Há dois marinheiros açorianos actualmente em comissão no NRP António Enes

“Saí de Santa Maria com uma mochila às costas e com um saco na mão à procura de uma aventura”, relembra Cabo Eddie Figueiredo

A bordo do NRP António Enes encontram-se neste momento dois açorianos, um deles nascido e criado em São Miguel e outro, o mais velho, nascido nos Estados Unidos da América, filho de pais marienses que depois de alguns anos a viver “o sonho americano” se mudaram de volta para a ilha de Santa Maria.
Foi precisamente por ter voltado para a terra dos pais em tão tenra idade, apenas com quatro anos de idade, que Eddie Figueiredo, hoje com 41 anos de idade, considera a ilha de Santa Maria como a sua terra, afirmando por isso que é “cagarro” e, acima de tudo, açoriano.
“Os meus pais são da ilha de Santa Maria, entretanto o meu pai já faleceu, mas eles emigraram para os Estados Unidos da América e eu nasci lá com o meu irmão. Voltei com quatro anos de idade, em 1983, cresci em Santa Maria e é lá a minha terra. Se me perguntarem de onde sou digo sempre que sou açoriano, sou cagarro”.
Em relação aos Estados Unidos permanecem apenas as memórias das férias e de alguns momentos passados em família, mas aquele é um país que “não lhe diz nada”, ou que pelo menos não fala tão alto como os Açores.
Depois de amealharem algum dinheiro na América, os pais de Eddie Figueiredo conseguiram então regressar a Santa Maria, onde compraram uma pequena embarcação de recreio onde o agora Cabo na Marinha Portuguesa passou vários momentos ligados ao mar, sobretudo no que dizia respeito à pesca ou à caça submarina, actividades que também contribuem para que se sinta um verdadeiro ilhéu com uma grande conexão com o oceano.
Aos 18 anos de idade decidiu ingressar na Marinha Portuguesa como voluntário, tendo em conta que teria que fazer o Serviço Militar Obrigatório, por pensar que esta seria uma forma de incluir “alguma aventura” na sua vida, decisão esta que afirma não se ter nunca arrependido de ter tomado.
Logo de início chegou a fazer quatro comissões nos Açores, entre os anos de 1998 e 2001, cada uma delas com três meses de duração, que de alguma forma o faziam sentir-se também mais perto de casa, embora tenha depois passado alguns anos a desempenhar funções em terra, longe do mar.
“Ao fim de uns anos em terra surgiu novamente a oportunidade de embarcar e não pensei duas vezes, embora não sejamos nós a decidir, fiz tudo por tudo para conseguir voltar a uma corveta para regressar aos Açores, para voltar a estar na minha terra e ver a família e os amigos, para estar no meio onde me sinto bem, ou seja, aqui nas ilhas, em qualquer uma delas”, diz.
Actualmente, tirando o tempo em que se encontra no mar, o Cabo ‘açoriano’ conta que a sua vida se divide entre Portugal continental – onde vivem os filhos e a actual companheira –, pelo sul de França – de onde é natural a companheira – e também por Santa Maria, local privilegiado pela família para passar as suas férias sempre que possível.
“Nas férias, sempre que posso, damos um saltinho a Santa Maria para os meus filhos gostarem, apreciarem e terem aquilo que eu tive na minha infância em Santa Maria”, diz. 
Contudo, o simples facto de fazer uma comissão nos Açores conta (quase) como umas férias, sendo que apesar de existir a ausência da família, e apesar de haver horários, regras e tarefas para cumprir, estar em comissão nos Açores “é uma lufada de ar fresco”, sobretudo quando tem oportunidade de estar em Santa Maria alguns dias e poder visitar a família e estar “em casa”.
Quando decidiu ingressar na vida militar, começando por estar seis anos e quatro meses na Escola Naval e tendo depois seguido para a Escola de Tecnologias Navais, adianta que não havia tanta informação como aquela que hoje existe, acabando por isso por se ter colocado no meio de uma grande aventura.
“Na altura não havia muita informação, fui um bocado à descoberta do que não sabia, foi uma aventura. Saí de Santa Maria com uma mochila às costas e com um saco na mão à procura de uma aventura. Não sabia que especialidades ia fazer ou quais seriam as minhas funções, não conhecia ninguém e hoje em dia tenho amizades com 22 anos que mantenho até hoje. Podemos estar um ano ou dois sem nos vermos, mas se nos encontrarmos é como se nos tivéssemos visto ontem”, relembra.
Ao longo dos anos em que está na Marinha Portuguesa, relembra que as experiências mais marcantes estão relacionadas com “algumas tempestades e algumas buscas salvamentos em articulação com a Força Aérea”.
No que diz respeito à comissão actual, refere apenas que esta está a correr bem e que é também uma comissão um “bocadinho atípica”, uma vez que com a existência da Covid-19 não é possível “sair à vontade, passear, ir a um restaurante ou a um sítio qualquer”.
Quanto às características que, na sua opinião, favorecem um bom marinheiro, Eddie Figueiredo refere que é necessário ser “um indivíduo cumpridor, trabalhador e corajoso”, tendo em conta as situações adversas e imprevisíveis com que estes militares se deparam por vezes.
Durante o próximo ano e meio o Cabo responsável pela escala do pessoal na guarda do navio, paioleiro e encarregado de um dos alojamentos onde a guarnição pernoita entre outras funções que acumula, permanecerá em comissão na corveta NRP António Enes, prevendo-se que depois disso volte para uma comissão em terra, embora não consiga prever onde ou qual.

Missões de busca e salvamento e combate ao narcotráfico são as que dão mais adrenalina

Também a bordo da corveta NRP António Enes encontra-se o Marinheiro João Ponte, micaelense com 21 anos de idade, cuja especialidade é a de despenseiro, sendo por isso um dos responsáveis pela alimentação da guarnição e pelo serviço de mesa.
Apesar de não ter mudado a sua vida para Portugal continental com o único propósito de ingressar a Marinha Portuguesa, certo é que aos 18 anos de idade este jovem açoriano estava decidido a alcançar um objectivo para o qual tinha sido incentivado a concretizar por via de alguns amigos que também acabaram por seguir a carreira militar.
Por esse motivo, mais do que a ligação especial com o mar que é comum a praticamente todos os açorianos, o que mais o incentivou a perseguir este objectivo prendeu-se com as histórias contadas pelos amigos mais velhos que, de alguma forma, o incentivaram a servir o seu país e a sua região.
“Foi por causa disto que ingressei na Marinha, estamos a falar de amigos mais velhos cerca de quatro ou cinco anos mas que já tinham experiências para relatar. Fui para a escola de Fuzileiros fazer o recrutamento durante cerca de um mês e depois fui para o curso na Escola de Tecnologias Navais que são sensivelmente nove meses de curso até fazermos o estágio em alguma unidade Marinha e destacarmos para a nossa unidade”, explica.
Depois de concluída a sua formação, depressa lhe surgiu a oportunidade de embarcar nesta corveta, relatando que a experiência a bordo tem sido “uma boa experiência” apesar “dos dias mais difíceis e de estar longe de casa, da família e dos amigos”, embora tenha agora a possibilidade de passar o Natal em conjunto com a maior parte da sua família, “se tudo correr bem” até lá.
Em relação ao tipo de missões que mais o marcam, João Ponte realça as missões de busca e salvamento e as missões de combate ao narcotráfico, uma vez que são aquelas que “dão um pouco mais de adrenalina e em que nós realmente vemos que não estamos cá só por estar, estamos a fazer alguma coisa”.
Entre a missão que mais o marcou até hoje, relembra que foi uma que ocorreu no Algarve, quando o navio em que se encontrava foi chamado “para resgatar duas pessoas que estavam num iate que começou a arder devido a problemas nos motores, e tivemos que levá-los até terra”, adianta.
Nos Açores, por outro lado, a comissão tem sido mais tranquila até ao momento, havendo apenas a destacar “um pouco de mau tempo no trânsito do Faial para São Miguel”, sendo que o mar dos Açores se afigura como “um mar complicado porque tanto não tem ondulações como, de um momento para o outro, está mesmo mau tempo”.
Apesar de satisfeito com o rumo da sua vida profissional actualmente, não tendo sentido grandes surpresas ao nível do seu percurso porque “sabia exactamente ao que vinha”, João Ponte pretende entrar em breve para o curso de sargentos, no qual poderá ingressar dentro de três anos, depois de concluir o Curso de Promoção a Marinheiros.
Joana Medeiros

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Autor: CA

Categorias: Regional

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