Alunos do pré-escolar e do ensino básico entre os mais afectados pelo ensino à distância

Alunos com carências imediatas de alimentos e medicamentos por não estarem na escola são apoiados pelos municípios, diz Sofia Ribeiro

(Correio dos Açores) Conforme anunciado esta semana pelo Secretário Regional da Saúde e Desporto, as escolas na ilha de São Miguel irão permanecer encerradas durante a próxima semana, em função da evolução epidemiológica da Região.
Será possível pensar num alívio das medidas nas próximas semanas, de maneira a que se possa retomar o ensino presencial nos concelhos/freguesias com baixo risco de contágio?
(Sofia Ribeiro, Secretária Regional da Educação) A determinação do encerramento dos estabelecimentos de ensino decorre de uma avaliação do risco de transmissão da Covid-19 em cada concelho, pela Autoridade Regional de Saúde. Esta avaliação é efectuada todas as semanas em toda a Região, categorizando cada concelho e, consequentemente, cada ilha, como sendo de risco mínimo, médio ou máximo de transmissão.
Apenas nos casos em que haja risco máximo é que se encerra as escolas do respectivo concelho, estando, igualmente, determinado encerramento de todas as escolas de uma ilha quando metade dos seus concelhos estejam em risco máximo.
Ora, na situação concreta de S. Miguel, é o que está a acontecer: por ter até mais do que metade dos seus concelhos em risco máximo, o risco aferido para toda a ilha é, obviamente, superior, pelo que se encontram em regime de ensino a distância todas as escolas da ilha.
Assim que diminuir o risco de contágio, estaremos em condições de voltar ao ensino presencial, o que, obviamente, esperamos que venha a ocorrer o mais cedo possível, dependendo da evolução pandémica. Estamos a encerrar estabelecimentos ou a aplicar-lhes simplesmente o ensino a distância, com critério, directamente associado aos níveis de transmissão do vírus SARS-Cov-2.

É possível que os alunos de São Miguel sejam mais prejudicados quando em comparação com os alunos das restantes ilhas por estarem há mais tempo no ensino à distância?
Como temos assumido em diversas ocasiões, o ensino a distância não substitui um regime de ensino presencial, havendo, obviamente, prejuízos na sua activação. Por isso é que só o fazemos em último recurso, tendo por base critérios epidemiológicos muito objectivos que este Governo Regional definiu.
Contudo, não podemos estabelecer uma relação de proporcionalidade directa entre o número de dias em que se teve de recorrer ao ensino a distância e as competências não adquiridas pelos alunos, simplesmente porque todo o processo de ensino-aprendizagem depende de outros factores, muito significativos, que não exclusivamente o número de dias em que os alunos têm aulas.
Se assim fosse, os alunos estariam permanentemente em aulas, para poderem aprender sempre mais. De facto, assim não é! Todo o processo de ensino-aprendizagem assenta na valorização de aprendizagens significativas, que variam consoante o contexto e a situação concreta de cada aluno.

Como está a ocorrer a adaptação dos professores e dos alunos perante o ensino à distância neste período mais recente? Quais os principais desafios que estão a ser colocados à educação e aos educadores actualmente?
Este é um período muito difícil para todos, precisamente porque se estabelece uma rotura no factor mais essencial para um ensino de qualidade, que é a relação professor- aluno. É certo que a comunicação não se estabelece apenas de modo presencial, mas o contacto directo, que permite ao professor aferir a condição do aluno que tem à frente, simplesmente pela leitura da sua postura corporal ou pelo tom de voz, ou incentivando-o ao trabalho apenas pela imposição da sua presença, deixam de ter expressão.
Ensinar é uma arte, num relacionamento a dois, que depende substancialmente da presença, e este afastamento físico tem impacto, inclusivamente a nível emocional e social, em que os professores e os alunos sentem falta da escola e uns dos outros.
Nesta contingência, colocam-se grandes desafios de organização de trabalho autónomo, de cumprimento de horários, de orientação dos alunos. E isto tem maior impacto naqueles que mais dependem da proximidade ao seu professor por terem menor autonomia, como é o caso dos alunos do pré-escolar e do primeiro ciclo do ensino básico, dificuldade que vai sendo minimizada à medida que se vai progredindo na idade, mas que é também de relevar no caso dos alunos com necessidades educativas especiais.
 
Há informações que dão conta de um aumento do absentismo escolar. Como contornar esta questão no ensino à distância?
No Guião para o ensino a distância que lançámos no início deste período lectivo, em articulação com os Conselhos Executivos de todas as escolas públicas regionais, determinou-se que o regime de aulas síncronas, que são aquelas que decorrem à distância, com contacto directo através de um dispositivo de acesso à internet, devem dar lugar à verificação da assiduidade, nos exactos termos em que se encontra determinado na legislação, obviamente com as limitações de decorrem de situações em que os alunos não dispõem de câmaras vídeo.
Em todas as situações de trabalho assíncrono, que constituem momentos de trabalho devidamente planeados mas sem contacto imediato entre o aluno e professor, este controlo não é, obviamente, feito, uma vez que se trata de situações de gestão autónoma do trabalho, por parte dos alunos.
Este reforço na distinção entre aulas síncronas e actividades assíncronas é muito importante, com a limitação das aulas síncronas a 50% do horário semanal dos alunos, tendo em consideração que a maior parte das famílias não dispõem de dispositivos de acesso à net para todos os seus elementos em simultâneo, o que podia gerar absentismo.

 Muitas crianças vêem na escola presencial uma oportunidade para conseguirem ter uma refeição equilibrada ao longo do dia. Como se compensa estas crianças em período de escolas encerradas e aulas à distância?
O Vice-Presidente do Governo Regional, Dr. Artur Lima, articulou com o Presidente da Associação de Municípios de S. Miguel, Dr. Ricardo Rodrigues, um processo para garantir o apoio às famílias mais carenciadas.
Nos casos em que se verifiquem carências imediatas, por exemplo, em termos de aquisição de alimentos ou medicamentos, a acção mais directa é efectuada pelos Municípios, tendo o Governo Regional mostrado disponibilidade para acompanhar essas necessidades. Já para apoios mais estruturados, decorrentes de quebras de rendimentos porque as escolas fecharam, o Governo Regional implementou um regime de compensação financeira, que gere directamente.

Foi pensado algum tipo de apoio para estas crianças de escalões mais baixos?
É preciso ter em atenção que os momentos de refeição conjunta, em que se tira a máscara para comer, constituem risco de transmissão, o que temos de evitar em especial quando as escolas se encontram encerradas precisamente porque os concelhos em que se inserem estão em risco máximo de transmissão da doença.
Por este motivo, o regime de actuação conjunta, entre o Governo Regional e as autarquias, para prestação de apoio social, assenta num apoio directo e não na prestação globalizada de serviços, tendo por base a necessidade de se evitarem ajuntamentos públicos desprotegidos.

O Governo da República anunciou o encerramento das escolas por um período de 15 dias, mas sem aulas à distância, com a justificação de ser um período curto de tempo. Esta decisão não poderia ser adoptada nos Açores?
Não é, de todo, possível perspectivar quantos dias uma escola tem de se encontrar encerrada para proteger a saúde da nossa comunidade! O Governo da República já assumiu, inclusivamente, que esta decisão tem de ser reavaliada no início de Fevereiro, sendo certo que 15 dias não serão suficientes para achatar a curva de novos contágios.
Nos Açores actuámos em devido tempo, conseguindo conter os elevados riscos de transmissão que se verificam no resto do país, precisamente por termos associado, com critérios fundados no melhor conhecimento que a ciência nos fornece sobre esta pandemia, a decisão de confinamento aos níveis de transmissão do vírus.
 
Que palavras gostaria de dirigir aos pais dos alunos açorianos/da ilha de São Miguel neste momento?
A Secretaria Regional da Educação encontra-se em permanente articulação com as nossas escolas, num constante esforço para providenciar as respostas educativas que os profissionais da Educação, que têm o melhor conhecimento de cada situação por se encontrarem no terreno, se propõem a implementar.
Preocupa-nos, ainda, a necessidade de se garantir condições de maior equidade para os alunos do ensino secundário que são sujeitos à realização de exames nacionais. Estamos a trabalhar nesta questão e espero, em breve, poder reunir condições para anunciar a estratégia definida nesse sentido.
É fundamental reforçar que estamos em situação de grande contingência, face à imperiosa necessidade de salvaguardarmos a saúde pública. A evolução para tempos melhores depende directamente de uma inversão do número de contágios, que, por sua vez, está correlacionado com o comportamento de cada um de nós para que se contenha esta pandemia. Aprender é muito importante, mas, como diz o Povo, a saúde acima de tudo.
 

 

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