Assistente Social na linha da frente dos apoios aos afectados pela pandemia refugia-se na escrita e lança “O voo da borboleta”

Correio dos Açores: Como surgiu “O voo da borboleta”?
Ana Carolina de Medeiros:“ O voo da borboleta” surgiu, num período de mudança na minha vida, tal como a metamorfose da borboleta. Por vezes é necessário ganhar asas e libertar-nos das nossas raízes, da nossa terra natal, vila do Nordeste e voar em busca dos nossos sonhos com a nossa família. Em busca do “querer é poder”. Assim surgiu “O voo da borboleta”, com a minha saída da vila do Nordeste, para a freguesia da Maia, concelho da Ribeira Grande. Freguesia esta que me acolheu e à qual agora pertenço de corpo e alma, eu e os meus filhos.

Foi difícil concretizares o sonho de publicação do livro?
Sinceramente, confesso, foi um impulso, momentâneo. Mas sim, foi muito fácil. Ao lado das pessoas certas, das instituições certas, tudo é possível. Primeiramente, enviei o livro para avaliação da editora, a quem agradeço profundamente pela confiança. Depois, tudo fluiu a seu tempo… Numa segunda fase, as correcções ao livro com o apoio de escritoras de excelência, açorianas, com o total apoio de instituições do concelho do Nordeste e da Ribeira Grande, e do nada, já estava com o meu sonho concretizado. Com o meu voo na minha mão.

Qual o significado da metáfora da borboleta?
Que pergunta difícil esta… Aí… Bem, a Clara, nasceu no Nordeste, cresceu e teve de romper com as suas raízes em busca de um pouso melhor e estável para a sua vida. Daí utilizar o símbolo a borboleta como representação deste voo, e essencialmente, ao longo de toda a história, em busca da sua liberdade enquanto, pessoa e filha. Este é o símbolo atribuído à borboleta.

Onde foi buscar a inspiração para a história?
Esta foi a parte mais fácil no meio disto tudo. Descrever a “minha vida” na vida da Clara. Foi um desafio enorme, a fonte de inspiração de qualquer pessoa que goste de ler e escrever. Olhar para o céu todas as noites, para aquela estrela mais brilhante, da soleira da porta e relembrar o passado… Foi maravilhoso, mas por alguns momentos, doloroso. Esta foi a minha inspiração, diária, todas as noites as estrelas esperavam por mim…

Quando se apercebeu da apetência pela escrita?
Desde pequena gostava de surpreender os meus pais com cartas, exposições públicas de leitura dedicada a eles e tudo o que sentia, me incomodava, eu escrevia. Esta foi essa a minha estratégia para resolver os meus próprios conflitos interiores, ou mesmo para desabafar. Recordo-me de um Dia da Mãe, ir para o ambão, no altar da igreja e a minha mãe, ao fundo, ouviu uma voz muito fininha a ler um poema dedicado a ela com todas as letras do alfabeto, criado por mim. Quando acabei de ler, olhei em frente e vi uma igreja em lágrimas e uma mãe de coração cheio. Nesta altura, o poema foi fixado em lojas, cafés, em vários sítios, por intermédio das pessoas que pediam para colocar na vitrine. Acho que este gosto nasce connosco, apenas o aperfeiçoamos e trabalhamos ao longo da vida. Foi o que aconteceu comigo, tive finalmente a coragem de o colocar num livro e publicar.

Considera que a escrita faz parte de si? Sem dúvida alguma. Pessoalmente e profissionalmente. A qualquer momento a Ana Carolina lembra-se e elabora umas pequenas palavrinhas de carinho para algum colega, para uma chefe, para a Direcção da minha instituição, Casa do Povo da Maia, e para continuar a escrever, porque já estão mais quatro livros elaborados. Mas sim, admito, para escrever é preciso amar, querer e sentir e isso faz parte de mim.

Conte-nos um pouco da história da Clara?
Ui, a minha Clara… Bem, vamos reviver um pouco… Esta jovem nasceu num berço de ouro. Com pais que criaram expectativas elevadas para esta filha exemplar. No entanto, a jovem segue as orientações dos pais, contra a sua vontade e não ouve o seu coração, as suas vontades, os seus desejos, os seus caminhos e entra para a Universidade de Medicina no Porto, algo que não deseja. Durante três anos a viver no Porto, a Clara, livre da alçada dos pais, decide viver os seus sonhos e enverga por caminhos menos recomendados aos olhos de cada pai. Inicia um trabalho num bar de alterne, para poder pagar o curso que realmente gostava: bailarina. No meio destes contratempos, depara-se com o mundo do álcool, da droga e fica em coma. Neste momento entram os pais, que se apercebem da realidade da sua menina, das vontades e da liberdade que nunca lhe deram e ficam chocados. Sempre ao lado dela, durante longos meses, restabelecem laços perdidos na infância, pois eram pais muito trabalhadores e ocupados, essencialmente. No despertar do coma, Clara tem tempo contar aos pais o seu percurso, o porquê do mesmo e surge na sua vida Richard, o médico responsável por ela. Entramos numa nova fase da vida da Clara, da compreensão dos pais, por vias menos boas, da sua recuperação, encontrar o amor ao lado de Richard e finalmente por realizar o seu sonho de ser professora de ballet. Posteriormente Clara é mãe, da Iris (significa visão do futuro, do mundo, da liberdade) e momentaneamente tende a cometer o mesmo erro do passado, dos seus pais, ao dizer, ela vai ser bailarina, mas no mesmo momento, Richard corrige-a e diz, “Ela vai ser o que ela decidir, porque nós ensinamos e acompanhamos no voo, mas o voo é dela”.

Na sociedade actual ainda predominam as “Claras” da sua história?
Sem dúvida que sim. Existem essencialmente muitos pais a criar expectativas para os filhos, sem os deixar falar, sem os ouvir, o que é fundamental, ouvir. Ser pai ou mãe é estar aqui, presente, sentir, ouvir, amar, apoiar e levantar a toda a hora. Claras, existem muitas… aquelas que tem medo de enfrentar, de envergonhar e de desiludir os pais. Vingam uma carreira e um percurso que não são delas, mas dos pais… Claras que escondem dos pais o seu verdadeiro Eu. Claras que precisam de liberdade… de serem ouvidas, actualmente, os pais têm pouco tempo para ouvir.

Já percorreu, de facto, as ruas do Porto?
A minha cidade invicta! Como adoro! Como amei e amo. Realmente conheço de lés a lés aquela cidade. Não como a Clara conheceu e no contexto que ela reporta no livro, mas sim, realmente percorri as ruas daquela linda e maravilhosa cidade. Até porque estudei em Miranda do Douro e o Porto, era uma paragem obrigatória para mim.

Como foi que o público acolheu o teu trabalho?
A reação do público em geral acho que foi positiva, pelo feedback que recebi. Houve muitas Claras, como disse, que se reviram na Clara. Porque a história em si, transmite uma mensagem muito real da nossa sociedade, fácil de perceber, o amor dos pais, ao mesmo tempo o distanciamento dos mesmos e a autoridade, a obediência dos filhos ou não e as consequências. Esta é uma missão muito difícil, a de educar. Relembro o meu discurso, ao escrever “O voo da borboleta”, permitiu-me repensar na filha que fui ontem, na mãe que sou hoje e na avó que serei amanhã.

Quais as emoções ao passar para a escrita o que vai na mente?
Como sofri… a cada palavra que escrevia, cada página, cada sentimento exposto em frases, pois o que transportava para as personagens no fundo era eu… o amor, a alegria, a paixão, a tristeza, a frustração, a incompreensão e a raiva… foram tantas as emoções… todos os dias, ao ler e reler cada página… Porquê, perguntam-me? Escrever a história da nossa vida transformada num conto, não é de todo fácil, mas é de todo magnífico, desafiante e fascinante.

Pretende conquistar um espaço próprio no mundo literário açoriano?
Este não é o meu principal objectivo, confesso. Primeiramente sou mãe, sou profissional, tenho uma vida que depende de mim… A escrita ajuda-me emocionalmente, é um momento de relaxamento, de lazer e de prazer… Continuo a escrever, todos os dias, antes de dormir, tenho sempre meia hora, no mínimo, para rasurar umas folhas porque faz parte de mim.

Qual o próximo livro?
Hum… esta pergunta, não devia ser feita, mas percebo e respondo. Será um objectivo a longo prazo, não para já, mas um objectivo. Será o “Escrito na areia”, um romance que evidência a diferença de classes sociais e raciais. Confesso, adorei escrevê-lo.

Esta pandemia prejudicou o lançamento do livro?
Sim, claro que sim. Inicialmente o livro ia ser lançado em Março de 2020, com o início da pandemia foi adiado para 17 Outubro de 2020. Não fico triste por isso, porque fui bem acolhida, por poucos e os que não estiveram presentes, estavam no coração.

A profissão de assistente social tem sido uma mais valia neste período pandémico?
Sem dúvida. Nós, assistentes sociais somos, para além dos profissionais de saúde, os seguintes na linha da frente de intervenção. Digo isso com todo o orgulho porque tem de ser, é por isso que existimos, nestas situações, de crise, pandemia e agonia para as famílias, os serviços sociais são primordiais para muitas famílias. Ser assistente social nesta pandemia é ser o porto de abrigo, o amigo, a mão, a janela que se abre para o próximo no momento exacto, na hora oportuna. É esta a minha função diária.  

Qual o maior desejo para este ano de 2021?
Primeiramente, como todos nós, saúde, o amor dos meus filhos, família e agora sim, os objectivos profissionais… terminar o mestrado em Políticas Sociais, executar com maior eficácia, eficiência e rigor a minha profissão de assistente social. Que este ano, seja mais controlado da melhor forma possível, em tempo de crise Covid e que cada um de nós cumpra o seu dever. Só assim chegaremos a um bom porto.

Como é o seu dia a dia para além da profissão?
O meu dia a dia para além da profissão… sou mãe… apenas… 24 horas por dia… sou estudante em horário pós-laboral (das 18:45h às 20:45h) e logo a seguir, resta-me pouco tempo… Um desafio diário… chegar a casa, fazer os trabalhos de casa com o filho Lucas, dar atenção à filha Laura, tratar do jantar, hora de jantar, hora do banho, a mãe corre para a aula (com os filhos ao lado, via online) e finalmente o tempinho para a brincadeira com os filhos. Um autêntico desafio saboroso. Mas que me dá vida. Isto é a vida. Porque parar é morrer.

Os Açores têm sido berço de muitos escritores portugueses. Acha que continua a existir apetência dos jovens açorianos para publicarem livros?
Acho que sim, temos jovens muito instruídos e talentosos para este ramo e os jovens açorianos têm apetência para tal.

Que autores açorianos destacas das tuas leituras?
Infelizmente não sigo autores açorianos, por falha minha e pelo pouco tempo que me resta das 24 horas do dia. Por curiosidade e estima às autoras, primo pelos meus nordestenses, professora Conceição Maciel, da Maia, professora doutora Graça Castanho e não posso aprofundar mais porque confesso, adoro mesmo o Nicolas Sparks.
       

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