Carlos Teixeira, Professor Catedrático na Universidade de British Columbia (Canadá)

Açorianos no Canadá têm sido comunidades em transição onde muitos jovens estão integrados no mosaico canadiano perdendo interesse nos Açores

Nasceu na Ribeira Grande, mas foi para o Canadá estudar. Como se deu essa transição?
Realmente nasci na Ribeira Grande e vivi nos Açores até aos 18 anos de idade. Vivi a Revolução de Abril, vi a nossa universidade nascer, vi a nossa RTP nascer e vi os primeiros programas da RTP a preto e branco. Saí com 18 anos de idade com o objectivo de vir estudar ao Canadá e depois regressar aos Açores. Gosto muito dos Açores. Tenho viajado muito mas continuo a pensar que os Açores e a minha Ribeira Grande – que me perdoem os açorianos – é um lugar muito especial e gostava de poder ir com muita, muita frequência à minha Ribeira Grande, pois tenho lá os meus pais e irmã e tenho muitos laços que me ligam a esta terra.
Na altura da Revolução de Abril onde havia greve aqui, greve ali, os meus pais foram muito objectivos e deram-me a opção de estudar em Montreal, onde a minha mãe tinha uma família bastante numerosa. 

O que mais o marcou na chegada a Montreal?
Vim para Montreal, onde residi com tios meus e fiz o Bacharelato e o Mestrado. Tive que aprender o francês, e adorei Montreal porque é a cidade mais europeia – na minha opinião – que existe no Canadá, e uma das mais europeias que existem no Norte da América. Nessa altura tive a felicidade e a sorte de viver no coração da comunidade portuguesa em Montreal. O meu tio Augusto Rego foi um pioneiro na emigração açoriana para o Canadá, que começou em 1953, e este meu tio emigrou em 1954. Este meu tio, um homem com apenas a quarta classe, foi a melhor enciclopédia que eu tive. Foi a pessoa chave que me introduziu à comunidade portuguesa em Montreal, e quando chegou a altura de eu decidir qual seria o tema que iria abordar na minha Tese de Mestrado, não hesitei um segundo de que o meu tema seria a estrutura e a evolução da comunidade portuguesa em Montreal.

A que conclusões chegou ao estudar a comunidade portuguesa em Montreal?
Quando se fala na comunidade portuguesa em Montreal, ela é exclusivamente açoriana. Quando falamos hoje em 500 mil [emigrantes ou descendentes de emigrantes portugueses no Canadá], segundo as minhas estatísticas e os estudos que tenho feito, tudo indica que pelo menos 65% sejam de origem açoriana.
Quando chego a Montreal estou numa incubadora, num laboratório social e, portanto, adorei a minha experiência como investigador dentro da comunidade portuguesa. Nessa altura, no final dos anos 70 e princípio dos anos 80, a comunidade açoriana era muito bem estruturada e organizada, a maioria tinha acesso a casa própria e o objectivo era ter a sua independência económica.
Era uma comunidade bem-sucedida, sendo que, com o tempo, a comunidade de Montreal, tal como a comunidade de Toronto, onde reside a maior parte dos açorianos no Canadá, são comunidades que se têm diluído um pouco, e isso deve-se em parte à diminuição de emigrantes açorianos para o Canadá. A acontecer isso, é normal que as gerações mais antigas nos deixem e que as gerações mais jovens se assimilem no meio canadiano.
Mais tarde tive a opção de fazer o meu Doutoramento em Montreal em francês, ou de o fazer em Toronto. Fiz o meu Doutoramento em Toronto e a minha tese – mais uma vez – focou a comunidade mais importante em termos numéricos no Canadá, e debruçou-se mais uma vez sobre a estrutura e evolução da comunidade portuguesa em Toronto, maioritariamente de origem açoriana.
A percentagem dos açorianos em Toronto é superior à de Montreal. Enquanto a percentagem em Montreal rondava os 60% e os 65%, a percentagem de açorianos em Toronto é muito mais forte, atingindo facilmente os 65% a 70%. Mais uma vez vivi no coração da comunidade portuguesa de Toronto.
Estava por isso “condenado” a dedicar uma grande parte da minha vida às comunidades portuguesas. Vivi sempre dentro da classe portuguesa: ia à igreja portuguesa, socializava muito com as comunidades portuguesas em Toronto e Montreal, porque achava que tinha que dar um contributo enquanto açoriano àquelas comunidades. Para mais, eu era dos poucos portugueses de origem açoriana a fazer um Doutoramento, e acho que as pessoas admiraram o trabalho que eu fazia, e ao mesmo tempo eu podia servir de exemplo para os filhos dos emigrantes, porque apesar do sucesso económico, e não só que os açorianos tiveram, o grande tendão de Aquiles foi sempre o abandono escolar dos nossos jovens açorianos.
Com muita paixão e muito amor, sempre tentei vender a ideia de que o acesso ao ensino superior é a coisa mais importante e o legado mais importante que podemos deixar aos nossos filhos.

Encontrou diferenças entre as comunidades açorianas que estudou?
Em relação às nossas comunidades açorianas, elas estão dispersas no Canadá mas não há grandes diferenças significativas entre nós açorianos. Aliás, eu detectava mais diferenças quando estava em São Miguel porque éramos mais bairristas, quer por serem de ilhas diferentes ou por serem de clubes de futebol diferente, e no Canadá não se discute isto.
Nós aqui sentimo-nos mais próximos enquanto açorianos. Quando se fala da décima ilha, nós somos a décima ilha, porque nós aqui podemos até morar em bairros diferentes mas somos da mesma cidade. Aqui é que me senti mais açoriano, embora seja muito bairrista em relação à minha Ribeira Grande.
Muitas vezes aqui os jovens são humildes demais, não se identificam e ninguém sabe que eles são de origem açoriana, mas eles existem, porque há cada vez mais jovens das segundas e terceiras gerações a irem para as universidades. Muitos dos nossos jovens, devido a esta grande integração no meio canadiano perdem esta herança cultural como a língua materna que poderiam falar, visitar as ilhas, saber mais da história e da geografia dos Açores, de Portugal, etc., isto para dizer que os nossos jovens estão relativamente bem integrados e têm tido impacto nos mais variados sectores.
Há dois ou mais tipos de jovens. Há aqueles que assimilam completamente e que perdem contacto com a língua materna e a comunidade portuguesa, que perdem o interesse em ir aos Açores e etc., e temos aqueles luso-canadianos que vivem entre dois mundos. Podem identificar-se como portugueses, como açorianos e ao mesmo tempo como canadianos, e eu diria que há uma dupla pertença identitária por parte destes jovens. Sentem-se portugueses e açorianos, os pais transmitem muitos dos valores culturais que trouxeram de Portugal mas ao mesmo tempo eles têm a parte do mosaico canadiano porque é o país onde vão viver e trabalhar. Além disso, os casamentos mistos são cada vez mais importantes no caso das nossas comunidades, e isso aconteceu com praticamente todas as comunidades.

Haverá o risco dos jovens que não se interessam pelos Açores acabarem por esquecê-los?
Totalmente. Ao longo dos anos tenho dito que somos comunidades em transição. Do isolamento daquela primeira geração que se concentrava num bairro português e que tinha problemas com a língua porque migraram por razões económicas, saímos para uma integração que para muitos pode ser interpretada como uma assimilação.
Diria que a identidade étnica constitui uma fonte de enriquecimento e quer os pais como a família constituem um papel importante. Se um pai ou uma mãe não tem a coragem de dizer a ilha ou a freguesia em que nasceu, de falar um pouco das barreiras e das dificuldades que viveram, explicar-lhes o porquê do salto para o outro lado do Atlântico, francamente, os pais também são responsáveis por isso, não podemos só culpar os professores nas escolas, mas de qualquer das formas os açorianos não enviam muito os seus jovens para as escolas portuguesas.
Isto não é comum apenas aos açorianos, é comum a todos os grupos de emigrantes que residem no Canadá.

O que se seguiu ao Doutoramento?
Depois de fazer o Doutoramento, dei aulas na Universidade de Toronto, e este foi o período mais importante da minha vida, adorei dar estas aulas e continuo sempre ligado à comunidade portuguesa.
Entretanto, em 2003 surge a oportunidade de trabalhar na University of British Columbia, onde temos dois campus, um em Vancouver, com aproximadamente 50 mil alunos, e um campus novo que abriu na cidade de Kelowna, no Vale de Okanagan. Era uma oportunidade única que eu tinha de trabalhar para um campus que ia começar. As oportunidades eram muitas e eu não resisti à tentação de vir para a University of British Columbia, que é a terceira maior e melhor universidade do Canadá, não só pelos alunos que tem, mas por ser uma universidade altamente vocacionada para a investigação.
Foi a migração mais difícil que eu tive. Foi muito difícil deixar os meus pais e a minha irmã na Ribeira Grande, deixar os Açores e deixar o mar, a nossa comida e a nossa cultura. Foi difícil vir para Montreal e foi muito difícil sair de Montreal para ir para Toronto, estive oito anos em Montreal e 23 em Toronto, mas foi muito mais difícil sair de Toronto e vir para a Columbia Britânica.

Porque foi mais difícil?
Digo sempre que tive três migrações na minha vida e que esta foi a mais difícil. Sob o ponto de vista profissional eu cheguei a Professor Catedrático num espaço relativamente curto de tempo, aos 55 anos de idade, e isso foi fantástico. Mas por outro lado perdi aquele grande laboratório social que era a comunidade portuguesa de Toronto.
Apesar de ter muitos contactos frequentes com os meus amigos e apesar de ir a Toronto com a minha mulher, quer para visitar os familiares da minha mulher ou por motivos profissionais, mas foi realmente um grande choque cultural, o segundo deles.
O primeiro foi quando saí dos Açores e cheguei a Montreal, com a neve e com o frio, com uma cultura diferente, mas este foi mais difícil porque me faltou a presença daquela grande comunidade que é uma comunidade única na diáspora açoriana.

Onde está não há açorianos?
Na Columbia Britânica temos uma comunidade relativamente pequena, com cerca de 40 mil portugueses nas cidades de Vancouver e arredores, mas é – na minha opinião – das comunidades mais assimiladas, das mais integradas no mosaico canadiano. É uma comunidade que nos anos 50, 60 ou 70 ainda tentou formar um bairro português mas que foi muito pequeno e que se diluiu com o tempo. Foi uma comunidade que dispersou, diluiu e nunca houve um grande bairro português.

Em relação aos açorianos que procuram actualmente o Canadá, são pessoas com mais formação académica?
No início, a grande maioria dos açorianos emigrou por razões de ordem económica. Foram famílias e famílias que desertaram por razões económicas, há freguesias em qualquer uma das nossas ilhas em que se pode ir à rua e perceber que a maior parte ou foi para a Bermuda, para a Costa Este dos Estados Unidos, para a Califórnia ou Toronto, ou Montreal. Houve esta emigração massiva e até aos fins dos anos 70 foi uma emigração com um grau de instrução relativamente baixo, como a quarta classe, e que emigraram por razões de ordem económica. 
A partir da Revolução de Abril, no fim dos anos 70, começa-se a verificar um influxo para Montreal e Toronto de portugueses das ex-colónias. Alguns deles empresários com altos níveis de educação que acabaram por emigrar e por desempenhar um papel muito importante nas nossas comunidades.
A partir daí, de uma maneira mais acentuada nos meados dos anos 80, 90 e até aos dias de hoje, tem-se verificado que a maior parte dos portugueses que vêm para o Canadá são pessoas com mais educação e estudos, e hoje é muito comum vermos gente com qualificações, com ensino liceal e universitário, a escolherem o Canadá como país para viver.
Isto tem muito a ver com as políticas de migração do Canadá, porque estas mudaram muito a partir de 1990. Eles deixaram de apostar na questão da reunificação familiar, em que as pessoas sem altos graus de instrução queriam vir para o Canadá, e o Canadá começou a colocar mais ênfase e mais importância nas qualificações das pessoas, por isso há uma correlação aqui, porque tem muito a ver com aquilo que o Canadá precisa, e neste momento temos o problema demográfico, o problema do envelhecimento e precisamos e iremos continuar a precisar de emigrantes, mas também precisamos de pessoas especializadas em determinadas funções.
No caso dos jovens que venham para um programa de graduação no Canadá, com o objectivo de fazer um Mestrado ou um Doutoramento, depois de entrar no Canadá e acabar o curso terá altas probabilidades de se tornar num residente permanente.

É importante o Canadá manter abertas as portas da emigração?
Nós neste momento temos à volta de 500 mil portugueses, sendo que 60% a 65% dos portugueses no Canadá têm origem açoriana. Nós temos comunidades dispersas em diferentes províncias do Canadá. A comunidade mais importante centra-se na em Toronto e arredores, e a segunda comunidade de portugueses e açorianos mais importante concentra-se na província de Quebeque, e a terceira comunidade será na cidade de Vancouver.
Estas são as concentrações mais importantes embora, claro, tenhamos portugueses em zonas rurais e em zonas marítimas. A presença açoriana no Canadá é muito interessante e gradualmente, com o tempo, tem tido impacto não só no tecido cultural e social, económico e até mesmo político nas últimas duas décadas, quando começámos a ter jovens de origem açoriana a desempenharem cargos políticos. É importante entender isto porque este é um país com 35 milhões de pessoas e um em cada cinco canadianos é emigrante, não é por acaso que somos um país multiculturalista.
Li recentemente num jornal que devido à Covid-19 nós temos que manter uma entrada de pelo menos 300 mil emigrantes por ano, porque nós temos um problema demográfico gravíssimo, a população do Canadá está a envelhecer e está a envelhecer muito mais nas zonas fora dos grandes centros urbanos.
Se a nossa população está a envelhecer só há uma saída para esta questão, que é abrir as portas à emigração, porque a maior parte dos emigrantes que cá chega traz a família com dois ou três filhos. O problema demográfico não existe só nos Açores. Nos Açores preocupa-me o envelhecimento populacional na maior parte das ilhas, com a excepção de São Miguel, em parte por causa de Rabo de Peixe que tem uma taxa de fertilidade alta. Para além disso preocupa-me também como açoriano a saída dos jovens para as ilhas mais importantes ou para o continente europeu, onde se inclui Portugal.
Portanto, com a questão do envelhecimento populacional, nós no Canadá estamos interessados e continuaremos a receber emigrantes. Há certas profissões que nós temos para pessoas qualificadas e se a emigração abre as portas porque precisamos delas, e os portugueses em geral como os açorianos em particular têm tirado proveito destas políticas e têm vindo para o Canadá, muitos com contratos de trabalho, sobretudo no sector da construção.

E quando chegar à reforma, pretende regressar aos Açores?
A pergunta que os meus amigos me fazem, incluindo os da Ribeira Grande, é se quando for para a reforma pretendo regressar. Certamente que o meu sonho era voltar de novo a Toronto e passar um certo número de meses em Toronto e outro tanto tempo na minha cidade da Ribeira Grande, que é onde quero sempre voltar.
É mesmo para concretizar, já o disse em várias entrevistas que dei no passado, e eu quero morrer descansado, e para morrer descansado e tranquilo tem que ser na minha cidade da Ribeira Grande. Entretanto gostaria de passar uma parte da minha reforma em Toronto porque esta é uma cidade que me diz muito e que me marcou ao longo de 23 anos e tem uma comunidade a quem eu devo muito, porque se eu hoje sou Professor Catedrático devo muito às gerações que me ajudaram.

Como vê o desenvolvimento dos Açores? 
Fico muito feliz por ver que os meus Açores começam a ser “redescobertos” por gente de todo o Mundo. É bom sinal. Como é bom ver os muitos investimentos nos mais diferentes sectores económicos, com a criação de emprego que é tão necessário para as nossas gentes incluindo os mais jovens.
Entretanto sou a favor de um turismo sustentável e de muita qualidade. Turismo de massas pode matar a nova “galinha dos ovos de ouro”, neste caso o turismo. Já tivemos vários ciclos de prosperidade económica na região – o ciclo do trigo, da laranja, o ciclo da emigração/remessas, o ciclo da vaca e agora o do turismo. Espero que os nossos governantes e todos aqueles que estão envolvidos directamente com o sector do turismo se apercebam dos dois lados da medalha - aspectos negativos e positivos do turismo de massas - e possam assim criar um equilíbrio sustentável onde todos possam admirar o que de melhor Deus ofereceu aos nossos Açores – uma Natureza e Beleza únicas no Mundo. Quero que os meus Açores sejam visitados por todos, mas que respeitem esta beleza e natureza que os Açores no meio do Atlântico oferecem. 
                  Carla Dias/Joana Medeiros

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Autor: CA

Categorias: Regional

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