior de Educação Especial, venho a exercer, mais uma vez, as funções de Directora deste mesmo Centro. Mas pedindo, tempos depois, a minha aposentação. 
Entrei em novo ciclo da vida, e dediquei-me, como o faço presentemente, em exclusividade à vida comunitária. Convidada para Diretora-delegada da Liga Portuguesa Contra o Cancro foi experiência humana na relação de inter-ajuda com o Outro, bastante enriquecedora. Enquanto isso, fui vice-presidente aquando da implementação da Associação de Paralisia Cerebral na ilha de S. Miguel.
 Fui experienciando diversas tarefas de cariz social, e já em 2007 integro a Direcção do GAP (Grupo dos Amigos da Pediatria do Hospital do Divino Espírito Santo), passando nos últimos anos ao papel de Presidente da Mesa de Assembleia Geral.
Assumi, durante cerca de uma década e meia, a função de membro do Rotary Club de Ponta Delgada, no qual fui, por largos anos, Delegada ao Portugal Rotário, Presidente para a Comissão Imagem e Comunicação, Directora de Protocolo e Presidente do clube por dois anos consecutivos, de 2016 a 2018.
Neste meu percurso de contexto sócio comunitário, o desafio da Associação Seniores de São Miguel mantém-se, e que abraço até aos dias de hoje.

Como se define a nível profissional?
Ligada às minhas opções de formação e, por conseguinte, de vida a que me disponibilizei a trabalhar enquanto membro activo da comunidade com ligação a várias associações humanitárias, tenho estado na defesa de diferentes Causas.

Quais as suas responsabilidades?
Mais do que o exercício das funções a que me reservei no plano profissional e social é o desejo constante a que me proponho na construção do bem Comum através da participação social e cívica.


Como descreve a família de Hoje e que espaço lhe reserva?
A família, como instituição social, tem passado por mudanças desde o modelo da sua constituição até ao provedor do seu sustento, considerando  as mudanças sociais e culturais que caracterizam a sociedade moderna.
O seu enfoque centra-se no indivíduo, na sua realização de felicidade.


Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
A família, na sua essência, é e  continuará a ser o núcleo básico e essencial de qualquer sociedade, assim como esta para a família.
Actualmente, a família encontra-se numa situação onde, normalmente, a tradicional, na sua orientação e estrutura não desapareceram, mas, onde também as novas dinâmicas não estão totalmente presentes e claras. Julgo ser mais a mudança social a predominar e a modificar a família. Penso que o papel da Escola, da Igreja, da Cultura são  determinantes por ideias e valores que vão sendo expostos.

Que importância têm os amigos na sua vida?
Tenho-os para criar relacionamentos de companheirismo, na base da confiança, do respeito e do carinho, como chave para o Bem-Estar.

Além da sua actividade o que mais faz?
Estendo o meu tempo à família, aos netos e amigos, no convívio, na actividade cultural, na procura da informação e do conhecimento dando qualidade de vida aos anos.

Que sonhos alimentou em criança?
Não consigo recordar um sonho em especial... O meu sonho, ontem como hoje, é o de viver cada dia com a saúde possível de melhor rentabilizar a dádiva da vida

O que mais a incomoda nos Outros?
Ver e constatar as grandes desigualdades sociais entre as pessoas, no acesso à saúde, ao nível da pobreza, na falta de respeito pelo indivíduo em todas as suas circunstâncias, naquilo que  é do mais elementar no que respeita à dignidade da pessoa.

Que características mais admira no sexo oposto
No sexo oposto (ou não), a integridade aliada à inteligência.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Gosto de ler, mas não tenho livro de eleição porque, ao longo da vida, muitas  obras literárias com diferentes temas foram apreciadas.
Hoje, leio, de forma reflexiva “O Pequeno caminho das Grandes perguntas” de José Tolentino Mendonça.

Como se relaciona com as redes sociais?
Relaciono-me bem e aprecio como a comunicação flui sem barreiras. Passamos de uma sociedade fechada para uma sociedade aberta.  Precisamos, apenas, de filtrar  o que de facto é verdadeira informação.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
O homem, pela sua natureza, é um ser com enorme capacidade de se  adaptar a todas as situações. Assim, como cresci e vivi por largo tempo sem as tecnologias de hoje, conseguiria, pois, viver sem as mesmas. Certo é que estas tecnologias são facilitadoras da nossa vida em sociedade, com especial ênfase para a comunicação e têm grande impacto na vida das pessoas.

Costuma ler jornais?
Sim, diariamente. Quase obrigatório.

O que pensa da política? Gostava de ser um participante ativo?
A política existe para servir e garantir o bem comum, infelizmente, muito assistimos em serviço de interesse próprio.
Em tempo de eleições, ao utilizar o meu voto na urna, estou a ser um participante activo, assim como, através do meu quotidiano, na  participação na vida da comunidade.

Gosta de viajar? Que viagens mais gostou de fazer?
Viajar,   às vezes um mal necessário para quem é ilhéu. Dispensando tanto quanto possível o avião, se possível, alternativa ao barco.

Quais são os seus gostos gastronómicos? e qual o seu prato favorito?
Opto, sem dúvida, pela gastronomia açoriana, sendo o prato favorito o cozido das Furnas pelo seu sabor único e ingredientes.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
 Que a Organização Mundial de Saúde declare a pandemia em vias de  extinção.

Se desempenhasse um cargo governativo descreva uma das medidas que tomaria?
A criação de uma Comissão de Protecção aos Idosos à semelhança do que existe para os Menores.

Qual a máxima que a inspira ?
“O Futuro dependerá daquilo que fazemos no Presente”  de Mahatama Gandhi.

Em que época histórica gostaria de ter vivido?
Viver a actual época tem sido um privilégio.

É sensível aos problemas da pobreza no geral e, de forma particular nos Açores. Que medidas entende serem mais oportunidades para se debelar este flagelo?
 Voltamos aquilo que andamos sempre a defender, a Educação, a Formação e Trabalho em todas as frentes.
Qual o papel que a mulher desempenha e deve desempenhar na sociedade?
A mulher tem vindo a desempenhar diversos papéis ao mesmo tempo, como o de mãe, esposa, mulher profissional, cidadã e, dada a sua natureza, no mais comum dos contextos familiares, terá de os conciliar em qualquer sociedade, inclusive na açoriana.

Ainda há muita violência doméstica escondida nos Açores? O que mais se pode fazer para levar as vítimas e vizinhos a denunciarem os maus tratos? 
Infelizmente, através dos meios de comunicação social, vamos constatando que ela existe em grande número. A APAV na Região tem tido um papel importante na protecção das vítimas, mas, considero que seria também importante desenvolver campanhas de sensibilização e de formação na comunidade a informar dos procedimentos para quem precisa de denunciar.

Há cada vez mais idosos a viver sozinhos nos Açores, uma situação que se agrava com a pandemia. Em sua opinião, o que deve ser feito para aproximar mais a sociedade dos idosos?
No actual contexto da pandemia em que vivemos, pelas normas impostas ao distanciamento físico, pelo grupo de risco considerado, o isolamento está a ser alimentado, agravando-se a existente Solidão e perda de qualidade de vida associada a baixas reformas  e às questões da saúde mais fragilizada nesta etapa da vida com as dificuldades do acesso aos cuidados médicos, aos espaços e edifícios públicos, nos transportes colectivos.
No aspecto social, grave é a situação de abandono dos idosos pelas próprias famílias e da violência praticada sobre eles.
Clama-se uma Sociedade para Todos e, neste contexto, pretende-se políticas públicas, que visem a plena realização do direito de todas as pessoas de desfrutar, ao máximo possível, de saúde física e mental promovendo a independência, a capacitação dos idosos e incentivar para que possam participar plenamente na vida cultural e social, nos processos de decisão política, no acesso ao conhecimento.

O que se pode fazer para manter os idosos activos?
Considerando que o envelhecimento é um processo individual, diferencial, altamente complexo e que as sociedades contemporâneas estão envelhecidas, em que Portugal felizmente não foge à regra, este aumento da longevidade introduz renovados desafios à sociedade e requer um outro OLHAR sobre as pessoas mais velhas de idade para que tenhamos sociedades mais inclusivas.
Neste pressuposto, exigem-se mudanças individuais e em grupo, o de desafiar os estereótipos negativos que se coloca em torno do envelhecer, incentivando a interacção social e ou participação na comunidade em que cada um de nós, os mais velhos, sejam agentes da mudança que se pretende, promovendo a sua imagem social mais valorizada com melhor expressão de simpatia e de sabedoria e do valor criativo em que a Comunicação Social poderá desempenhar um papel reforçado como  precursora desta mesma mudança.
Esta mudança exige a participação na sociedade, onde devem ser promovidas mais iniciativas, criar mais estratégias proactivas de interacção social com as diferentes gerações, constituindo uma forma de intercâmbio de conhecimentos, valores e produtos culturais, reconhecendo a pessoa, como capaz e actuante ainda no processo político e na mudança positiva das sociedades.
Uma sociedade para Todas as Idades

Quais os projectos da Associação Seniores de São Miguel para 2021?
 A Associação Seniores de São Miguel (ASSM), Instituição de Solidariedade Social de fins não lucrativos, foi reconhecida oficialmente em 2017 como Pessoa Colectiva de Utilidade Pública. A nossa dinâmica institucional assenta num exercício de diálogo permanente e participativo com a sociedade em geral. Organizada por Programas e Projectos de Intervenção Comunitária para os quais estabelecemos parcerias e protocolos promovendo boas sinergias na sua concretização. Trabalhamos em áreas diferenciadas entre si suportadas em Comissões Especializadas e Coordenadores, sendo que o nosso instrumento de trabalho é o Voluntariado.
Para 2021, daremos continuidade aos objectivos propostos no âmbito do programa do Zero Desperdício em estreita colaboração com a Câmara Municipal de Ponta Delgada, Junta de Freguesia de São Pedro e Centro Social de S. Roque; Associação Terra Verde e Servicater.
Outro programa que esta associação desenvolve com protocolo entre ASSM e RRCCI, designado por Voluntariado na Saúde na Rede Regional de Cuidados Continuados Integrados, abrange três grandes projectos: 1. Voluntariado  na relação doente/ família;  2.Solidão, respostas presentes, com sessões culturais, passatempos, havendo um já na sua 1.ª edição Passatempo Comunicar com vista a estimular a capacidade cognitiva;  3. Humanização de Espaços, com o envolvimento da sociedade em geral, sensibilizando a mesma para a inclusão desta população.
Desenvolvemos o nosso Banco de Equipamentos de Ajudas Técnicas que tem servido a Ilha de S. Miguel.
Em curso, o projecto da Literacia em Saúde,   em parceria com a Unidade de Saúde da ilha de São Miguel, com a participação de 16 médicos do Internato de Medicina Geral e Familiar e um em Ciências de Nutrição, e  Escola Superior de Saúde da Universidade dos Açores.   Estes médicos voluntários, após a sua constituição em grupo, identificação de tópicos, planeamento e apresentação dos temas em público, realizaram formação, capacitando-os com métodos pedagógicos e comunicação em grupo. Com a chegada da pandemia, e sendo que os nossos instrumentos previstos seriam à base de lares, centros de convívio, etc., propomos o desenvolvimento dos temas junto da população sénior em outros contextos sociais, através da formação digital e da Comunicação Social.
E, vamos manter o nosso programa cultural que tem a preocupação de criar e oferecer espaço de divulgação do “saber” e da “actualidade” baseado no conhecimento científico e tecnológico.
Também em desenvolvimento, daremos continuidade ao projecto de Artes Visuais, Prémio Medeiros Cabral  instituído por esta associação em 2012, em estreita colaboração com as Escolas Secundárias nas quais se lecciona a área das artes visuais e com o Teatro Micaelense. Envolvemos, sob o ponto de vista geracional, toda a sociedade, porque põe em diálogo, alunos, professores e seniores.
Em tempo de pandemia, pautados pelas restrições impostas, continuamos o nosso contributo activo, disponibilizando-nos numa união de esforços às práticas de acolhimento com o “Outro”, orientados pelo princípio da participação cívica e da responsabilidade social numa sociedade de hoje, mais desigual e instável. Esta é a nossa abordagem enquanto associação. 
Defendemos uma cidadania activa na base da solidariedade em que o voluntariado, na sua dimensão fraterna, apoia e sustenta uma cultura de responsabilidade partilhada assumindo-se como expressão de uma cidadania solidária.
                                                   João Paz

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Autor: CA

Categorias: Regional

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