Valter Câmara, Presidente da Cooperativa União Agrícola Florentina

“Os transportes continuam a ser um problema muito grave e um entrave grande às nossas exportações”

 Quando foi fundada a Cooperativa União Agrícola Florentina?  
Antes da Cooperativa União Agrícola Florentina foi criada, por um grupo de agricultores liderado por José Armas Gomes, a 16 de Março de 1987, a Associação Agrícola da Ilha das Flores. A intenção foi de criar uma entidade que os representasse e defendesse os direitos dos agricultores florentinos na questão da comercialização e importação de produto. A 7 de Agosto de 1991 foi inaugurada a sede que fica nas Lajes. Posteriormente, com a necessidade que existia de comercializar os produtos e visto que a Associação não o podia fazer, foi criada, em 28 de Fevereiro de 1992. A Associação Agrícola é basicamente para reivindicar e receber as quotas dos sócios e a Cooperativa tem a função de comercializar os produtos. 

Quantos associados tem a 
vossa Cooperativa?
Ronda os 15 associados. Há sempre a entrada de alguns e a saída de outros. Uns porque desistem, outros por falecimento. Quando é por falecimento tentamos passar para os seus filhos, mas andamos sempre na casa dos 15 associados.

Que produtos comercializam?
Nós trabalhamos em 4 áreas. As rações desde a galinha até aos bovinos; trabalhamos com os adubos; com a compra e venda de animais e temos também uma bomba de combustível. Esta é a espinha dorsal da Cooperativa. Aliado a isto, procuramos ter todos os artigos indispensáveis à agricultura, tanto para jardins, como para quintas, pomares ou hortas. Tentamos ter os artigos que os nossos associados vão precisando. Também vendemos os produtos fito fármacos. Na loja da Cooperativa, em Santa Cruz, temos um talho onde vendemos em fresco bovinos, suínos, caprinos e ovinos.     

Falando na carne em concreto e na exportação, que números registaram no ano passado?
Representamos sensivelmente 50% das vendas na ilha das Flores. Em relação ao número de animais andamos à volta dos 1000 animais. Este número é muito volátil porque se for um ano em que esteja tudo muito bom, todos aparecem no mercado para comprar e os nossos associados vão vendendo. Se é um ano em que complica mais, voltam à Cooperativa e vendemos mais. Por vezes vendemos mais em anos menos bons do que em anos bons. Quando me refiro a anos bons e menos bons, estou a falar ao nível de mercado em Portugal Continental. 

Sabe-se que este sector tem passado alguns problemas nos últimos tempos nas Flores, devido à falta de transportes…
Temos a vertente de exportação de gado vivo e de gado abatido. Exportamos os novilhos até aos 18 meses e na questão dos abatidos, temos o gado de refugo que abatemos cá e mandamos em frio. Temos também os animais indiferenciados, o vitelão e o novilho, por exemplo, e temos os animais IGP que abatemos e exportamos. Os transportes são sempre o nosso principal problema. Tivemos a passagem do furacão Lorenzo, a 2 de Outubro de 2019, que destruiu o nosso porto e se antes disso já era um problema, depois transformou-se num caos. Embora exista um barco, o Malena, que faz o transporte para as Flores, ele nem sempre consegue atracar. O cais -5 é um cais perpendicular ao principal e este aspecto tem muita relevância porque o barco, quando existia ondulação trabalhava de frente para essa ondulação. Podia trabalhar com outras condições de mar que não pode trabalhar no cais -5. Esta é uma das razões. A outra tem a ver com o facto de termos sempre de conseguir ligar o Malena ao barco que sai de São Miguel para o continente. Quando atrasa a atracagem nas Flores já não apanha ligação para o continente.

E no caso do transporte dos animais vivos complica-vos muito a vida…
É muito complicado. No caso dos animais vivos até temos algum mercado regional, para a Terceira onde trabalhamos com a Quinta dos Açores e tentamos, quando não temos ligação para Lisboa, colocar os animais na Terceira. Ainda há dias os animais vivos chegaram a São Miguel e tivemos de os retirar do cais, pedir a alguém para tratá-los e voltar a devolvê-los ao cais para poderem voltar a seguir no barco. É muito complicado. Na questão dos animais abatidos, nas vacas de refugo não se coloca tanto, mas nas IGP temos 5 dias entre o abate e a desmancha da carcaça. Abatemos cá nas Flores mas não fazemos a desmancha. Sai em frio e sendo assim tínhamos de ter ligação rápida até à sala de desmancha para não perdermos qualidade e preço na carne. Os transportes continuam a ser um problema muito grave e um entrave grande às nossas exportações.

Ainda sobre os transportes, o que deveria ser alterado para que os transportes funcionem melhor para a ilha das Flores?
Penso que tem de existir uma escala definida. Neste momento temos o Malena que serve as Flores e tem uma limitação de 9 contentores para animais vivos, mas tirando isso tem capacidade para 100 contentores e não tem qualquer problema de abastecer a ilha. Não sou apologista de passarmos a ter um transporte semanal. Continuo a achar que de 15 em 15 dias é suficiente para as Flores devido ao movimento que temos. Temos de ser realistas, coerentes e pensar também na questão da rentabilidade do barco, mas tem de existir uma escala. Neste momento o barco faz Flores/Ponta Delgada/Ponta Delgada/Flores e isto, no nosso entender, prejudica muito a nossa comercialização inter-ilhas. Defendemos que de 15 em 15 dias, o barco faça Ponta Delgada/Terceira/Flores/Pico/Ponta Delgada e que 15 dias depois faça o percurso inverso. Aí podemos rodar mais os nossos produtos dentro da região e, dentro da exportação de animais, dificulta-nos muito ter de ir para São Miguel para depois os colocar na Terceira. A intenção do anterior Governo e penso que também deste, é de aumentar os abates na região e para isso é preciso que nos dêem condições para podermos colocar os nossos animais vivos nas outras ilhas. Não apenas em São Miguel mas também na Terceira e no Pico que têm capacidade de engorda para depois os abaterem. Fazemos poucas engordas nas Flores porque somos uma ilha pequena, muito acidentada e com um clima muito rigoroso no inverno. Não conseguimos fazer armazenamento de forragem suficiente durante o verão para depois fazermos acabamentos aos animais a partir de Setembro e Outubro. 

Pode dar um número mais específico das carcaças que exportaram?
O ano de 2020 ainda não está fechado, mas por exemplo na questão de vacas velhas exportamos o ano passado 115 animais com um valor aproximado de 50 mil euros.

Que problemas vos trouxe a pandemia?
Devido ao confinamento e a todo o problema que atravessamos a nível mundial o consumo de carne diminuiu e o preço baixou entre 20 a 30 cêntimos nos animais vivos. Um vitelo de 300 quilos, comparando os anos de 2019 e 2020, tem uma diferença monetária para o agricultor no montante de 100 euros. 

A pandemia reflectiu-se numa quebra de facturação?
Em relação ao fecho de contas de 2019 e 2020 não nos vamos ressentir muito. Havia muitos animais que estavam para sair e o nosso período forte de exportação é em Setembro, Outubro e Novembro, sendo que o furacão Lorenzo passa a 2 de Outubro, na época alta de exportação de animais na ilha das Flores. O Malena só chega às Flores a 14 de Janeiro de 2020 e portanto muitos animais que deviam sair em 2019, transitaram para o inicio de 2020 e quando formos fazer o fecho de contas deste ano não vamos ter uma quebra muito grande. Em relação a vendas na nossa loja não registamos um decréscimo muito acentuado. Consigamos manter mais ou menos no mesmo patamar as vendas nas nossas lojas das Lajes e Santa Cruz. No talho, durante os meses de confinamento, tivemos uma redução de 50% e no abate de animais reduzimos também por semana no mesmo valor. Nesse período do confinamento conseguimos aumentar as vendas naqueles produtos mais específicos para as hortas e para os quintais, mas devido à pandemia tivemos de encontrar uma outra logística na questão de venda aos nossos clientes. Temos uma sala de vendas em que o cliente deixa de ter acesso livre. Entra um cliente de cada vez e pelo facto de não ter contacto com o produto, começamos a notar que partir daí começou a haver alguma quebra nesses artigos. 

Como está a situação financeira da Cooperativa?
Felizmente estamos, desde há vários anos, sempre com resultados positivos. Não me recordo de termos tido um resultado negativo. Tentamos não ter resultados positivos muito altos porque a função da Cooperativa é servir o agricultor e não é ter grandes lucros, apesar de termos de ter algum para podermos fazer investimentos. Só fazendo investimentos podemos também prestar um bom serviço ao nosso agricultor. Fazemos prestação de serviços na silagem de rolos e de milho e temos também todas as máquinas necessárias para fazermos os rolos cilíndricos da erva. Temos 4 tractores e 4 alfaias que temos de adquirir. Tudo isto tem o seu custo e por isso temos de ter alguma margem para podermos fazer este investimento. Para quantificar o movimento da nossa Cooperativa, em 2018 tivemos 1 milhão e 850 mil euros em vendas, em 2019, 1 milhão 950 mil euros e em 2020 estamos a perspectivar ultrapassar os 2 milhões de euros. 

Algum projecto que esteja a ser pensado pela Cooperativa para os próximos tempos?
O principal projecto é manter a porta aberta, a casa saudável e a servir os nossos agricultores. Temos sempre em mente tentar melhorar as condições que a Cooperativa tem para disponibilizar aos nossos agricultores. Queremos adquirir mais um tractor para o corte e silagem de erva, temos um parque de retém por onde passam todos os animais da ilha e tencionamos cobrir essa estrutura. Temos vários projectos mas temos de ter algum cuidado e  dar um passo de cada vez para não nos endividarmos.            
 

Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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