Especialista em Transportes diz que lhe faz confusão como se debate o tema na Região

“Pensar e decidir sobre os transportes nos Açores não deve ser deixado à casuística do caso-a-caso” , diz Francisco Furtado

Correio dos Açores: É doutorado em Engenharia pelo Instituto Superior Técnico e no Programa do MIT- Massachusetts Institute of Technology, Boston (EUA). Trabalha na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) na área dos Transportes. Como chegou à OCDE e quais as funções que desempenha?
Francisco Furtado (Engenheiro Civil e Doutor em Sistemas de Transportes):  Quando terminei o doutoramento o meu orientador, professor José Manuel Viegas, que é um dos maiores especialistas de transportes no país, era Secretário Geral do Fórum Internacional dos Transportes (FIT/ITF) que está integrado na OCDE. Durante o tempo que esteve no comando dessa instituição o professor Viegas procurou reforçar a capacidade de análise e o trabalho desenvolvido pelo FIT. Parte disso implicou recrutar vários especialistas com competências quantitativas, capazes de desenvolver modelos de transporte e fazer análise avançada de estatísticas. Eu fui um desses especialistas recrutados.
O FIT abarca todos os modos de transportes (rodoviário, aéreo, marítimo, ferroviário), sectores (passageiros e mercadorias) e tem países membros dos cinco continentes. Tenho trabalhado em vários tópicos e regiões do mundo. O primeiro projecto em que estive envolvido estava ligado à mobilidade urbana, mobilidade partilhada, em Helsínquia na Finlândia, onde aplicamos um sofisticado modelo de simulação para avaliar os impactos de novas formas de mobilidade nos níveis de serviço, congestionamento e emissões dos transportes dessa área metropolitana. Entretanto, tenho desenvolvido trabalho mais ligado à questão das mercadorias, descarbonização dos transportes e ferrovia (a minha maior área de especialização). Por exemplo, no último ano estive envolvido numa revisão geral das políticas de transporte para a Estónia onde fui responsável pela componente ferroviária. Ainda em 2020 liderei também um projecto ligado à descarbonização dos transportes em economias emergentes e outro de descarbonização na Europa.

Com a pandemia e a situação que se vive em França, com números de Covid-19 elevados em Paris, cidade onde mora, os colaboradores da OCDE foram forçados a trabalhar em regime de teletrabalho e, assim, regressou temporariamente aos Açores. Foi uma decisão fácil?
Logo no início de Março quando se tornou óbvio que iria haver um confinamento eu e a minha mulher pensámos imediatamente em vir para os Açores. Num primeiro momento decidimos ficar em Paris para preparar melhor a nossa vinda e não contribuir para a disseminação da pandemia. Mas logo no final de Maio, quando as restrições em Paris e aqui nos Açores se aligeiraram, começámos a preparar a nossa vinda e em Junho regressámos.
Foi uma decisão relativamente fácil, mas como tudo na vida quanto mais bem preparada for melhor. O maior desafio é gerir a incerteza, quando se começou a desconfiar em Maio ninguém sabia ao certo por quanto tempo esta crise e respectivas medidas restritivas seriam necessárias. Quando para cá vim a perspectiva era de em Setembro voltar a Paris, mas esse regresso tem sido sucessivamente adiado por força das circunstâncias. Confesso que acho piada àqueles que hoje dizem “tudo isto já se sabia que ia acontecer”, quando na verdade ninguém tinha a certeza de nada há uns meses… Nem podiam ter, porque vivemos uma situação sem precedentes e não há histórico que nos permita conhecer o comportamento deste vírus, da pandemia e, muito importante, da resposta social a esta situação, qual o balanço socialmente aceitável entre salvar a economia ou conter a pandemia… Eu desconfiava que ia ficar cá por uns bons tempos, e, por isso mesmo, nunca marquei a viagem de regresso mesmo quando na minha instituição foram feitos anúncios que iríamos voltar ao escritório em algumas semanas. Mas foi uma aposta que fiz, dado que, à partida, nem eu nem ninguém sabia exactamente o que ia acontecer. Entretanto já passaram sete meses e por cá continuo e espero ficar o mais possível.

Como é trabalhar com vários países do mundo a partir de Ponta Delgada?
Trabalhar com vários países do mundo a partir de Ponta Delgada dá-me imenso prazer. Em Julho fui o principal organizador de uma conferência que envolveu participantes de 50 países, tudo coordenado a partir daqui. A transição para uma economia cada vez mais digital, e em certa medida desmaterializada, abre um grande potencial a zonas mais periféricas como é o caso dos Açores. É muitíssimo melhor trabalhar nos Açores com o mar e paisagem lindíssima sempre ao pé, do que numa cidade confinada como Paris.

Os Açores dispõem actualmente de condições tecnológicas e de comunicações para responderem a esta exigência de teletrabalho?
Ponta Delgada sim, os Açores não sei. Aqui em Ponta Delgada a ligação há internet por fibra que tenho é de melhor do que em Paris. Ou seja, estou melhor conectado ao mundo em Ponta Delgada do que estava em Paris! Agora, não sei se em todas as zonas de São Miguel ou se em outras ilhas a qualidade da infraestrutura é a mesma... Se não for, essa é sem dúvida uma área onde vale a pena apostar e investir, o futuro vai ser cada vez mais digital.
Outro aspecto que destaco é a resiliência da rede de telecomunicações e eléctrica, pelo menos em Ponta Delgada. Lembro-me quando era miúdo aqui haver frequentes cortes na eletricidade e sobrecargas que literalmente fritavam os electrodomésticos. Desde que cá estou nunca perdi ligação há internet e quando uma vez faltou a luz, foi uma situação resolvida em poucos minutos. Em Paris já tive cortes na luz e internet que demoraram mais tempo a resolver e eram mais frequentes. Isto para não falar nos Estados Unidos… quando estive um ano em Boston por várias vezes houve cortes na luz, alguns que demoraram dias a ser reestabelecidos, lembro-me de ver o MIT e o centro de Boston às escuras… Comparado com isso a resiliência dessas redes em Ponta Delgada parece-me bem maior.  

Na sua área de especialização que são os transportes como vê este sector no contexto desta pandemia?
Foi um dos sectores mais afectados pela pandemia. As quedas globais no volume de actividade da aviação são na ordem dos 70% e só não é mais porque os voos domésticos na China têm recuperado alguma coisa. Os serviços internacionais de passageiros em geral sofreram grandes quedas, não só a aviação também a camionagem e ferrovia. Os transportes e mobilidade urbana também sofreram quedas significativas. Mas em todo o mundo assiste-se a um aumento dos modos suaves (bicicleta e andar a pé), por outro lado, o automóvel está a recuperar mais rapidamente que os transportes públicos.
No transporte de mercadorias as quedas foram muito menores que nos passageiros. Os portos Portugueses no terceiro trimestre deste ano até já estavam a movimentar mais do que em 2020 e a rodovia e ferrovia estavam quase com o mesmo volume de actividade de 2019. Há companhias aéreas a transformar aviões de passageiros em carga. A mobilidade pessoal está altamente restringida, mas a movimentação de mercadorias tem de continuar para abastecer serviços, pessoas e indústria.
Parece-me também que poderão existir alguns impactos estruturais de longo-termo no sector dos transportes. Não devemos subestimar a enorme incerteza e volatilidade do período histórico em que vivemos. Mas há certas tendências que são muito sólidas, como por exemplo: o crescimento acelerado dos serviços de entrega ao domicílio e das plataformas digitais associadas a isso (e-commerce); redução das viagens de negócios e aumento do teletrabalho e teleconferências; redução no consumo de combustíveis fósseis (outro dos sectores muito afectado por esta crise). Outras tendências com menor grau de certeza são a “regionalização do comércio”, ou seja, o reforço das trocas comerciais entre países da mesma região em detrimento de trocas inter-continentais de mais longa distância. Isto está ligado ao reforço da soberania e controlo da produção e disponibilidade de bens estratégicos, maior capacidade de resistir a choques inesperados e relocalização de produção de bens para áreas mais próximas dos centros de consumo (algo também associado ao crescimento da automatização). Há ainda o potencial de existir uma certa onda migratória para áreas rurais e cidades médias, ao mesmo tempo que assistimos a uma perda de atractividade das grandes cidades e áreas metropolitanas. Esta última tendência pode trazer alguns benefícios para os Açores.

Defende algum plano estratégico para os transportes de passageiros e mercadorias inter-ilhas?
Sem dúvida, mas mais do que isso, deveria ser um plano estratégico que incluí os três níveis de transporte da Região: 1) do arquipélago para o exterior; 2) inter-ilhas e 3) dentro de cada ilha. Sem transportes entre ilhas não há arquipélago nem Açores, geograficamente no centro do Atlântico as ligações da Região para o mundo são incontornáveis. Em comum com outras regiões os transportes de superfície, dentro das ilhas, são também fundamentais a todo o tipo de actividades.
Pensar e decidir sobre os transportes - modelos operacionais, apoios do Governo à operação, desenvolvimento da infra-estrutura, regulamentação - não deve ser deixado à casuística do caso-a-caso. Tem de haver prioridades definidas e um pensamento de conjunto que abarque todos os sectores, modos de transporte, ilhas e necessidades. Faz-me alguma confusão a forma como se debate o tema na Região. A associação da ilha X quer isto, o deputado da outra ilha exige mais aquilo, a agricultura quer uma coisa, o turismo quer mais Y, outro diz que o Governo tem de comprar um avião especializado para Z… Obviamente que cada sector tem direito a exprimir os seus desejos e necessidades. Mas o problema é que se vão defendendo coisas e tomando decisões de forma que me parece desconectada, sem fundamentação técnica, sem avaliação dos seus custos e benefícios a médio prazo (incluindo sociais e ambientais) e sem uma avaliação ponderada se as soluções defendidas, e por vezes implementadas, efectivamente resolvem os problemas que existem. Esta lógica do caso-a-caso em grande medida explica a crise que se vive em certos sectores e empresas de transporte da Região. Continuar com esta abordagem é convidar a mais problemas no futuro.
Dada a importância e múltiplos interesses e necessidades que é preciso satisfazer fazer tem de haver um pensamento estratégico definido, de conjunto, discutido com todos os agentes económicos e sociais envolvidos, que dê as linhas mestras de orientação e desenvolvimento para o sector dos transportes nos Açores. Não é uma coisa para fazer todos os anos, talvez uma vez por década, com uma revisão intermédia. É verdade quer numa região com a dimensão e características dos Açores a improvisação é necessária e pode ir resolvendo várias coisas, mas por si só não basta se queremos ter um sistema de transportes sustentável do ponto de vista económico, financeiro e ambiental e que seja capaz de ir satisfazendo da melhor maneira possível as necessidades dos Açores e dos açorianos e açorianas.

Recentemente, o Governo da República criou Plano de Recuperação 2020-2030 e Costa e Silva desenhou um programa com vários eixos, propondo ao nível dos transportes terrestres o “abate dos segmentos mais antigos e poluentes da frota, com um sistema de incentivos à sua substituição preferencialmente por carros eléctricos ou híbridos”. É apologista desta solução, ou não?
Sim, mas… A renovação da frota de automóveis, veículos ligeiros comerciais e pesados de passageiros e mercadorias é das medidas mais importantes e com maior impacto no aumento da eficiência energética (e correspondente diminuição de custos com o combustível e manutenção) e redução das emissões. Agora, o desenvolvimento tecnológico e soluções comercialmente viáveis e disponíveis são diferentes para cada segmento.
No caso dos automóveis e veículos ligeiros comerciais já existem soluções eléctricas e híbridas que devem ser incentivadas, inclusive com o aumento da infraestrutura de distribuição que deve ser compatível com as várias marcas e modelos de veículos. Por exemplo, são necessárias normas, como para os telemóveis, para que exista um sistema de carregamento “universal”.
Para os veículos pesados, quer passageiros, quer mercadorias, a história é algo diferente. Não existem soluções comerciais no mercado de camiões eléctricos e mesmo nos autocarros ainda há bastantes limitações (sobretudo para o terreno acidentado dos Açores). Neste caso os incentivos a veículos mais eficientes, independentemente da tecnologia utilizada, parece-me fazer mais sentido.

Um dos eixos é investir na ferrovia. Na área dos caminhos-de-ferro, acha que Portugal devia investir mais para promover ligações mais rápidas com Espanha e consequentemente com outras capitais europeias, ou tendo em conta os vários modelos de transportes que existem aponta outras soluções?
Ligações a outras capitais Europeias? Berlim está mais próximo de Moscovo do que de Lisboa, a distância de Paris a Lisboa é a mesma que de Paris a Kaliningrado, na Rússia. É preciso ter consciência da geografia e quem luta contra a geografia perde sempre. Portugal está mesmo longe do centro da Europa, na primeira invasão napoleónica as tropas francesas chegaram a Portugal com as botas desfeitas, esfarrapados e esfomeados tal foi a distância que tiveram de percorrer por terra. Os ingleses abastecidos por mar não tiveram grande dificuldades em derrotá-los com o nosso apoio. Foi o princípio do fim do Império Napoleónico Francês, não sou eu que o digo, li isso no Museu do Exército em Paris nos Invalides…
A ferrovia é fundamental para Portugal, mas sobretudo para as ligações internas e a Espanha. No Livro que escrevi para a Fundação Francisco Manuel dos Santos “A ferrovia em Portugal” refiro que a primeira linha de comboio a ser concluída em Portugal foi a ligação Lisboa a Badajoz, até Espanha e daí para essa mítica “Europa”. Pensavam os nossos egrégios avós do século XIX que essa seria a mais importante e prioritária ligação ferroviária do país. A realidade demonstrou que não é verdade. A linha de Lisboa ao Porto teve muitíssima mais procura e até viabilidade comercial.
O eixo fundamental de desenvolvimento da ferrovia portuguesa é ao longo da fachada atlântica da península Ibérica da Corunha na Galiza a Norte, até Faro no Algarve. O coração desse eixo é a ligação entre as duas grandes cidades Portuguesas, Porto e Lisboa, que passa por várias outras importantes cidades médias como Aveiro, Coimbra ou Leiria. A ligação do Porto à Galiza é a ligação ferroviária internacional de maior potencial para o país, a sul a ligação do Algarve até Sevilha também é algo em que se deve pensar a sério. Quanto à ligação Lisboa-Madrid já está em execução quer do lado espanhol, quer do português, e com características e uma lógica faseada que faz muito mais sentido do que o projecto inicial do TGV…
No caso do transporte ferroviário de mercadorias a ligação com Espanha tem ainda mais potencial, sobretudo em articulação com os portos e o mar. Aliás a grande força do país está no mar. Portugal é mais mar do que terra e os Açores jogam aí um papel central.
O mar deve ser uma das maiores apostas dos Açores, se não a maior aposta. Estou a falar de todo o tipo de actividades ligadas ao mar, pesca, reabastecimento de navios, exploração do subsolo marinho, arqueologia marinha, lazer, investigação científica… Os Açores deveriam ser, de facto, a referência mundial nas ciências do mar. Não sei se alguma vez conseguiremos alcançar isso, mas deveria ser esse o objectivo. A “Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030” elaborado pelo professor António Costa Silva vai nesse sentido, há muito por definir nessa visão e ajustes a fazer, mas a orientação e objectivos estratégicos estão lá e acima de tudo isto é uma oportunidade para alavancar esta aposta no mar. Havendo vontade política na região e na república parece-me possível avançar neste sentido.
Isto a mim parece-me muito óbvio, mas a verdade é que sobretudo na ilha de São Miguel havia uma cultura um bocado hostil ao mar, por vezes isso nota-se literalmente em certos edifícios virados de costas para o mar quando a têm uma vista magnífica sobre o oceano... Noutras ilhas, como o Faial, não. Mas São Miguel é, quer queiramos quer não, a maior, mais populosa e economicamente dinâmica ilha dos Açores e por isso acaba por definir muito do que são os Açores. Ora em São Miguel o mar e as localidades a ele associado já foram vistas como uma coisa suja e de gente pouco recomendável… Felizmente isso tem mudado, nas últimas décadas evolui-se muito. Mas basta ver quais as freguesias mais martirizadas pela Covid-19 para perceber que essas marcas permanecem. Apostar no mar significa também mudar essa mentalidade e revalorizar os locais e as gentes que vivem do mar, no plano social, económico e cultural.

Há quem defenda que os Açores existe uma frota automóvel excessiva por família que a médio - longo prazo poderá ter consequências ambientais gravosas. Na sua perspectiva, a limitação deve ser o caminho, ou há alternativas?
Não sei até que ponto, em média, a frota automóvel por família é excessiva nos Açores em comparação com o país e a Europa. Olhei para alguns números e parece-me que a taxa de motorização na Região (número de veículos ligeiros de passageiros em circulação por 1000 habitantes) é efectivamente superior ao país e até à média Europeia, mas não muito. No entanto, é normal que em zonas menos densas e propensas a redes de transporte público pesado exista maior dependência do transporte automóvel, como é o caso dos Açores. Ou seja, os números que conheço não me parecem chocantes para uma região com as características dos Açores.
Dito isto, uma melhoria da oferta nos transportes públicos, quer para os residentes nos Açores, quer para quem nos visita, poderia atenuar o forte crescimento do parque automóvel a que se assistiu na região nos anos pré-pandemia. Isso pode incluir também novos modelos de serviço mais flexíveis e com veículos mais ligeiros do que os agora existentes. Uma política de usos de solo que favoreça a ocupação do centro das cidades e vilas da Região em detrimento do desenvolvimento de urbanizações nas zonas envolventes, pode também contribuir para conter a necessidade do uso do automóvel.
Não sou muito a favor de restrições sem antes, ou simultaneamente, se criarem alternativas. Há um movimento em toda a Europa para banir a venda de carros a diesel e gasolina, algo que acontecerá durante a próxima década, mas entretanto está a desenvolver-se a oferta de carros eléctricos. Também se vê por toda a Europa várias iniciativas que restringem o acesso de carros aos centros da cidade, mas ao mesmo tempo isso torna as cidades mais atractivas para os peões e é associado a melhorias nos transportes públicos. Estas iniciativas têm em geral ajudado a dinamizar o comércio local e em certos casos ajudaram a recuperar económica e socialmente zonas que estavam em decadência.
Depois há ainda o debate em torno dos impostos de carbono, impostos sobre combustíveis e circulação. Um tema muito delicado. Aqui nos Açores o gasóleo e gasolina é mais barato que no continente e a diferença não é assim tão pequena. Existe um desconto nos impostos sobre combustíveis, que é uma forma de compensar os custos da insularidade que são reais. Mas será que esta a melhor forma de compensar esses custos? Não haverá outras alternativas melhores e até mais justas de compensar a população? Não está com isto a população que não conduz e anda de transportes públicos ou a pé (que também existe nos Açores) no fundo a subsidiar quem anda de carro? Seja como for, daqui a uma década ou pouco mais esta questão estará em parte ultrapassada uma vez que a maioria dos carros será elétrica.

Tendo em conta a economia açoriana e a pouca diversificação empresarial, que comentário lhe merece o cenário de que muitos dos nossos jovens estão a emigrar? Como se pode fixar os jovens nos Açores?
Alguma perspectiva histórica é importante neste debate. Os Açores por volta de 1860 tinham a mesma população que têm hoje, em 1960 havia mais de 300 000 residentes nos Açores, em 1991 a população era de 237 000, hoje é pouco mais de 240 000. Ou seja, emigração em massa foi mesmo nos anos 50-60 do século XX e certos períodos do século XIX. Aliás, o fim das ondas de emigração massiva, a capacidade reter e até atrair população aos Açores, é um dos maiores sinais do sucesso imenso que foi o regime autonómico que temos. Uma autonomia muito mais reforçada do que qualquer outra forma de governo anterior ao 25 de Abril, sendo que antes disso nem havia um governo único para todo arquipélago. A maior parte da sua história os Açores foram governados como distritos separados, por ilha, ou grupos de ilhas, mas pouco ou nunca como um todo, o que em parte explica algumas rivalidades algo irracionais.
Da minha geração do secundário a percepção que tenho é que a maior parte dos meus colegas ou ficou na Região ou regressou passado algum tempo fora. Sim, vários como eu partiram de forma mais definitiva, mas também houve muita gente de outras partes de Portugal que tem vindo para os Açores. Os anos da Troika trouxeram de volta a emigração, não só nos Açores, mas em todo o país, nessa altura até tivemos um Secretário de Estado que mandou os jovens emigrar. Um primeiro passo para fixar os jovens é não ter governantes a mandá-los para fora do país…
Muitas actividades para serem viáveis requerem uma certa escala, que os Açores não têm. É também uma região periférica, cuja conectividade nunca poderá ser a mesma que Paris, Berlim ou Nova Iorque. Mas tem uma posição estratégica de comando sobre o Atlântico Norte, tem um vasto oceano de recursos à volta, tem uma paisagem sem rival, tem terrenos férteis, condições para produzir energias renováveis, tem uma paz e ritmos de vida mais humanos do que as grandes metrópoles mundiais, tem uma cultura própria, tem a sua história e tem gentes que têm grande amor à sua terra.
Quem luta contra a geografia perde sempre. Tentar replicar modelos de atividade que requerem grande escala ou níveis de acessibilidade impossíveis de aqui alcançar, não faz sentido. A transição para o digital irá permitir atenuar algumas das desvantagens de cá residir. Mas sobretudo temos é de explorar ao máximo as várias vantagens que os Açores têm para criar oportunidades e actividades que permitam aos jovens aqui se fixarem. Isto também se aplica dentro dos próprios Açores, para as diferentes ilhas. Há certas coisas que são possíveis em São Miguel e talvez Terceira ou Faial, mas dificilmente podem ser replicados nas outras ilhas. Mas existem e podem ser gerados factores de atracção nas restantes ilhas que compensem as desvantagens inerentes à sua pequena escala e isolamento, aliás já há vários exemplos disso.

Como é viver em França, um país multicultural?
Sentia-me mais num país multicultural quando vivia no Intendente em Lisboa, ou quando estive em Boston, do que em França. Sim, há muitos emigrantes em França, a começar por Portugueses. Mas muito depende das zonas do país e cidade onde se vive. Em Lisboa vivi numa das mais animadas e multiculturais partes do país, em Paris vivo numa zona mais recatada e onde existe diversidade cultural, mas é menos visível.
Tenho também a percepção que a sociedade Francesa é menos tolerante e tem mais resistências em integrar culturas diferentes do que Portugal. Não é que a situação aqui seja perfeita, longe disso, mas quando comparados com outros países da Europa, Portugal parece-me mais aberto e inclusivo. Há quem não goste disso e movimentos que promovem o discurso do ódio, isso é moralmente errado, mas mais do que isso, é atacar um dos bens imateriais mais decisivos para o futuro do país. Portugal tem todas as condições para ser uma plataforma, e refúgio nestes tempos conturbados, para a economia do conhecimento e cruzamento de culturas. O clima de paz e alguma tolerância que ainda se vive em Portugal é um dos atrativos que traz muita gente a visitar e a fixar-se no país. Um dos maiores trunfos de Portugal na Europa é ser uma ponte para o mundo, África, Brasil, Ásia… Destruir isso é acabar com uma das maiores vantagens competitivas do país.

Um açoriano a trabalhar fora da Região é um embaixador dessas ilhas. Em relação ao arquipélago qual a imagem que gosta de passar aos seus amigos/conhecidos?
É sempre com grande prazer que digo que venho dos Açores, é uma região que invoca um imaginário mágico e exótico. Uma vez num documentário francês disseram que era “o diamante em bruto do Atlântico”. Obviamente que a variedade de lindas e diferentes paisagens concentradas numa área tão pequena são algo muito singular. Não há muitos sítios em que se tenha uma praia, uma montanha com vista para lagoas magníficas e banhos em água quente rodeados por paisagem luxuriante, tudo a 30 minutos de distância…
Mas também gosto de lembrar que isto não é só paisagem, Angra era ponto de cruzamento para as frotas vindas das Índias e do novo mundo espanhol. Ao largo de Vila Franca do Campo travou-se a primeira batalha naval do mar alto da história, que está retratada no El Escorial perto de Madrid. Os Açores foram um dos primeiros territórios do mundo onde os Estados Unidos estabeleceram representação diplomática. Foi na Praia da Vitória que se derrotou o Absolutismo em Portugal, Ponta Delgada e Angra foram sede dos primeiros governos liberais. Foi nos Açores que muitas das reformas que trouxeram o país para a modernidade foram redigidas e transmitidas ao país. Antero de Quental, Canto da Maia ou Domingos Rebelo são nomes incontornáveis na cultura de Portugal. A Base das Lajes foi relevante para a vitória dos Aliados na batalha do atlântico durante a II guerra mundial. Os Açores possuem uma história e cultura com relevância global que também acho importante destacar.

Dos Açores, para além da família, o que lhe faz mais falta?
Mar, calma, comida regional, beleza da paisagem, rever locais e as gentes que marcaram a minha juventude…

É muito jovem, mas pensa algum dia regressar definitivamente aos Açores?
“Muito jovem”,  já fui mais… estou nos Açores há mais de 7 meses, há 20 anos que não passava aqui tanto tempo. Tem sido muito bom. Regressar é uma hipótese que agora acho mais provável do que há uns anos atrás. Dadas as evoluções que temos assistido com uma maior normalização do trabalho à distância, torna-se mais exequível viver aqui, nem que seja uma parte do ano. Mas vivemos num período histórico de grande incerteza, estar a traçar planos demasiado rígidos é desafiar o destino.            
           

                                       

 

Print

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima