Face a Face!... com Alda Medeiros Sousa (“a Alda da TAP”)

“Acredito com toda a convicção que em breve a Região vai voltar a ter os fluxos turísticos de 2019”

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Alda Maria Tavares de Medeiros Sousa, nascida em Ponta Delgada nos finais dos anos quarenta, filha mais velha de uma família tradicional onde os valores humanos ditavam todas as regras.
Conhecida na minha terra natal como “a Alda da TAP” e no meio da empresa onde desenvolvi a minha atividade profissional como “a Alda dos Açores”, não escondo que esta dicotomia reflete o que me vai na alma.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Depois do ensino primário numa escola pública, fui aluna do Colégio de S. Francisco Xavier até ao 9º ano de escolaridade, completando o meu ensino secundário no então Liceu Nacional de Ponta Delgada e depois tive a oportunidade de passar um período de tempo nos EU, junto de familiares, para aperfeiçoamento da língua Inglesa, ferramenta indispensável para poder comunicar com o mundo.
De regresso aos Açores, e enquanto aguardava o ingresso no ensino superior, decidi responder a um concurso para a então “TAP transportes aéreos portugueses”, um emprego supostamente provisório, mas que durou 48 anos.
Fui integrada nos quadros da TAP em dezembro de 1968, tendo desempenhado a minha atividade na área comercial no escritório de Ponta Delgada, passando por diversos serviços, primeiro em contacto direto com o passageiro e posteriormente com agentes de viagem e outros agentes económicos da área, de todas as Ilhas dos Açores. Tive que enfrentar alguns tabus na empresa, que na altura não via com bons olhos que o lugar de promotor de vendas fosse ocupado por uma mulher. Com a interrupção da operação da TAP em Ponta Delgada em 1998, o quadro de pessoal nesta cidade reduziu cerca de 90%.No entanto eu continuei no ativo, talvez por desempenhar funções mais abrangentes, e em 2001 fui convidada a assumir o cargo de representante da TAP para os Açores, passando a exercer essa atividade em Angra do Heroísmo para onde havia sido transferida a sede da empresa nos Açores, onde permaneci até à reforma em 2016.
Foi uma vida profissional gratificante, repleta de bons momentos, mas também de muitas dificuldades… Nem sempre foi fácil trabalhar numa empresa que aos olhos dos açorianos estava muito conotada com a soberania nacional, numa fase em que os Açores construíam e desenvolviam a sua própria autonomia.
Vivi situações de algum desespero como é normal nesta atividade, com cancelamentos de voos pelos mais variados motivos, desde greves a razões atmosféricas e outras de caráter operacional, que em geral originavam grande desagrado nos passageiros e me criavam uma sensação de impotência por não poder ajudar.
Mas vivi também muitas alegrias. Os últimos 15 anos na ilha Terceira, em contato mais direto com as demais ilhas, permitiram-me uma visão mais abrangente da realidade Açores, passando a identificar-me sobretudo como açoriana, embora com a marca original de “corisca de gema”.Fiz amizades de Santa Maria ao Corvo, algumas para a vida, num arquipélago onde o mar nos separa, mas nos une o orgulho de ser açoriano.
Nem sempre agradei a todos, tive de fazer escolhas entre o que eram os objetivos da empresa e a satisfação dos muitos pedidos que me chegavam, tendo sempre em mente que no topo das prioridades estava o transporte de doentes e de situações urgentes.
Mas o mais gratificante é receber um obrigado dum desconhecido por quem passamos na rua, e perceber que já nos tínhamos cruzado noutra situação e que dentro das nossas obrigações profissionais fizemos algo que pôde ser útil para alguém.É este sentimento de partilha que me dava alegria para continuar o meu caminho e me fez aderir depois a outras causas.

Como se define a nível profissional?
Sempre encarei a empresa como se fosse minha. Procurei dar o meu melhor e alcançar os objetivos propostos com disciplina, rigor, muito trabalho e sentido de justiça nas decisões.

Quais as suas responsabilidades?
Atualmente estou reformada, mas a minha última função foi a de representante da TAP para os Açores, durante 15 anos.


Como costuma passar este período entre o Natal e a Passagem de Ano?
Com a família mais direta, embora este ano com menos proximidade física como todos nós.

Como descreve a família de hoje?
A família de hoje deixou de se enquadrar no conceito tradicional em que eu fui educada. A necessidade de procura de novos rumos e a mobilidade, têm originado separação de elementos do agregado familiar que, em muitos casos, vão mantendo a comunicação possível através das novas tecnologias.


Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
Considero que o abandono dos idosos em instituições, muitas vezes mais por egoísmo e comodismo do que por necessidade real, é uma das consequências mais graves do desaparecimento da família tradicional.

A relação entre pais e filhos é um foco de tensões. Em sua opinião, que abordagens devem ser feitas?
O mundo mudou e a família é o reflexo dessa mudança. As mulheres tentam solidificar o seu espaço na sociedade, conquistando a sua liberdade económica e exercendo cada vez mais cargos de responsabilidade na sociedade moderna.Esta alteração ao comportamento das mulheres traz para o seio familiar menos disponibilidade para acompanhar os filhos que se refugiam nas novas tecnologias para comunicar, nem sempre encontrando o interlocutor mais adequado. É urgente pensar no equilíbrio da vida familiar moderna, utilizando o tempo com rigor, de forma a permitir mais diálogo entre pais e filhos e maior cedências intergeracionais.

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
Não há sociedades melhores ou priores, há sociedades diferentes, mas existem valores humanos e sociais de base que deveriam permanecer firmes e constantes. As tecnologias não param de evoluir e a nova sociedade vai ter de se adaptar a esta realidade. Já nada pára a evolução digital em todas as áreas e a sociedade terá de seguir atentamente esta evolução e reinventar-se à procura de soluções que garantam a continuidade do emprego e a subsistência das famílias. Eu também sou dos que defendem que tudo começa na educação tanto na escola como na família.

Como surgiu o Rotary Clube de Ponta Delgada na sua vida?
Ingressei no Rotary em 2001, por proposta de uma amiga que fazia parte do Rotary Club da Praia da Vitória. Passado algum tempo este clube encerrou a sua atividade, mas entretendo reabriu o Rotary Club de Angra do Heroísmo, onde fui aceite e onde permaneci até regressar a Ponta Delgada, em cujo clube me integrei então.
Ser presidente de um clube rotário requer muita disponibilidade e nem sempre é fácil encontrar candidatos disponíveis o que justifica que, sem ter desempenhado outros cargos de direção no clube, tenha sido proposta diretamente para assumir a presidência.  Em 2019 aceitei o convite da amiga e Companheira Governadora Ilda Braz para presidir à organização da Conferência do Distrito 1960 que em 2019 teve lugar em Ponta Delgada trazendo a esta cidade centenas de participantes. Foi uma tarefa exigente e de grande responsabilidade, mas também de aprendizagem Rotária, essenciais para o desempenho da minha atual função no clube.
Tem sido um ano marcado pela pandemia, mas quem é Rotário por convicção não tem medo das adversidades e é exatamente nestas situações de crise que temos de estar mais ativos. As reuniões presenciais deram lugar a reuniões digitais com a participação de palestrantes de várias áreas e abertas ao publico alvo de acordo com a temática. Apoiamos a Educação oferecendo bolsas de estudo com a colaboração de Empresas locais, da Fundação Rotária Portuguesa e de membros do clube, premiamos os melhores alunos das escolas secundárias de Ponta Delgada e do mestrado em ciências económicas e empresariais da Universidade dos Açores e oferecemos tablets a alunos do ensino básico. Na área da saúde apetrechamos 4 salas da Saúde Materno infantil da Casa de Saúde da Ribeira Grande, com equipamento adequado, e uma sala para amamentação em Rabo de Peixe, um projeto de cerca de 3.400 EUR que também foi apoiado pela Fundação Rotaria Portuguesa e está em curso a entrega de material para criação de um gabinete de apoio na área da saúde aos alunos da Escola Secundária Domingos Rebelo
Com a ajuda da Caritas, foram distribuídos nesta quadra Natalícia vales para aquisição de alimentos e ainda cabazes entregues à Junta de Freguesia de S. Pedro para alguns dos utentes mais carenciados da “Casa da Avó”, um lar de dia que tem sido apoiado pelo Clube.
Em colaboração com o Rotary Club de Angra do Heroísmo organizámos a 4ª edição de Canto Lírico Açores com prémios para os vencedores atribuídos pelos dois clubes.
A nível Internacional, apoiámos em evento de equitação organizado pelo Rotary Club de Ponta Delgada que arrecadou fundos remetidos à Rotary Foundation para o combate à poliomielite, no âmbito de um projeto internacional Rotary de grande alcance e está também a decorrer uma campanha de angariação de fundos para ajudar os refugiados de Cabo Delgado em Moçambique.

Que importância têm os amigos?
Os amigos verdadeiros são, juntamente com a nossa família, o pilar do nosso equilíbrio emocional.

Que actividades gosta de desenvolver?
Dedico muito do meu tempo aos assuntos do Rotary que também é preenchido com caminhadas, como alternativa ao ginásio em tempo de pandemia.
Gosto de ler e ouvir música. Sou muito seletiva em programas televisivos para além do noticiário.
 
Que sonhos alimentou em criança?
Conhecer o mundo e dar a conhecer o meu pequeno mundo “Açores”.

O que mais o incomoda nos outros?
A hipocrisia.

Que características mais admira no sexo oposto?
Inteligência, gentileza e autenticidade.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Gosto de ler embora me falte sempre o tempo que desejaria. Continuo a gostar dos clássicos portugueses e dos Poemas da Natália Correia.

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
Filtro a informação que me chega por essa via.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
Honestamente seria muito difícil. Apesar da minha idade, por razões profissionais tive de aprender a lidar com as novas tecnologias e dispensá-las agora seria como regressar à idade da pedra.

Costuma ler jornais?
Sim. Quase diariamente

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Adoro viajar. Fiz muitas viagens em trabalho. Viajar é viver outras experiências é aprender com os outros e é passar a ver o nosso território com outros olhos. Fiz várias viagens que me marcaram, sobretudo ao Brasil, mas se tiver de mencionar uma, elejo uma viagem educacional a Macau e Hong Kong em que tive o privilégio de acompanhar operadores turísticos de todo o território Nacional.

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Nisso tenho gostos de algo exigentes …Gosto de comida gourmet, quando isso é possível, mas à base de vegetais e peixe, acompanhada de um bom vinho branco. Dispenso a carne.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
O fim da pandemia e o regresso das condições de vida que existiam antes do seu início.

O que pensa da politica e dos políticos?
A política é útil, indispensável mesmo, desde que exercida com seriedade e competência, pondo o bem comum acima dos interesses pessoais e partidários.

Se desempenhasse um cargo governativo descreva uma das medidas que tomaria?
Fazer planos estratégicos a longo prazo tendo em conta os interesses do país, neste caso dos Açores, sem ter como objetivo final o voto. Só deste modo podemos preparar e esperar um futuro sustentável para o nosso Pais e para a nossa Região.

Qual a máxima que a inspira?
“A responsabilidade de todos é o único caminho para a sobrevivência humana.” - Dalai Lama.

Em que Época histórica gostaria de viver?
Nesta época de transição digital em que se conseguem vislumbrar os grandes desafios para a próxima geração.

Como viu a liberalização do espaço aéreo dos Açores?
No início tive alguma apreensão mas, com o decorrer do tempo, percebi que ela era adequada às necessidades do mercado e aos interesses da população. Penso que todos os players saíram ganhadores embora desconheça o impacto financeiro desta medida nas contas da região.

Como tem acompanhado o processo do grupo SATA e, particularmente, da Azores Airlines? O que será o bom caminho para um futuro melhor?
É um tema de abordagem muito delicada sobretudo por alguém que sempre esteve do “do lado da concorrência” e que apenas conhece os dados que são tornados públicos. Contudo, não escondo a minha opinião.
A Sata Air Açores é o garante da mobilidade interna e nunca poderá deixar de existir enquanto serviço público, para o qual não se vislumbra qualquer outra solução alternativa, nomeadamente as de livre concorrência, como por vezes tem sido aventado.
O mesmo não se aplica à Azores Airlines, criada num momento de euforia e fruto de promessa eleitoral, sem estudos de mercado verdadeiramente credíveis e que acabaram por conduzir aos atuais resultados. A Azores Airlines tem sido, ao longo da sua existência, um instrumento utilizado pelo poder institucional para satisfazer necessidades pontuais de procura de nichos de mercado para o destino Açores. Abrem-se e fecham-se rotas nem sempre sustentadas por estudos credíveis e que demasiadas vezes se têm traduzido em avultados prejuízos para o grupo SATA.
A verdade é que a Azores Airlines existe e apesar da sua situação financeira grave, há que acautelar as centenas de postos de trabalho e o desastre que seria para uma Região tão pequena aumentar mais ainda o nível de desemprego.Por outro lado, privatizá-la nesta altura de pandemia parece hipótese impossível de concretizar.

Perante a situação actual que a TAP está a atravessar, como gostaria que a companhia aérea evoluísse?
Este é um tema de abordagem difícil numa fase em que tantos colegas e amigos correm o risco de verem as suas vidas viradas do avesso.Infelizmente esta não é mais uma crise, mas a grande crise do transporte aéreo que veio pôr em causa a estratégia a longo prazo que tinha sido desenhada para a TAP e que cai agora por terra com os efeitos da pandemia. Tenho acompanhado o desenvolvimento da situação e é curioso que a empresa que fez o estudo que estava a ser desenvolvido e que passava pela criação de um HUB forte em Lisboa e crescimento da operação, seja a mesma que agora estuda a sua reestruturação e encolhimento.
  Esta crise só é comparável à crise vivida em 1994, que originou reduções de pessoal através de reformas antecipadas e acordos. Agora vai certamente originar despedimentos muito dolorosos de pessoas ainda longe da idade de reforma e aumentar de forma substancial a percentagem de desemprego no País. A recuperação será, certamente, lenta face aos valores que estão a ser injetados na empresa, dificilmente possíveis de serem devolvidos nos prazos previstos. A TAP antes da pandemia estava a passar por uma “dor de crescimento”, própria dos investimentos a longo prazo, mas em que havia uma esperança de retorno num futuro próximo. A pandemia veio pôr em causa não só a estratégia que vinha sendo desenvolvida, mas a própria existência da Companhia.

A pandemia veio travar o ‘boom’ que estava a ocorrer no turismo açoriano. Acredita que, com a vacina, a Região vai voltar a ter os fluxos turísticos de 2019?  
Acredito com toda a convicção que em breve a Região vai voltar a ter os fluxos turísticos de 2019. Foram criados, nas sociedades em geral, hábitos de viagem que não serão revertidos e que voltarão à sua normalidade e crescimento. Depois deste longo confinamento, a ansiedade para a retoma das viagens é imensa e a procura vai ser grande logo que as condições o permitam. O mundo descobriu os Açores e acredito que seremos, num futuro próximo, um destino com grande procura, porque sustentável e seguro. Importa, contudo, sermos capazes de saber conservar a nossa mais valia paisagística e ambiental, que é de facto o nosso verdadeiro trunfo, aqui no meio do Atlântico. Tenho consciência das dificuldades que esta crise trouxe aos nossos agentes turísticos, mas, acredito que o pior já passou. A vacina já chegou e tudo vai voltar ao normal.

Em sua opinião, como será e como gostaria que fosse a aviação no futuro?
Oferta diversificada em serviço e preço.  
Tem algo mais a acrescentar?
Apenas desejar a todos os colaboradores do Correio dos Açores e aos seus leitores que 2021 seja repleto de  saúde e alegria . 

 

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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