Patrícia Lima, da Direcção Regional da Prevenção e Combate às Dependências

“É importante reforçar a fiscalização ao nível dos jogos como o Placard e as raspadinhas para impedir a sua compra por parte dos menores”

A adição de jogo é já um problema real nos Açores?
Neste momento ainda não é considerado um problema grave, mas sim um tema que tem de ser acompanhado e monitorizado. Os dados mais recentes de natureza epidemiológica em Portugal, sinalizam um aumento na prevalência de indivíduos com perturbação adictiva no jogo a dinheiro. Em relação aos Açores, os dados que temos são de um inquérito aos jovens dos participantes do Dia da Defesa Nacional. Um inquérito que é feito todos anos aos jovens com 18 e 19 anos. Comparando os dados de 2015 a 2019, constamos que a Região liderava na prevalência dos jogos de aposta online. Em 2019 deu-se uma nova subida de prevalência na Região, sendo que isso prova que, durante esse ano, houve uma maior percentagem de jovens de 18 anos a experimentar as apostas online. Apesar da subida constatamos que os Açores não lideram os valores deste indicador.

Existe algum estudo onde se possa perceber em que grupo etário ou género este problema é maior?
Apesar de não existir nenhum estudo específico nos Açores, segundo os dados existentes a nível nacional e também deste inquérito, a maior prevalência é no sexo masculino. Não existe um perfil definido mas sabemos que são sobretudo do sexo masculino e conforme a faixa etária, o seu perfil vai diferindo. Constatamos que os jovens são os que utilizam a internet para a prática de jogo a dinheiro e a não dinheiro de forma regular. Na faixa etária da população mais velha que normalmente joga, nomeadamente no Casino, Placard ou raspadinhas, isto é feito de outra forma.  

Está prevista a realização de algum estudo específico neste âmbito?
À partida entramos sempre nos estudos nacionais que são feitos pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Adictivos e nas Dependências (SICAD) que faz o inquérito à população geral. O SICAD tenta fazer o estudo de forma mais específica por região. Claro que quando for realizado um novo estudo, os Açores entrarão e aí obteremos novos dados. Relativamente a um estudo específico da região promovido por nós, não quer dizer que não venha a suceder, mas neste momento não está equacionado.

Existem na Região valências para tratamento de dependência de jogo?
 A Direcção Regional de Prevenção e Combate às Dependências não tem uma valência específica para tratar estes pacientes, mas tem em regime ambulatório equipas de intervenção nos comportamentos adictivos e nas dependências que estão situadas nas Unidades de Saúde de Ilha e no caso de São Miguel, na Associação Alternativa e na ARRISCA. São equipas multidisciplinares com formação para intervirem em pacientes com problemas no domínio do jogo. O acompanhamento destes pacientes pode ser feito através destas estruturas.

Há muitas pessoas a procurarem estas equipas?
Existem algumas pessoas mas não temos um número específico.  

Como é realizado esse tratamento?
Sendo a perturbação do jogo classificada pelo DSM (Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais) como uma perturbação não relacionada com substância, apresenta semelhanças em termos cognitivos, neuro biológicos e comportamentais com as perturbações adictivas com substâncias. Portanto o tratamento é efectuado da mesma forma do que para as adicções com substância. É verdade que existe medicação em casos específicos para a ansiedade, mas é sobretudo centrado em trabalhar a motivação e trabalhar a parte cognitiva.

A maior incidência dos jogos online dá-se nos mais jovens. Que problemas poderá isso trazer no futuro?
Os problemas de jogo à semelhança de todos os outros comportamentos adictivos, mesmo com substância, podem aparecer nas diferentes fases da vida. Quando aparece em indivíduos mais velhos, estes começam a ter problemas na gestão da sua vida diária, nomeadamente em termos sócio emocionais, familiares e ocupacionais. A nível familiar, podem surgir impactos negativos como o divórcio, o fraco suporte social ou a perca de pertences por dívidas associadas ao jogo. Quando o aparecimento de problemas desta natureza aparece em fases mais precoces como a infância ou a adolescência, é preocupante porque o impacto é visto de outra forma. Dá-se ao nível do desenvolvimento global e tem mais a ver com consequências ao nível do cérebro, dos mecanismos de regulação afectiva e da adaptação psicossocial.

Para além dos jogos a dinheiro, já existem também problemas com o gamming (jogos online ou em consolas)?
Se formos falar das novas tecnologias ou das consolas acontece que, nos últimos tempos e devido aos confinamentos, temos a percepção que os problemas aumentaram não só no gamming mas também em relação aos tablets e smartphones que permitem o acesso a plataformas de comunicação como o WhatsApp ou Facebook. A ausência das aulas e das actividades extra curriculares provocaram uma desorganização nos jovens e nas famílias ao nível das suas rotinas. Isto desencadeou um uso excessivo destas tecnologias.

Como devem os pais agir perante este problema?
Convém sempre que os pais percebam que tipo de jogos se jogam, porque existem jogos mais violentos do que outros. Os pais devem transmitir aos seus filhos que sim, podem jogar, mas que existem regras. É importante também transmitir aos jovens que do outro lado da internet, nos jogos online com outros parceiros, a pessoa que está do outro lado pode não ser de confiança. É preciso recomendar todo o cuidado na partilha de informações e na divulgação da intimidade. A medida mais decisiva para os pais e educadores é a restrição de tempo de utilização. É importante que se interiorize desde cedo que o tempo de utilização deve ser limitado para que depois os mais jovens possam procurar outras alternativas de diversão. Jogar com regras e limites porque existem outras coisas para fazer. Quando essa ideia de limitação do tempo não é posta em prática em idade precoce, a utilização tende a ser crescente e pode causar alguma dependência. Na adolescência e para os jogos de computador, o tempo máximo deve ser de 2 horas, de segunda a Quinta-feira e de 3 horas de Sexta a Domingo. Estes horários devem ser sempre controlados com algum rigor e não deve haver tolerância. É importante que determinem períodos de não utilização do telemóvel e esses momentos devem ser decididos através do diálogo entre os pais e os filhos.

Devia existir mais regulação para os jogos online a dinheiro?
Penso que no nosso país o jogo está bem regulado mas necessitamos fundamentalmente de mais fiscalização ao nível do jogo online e do jogo clandestino. Era importante reforçar a fiscalização ao nível dos jogos como o Placard e as raspadinhas para impedir a sua compra por parte dos menores. Outra coisa também importante a nível do jogo, mais concretamente dos jogos denominados de fortuna ou azar, é manter os decisores políticos informados relativamente aos problemas do jogo, para que não haja a tentação de disseminar estes jogos por serem atractivos no plano económico em detrimento da saúde da população.

Na sua opinião existem jogos de fortuna e azar a mais?
Não considero isso.
 
A adição ao jogo tem muitas semelhanças com outras como o álcool ou drogas?
Tem muitas semelhanças em termos cognitivos, neurobiológicos e comportamentais. Os sintomas são os mesmos. Porque quer se consuma uma substância ou não uma das razões que leva as pessoas a entrarem nisto é a busca do prazer. No caso das substâncias é a busca do prazer como alívio do sofrimento emocional, no jogo é a busca do prazer e a emoção do ganho imediato.

O problema do jogo ainda não é devidamente valorizado pela sociedade?
Na minha opinião ainda não é reconhecido como um problema.   

Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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