Cátia Martins, psicóloga, quer conquistar o espaço literário açoriano

“A psicologia é uma bênção nesta altura de pandemia por termos conhecimento científico para tratar das pessoas”

Correio dos Açores:  “O amor no meio do caos” - Como surgiu este livro?
Cátia Martins: Este livro surgiu depois de participar no Festival de artes AzoresFringe em 2015. Estava, na altura, a escrever uma novela e em simultâneo um texto que compreendesse o tema “Pedras Negras” para submeter ao concurso. No entanto, sendo eu insatisfeita por natureza, utilizei a novela ainda em estado precoce e atribui-lhe um final mais ajustado ao tema proposto pelo festival. Deixei de lado o texto que fiz para esse fim. Após o concurso, os júris confessaram que gostaram muito do que escrevi e incentivaram-me a publicar aquela história. Fiquei muito reticente com esta ideia, até porque achava que apenas aquele texto formaria um livro muito pequeno. Daí ter surgido um livro com quatro contos, sendo o segundo conto o que iria submeter inicialmente a concurso. 

Onde foste buscar a inspiração para as tuas histórias?
Eu nunca sei encontrar um único ponto da minha inspiração, mas sei que a música, histórias de vida, outros livros, filmes e principalmente desejos meus de criar novas vidas como escape à realidade são fatores impulsionadores para a minha inspiração. 

Quando te apercebeste da tua apetência pela escrita?
Já é algo muito antigo, que acabo por pensar que sempre fez parte de mim. A minha professora primária elogiava as minhas criações e eu adorava as aulas de português desde pequena. Em todo o meu percurso escolar a criação de textos ajudava-me a ter melhores notas nas frequências/testes. Tenho letras de música escritas desde os meus dez anos. A minha primeira história completa (sem ser relacionada com a escola) remonta a 2004, quando tinha apenas 14 anos e fala sobre uma adolescente pobre que se tornou numa princesa.  

Consideras que a escrita faz parte de ti?
Completamente, não consigo dissociar a minha vida da escrita, não me sentiria completa. Até porque em momentos mais tristes a escrita foi sempre a minha companhia. Parece algo solitário, mas traz-nos tanta magia à vida. E por isso criei há muitos anos um blog para poder partilhar o que escrevia. 

Conta-nos um pouco da história da Natalie?
Em primeiro lugar gostava de explicar a escolha deste nome que surgiu como dedicatória à minha avó, Natália. Decidi que a personagem principal teria o seu nome como forma de agradecimento pela mulher fantástica que foi. Natalie é uma jovem negra que nasceu em um tempo complicado para pessoas com a sua cor de pele. Esta personagem e toda a sua história surgiram para mostrar às pessoas as dificuldades que muitas pessoas passaram há não muito tempo atrás, mas com uma pitada acentuada de romance e aventuras que esta jovem assumiu ter em prol de uma causa, em prol do amor. Natalie representa o amor em várias vertentes: o amor romântico, o amor familiar, amor próprio e amor na amizade. É importante perceber que Natalie não é um simples personagem de um livro, Natalie na verdade é amor com muitas das suas características menos positivas e as mais positivas.

A nossa sociedade atual é racista?
Ainda existe racismo, infelizmente em certos momentos ele acaba por surgir. Mas é importante ter em conta que o mesmo não é só direcionado de uma pessoa branca para uma pessoa negra, mas também vice-versa. Acredito que o racismo ganhou uma proporção de vingança que quer combater a injustiça cometida em outros séculos. Mas não se deve tratar de uma “desforra”, neste momento deve-se tratar de igualdade. A verdadeira igualdade. Normalizar a diferença cultural, as diferentes cores e as diferentes religiões. Se as pessoas são capazes de normalizar que existem diferentes tipos de cores de roupas, por exemplo, porque não normalizar as cores de pele? Acredito que se poderia fazer mais para que o racismo passasse a ser realmente passado e apenas falado nas aulas de história, criando indignação a quem ouvisse.

Na sociedade atual ainda predominam as “Belle” da tua história?
Sim, existem. Vemos isso nas notícias, no dia-a-dia, deparo-me com “Belle’s” por todo o lado. O preconceito aparece vestido de várias formas, muitas vezes como um soldado da tropa com uma roupagem que camufla. Ele existe e precisa ser trabalhado, para que “Belles” deixem de existir.
Achas que a sociedade é injusta?
Não quero considerar que seja injusta, mas sim considerar a existência da falta de conhecimento sobre as coisas. Se reeducarmos um grupo, por exemplo, de homofóbicos, através de um programa bem estruturado, acredito que grande parte deste grupo iria perceber melhor o que é ter outra orientação sexual e acabar por integrar a informação e, possivelmente, aceitar. Pelo menos quero acreditar que sim. Isso serve para a homofobia, serve para pessoas racistas, entre outras temáticas ainda tabu. Portanto, não é injustiça a consequência do desconhecimento destas pessoas é que acaba por proporcionar injustiças. 

Como foi que o público acolheu o teu trabalho editorial?
As pessoas que compraram o meu livro deram-me sempre feedback positivo. Fiquei feliz por isso, afinal estou sempre insatisfeita com o que faço. Em geral gostaram por ser um livro que conta quatro histórias e que abrange temas importantes que apesar de, na maioria, se passarem há muitos anos, continuam actuais. 

Quais as tuas emoções ao passares para a escrita o que te vai na mente?
Sinto o “arco-íris” de emoções. É engraçado porque a escrita provoca emoções, tal como as minhas emoções acabam por provocar a escrita. Estou a escrever de momento oito livros em simultâneo, no entanto, se estou num dia mais triste ou calmo vou decerto abrir uma das histórias que estou a escrever que estejam dentro do drama, por exemplo. Se estou em um dia mais alegre ou agitado abro um dos meus textos mais alegres. No entanto ao escrever e no desenrolar da história vou passando por várias emoções, consoante o que as personagens estão a passar. 

Pretendes conquistar o teu próprio espaço no mundo literário açoriano?
Pretendo sim, mas acredito que não seja fácil. Temos grandes escritores por cá e pessoas que  conseguem dedicar à escrita mais tempo do que eu. Como trabalho em dois locais distintos, estou no conservatório, estou em aulas de guitarra, estou a ingressar numa pós-graduação e faço parte da direção de uma associação de jovens é complicado arranjar tempo, atualmente, para uma das minhas grandes paixões a escrita. Mas como é algo que não consigo deixar para trás, de momento estou focada na escrita de letras de músicas para alguns músicos de cá, ainda nada oficial, só a tentar criar algo compatível para três grupos diferentes. Tenho criado letras de músicas para os géneros musicais Funk Rock, fado, rock alternativo e pop.

A luta pelos direitos individuais já foi ganha?
Ganha não, mas tem ganho espaço para a vitória. Nada vem de forma fácil, mas com o tempo temos conseguido vincar os direitos individuais. Parece que em tudo na vida as coisas vão acontecendo de forma lenta para ir havendo uma integração na consciência acerca das mudanças. Afinal, creio que ninguém, nem nada, muda de um momento para o outro. Tudo tem o seu tempo, até direitos que são visivelmente lógicos de serem considerados indispensáveis. 

Qual é o teu próximo livro?
Difícil escolher um dos oito, mas tenho duas histórias que gostaria de publicar. Uma que acabará por dar lugar a uma trilogia sobre tráfico de droga e outra sobre Maria, uma guarda prisional que passa por aventuras muito engraçadas. Este último foi lido por quatro pessoas que estavam curiosas, que adoraram e incentivaram a publicar. No entanto, publicar em Portugal é difícil, ou é muito caro ou há muita concorrência nas editoras que não cobram a edição. 

Como tens encarado esta pandemia?
Tem sido difícil, pois lido com as consequências da pandemia sobre a minha vida como muitas outras pessoas, e acabo por ter utentes que foram afetados negativamente também pela pandemia. No entanto sou muito positiva e aproveitei sempre para dar o meu melhor com as pessoas que me pediam ajuda, com a minha família e amigos, aproveitei para ler mais, para estudar mais, para crescer como ser humano. Fiz uma pausa da pressa, do stress do dia-a-dia. A pandemia mostrou o pior, mas o melhor que há no ser humano e é nisso que nos temos de focar. Encaro a pandemia como um momento para vermos que somos tão frágeis, tão vulneráveis que não vale a pena desperdiçarmos o nosso tempo com coisas que não nos fazem bem e aos outros. 

A psicologia é uma mais valia neste período pandémico?
A psicologia é uma bênção nesta altura. Termos conhecimento científico para cuidar das pessoas em situações de crise como foi esta pandemia. E tenho visto tantas pessoas a socorrerem aos serviços por este motivo, e no acompanhamento a algumas pessoas tenho visto uma melhoria extraordinária. A psicologia é importantíssima, a saúde mental deveria ser também um foco a par da medicina. Ambas tratam da saúde, ambas ajudam as pessoas, ambas cuidam. São ciências credíveis que apresentam resultados. Espero, não por estar na área, mas por acreditar na psicologia que haja uma maior atenção, por parte de entidades competentes, relativamente à saúde mental. Acho que já é um tema tão debatido, cada vez mais pessoas procuram psicoterapia e a quem de direito continua a não incentivar esta área. 

Qual o teu maior desejo para este Natal?
Não gosto de ser cliché, mas sinceramente gostaria de poder ver as pessoas felizes e bem. Gostaria de poder saber que os animais eram bem tratados, com dignidade. Gostaria que o mundo mudasse nesse sentido, nem que por magia. Colocando os meus pés no chão, o meu desejo é que haja uma vacina que seja eficaz para controlar esta pandemia. Muitas pessoas perderam entes queridos neste último ano devido ao covid-19, seria maravilhoso que não houvessem mais mortes, pelo menos, por este motivo. 

Como é o teu dia a dia?
O meu dia é muito preenchido. Trabalho a trinta quilómetros de casa, depois de sair do trabalho – de segunda a quinta – tenho sempre atividades (escrita, conservatório – Formação Musical, aulas de guitarra, dedico-me a outro trabalho que tenho, tenho projetos a serem realizados na associação onde faço parte, frequento um curso, trabalho num programa de competências sociais que estou a aplicar nos Fenais da Ajuda a um grupo de jovens) e, claro, tempo para a minha relação amorosa, para a minha família e amigos. Gostaria de ter mais tempo, 24 horas não chegam. 

Porque decidiste estudar Especialização Avançada em Psicologia do Desporto?
Formei-me no curso tecnológico de desporto há muitos anos, e foi neste curso que aprendi a amar a psicologia. Ingressei em psicologia anos depois e não podia deixar a minha paixão pelo desporto desvanecer. Certo que o curso de desporto já tinha acontecido há muitos anos, já não estava numa equipa de futebol (estive na União Micaelense) e também, por problemas de saúde, tive de deixar a arbitragem. Mas nunca senti que deveria deixar esta vertente e estava sempre latente a vontade de tirar psicologia do desporto. Quero mais tarde envolver-me em uma equipa desportiva como psicóloga e ter também espaço em um ginásio. 
António Pedro Costa
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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