Opinião de um membro dos Narcóticos Anónimos nos Açores

“O Governo dos Açores devia apostar mais na reabilitação de toxicodependentes”

‘João’ (nome fictício) tem mais de 50 anos e vive na ilha de São Miguel. Depois de 10 anos na adicção activa, comemorou, no passado mês de Setembro ,“10 anos de sobriedade”. Nesta reportagem conta-nos um pouco da sua história, da recaída que o levou ao seu segundo internamento e das reuniões dos Narcóticos Anónimos que desempenharam um papel fundamental para a saída “do inferno” onde se encontrava. 
O primeiro contacto de ‘João’ com as drogas duras deu-se quando já estava na casa dos 30 anos. A evolução do consumo passa sempre, como o próprio explica, por “aquele período que se pode chamar de lua-de-mel. É aquela fase em que a pessoa não está totalmente agarrada e não precisa das drogas 24 horas por dia. É enquanto o organismo não está a necessitar daquilo todos os dias e isso às vezes demora muito tempo”.
Mais tarde, este consumo “começou a tomar um certo ritmo. Começa uma vez por semana, para mais uma vez ao fim de semana, passa a ser intercaladamente e depois inevitavelmente passou a ser todos os dias”, lembra, descrevendo também como se processava a compra destas substâncias. 
“Há aquele ritual de ligar todos os dias para a pessoa (dealer) ir lá levar. Na época em que consumia havia um que me ia levar a casa de mota. Em vez de ser à porta era ligeiramente desviado. Pensamos que não damos nas vistas, mas damos muito, sobretudo para quem conhece. Eu como já passei por isso conheço a milhas quando há esse tipo de transacções e quando há pessoas que estão à espera ou a procurar”, refere.
‘Limpo’ há pouco mais de 10 anos, ‘João’ admite que lhe custa ver “as pessoas que ainda estão a sofrer, sobretudo pessoas conhecidas como tenho visto. Custa-me imenso ver, inclusivamente companheiros de sala e de reuniões, que entretanto recaíram e estão novamente no activo”.
Recuando um pouco no tempo, lembra como se deu o seu primeiro contacto com as chamadas drogas duras, apesar de admitir, que foi durante a adolescência que teve o primeiro contacto com as drogas leves, apesar de realçar que até “nem era muito adepto”.
“No tempo da adolescência é que essas coisas aparecem. É óbvio que há sempre aquele colega ou amigo que tem as drogas leves. Confesso que nessa fase nem era muito adepto. Era mais do álcool. Muito mais tarde, numa viagem ao estrangeiro é que tive a primeira experiência com as drogas pesadas e onde me foi apresentada ‘branca’ (cocaína). Foi a primeira vez que experimentei. Claro, aquela euforia toda ainda por cima com cerveja misturada. Não foi uma coisa que eu visse logo que iria querer, mas foi de facto o primeiro contacto com as drogas pesadas”, relembra.
Só mais tarde e já nos Açores, “com uma rapariga que namorava na altura que consumia outra substância, heroína, eu quis à força toda experimentar e foi isso que me desgraçou completamente a vida e me fez ficar completamente agarrado. Não sei precisar exactamente quando mas já foi há muitos anos”.
Depois de entrar no consumo diário, a adição tomou praticamente conta da sua vida, cujo objectivo passou a ser apenas “matar o vício”.
“Há alturas em que dá jeito ter um ‘companheiro de ataque’, digamos assim, para ajudar a arranjar aquilo que se precisa. Depois chega a uma altura em que a pessoa prefere, e falo por mim, estar sempre sozinho. Preferi estar fechado no meu mundo e que ninguém me chateasse. O que queria mesmo era só matar o vício”, realça.
O tratamento e a recuperação
Quando questionado sobre o momento em que percebeu que estava completamente dependente do consumo de drogas, ‘João’ admite que “se calhar já tinha percebido isso há muito tempo (…) já tinha a perfeita noção embora não quisesse admitir. Claro que havia a negação completa de que precisava de ajuda”.
‘João’ destaca a importância do papel da família para ajudar na consciencialização e para o despertar da necessidade de ajuda, contando um pouco da sua experiência pessoal neste âmbito.
“Posso dizer que existiram várias tentativas do meu irmão de juntar a família para chegarmos a uma conclusão sobre o que fazer e eu fugia sempre. Mas houve um dia em que o meu irmão decidiu e fez-me um ultimato por escrito. Uma lista das vantagens e das desvantagens. O que ganhava se fizesse tratamento e parasse de consumir e o que continuava a perder. Com a negação é muito difícil perceber seja lá o que for quando se está na adição activa, naquela rotina diária e naquele inferno. Mas claro que, no fundo, havia sempre aquele bocadinho de consciência de que eu não estava a fazer bem a mim, em primeiro lugar, e estava também a destruir a minha família. Esse papel ficou em cima da mesa da sala e acabou por ficar todo sujo. Ia olhando para ele, até que foi preciso uma tragédia para o tal clique”, realça.
Esse despertar surgiu, no caso de ‘João’, por via de uma tragédia familiar que o impulsionou a tomar a decisão de ir para o seu primeiro tratamento.
“Às vezes é preciso um acontecimento maior para despoletar aquela decisão e foi isso que aconteceu. Foi a morte de um familiar em que eu vi a minha família toda abalada. Percebi que precisava de fazer alguma coisa por mim para que eles ficassem melhor de uma maneira geral (…) Estamos a falar do meu primeiro tratamento”, refere.
Após o já mencionado clique que o levou à primeira desintoxicação, a vinda para o exterior não correu da melhor forma para ‘João’ que recaiu no seu consumo.
“Não estava com a pessoa certa. Também é importante não existir precipitações e eu já estava numa relação que não era a mais saudável naquela altura. Não posso culpar ninguém, mas contribuiu para que eu recaísse”, afirma.
Só mais tarde, há aproximadamente 10 anos, os mesmos que leva sem consumir, é que a ida para uma instituição na Lagoa que implementava a técnica dos 12 passos (entretanto já encerrada) surtiu o efeito desejado.
“Senti que tinha mesmo de fazer algo por mim e que tinha chegado a altura de parar. Mais ainda na segunda vez. Lembro-me bem de na altura, de uma familiar falar-me de uma clínica no Porto, ela já tinha investigado e eu não gostei nada da ideia porque não queria sair de cá. Graças a Deus existia cá essa tal comunidade terapêutica, essa clínica, onde fiz tratamento. Felizmente o tratamento correu muito bem (…) Foi um internamento mais curto. Pode ser 28 dias mas acabou por ser um mês e meio. Quanto mais melhor porque se a pessoa não se sente preparada o ideal é continuar mais tempo. Uma coisa é certa, enquanto lá estamos, estamos seguros e cá fora, ‘na boca do lobo’, é preciso ter uma preparação espiritual muito grande”, salienta.

A importância dos Narcóticos Anónimos
Desde então, ‘João’ tem se apoiado nas instituições que dão apoio a pessoas com toxicodependência, como as salas dos Narcóticos Anónimos (NA).  “É óbvio que para me manter em recuperação, alias como está mais do que provado a nível mundial, é com a ajuda das salas. Costumo dizer que a minha medicação e aquilo que necessito para a minha vida são as reuniões e fazer serviço também é muito importante”, afirma, antes de destacar a importância que estes grupos de apoio têm para as pessoas com este tipo de dependências.
“Mesmo para as pessoas com 15, 20 ou 30 anos de recuperação é muito importante que continuem a ir às reuniões. É o que ajuda a manter este espírito da irmandade de narcóticos anónimos vivo dentro da pessoa. Seguir também minimamente o programa dos 12 passos, apesar de ter de confessar que não sigo à risca mas cada um segue a sua recuperação como quer”, destaca.
‘João’ que é um dos membros activos destas salas de apoio, explica quando e como se pode ingressar nestas reuniões dos Narcóticos Anónimo (NA).
“Qualquer pessoa pode juntar-se e há sempre uma reunião aberta em cada mês. É a primeira reunião de cada mês. Temos cá 3 grupos que se reúnem 3 dias seguidos (Domingos, Segundas e Terças). Aos domingos e terças é no mesmo sítio, embora sejam grupos distintos, na Casa do Povo da Fajã de Baixo, das 20h30 às 22h. Às segundas, na Junta de Freguesia de São Sebastião das 21h às 22h30 (esta reunião fechou temporariamente devido à limitação de espaço e atendendo à situação). Em qualquer uma delas, na primeira reunião de cada mês podem ir as pessoas que quiserem, desde familiares a amigos. É aberta a visitantes embora cá, como temos poucos membros regulares, torna-se difícil ter visitantes”, explica.
Sobre a afluência a estas reuniões, este membro dos NA classifica a procura por estas reuniões como sendo “mais ou menos”, acrescentando que “é mais fácil ser a partir de um membro que traga alguns amigos que estão a precisar de ajuda. Normalmente é mais assim. Também aparecem aqueles que ouviram falar, procuraram na linha de ajuda (o número de telefone pode ser facilmente encontrado no site dos NA) e chegaram até nós através da internet. Também aparecem pessoas do continente e mesmo de outros países. Há esta união e este espírito de que, dentro de uma reunião dos NA, onde quer que seja e em que parte do mundo for, este espírito é igual. As pessoas identificam-se umas com as outras e tem o mesmo problema”, salienta ‘João’ antes de acrescentar que o que “nós fazemos e que temos de voltar a fazer de novo, é colocar em todas as farmácias os cartões dos NA e um cartaz com o número da linha de ajuda. Sempre é uma ajuda e há um ou outro que precisa de ajuda e entra em contacto. A pessoa quando vai buscar uma seringa se quiser mesmo ajuda pega num cartão e procura essa ajuda”.

A necessidade da aposta na reabilitação
Relativamente às instituições na região que prestam auxílio no âmbito das dependências e mais concretamente, na toxicodependência, ‘João’ considera que alguns dos programas, nomeadamente aqueles que envolvem as substâncias substitutivas como a metadona, não estão bem organizados.
“É um sistema de saúde que não está a ajudar imediatamente, porque há muito dinheiro envolvido e essas instituições vivem do dinheiro do Governo. Esses programas de metadona ou de outra qualquer substância substitutivas, estão muito mal organizadas. São tratamentos que duram anos sem necessidade nenhuma e é por causa desse dinheiro todo que está envolvido e que tem de continuar a haver para sustentar essas instituições”, afirma, antes de explicar que “o organismo, ao fim de tanto tempo, está habituadíssimo àquilo (metadona) e nunca limpa. Nunca é feito o desmame necessário e o que acontece muito é que essas pessoas vão à mesma consumir as outras substâncias.” 
Para ‘João’ a solução para ajudar na recuperação das pessoas com este tipo de adições, deveria passar pela aposta em clínicas de reabilitação.
“Acho acima de tudo que o Governo devia apostar numa ou mais clínicas de tratamento. Está mais do que provado que é isso que resulta em toda a parte. Foi uma pena aquela da Lagoa ter fechado, porque era a única na região”, lamenta.
A terminar, ‘João’, recuperado há 10 anos da sua adição activa, apela a quem precisar “que procure e assista às reuniões dos NA que ajudam bastante. É um começo e garanto que todos serão bem recebidos”.       
                                                          
                                                          Luís Lobão
 

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Autor: CA

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