“Uma mágoa que eu tenho é termos governantes de vistas curtas”, diz empresário lagoense impedido de expandir negócios

Na zona litoral da Atalhada, vários são os quintais que têm saída directamente para o mar, permitindo assim que os locais tenham um acesso privilegiado às piscinas naturais que ali existem e que ao longo dos últimos anos, antes da chegada da pandemia, têm vindo a atrair os turistas que gostam de fugir, nem que seja de vez em quando, das praias.
Assim sendo, e tendo em conta a beleza natural em causa, há pelo menos um empresário local que gostaria de poder tirar partido da localização e das potencialidades do seu quintal, de forma a poder criar uma nova oportunidade de negócio a adicionar às que já tem, sendo no entanto impedido de avançar devido ao facto de ver o seu quintal classificado como reserva natural, conforme contou ao Correio dos Açores.
Recentemente foi dada por concluída a ciclovia que liga a Atalhada até ao portinho de São Pedro, em Nossa Senhora do Rosário, o que no entender de Dinis Rego foi um dos melhores investimentos feitos pela autarquia do concelho, pese embora esta construção feita junto ao mar tenha dividido as opiniões de moradores devido à forma como a obra invadiu o litoral.
No entanto, na opinião do proprietário do restaurante José do Rego – actualmente gerido pelo seu afilhado –, a construção desta via veio acrescentar muito valor à localidade, conforme salienta: “Nunca fizeram uma coisa tão boa na Lagoa como isto. Se tivermos uma coisa com muito valor e ninguém souber que a temos não tem valor nenhum. O mar e aquela zona ali é a maior riqueza da Lagoa, penso que é a parte mais bonita da Lagoa, a zona litoral da Atalhada”.
Em tempos, relembra, o acesso ao mar era tão valorizado que os clientes do restaurante usufruíam frequentemente desta passagem para se banharem nas poças naturais existentes.
Tendo tudo isto em conta, e considerando também que tem duas passagens directas para o mar de propriedades diferentes, Dinis Rego não esconde que “gostava que esta pudesse ser uma oportunidade” para si, mas considera que “os governantes estão com as vistas curtas”, já que, na sua opinião, parece haver o “gosto de limitar e de classificar o património dos outros”, salientando ainda que os acessos que tinha foram também “cortados pela ciclovia”.
“No que é deles pode-se construir para cima do mar, e eu que estou a 100 ou a 200 metros do mar já tenho tudo classificado como reserva natural, apesar de mesmo aqui ao lado se construir em cima do mar, e por isso é que digo que temos governantes de vistas curtas, querem só para si, para o seu bem próprio e não pensam na beleza ou no conforto dos outros, no bom viver para as outras pessoas”, diz ao Correio dos Açores.
No entanto, considera que com as ideias que existem e com a beleza natural circundante, seria possível fazer dos Açores “mais do que o Dubai”, e que a beleza do arquipélago e destas zonas mais restritas em particular não significa “ficar com as coisas cheias de silvas, abandonadas, ao desbarato ou com plantas invasoras”, relembrando que “o desenvolvimento faz parte da vida”.
De momento – quando o tempo permite – faz apenas uso das várias esplanadas de que dispõe e que os clientes “podem usar à vontade”, tendo em conta que naquele espaço só pode ter “coisas amovíveis, pelo menos por enquanto”, diz.
Lamenta ainda esta situação por considerar que o lugar da Atalhada “não tem nada”, dando como exemplo a escola primária que ali existia há alguns anos e que foi encerrada entretanto para dar lugar a outras valências, e critica o facto de alguns serviços que pertencem à Atalhada serem destacados como parte da freguesia de Nossa Senhora do Rosário, deixando assim este lugar à sua mercê.
“As instituições ficam e as pessoas vão passando. Esta já foi uma vila muito industrializada e acho que está a perder muito da sua indústria embora esteja a ganhar noutras áreas, como na área social. A Lagoa vai tornar-se numa cidade moderna (…) mas na Atalhada não temos nada. Até a escola que tínhamos fecharam.
(…) Já dizia o padre Cláudio que a Atalhada é um dormitório. É o centro do mundo e vem tudo cá parar, (…) mas está-se a passar o risco ao lado da Atalhada para passar tudo para o Rosário. Há coisas que pertencem à Atalhada mas está-se a fazer o risco para que pertença ao Rosário”, conta, referindo que “o lugar da Atalhada já poderia ter sido freguesia, porque a Atalhada tinha e tem por onde se expandir, enquanto o Rosário está enclausurado”.

O início de um projecto de família

Dinis Rego cresceu numa família tradicional para o seu tempo, na qual o pai era agricultura e a mãe doméstica, marcada pelo trabalho duro do campo – entre a produção de vinho e a criação de gado.
No entanto, desde cedo que José do Rego tinha o gosto de fazer o seu vinho e a sua aguardente chegarem a mais pessoas, o que na altura poderia ser feito com a criação de uma taberna, à semelhança das outras que existiam na Atalhada e que tinham licenciamento para tal.
“Ele queria abrir uma taberna, mas quando o meu pai pensou nisso já não havia licenças para tabernas e ou ficava registado como café ou como casa de pasto. A diferença é que no café não podia vender vinho e na casa de pasto podia, mas como o interesse era vender vinho ele fez a licença como casa de pasto, o que permanece até hoje no alvará”, relembra Dinis Rego, que mais tarde viria a ficar com o projecto iniciado pelo pai.
Porém, enquanto crescia, começou quase de imediato a ajudar o pai a atender os clientes da pequena casa de pasto da família, período este classifica como o seu “tempo de brincadeira”, normal num tempo em que os filhos eram também considerados como uma importante força de trabalho para o agregado familiar.
Nessa altura, apesar da denominação de casa de pasto, era apenas vendido vinho e aguardente, recordando este lagoense que “os petiscos começaram a vir com o vinho”, nomeadamente chicharros ou polvo, “isto numa altura em que não havia frigoríficos para conservar as coisas”, apostando-se muito também no marisco fresco que chegava e que era vendido no próprio dia.
Com o passar do tempo o negócio acabou por ir crescendo, e enquanto as tabernas que existiam nas proximidades do actual José do Rego iam encerrando as suas portas a casa de pasto conseguiu manter-se aberta, quer devido à publicidade boca a boca que era feita, quer pela denominação mais abrangente.
Este crescimento foi também proporcionado pelo desenvolvimento da indústria no concelho de Lagoa, o que permitiu que os operários das fábricas começassem a ganhar melhor e a ter mais poder de compra, e que frequentemente houvesse pelo concelho operários de outros locais do país que eram os únicos a conseguirem resolver certos problemas relacionados com a manutenção de algumas máquinas.
“A Lagoa sempre foi um concelho muito desenvolvido ao nível da indústria. Os operários das fábricas começaram a ganhar bem e além disso havia equipamentos nas fábricas que não sabiam consertar, o que levou a que viessem pessoas do continente para cá para os arranjar. Essas pessoas tinham que comer fora e não havia sítios para comer senão em Ponta Delgada e uma outra casa em Santa Cruz da Lagoa que fazia refeições”, relembra Dinis Rego.
Por esse motivo, começaram a ser feitos vários pedidos para que se começassem a fazer algumas refeições para que estas pessoas pudessem jantar ou almoçar, escolha esta que viria a ser reforçada devido ao consequente desenvolvimento do concelho de Lagoa, com o surgimento dos primeiros bancos, por exemplo.
“Começámos por fazer polvo e chicharros até que se começaram a fartar desses pratos e perguntaram se não sabíamos fazer outras coisas. Perguntámos o que tinham desejo de comer e assim fomos partindo para outros pratos. Quando começámos a ver que este negócio dava certo, começámos com meia dúzia de pratos de carne e três ou quatro pratos de peixe, além dos mariscos”, o que lhe permitiu também criar o seu próprio negócio de alojamento.
Continuar com o legado deixado pelo pai foi uma decisão que tomou em 1985, ano em que casou. Porém, relembra que foi muito difícil fazer com que o pai aceitasse algumas das alterações que teve que fazer no espaço, sendo uma das mais polémicas a aquisição de uma caixa registadora.
“Foi muito difícil para ele aceitar as alterações. Por exemplo, tivemos que pôr aqui uma caixa registadora para controlar o movimento, mas quando me criei o que havia era uma tigela onde colocávamos o dinheiro, e sempre se usou a tigela até eu ter casado.
Esse foi um choque muito grande porque lhe disse que quando ele precisasse de dinheiro poderia tirar da caixa, mas não sem deixar um papel a indicar o que tinha tirado. Ele respondeu dizendo-me que até ali sempre tinha tirado dinheiro sem dizer quanto tinha tirado e disse que nunca mais passaria para o outro lado do balcão, e assim foi. Nem para beber um copo de vinho, quando ele queria alguma coisa pedia aos funcionários para o servirem”, relembra o filho de José do Rego.
Mais recentemente, e à semelhança do que aconteceu consigo, Dinis Rego acabou também por alugar o restaurante ao afilhado, por coincidência também após este se ter casado: “Foi um negócio que apareceu e que era conveniente na altura, e como comecei a trabalhar quando casei, o actual gerente também quando casou optou pela mesma coisa. Foi um negócio bom para os dois e até hoje mantém-se”, diz, relembrando que esta continua a ser “uma casa com nome feito e que funciona como uma espécie de ‘ex libris’ da Lagoa”, conclui.
 

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