A literatura como uma oportunidade para “fixar memórias”

Visita régia de D. Carlos I e D. Amélia aos Açores no início do século XX deu origem ao novo romance de Henrique Levy

No ano em que a visita do Rei D. Carlos I e da Rainha D. Amélia ao arquipélago dos Açores completa 120 anos, Henrique Levy publicou o seu segundo romance “enquanto açoriano”, ou seja, desde que se mudou de forma permanente para São Miguel, intitulado Segredo da Visita Régia aos Açores.
Conforme nos conta o autor do livro que será apresentado na próxima quinta-feira, esta obra surge pela necessidade de – entre a ficção – fornecer também algumas informações valiosas sobre as circunstâncias em que esta visita ocorreu, uma vez que foi “um momento muito importante para a história do país e também da Região Autónoma”, tendo em conta que o Rei D. Carlos visitou os Açores com o objectivo de outorgar a autonomia do arquipélago.
Inclusive, acrescenta o também autor de outros livros, esta foi uma viagem seguida por muitos jornalistas, obtendo ainda muito destaque a nível internacional, tendo em conta que a Armada britânica e espanhola acompanharam os reis durante a travessia “porque não era comum os reis deixarem os seus palácios na Europa para se dirigirem a regiões do império”, importância esta que – no que toca aos Açores – parece ter-se desvanecido, sendo por isso esta uma forma de dar mais alguma notoriedade a esta parte da História de Portugal e das Regiões Autónomas.
“Esta visita teve uma grande importância internacional, foi acompanhada por muitos jornalistas e teve muita relevância, mas aqui nos Açores esta realidade perdeu-se. Ninguém deu importância. Depois veio a República que retirou este projecto da Autonomia que tinha sido outorgado pelo Rei, e o Estado Novo então esqueceu-o completamente.
Mas foi muito importante esta viagem para os Açores. De todas as investigações que fiz percebi que a sociedade açoriana pouco sabia acerca desta visita, daí criar um romance que é uma forma de interessar as pessoas pela ficção e ao mesmo tempo passar-lhes a informação sobre a realidade histórica do seu arquipélago”, acrescenta.
Neste sentido, uma vez que estamos perante um romance histórico, o autor aproveitou também esta oportunidade para, através da ficção e através dos olhos daquela que é a narradora e personagem principal, dar a conhecer “um segredo guardado durante esta visita” que, de acordo com a sinopse do livro, é o “símbolo da queda de um regime e a ascensão de outro”.
Por outro lado, esta foi também uma oportunidade que o autor teve para contar também uma história ficcionada sobre a bandeira da república, iniciada “no momento em que ela é confeccionada, até ser hasteada em Outubro de 1910 na Câmara Municipal de Lisboa”, conta Henrique Levy.
Apesar de existirem “algumas personagens açorianas”, esta personagem feminina que acompanha o seu marido – político influente do reino – na visita régia, durante o período em que esta decorreu na ilha de São Miguel, é também reflexo da preferência e estilo literário de Henrique Levy, que dá primazia ao mundo visto através dos atentos olhares femininos.
Ao dar destaque a personagens femininas, o autor pretende destacar-se de outros escritores portugueses de renome, como é o exemplo de Eça de Queiroz, descrito pelo próprio como “um misógino” que através da sua escrita acaba por “mal tratar” as suas personagens femininas.
“Para escrever um romance histórico é-nos exigido muita pesquisa histórica, mas também tive outro objectivo ao escrever este livro, que era o de tratar com dignidade as mulheres do século XIX. Conhecemos, por exemplo, os romances de Eça de Queiroz (…) e eu resolvi fazer exactamente ao contrário e mostrar que as mulheres no século XIX não eram aquilo que Eça de Queiroz nos contava. Que tinham dignidade e desejos de liberdade”, explica.
Assim sendo, também neste mais recente livro considera que um dos seus maiores desafios prendeu-se com o voltar a “tentar olhar o mundo pelos olhos de uma mulher”, tarefa esta que considera “difícil para um homem”, ou pelo menos “muito mais desafiante do que criar personagens masculinas” com as quais se identificaria de imediato. 
“Acho que é muito desafiante – e muito interessante até – o escritor estar sempre a tentar colocar-se no lugar de uma mulher, perceber de que forma ela olha a sociedade, de que forma se movimenta e o que pode fazer para se libertar. Tem sido um desafio constante”, refere ainda.
No entanto, o maior desafio de todos tem-no nas mãos actualmente, tendo em conta que se encontra a trabalhar num novo romance, também ele relacionado com os Açores, localizado no século XVI, e no qual a vida de um só homem é analisada sob a perspectiva de várias mulheres.
Esta escolha sobre tempos históricos que não o contemporâneo faz também parte do estilo criativo do autor, professor na freguesia da Maia, uma vez que este tipo de escrita permite-lhe dar resposta à necessidade de “fixar memórias”, salientando que é esse um dos seus principais propósitos sempre que escreve um novo romance.
Em relação ao Segredo da Visita Régia aos Açores, Henrique Levy conta que este foi um livro que demorou um ano a ser concluído, acabando por isso por ser escrito durante a pandemia e o período de confinamento, o que apesar de significar alguns constrangimentos em termos de investigação, deu ao autor mais tempo para se focar na escrita do livro.
“Apesar de a pandemia ter feito com que eu tivesse tido mais dificuldade na investigação, impedindo durante algum tempo o acesso ao arquivo histórico, o arquivo enviava o que eu precisava e ia pedindo, por isso não sofri com isso, e por ter estado mais tempo dentro de casa tive muito mais tempo para a criação e para dedicar à escrita”, refere.
Em acréscimo, destaca também a importância que têm as editoras em momentos como este, em que – à semelhança da Plátano Editora – “não deixaram de apostar na Literatura”, permitindo assim a publicação desta obra, à semelhança de outras, “num momento em que todas as empresas, e as editoras em particular, atravessam várias dificuldades impostas pela situação pandémica que vivemos”.
Apesar deste contexto, e tendo em conta os nomes de escritores açorianos que vão surgindo, Henrique Levy adianta que “o que interessa é que as pessoas vão escrevendo e vão publicando. É certo que nem todos terão a mesma qualidade, mas significa que as pessoas devem publicar as suas obras, porque depois a qualidade cabe à crítica, é um processo completamente diferente que não tem a ver com o autor”.
Quanto ao autor do livro que será no próximo dia 7 de Janeiro apresentado por Aníbal Pires no Facebook e Youtube da Plátano Editora, através de um “livestream” marcado para as 20h00 locais, há a acrescentar que o próprio – apesar de não ter nascido nos Açores – considera-se ele próprio açoriano depois de, no ano de 2014, ter decidido deixar a sua vida em Lisboa e fixar-se nos Açores, arquipélago no qual tirava férias anualmente desde meados dos anos 80.
Joana Medeiros
 

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima