Fotojornalista “açoriano” mudou-se para Oslo e está a concretizar o seu sonho

Se para muitos açorianos a oportunidade de estudar fora do arquipélago chega ao se atingir a maioridade, para Rodrigo Freitas – natural da ilha da Madeira, mas a viver nos Açores desde os quatro anos de idade – esta oportunidade chegou dois anos mais cedo, quando decidiu concorrer a uma bolsa de estudos que viria a mudar o rumo da sua vida.
Assim, ainda antes de completar o 11.º ano de escolaridade, o jovem, hoje com 21 anos de idade, concorreu a uma bolsa dos United World College que lhe permitiria concluir o ensino secundário na Noruega, país onde ainda hoje vive, encontrando-se actualmente no segundo ano do curso superior de fotojornalismo da Universidade Metropolitana de Oslo.
Para além dos estudos, o “açoriano” trabalha também para um jornal universitário, o Universitas, e trabalha também como freelancer em fotojornalismo para diversos meios de comunicação social, algo que concilia com o trabalho que desenvolve numa instituição para crianças e que lhe permite sustentar-se durante os estudos.
Dada a sua vontade de permanecer no país depois de concluir o secundário, optou por interromper os estudos para aprender com maior profundidade a língua norueguesa, podendo assim candidatar-se ao curso superior com que sonhava.
Apesar de valorizar a família, a proximidade com o mar e a “boa comida” que a vida nos Açores permitia, desde sempre que Rodrigo Freitas tinha o desejo de sair dos Açores, influenciado pelo mundo visto a partir das lentes de grandes referências, como o canal National Geographic ou o Discovery Chanel, repleto de “culturas, lugares, comidas, artes” e experiências pelas quais não poderia passar se permanecesse limitado a uma ilha.
O seu primeiro contacto com o mundo da fotografia deu-se aos 12 anos de idade, quando recebeu a sua primeira câmara fotográfica, que lhe permitiu começar a tirar fotos “de tudo e de todos”.
“Eu entretia-me a descobrir como é que a câmara funcionava e a aprender que se mudasse a abertura ou a velocidade do obturador, as fotos ficavam diferentes. Depois tornei-me membro da AFAA (Associação de Fotógrafos Amadores dos Açores) e comecei a tirar cursos. Até a essa altura sabia que gostava de fotografar, de falar com pessoas e de aventuras, mas a profissão de fotojornalismo nunca me tinha passado pela cabeça.
Só depois de ver dois documentários sobre fotojornalismo é que essa profissão passou a ser o meu sonho. Os documentários são “O Sal da Terra”, sobre a vida do famoso fotógrafo documental Sebastião Salgado e “The Obama White House Through The Lens”, sobre o trabalho do fotógrafo da Casa Branca, Pete Souza, conta.
Ainda assim, mesmo depois de perceber que era esta a sua maior inclinação a nível profissional, vários foram os comentários menos positivos que ouviu relativamente a esta escolha, que acusavam o jovem de optar por uma profissão “sem saída e mal paga”. Contudo, Rodrigo Freitas contou com o apoio dos pais, o que lhe permite agora estar a um ano e meio de completar o curso no ensino superior e o que lhe incentiva a trabalhar para conseguir um bom futuro.
Entre os trabalhos fotojornalísticos dos quais mais se orgulha, o jovem que viveu em São Miguel desde os quatro anos de idade destaca uma reportagem que se debruçava sobre os pilotos de avião que sobrevoam as florestas norueguesas à procura de fumo e fogo durante o Verão, uma vez que esta foi a primeira reportagem que fez sozinho: “Tive a ideia, desenvolvi-a, tirei as fotos e escrevi o texto em norueguês. E no final foi publicada num dos maiores semanários do país, o Morgenbladet”.
Caso tivesse optado por estudar em Portugal, refere que dificilmente teria optado por esta vertente profissional, tendo em conta que o seu plano inicial passaria por se alistar na Marinha. Contudo, ao mudar-se para a Noruega com o intuito de concluir o secundário deu por si com “a confiança necessária para mudar de ideias” e seguir um sonho diferente.
Não quer isto dizer que a área que Rodrigo Freitas escolheu trabalhar na Noruega seja fácil, tendo em conta que nos últimos anos os jornais e redacções do país, tal como aconteceu em praticamente todas as redacções espalhadas pelo globo, tiveram que cortar em algumas despesas, o que originou o despedimento de fotojornalistas.
Porém, a seu favor joga o facto de, “pouco a pouco”, estas mesmas redacções se encontrarem agora a dar mais valor ao jornalismo visual e aos jornalistas, bem como o facto de todos os anos serem poucos os fotojornalistas formados neste curso, o que se justifica por haver apenas “um único curso de fotojornalismo puro a nível nacional”, precisamente aquele que Rodrigo Freitas frequenta.
“Os jornais estão atentos ao nosso trabalho durante o curso porque eles sabem que recebemos uma formação de qualidade. Por isso, apesar do mercado de trabalho ser duro, acho que tenho boas probabilidades de conseguir trabalho por cá”, adianta, referindo que Oslo seria o seu local de eleição para trabalhar, pelo menos durante os primeiros anos da carreira, mas que o seu sonho actual seria o de trabalhar a nível internacional para diferentes jornais.
À semelhança de Rodrigo Freitas, existem muitos outros açorianos que partilham da mesma sede para conhecer o mundo e acumular o máximo de experiências possíveis, o que resulta no afastamento físico da terra natal e que, na opinião do nosso entrevistado, é resultado do “reflexo do tempo em que vivemos”, já que há o constante “bombardeamento com fotos, vídeos, notícias e anúncios sobre o que podemos vivenciar se sairmos da ilha”, conta.
“Através das redes sociais e da internet somos apresentados a um mundo com possibilidades ilimitadas. E, por vezes, aquilo que a ilha oferece não é suficiente para competir com as ofertas exteriores. Para além disso, o facto de os Açores serem um arquipélago no meio do Oceano Atlântico, torna a Região ainda mais “pequena”.
Para nós, não é possível ir passar um fim-de-semana ao Alentejo, um natal à Serra da Estrela ou dar uma volta ao país com a mesma ligeireza que os continentais o fazem. Nós somos expostos diariamente às mesmas paisagens, comidas, pessoas e formas de pensar sem folgas e excepções. O facto de estarmos rodeados de mar por todos os lados é uma restrição inerente da vida insular e que para mim me fez querer ir à procura de novas aventuras e experiências”, explica.
Por esse mesmo motivo, não considera que esta “fuga de talentos seja algo de negativo”, sendo, pelo contrário, um fenómeno enriquecedor para a Região, principalmente quando aqueles que saem dos Açores “decidirem voltar e usar os conhecimentos que adquiriram durante a sua ausência, para desenvolver a Região. E é esse o desafio. Encorajar as pessoas a voltarem”, refere.
Entre as mais-valias de estudar fora da ilha que tomou como sua casa está o facto de ter ganhado uma nova independência, uma vez que teve que ser responsável por si próprio desde os 16 anos de idade.
“De um dia para o outro já não tinha os meus pais para me fazerem a comida, lavarem a roupa, avisarem quando estou atrasado ou perguntarem se me lembrei de tudo antes de sair de casa para ir para a escola. E a mesma coisa se passou quando, dois anos mais tarde, me mudei para Oslo e comecei a trabalhar.
Tive de aprender como é que “estas coisas de adultos” funcionam – impostos, contas, seguros, candidaturas, contratos de trabalho, etc.. Viver sozinho num país estrangeiro aos 18 anos pode ser um pouco assustador, mas quando a vida começa a dar certo, também pode ser muito gratificante”, explica ainda.
Apesar de se encontrar distante dos Açores e de Portugal, Rodrigo Freitas considera que a sua casa será sempre o país em que nasceu, e que irá sempre voltar e visitar a família sempre que possível, até porque – embora não tenha o desejo de trabalhar na Região – tem planos para fazer reportagens que tenham como pano de fundo os arquipélagos portugueses e o seu continente.
Entre as memórias que guarda com mais carinho, estão os momentos passados em família, em especial os dias em que jogava golfe com o avô, os almoços em família e as idas ao ilhéu de Vila Franca do Campo, sem esquecer também os tempos em que frequentava o liceu e as amizades que desses tempos permanecem.
 

“Desde os 12 anos que o meu sonho era
ser fotojornalista”

Que sonhos alimentou em criança?
Queria ser biólogo marinho, astrónomo, antropólogo, mas desde os 12 anos o meu sonho era ser fotojornalista.

O que mais o incomoda nos outros? E o que mais admira?
Incomoda-me a falsidade e a indiferença, e admiro o respeito e a humildade.

Que coisas gostaria de fazer antes de morrer?
Gostava de viajar de carro do sul ao norte do Rift Valley, em África.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição.
Sim, gosto imenso de ler. O meu livro de eleição é “The Shadow of the Sun” do jornalista polaco Ryszard Kapuściński.

Como se relaciona com a informação que inunda as redes sociais?
Eu tenho dois ou três jornais de eleição em Portugal, na Noruega e a nível internacional que sigo afincadamente nas redes sociais. Assim, sei sempre que a informação que recebo é fidedigna.
 
Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet?
Infelizmente, não. Especialmente a nível profissional sou muito dependente do telemóvel e da internet. Mas tento limitar o uso quando posso.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Sim, adoro. A viagem que mais gostei foi quando visitei o Quênia.

Quais são os seus gostos gastronómicos?
Eu como tudo, não sou esquisito. Mas o bacalhau sempre foi das minhas comidas preferidas. Vim viver para o país certo.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Gostaria de ler que as grandes potências mundiais atingiram os objectivos definidos no acordo de Paris sobre as alterações climáticas.

Qual a máxima que o/a inspira?
The future rewards those who press on. I don’t have time to feel sorry for myself. I don’t have time to complain. I’m going to press on. – Barack Obama

Em que época histórica gostaria de ter vivido? Porquê?    
Gostava de ter vivido entre 1930 e 1950, a era de ouro do fotojornalismo.

 

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