Cooperativa Ocidental da Ilha das Flores exporta regularmente para os Estados Unidos e aposta cada vez mais no mercado de Lisboa

O que faz esta Cooperativa e que produtos têm à disposição?
A finalidade desta Cooperativa é comprar o leite aos nossos produtores, que são quase todos sócios da casa, para o transforma num produto de valor acrescentado e colocá-lo no mercado para o comercializar, pagando a tempo e horas aos nossos produtores. A Cooperativa tem o queijo de prato e o queijo ilha. Produzimos mais de 5 tipos de queijos pequenos, manteiga e iogurtes. Os iogurtes nos últimos anos têm uma qualidade reconhecida e existem para satisfazer a necessidade local. O produto mais afamado e reconhecido que temos é a nossa manteiga da marca Uniflores que tem vencido vários prémios. O que mais produzimos é o queijo ilha. 

Como está a situação da Cooperativa Ocidental?
O grande problema desta casa tinha sido sempre um ciclo de 3 ou 4 anos. A casa começava num ano sem produção de leite e era necessário depois aumentar essa produção. Somos uma cooperativa pequena e estamos a falar da realidade da ilha das Flores que não se pode comparar com São Miguel, Terceira, Pico e São Jorge. Acontecia que se recorria a algum apoio governamental e de fundos europeus, para importação de vacas produtoras de outras ilhas. No ano a seguir tinha-se um aumento de produção e depois começava a cair. Ao fim do 3º ano estava-se lá em baixo. Começámos, eu e esta direcção, no dia 31 de Março de 2017 e conseguimos manter uma produção estabilizada até agora. Fizemo-lo garantindo que o produtor receberia e o contrato é pagar a 90 dias. Só houve uma vez em que nos atrasamos um mês, em Agosto de 2017, em que não foi mesmo possível pagar. Antes chegavam a ficar com 5 ou 6 meses de atraso e isso é manifestamente incomportável para qualquer produção da ilha das Flores que é muito mais cara do que em qualquer outra ilha dos Açores, tirando o Corvo. Em 2020 conseguimos pagar maior parte do ano a 30 ou 30 e poucos dias e isso permitiu estabilizar a produção que andou sempre à volta de 1 milhão a 1 milhão e 100 mil litros por ano.

Um dos grandes problemas com que se deparam aí nas Flores é os transportes…
Os transportes não são um problema, são um pesadelo. Não vou atribuir as culpas especificamente a ninguém porque isto tem a ver com a insularidade dentro da insularidade. Os Açores já são isolados em relação à Europa Continental mas dentro dos Açores há uma dupla insularidade. Mesmo antes da pandemia, em 2019, ficamos sem doca e foi muito complicado ficar sem abastecimento marítimo regular e daí para cá temos estado sujeitos ao tempo. Esse tempo também provoca vários cancelamentos da Sata ou quando vem, traz os produtos perecíveis que são mais importantes. Sofremos grandes perdas financeiras de caixa devido à exportação aérea que é muito complicada. Os nossos aviões são muito confortáveis, rápidos e os melhores que já tivemos, mas a parte da carga aérea na ilha das Flores não satisfaz e não se consegue resolver. Este ano conseguimos, dada a crise enorme que tem havido nos Açores no escoamento de produtos lácteos, abrir um mercado um pouco para os Estados Unidos da América que já fazíamos pontualmente e para Lisboa. Temos tido sorte nesse aspecto e conseguimos expedir o contentor para Lisboa quando o navio vem. Mas se na saída tem corrido bem, na vinda está um caos. Na importação e na logística dos produtos que precisamos para transformar e para vender o queijo, tais como, equipamentos de frio ou as caixas para vendermos o queijo, sofremos muitas vezes ruptura e temos de trabalhar com um stock, comparativamente com outras ilhas, três ou quatro vezes superior. 

Para além dos EUA, para que outros locais exportam?
Para os EUA temos agora uma exportação bastante regular e não conseguimos satisfazer metade dos pedidos até haver aquela sobretaxa, do Presidente Trump, aos produtos da União Europeia. Retomamos, agora nesta fase final do segundo semestre de 2020, algumas vendas. O nosso produto é bastante apreciado, é mais gourmet e apostamos muito no processo natural. O nosso principal mercado nos anos anteriores era São Miguel. Em 2020 já será muito fortemente Lisboa e em 2021 certamente também será. 

Que balanço faz deste ano de 2020?
Quando entrámos para a Cooperativa tínhamos e ainda temos uma infraestrutura antiga, muito obsoleta e a necessitar de manutenções. Herdamos uma dívida monstruosa para a dimensão da casa. Sobretudo, em 2017 e 2018, o objectivo passou por abater o máximo possível a dívida. Em 2018 e 2019 investimos para torná-la mais funcional e adequada à nossa realidade. No ano de 2020 estava previsto darmos o salto e íamos ter alguma independência financeira para realizarmos investimentos preventivos e não reactivos. Tivemos em 2020 o primeiro trimestre que foi provavelmente o melhor de sempre. Depois vem Abril, Maio e Junho que foram os piores meses de trabalho desde que esta equipa de trabalho está aqui na Cooperativa. Este verão, o turismo tinha menos capacidade para comprar e isso afectou as nossas vendas. No total o objectivo de vendas de 2020 foi quase alcançado, mas o preço é que recuou um pouco. Conseguimos escoar o nosso produto mas gostaríamos de o ter valorizado em vez de ter recuado. Em 2021 queremos ver se não recuamos em relação a 2020 e se mantemos mais ou menos o mesmo. O ano começou agora mas dá para perceber que isto vai doer.   

Que objectivos tem a Cooperativa para 2021?
O objectivo passa por tentar não falir e manter a porta aberta. Já em Janeiro estamos a investir, por conta própria e estamos à espera que venha um novo Governo e se terá alguma abertura para nos dar um apoio, no frio e na rede eléctrica que rondará os 45 ou 55 mil euros. A Cooperativa tem também preocupações ambientais e queremos construir uma ETAR para tratar águas residuais e o soro. É um projecto que temos entre mãos e é para avançar. Já temos o crédito aprovado junto da banca mas necessitamos de um aval do Governo. Queríamos ver esta situação resolvida e este é o maior investimento para 2021. 

Da parte das entidades governamentais considera que deveriam existir mais apoios?
Vou defender a minha parte e acho que sim e muito mais. Vamos analisar a questão social aqui da ilha. Esta é uma Cooperativa que tem um orçamento muito próximo de 1 milhão de euros e é a única indústria transformadora da ilha. Na vertente dos subsídios, que é sempre muito criticada no leite, deixo este dado. Uma lavoura na ilha das Flores tem 70% ou mais de facturação do seu leite. Até 30% é que são apoios. Se comparar com uma lavoura de carne a situação é exactamente contrária e então numa fase em que a carne está a cair, isto ainda se vai agravar. Penso que temos futuro aqui nas Flores. Temo-lo demonstrado e temos recuperado. Temos as contas equilibradas e temos honrado todos os nossos compromissos financeiros. Para estarmos em pé de igualdade com o resto da região, precisamos numa fase inicial de um investimento discriminatório positivo. Dou um exemplo. Um contentor que venha para São Miguel ou para a Terceira custa, por exemplo, 1500 euros. De São Miguel e da Terceira para as Flores vai custar quase outros 1500 euros. Já viu a dupla insularidade que temos dentro dos Açores? Digo isto na importação, mas também na exportação. É muito complicado competirmos em pé de igualdade. Esses apoios têm de ser justificados e fiscalizados.  
                                                      
                                                            Luís Lobão
 

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Autor: CA

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