Apesar das incertezas é fundamental inovar, diz empresário

Aumento na distribuição da Queijada de Mel confeccionada por Emanuel Casado pode ser solução para atenuar efeitos da nova crise

Inicialmente as Queijadas de Mel confeccionadas pela empresa de Emanuel Casado, na freguesia das Furnas, foram vistas como uma forma de escoar o mel biológico produzido pelas obreiras deste empresário, no entanto, são agora a luz ao fundo do túnel para que a sua micro empresa possa retomar alguma da produtividade e algum do lucro que apresentava antes da pandemia.
Isto é, apesar de serem os rebuçados e os caramelos tradicionais os produtos mais vendidos e com mais procura, quer por locais como por turistas, as opiniões positivas relativamente a esta queijada fazem-no acreditar que o próximo passo a dar será mesmo a criação de uma embalagem para que a possa assim introduzir no mercado local e chegar até mais pessoas.
Até ao momento, esta é uma queijada que se encontra à venda apenas nas Furnas, nos hotéis e nos restaurantes, mas com a aquisição de um novo forno a empresa tem agora condições de aumentar a sua produção e tentar “crescer em contra ciclo”, fazendo frente às dificuldades que existem.
Acima de tudo, conforme conta o empresário, “dar este passo em frente” será a forma encontrada para evitar que as consequências deixadas pela pandemia se agravem em 2021, alargando o leque de pessoas a quem chegará este produto.
Tendo em conta o aumento da produção, no caso específico desta queijada que classifica como única, Emanuel Casado refere que está até “a fornecer mais” quando em comparação com o período anterior à pandemia, salientando que continua a fornecer restaurantes e hotéis locais e que está a reunir esforços para chegar a mais estabelecimentos do mesmo sector.
Apesar da incerteza com que gere o negócio actualmente, continuando ainda com prejuízos na ordem dos 75%, o empresário considera que este será o passo do tamanho certo, uma vez que apesar de “estar só nas Furnas ser pensar muito pequenino”, pensar em exportar produtos será já “um passo maior do que as pernas, especialmente neste momento”.
Em acréscimo, para tentar aumentar o número de vendas também localmente, Emanuel Casado e a esposa, Elza Casado, pensam também em preparar “um pequeno posto de vendas”, onde será possível ter um contacto mais directo com os clientes e reforçar a sua posição no mercado, considerando que actualmente esta é uma das lacunas que tem vindo a impedir o crescimento da empresa familiar que criou.
“Antes da pandemia pensávamos nesta opção, embora não tivéssemos possibilidades, e agora com a pandemia não temos outra solução, temos que pôr a corda ao pescoço e andar. Se não inovarmos morreremos, e se esta pandemia durar muito tempo estamos perdidos”, desabafa.
No futuro, Emanuel Casado pensa também levar até ao mercado alguns produtos mais saudáveis que têm o objectivo de serem agradáveis para as pessoas mas sem os impactos negativos que podem advir do consumo de açúcar, embora o empresário considere que também o açúcar “a ser consumido com moderação não é o papão que dizem ser”.
Apesar de estes produtos em carteira não serem “100% saudáveis”, a realidade é que “as experiências que se fez são boas e então vamos ao encontro de um nicho de mercado que está a gritar com falta de produtos deste género. Todas as pessoas querem o prazer mas não querem as consequências, então vamos ao encontro disso: dar prazer às pessoas mas com o mínimo das consequências”, salienta Emanuel Casado.
Para além destes produtos que por enquanto prefere não revelar em que irão consistir, o empresário refere que poderá estudar a opção de fazer também algum produto direccionado para os consumidores diagnosticados com diabetes, sendo o mel o ingrediente principal, embora considere que não tenha produção de mel suficiente para pensar nisto neste exacto momento.
 “Há plantas que anulam a produção de açúcar e aí podemos brincar com o mel, mas também não tenho produção para fazer 100% de produção de rebuçados com mel. Isto obrigaria a ter um fundo de maneio que não temos para poder comprar mel, e era preciso que essa pessoa a quem comprasse mel entrasse na minha filosofia de mel biológico. Além disso nós temos cada vez menos mel”, refere.
Para contornar esta dificuldade sentida cada vez mais e por cada vez mais apicultores, Emanuel Casado salienta que há “falta de um ordenamento como deve ser a nível regional ou a nível nacional” que permitisse uma diminuição das áreas destinadas a pastagem para garantir o crescimento de espécies que as abelhas possam polinizar, por exemplo.

Garantir a continuidade  
de uma tradição...

Apesar de nunca ter “sonhado” ser empresário, a verdade é que a vida de Emanuel Casado se encaminhou neste sentido, quando aos 20 e poucos anos decidiu construir as primeiras instalações para processar o mel que se dedicava a produzir enquanto apicultor.
No entanto, depressa percebeu que estas instalações estavam sub aproveitadas, sentido por isso a necessidade de, há cerca de 15 anos, investir na criação de outros produtos, chegando assim à ideia de criar de raiz os seus próprios rebuçados e caramelos tradicionais, inspirado pela família da esposa – que tinha o hábito de fazer estes caramelos – e por um furnense emigrado para a Bermuda que também fazia este tipo de doçaria enquanto viveu em São Miguel.
“Inicialmente era só apicultor. A família da minha esposa fazia caramelos de leite e tentámos fazê-los. A princípio não era rentável por falta de experiência mas depois as coisas foram-se aperfeiçoando. Depois soubemos que havia um senhor que há cerca de 60 anos fazia estes rebuçados, mas depois de ir para a Bermuda desapareceram estes rebuçados das Furnas, por isso experimentámos e acabámos por aprender a fazer os rebuçados”, conta o empresário.
Em relação ao produto em si, há a dizer que estes caramelos – sobretudo os de leite – são “muito tradicionais da Páscoa e do Natal”, sendo que há várias décadas eram preparados pelas mulheres com alguma antecedência e guardados longe dos mais novos para que pudessem chegar o mais intactos possível até ao dia da festa.
Depois de garantido o sucesso dos caramelos de leite, foi a altura de começar a inovar com outros sabores também eles regionais, como o ananás dos Açores, acrescendo também os sabores mais conhecidos do público, tais como o limão, o morango ou o coco e chocolate.

“Ser empresário em Portugal é
como ser um inimigo a abater”

Apesar de se manter esperançoso em relação ao próximo ano, Emanuel Casado não esconde as dificuldades por que passa neste momento enquanto empresário, afirmando inclusive que “ser empresário em Portugal é como ser um inimigo a abater”, tendo-se visto em consequência desta nova crise obrigado a aderir a moratórias e a linhas de crédito para se conseguir manter à superfície, criticando porém as medidas propostas aos empresários.
“A Segurança Social perdoa uma percentagem consoante as vendas que se faz, mas o resto não perdoa, paga-se às prestações. O sistema está assim, tira-se de um lado e ajuda-se do outro. (…) Se a Covid-19 não entupiu o sistema de saúde entupiu a economia, se não morrermos da doença vamos morrer economicamente”, diz.
Critica em especial as condições em que foram deixados os sócios-gerentes das empresas, que apesar de serem os que garantem a criação de postos de trabalho, se depararam com apoios reduzidos e sem subsídios, como acontece com os empregados que foram colocados em lay-off.
“Isto é crise em cima de crise e nós temos dívidas para com a banca. Não vamos endividar-nos mais. Da primeira crise safei-me bem e cresci, mas esta crise é pior. Quem vendia para o turismo está numa situação muito delicada. Houve esta mudança de governo, estão a preparar políticas mas a vida continua, por isso era bom que se lembrassem que nós existimos”, conclui Emanuel Casado.

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