Filipe Machado – Director Técnico da Cáritas em São Miguel

“Faltam-nos meios para a aquisição de viaturas de transporte de utentes e de mercadorias”

Quantas valências possuem na ilha de São Miguel?
A Cáritas da Ilha de São Miguel de hoje é muito diferente da de há uns anos, tendo alargado e diversificado a sua intervenção junto das pessoas carenciadas, nomeadamente ao nível das suas respostas de acolhimento. Posso dizer que, à parte do serviço técnico de atendimento e acompanhamento social que é talvez a resposta mais conhecida da Cáritas, ela conta hoje com um Centro de Acolhimento Temporário para pessoas em situação de sem abrigo. São cerca de 30 camas. Duas residências comunitárias com o total de 13 camas e um Centro de Recursos de Apoio a Emergência Social que canaliza doações da comunidade em geral para famílias desfavorecidas. Estamos a falar especialmente de mobiliário e vestuário. Para além destas respostas, convém relembrar que esta instituição gere um Centro de Actividade de Tempos Livres, localizado na Avenida D. João III que serve de apoio a diversas escolas na cidade de Ponta Delgada. Temos ainda um programa ocupacional “Terra com Vida” que visa sobretudo o treino de competências pré-profissionais na área da horticultura. Temos ainda um programa de recuperação habitacional em parceria com a Secretaria Regional da Habitação. A Cáritas de hoje é uma instituição bastante diversificada em termos de repostas e não se cinge àquela ideia tradicional de distribuição de cabazes junto das pessoas que têm alguns problemas e mais carenciadas. 

Quantas pessoas deram entrada 
nestas  valências em 2020?
Temos aqui um Centro de Acolhimento Temporário que é dirigido para pessoas em situação de sem abrigo, que é o edifício na zona do Paím inaugurado há cerca de 2 anos. Durante este ano deram entrada 17 novos utentes em regime de acolhimento e que são previamente sinalizados pelo Instituto de Solidariedade Social dos Açores (ISSA). Dessas 30 camas disponíveis tivemos uma ocupação média em 2020 na ordem dos 79%. Este número é assim porque foi necessário definir-se alguns quartos de isolamento no contexto covid. Esses quartos tinham de estar desocupados em permanência caso surgisse alguma situação que felizmente, até hoje não surgiu. Esta é uma estrutura dirigida para pessoas do sexo masculino que ficam aqui durante o período máximo de cerca de 1 ano e que depois têm a possibilidade transitar para uma residência comunitária. São casas que a Caritas tem na cidade de Ponta Delgada com um grau de exigência e autonomia superior. Já se faz um treino de actividade de vida doméstica e promoção de utilização de recursos comunitários

Essas 13 camas na comunidade estão totalmente preenchidas?
Neste momento não estão totalmente lotadas porque também tivemos de implementar, à luz do plano de contingência da instituição, quartos de isolamento devido ao covid. A nível das residências estamos com cerca de 90% da lotação neste momento.

 Este ano houve um aumento dos 
pedidos de ajuda?
Com base nas estatísticas que recolhemos e apesar de eu não conseguir dar um número geral porque estamos a falar de várias valências, mas por exemplo ao nível das solicitações direccionadas para o nosso serviço técnico de atendimento e acompanhamento social, a Cáritas apoiou um universo de 148 pessoas ao nível do programa regular de alimentação, ou seja, são famílias que estão devidamente identificadas na sua grande maioria por motivo de carência económica e que estão identificadas e sinalizadas pelos núcleos da Caritas espalhados pela ilha. Estes apoios incluíram pontualmente vales de alimentação que só foram possíveis através de um programa especial através da Caritas portuguesa. No ano anterior tinham sido apoiadas no âmbito deste programa cerca de 22 pessoas. Como é observável pelos números houve um aumento substancial de pessoas apoiadas, mas não consigo dizer, numa lógica de causa efeito relativamente ao Covid-19. Isto porque está incluído esse tal programa especial da Caritas portuguesa que foi de certa forma originado a montante do problema. Temos igualmente um outro programa, para pessoas que não conseguem ter acesso a tratamento na área da saúde, como por exemplo para a aquisição de lentes graduadas, tratamentos e aquisição de próteses dentárias entre outros. Foram atribuídos 22 apoios em 2020, 78% dos quais para casos que foram sinalizados pela primeira vez. Em 2019, esse número tinha sido de 47. No âmbito do nosso centro de recursos de emergência social que é um serviço que canaliza as doações que são feitas pela comunidade ao nível do imobiliário, vestuário, artigos domésticos, até há data recebemos um total de 956 pedidos, todos eles correspondidos. Em termos comparativos, em 2019, tínhamos recebido 1078 pedidos de apoio. 

As doações aumentaram?
Está mais ou menos na mesma linha, se bem que quando nos aproximamos da época de Natal é recorrente haver aqui um aumento substancial. As pessoas doam de tudo um pouco desde mobiliários, electrodomésticos, utensílios para o lar, vestuário, calçado ou brinquedos de criança. O que é mais doado é principalmente roupa de senhora e criança, por isso temos falta de vestuário e calçado de homem. Estamos abertos e necessitamos bastante de doação destes artigos. 

O que está a ser pensado para esta época de Natal? 
No passado dia 13 de Dezembro, em parceira com o Club Motard de Capelas, realizámos uma entrega de brinquedos junto de crianças carenciadas da Lagoa e Vila Franca. Essas entregas foram efectuadas no domicílio de cada agregado familiar, acompanhados de vários motards, vestidos a rigor. Foram presenteados 23 agregados familiares, todos eles previamente sinalizados pelo ISSA a que corresponderam 56 crianças. Para além desta actividade mantemos e vamos receber uma doação do Rotary Club, em vales de compra, que serão canalizados para os vários núcleos dos concelhos da ilha de São Miguel no sentido de serem distribuídos pelas famílias e agregados que tenham essa necessidade. Iremos também manter os nossos programas normais que passam pela distribuição de cabazes de alimentação por todas as famílias que temos referenciadas. 

Olhando para 2021, que novos 
projectos têm para o próximo ano?
Ainda não elaboramos o nosso plano de actividades para 2021, mas posso avançar que, uma vez que esta é uma instituição que sofreu grandes alterações nos últimos dois anos porque quando viemos aqui para o novo edifício e abrimos esta novas valências de acolhimento, tivemos um aumento muito grande de recursos humanos. Antes disso a Caritas teria há volta de 12, 13 ou 14 colaboradores e neste momento tem perto de 40. No espaço de ano e meio a Caritas contratou perto de 30 pessoas. Isto envolve um conjunto de dinâmicas, de novas lógicas de trabalho, uma reformulação e reestruturação de todos os serviços. O que pretendemos primeiro é ‘assentar arraiais’ e reorganizar internamente os nossos serviços, apostar muito na formação do pessoal que é realmente uma das lacunas mais latentes aqui da instituição e queremos apostar muito no nosso programa “Terra com Vida” que dá apoio a 15 utentes. No próximo ano pretendemos, não só manter este programa que decorre de fundos europeus, como queremos alargar o programa para outras vertentes nomeadamente aumentando a área de cultivo e o número de pessoas que se podem ocupar desse serviço. 

Quais são as maiores dificuldades com que a Cáritas se depara?
Para além de todas as questões que dizem respeito aos meios financeiros. Dependemos de financiamento público, já que o nosso financiamento próprio é praticamente residual. Diria que a instituição tem algumas limitações ao nível dos seus recursos humanos quer em quantidade quer em qualidade no sentido da qualificação e formação de forma adequada e sistemática do seu pessoal. Faltam-nos meios para a aquisição de viaturas de transportes quer de utentes quer de mercadorias. Faz parte das instituições que trabalham nesta área procurar de forma insistente e talvez engenhosa, soluções que passam por contornar os problemas do dia a dia dentro dos recursos existentes. Quem me dera ter recursos ilimitados mas não há nenhuma empresa ou instituição que os tenha.
  
Falando muito concretamente dos sem abrigo, que comentário lhe merece as queixas de que existem algumas pessoas a pernoitarem à entrada de prédios habitacionais?
Sinceramente não gostava muito de entrar nessa matéria porque os utentes a que se refere são ‘apanhados’ pela Associação Novo Dia. Penso que a Novo Dia, nos locais próprios, já terá fundamentado e explicado quais são as suas limitações, a natureza da sua intervenção e o porquê de alguns utentes continuarem na rua. Tratando-se de uma matéria que diz respeito a uma instituição parceira, preferia não entrar muito por aí. Posso dizer que relativamente aos nossos utentes, trata-se de um público ligeiramente diferente porque já estão num patamar mais avançado, em termos de autonomia e de consumos. Os utentes não podem consumir e temos outras regras, outras formas de trabalhar que vêm da natureza do próprio serviço e da intervenção. 

Continuando ainda a falar das pessoas sem abrigo, como avalia a situação aqui na ilha de São Miguel?
Muito sinceramente julgo que se faz um trabalho muito meritório nesta área. Ao contrário do que existe no continente, nós aqui trabalhamos com muita proximidade. As instituições que trabalham na problemática dos sem abrigo trabalham em parceria e em rede. Aliás, o Instituto de Solidariedade Social dos Açores criou, há já largos vários anos, uma estrutura que envolve várias instituições que semanalmente se reúne para ir acompanhando e debatendo caso a caso as vicissitudes e os problemas do público desta problemática. Julgo que há aqui um trabalho de fundo que está a ser muito bem feito. Naturalmente, existem sempre arestas a limar. Existem agora outros paradigmas que, já estão a ser implementados no Continente, passam por exemplo, pela atribuição de uma casa antes de qualquer outra intervenção junto de uma pessoa sem abrigo. Neste novo paradigma, a questão habitacional e de saúde deve ser priorizada em relação a todas as outras intervenções. Ainda não atingimos esse patamar, porque ainda mantemos este regime tradicional de estruturas colectivas, mas julgo que para lá caminharemos no futuro e isso já está provado que tem óptimos resultados. Esta é uma problemática difícil e não temos as respostas para todos os problemas de todas as pessoas. Cada caso é um caso que tem as suas especificidades. O apelo que deixo é que a comunidade entenda que os técnicos que acompanham estas problemáticas estão devidamente habilitados para intervirem nestas área e que, se um determinado utente está na rua, é porque não foi possível enquadrá-lo numa determinada resposta. Não quer dizer que o problema seja das estruturas. O problema também pode estar no próprio indivíduo.

Não considera que começam a existir casos a mais de pessoas sem-abrigo, nomeadamente aqui na cidade de Ponta Delgada?
Não consigo responder de forma rigorosa a essa questão porque não tenho acesso a dados concretos. O público que recorre aos nossos serviços de acção social é bastante diversificado em termos etários. Na sua maioria situa-se entre os 30 e os 50 anos e a problemática dominante que os faz recorrer aos apoios continua a ser, em primeiro lugar, o desemprego e consequentemente, rendimentos insuficientes para garantir a subsistência do agregado familiar. Até lhe posso dizer que no caso do Centro de Recursos de Apoio à Emergência Social, o tal que canaliza as doações da comunidade, a prevalência das solicitações incide nas famílias cujos elementos adultos rondam idades entre os 20 e os 55, correspondente a agregados com 2 ou mais filhos e que se encontram desempregados. Maioritariamente a beneficiar do RSI. Estes são os dados que eu tenho e não tenho números credíveis para que possa, de forma rigorosa, responder a esta questão.    
                                           
                                            Luís Lobão
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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