Cónego José Constância, no Rotary Clube de Ponta Delgada

“Neste Natal em que estamos menos juntos podemos todos trabalhar mais para o conjunto”

O Padre José Medeiros Constância, no contexto de uma reunião organizada pelo Rotary Clube de Ponta Delgada através da plataforma Zoom, que visava homenagear alguns dos melhores alunos de estabelecimentos de ensino do centro desta cidade, propôs  uma reflexão sobre o Natal e sobre a forma como este poderá ser vivido pelos Cristãos num ano tão atípico como o que agora termina.
José Medeiros Constância é Director do Instituto Católico de Cultura, da Diocese de Angra, e ouvidor de Ponta Delgada, sendo ainda o actual Vice-reitor do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres e Monsenhor por nomeação do Papa Francisco.
A sua intervenção centrou-se numa questão central, “Haverá ou não haverá Natal?”, sobre a qual se propôs a fazer uma reflexão espiritual que dividiu em cinco pontos essenciais: o primeiro surge com o tópico Natal/Natais, o segundo diz respeito ao Natal da pandemia, a essência e a originalidade do Natal, uma tarefa para todos no Natal, e o que esperar da próxima década que se avizinha, uma vez que se começa “um tempo novo”.
No que diz respeito ao primeiro ponto, o cónego José Medeiros Constância salienta que “antes da pandemia, até agora, podíamos falar de vários natais”, referindo que antes o Natal era “o Natal do comércio, da indústria, das empresas, do turismo e dos hospitais”, parecendo existir “vários Natais embora estivéssemos na mesma quadra. E mesmo o Natal das confissões religiosas, da confissão cristã católica do Cristianismo católico”.
No meio daquilo a que chama “Natal sociológico do passado”, afirma que existe também o Natal religioso e Cristão, “que se situa do ponto de vista sociológico por uma época própria, que tem várias nuances e que este ano ficou bastante tocado pela pandemia”.
Quanto ao Natal atípico, algo que é agora proporcionado pela Pandemia, o cónego refere que esta atipicidade é “sentida por todos”, sendo que “parece que o mundo deixou de funcionar, estamos todos num mundo outro, num mundo diferente”, partilhando com os ouvintes que vários têm sido os desabafos que vai ouvido por parte das pessoas que “dizem que estão na maré do Natal da Covid, que o Natal de 2020 é um Natal só de nome, havendo outros que dizem que este é o Natal da crise”.
A verdade é que “este Natal é um Natal atípico”, realça uma vez mais o cónego, adiantando porém que não tem o desejo de fazer com que esta se torne numa “expressão vaga”, sendo a realidade sentida “por todos os humanos do mundo”.
No terceiro ponto da sua reflexão, ouvida atentamente por participantes de países como o Brasil e até da Holanda, aquele Monsenhor reflectiu sobre a essência e a originalidade do Natal, procurando dar a conhecer “em termos humanos e Cristãos” qual o verdadeiro segredo do Natal, reflexão esta que transcrevemos abaixo.
“Podemos olhar para o Natal de muitas maneiras, ver os aspectos coreográficos do Natal, mas se quisermos ir à sua essência, ao facto histórico, o fundo do Natal foi o nascimento de Jesus de Nazaré. Um facto histórico é que Jesus nasceu. Nasceu há 2020 anos, mas importa dizer que ele nasceu hoje.
Estamos perante um Deus que se fez Homem, e isto não é pouco, é tudo. Um Deus humanado. Um Deus que, na pessoa de Cristo toma a forma humana, carne da nossa carne e profundamente humano, igual a nós em tudo menos no pecado, mas profundamente humano.
Podemos dizer que o Cristianismo é um humanismo radical. Ou seja, Deus ao fazer-se homem e ao encarnar a nossa vida, deu um sentido humano a tudo, até aos limites que nós sentimos. Por isso é que o Cristianismo é, de facto, uma vida de perfeição, mas é também a reflexão e a vivência do humano nos limites que nós temos. Limites do cansaço, limites da doença, limites do envelhecimento e o limite da morte.
Somos humanos e vivemos todos estes limites que os humanos sentem e que esta hora traz ao de cima. Estamos no coração e no cerne do Natal, que é Jesus de Nazaré, Deus feito homem, Jesus Cristo na expressão humana de Deus a dizer que tudo o que é humano deve ser bem vivido, ou melhor, que devemos humanizar tudo e que mesmo os limites como os sentimos nesta hora, o limite da morte, devem ter uma consideração especial e devem ser vividos na perspectiva do tom cristão.
Cremos que o Natal na sua essência é a consideração que foram 2 mil anos que mudaram o mundo. Pudemos abduzir os males do mundo, as dificuldades imensas que passam nesta hora, mas quer queiramos quer não, olhando para o passado, após a vinda de Cristo e do Cristianismo, foram 2020 anos que mudaram o mundo”.
Relembra ainda que embora haja quem faça “uma história criminal do Cristianismo”, o que se traduz na atribuição de importância aos aspectos mais negativos do Cristianismo através da História, sendo a verdade que “o Cristianismo ajudou muitíssimo a Humanidade”, contribuindo assim para mudar o mundo.
“E aqui está o segredo e a essência do Natal, mesmo neste ano de 2020, apesar de estarmos num quadro completamente atípico, é que de facto o Natal fala de fraternidade, uma fraternidade muito concreta, e de uma fraternidade para com os últimos”, ou seja, para com aqueles que são mais desfavorecidos, tendo “o próprio Cristo feito a experiência da pobreza.
Se quisermos saber qual a essência do Natal, a originalidade do Natal e o seu segredo, veremos todo o segredo da pessoa histórica de Cristo que é admitida pela fé, mas também da fraternidade e do trabalho para com todos”, referiu ainda.
No seu discurso referente ao Natal, salientou ainda que este é um período no qual todos têm uma tarefa a fazer, mesmo que distantes de todos os convívios e de toda a azáfama que lhe é tão característica, destacando o sentido de fraternidade.
“Neste período de Natal não obstante todas as dificuldades que sentimos nesta hora, temos no Natal e a partir do Natal uma tarefa a fazer. Para este Natal de 2020, em que estamos menos juntos mas podemos todos estar a trabalhar mais para o conjunto. Talvez menos juntos em família, em amigos ou em sociedade, mas a trabalhar e a viver mais em conjunto, todos no mesmo sentido, no sentido da fraternidade.
A fraternidade, no Natal, pode ser trabalhada em gestos concretos que cada um saberá. Há gestos concretos para podermos multiplicar e triplicar nesta quadra abençoada e bonita do Natal, ainda que com menos som, com menos alegria e com menos fulgor.
O Natal assim feito na fraternidade através do online e do virtual, e para novos e menos novos através daquilo que chamamos o continente digital. No fundo é um Natal que pode juntar-nos a nós todos neste continente digital, vivendo a tónica fundamental do amor e da fraternidade do Natal.
Terminando este trabalho, podemos fazer no Natal e a partir do Natal, olhando sobretudo aqueles que sofrem. Não é que nós sejamos defensores daqueles que só falam do amor no Natal, que só nesta época as pessoas se devem amar mais, mas esta é uma época em que de sobremaneira podemos referir e estar ao lado, sermos companheiros que, no fundo, quer dizer aquele que come o mesmo pão na caminhada da vida, na mesma reflexão e amizade”, assinalou nesta ocasião.
Por fim, no quinto ponto do seu discurso, o padre José Medeiros Constância refere que o ano de 2021, tal como nos restantes anos, deve ser o ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo.
“Para os que têm fé, cada ano – por melhor ou pior que seja - é sempre o ano da graça do Senhor Jesus Cristo porque é sempre um ano em que sentimos, como a Bíblia pede, o Kairós, ou seja, o tempo não cronológico mas kairológico, ou seja, o tempo que Deus faz para que os humanos sintam mais e se sintam irmãos.
O ano de 2021 vai levar-nos a uma nova década. E não só pela pandemia, já a nova década ia ser uma década completamente nova e com desenvolvimento em todo o sentido, com outros problemas, mas agora com a pandemia ainda mais. Diria que vamos ter uma década diferente, com problemas diferentes – melhores e piores – por isso temos que nos preparar para uma década em que sejamos capazes de responder aos desafios humanos e cristãos.
Vem a ser uma época diferente, de desafios humanos e religiosos para os quais temos que nos preparar para fazermos com que o Natal não fique só neste ano ou no ano 2021, mas no compromisso de fraternidade e de boa resolução dos problemas, se prepare para uma década de 2020”.
Terminou a sua intervenção com um poema escrito por um pároco espanhol, Javier Leoz, que entretanto chegou ao conhecimento do Santo Padre e que lhe valeu uma chamada directamente do Vaticano.

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