Câmara da Ribeira Grande pensa criar linha de apoio psicológico para dar resposta a “ansiedades da pandemia”

 É com uma equipa de oito pessoas que a Divisão de Acção Social e Educação da Câmara Municipal da Ribeira Grande tem vindo a prestar apoio a vários níveis para minimizar os efeitos da pandemia no concelho com mais casos activos dos Açores.
Desde Março que foram criados, e alterados, apoios para que se chegasse a todos quantos procuravam ajuda que não foi apenas de alimentação ou de verbas pecuniárias para fazer face às despesas correntes, mas foi também de aconselhamento e encaminhamento. Esses pedidos chegavam através de uma linha telefónica de apoio que, entre 15 de Março e 15 de Maio de 2020 realizou mais de dois mil atendimentos telefónicos, com diversos pedidos e/ou prestação de informações ou encaminhamentos. Uma linha que era inicialmente mais vocacionada para os cidadãos idosos, mas que deu também “apoio a todas as ansiedades que provocam o facto de termos uma pandemia em curso e as pessoas estarem em isolamento e quarentena”. Por isso mesmo serviu de embrião, explica o chefe da Divisão de Acção Social da autarquia, Paulo Mendes, para a criação de uma linha de apoio psicológico que autarquia tem vindo a diligenciar para colocar em prática. O projecto está em stand by, uma vez que o Governo Regional pretende assegurar uma resposta também nesse sentido e “não existe lógica em duplicar recursos e neste momento os recursos têm de ser maximizados e ser pró-activos”. Certo é que essa resposta governamental ainda não está operacional e por isso a Câmara Municipal da Ribeira Grande vai “manter-se atenta ao facto do apoio que é necessário e se virmos que não vai acontecer iremos ponderar avançar”. É que, garante Paulo Mendes, “se demorar muito tempo, estamos a perder tempo precioso. Tudo o que está a acontecer agora vai ter repercussões, também a nível da saúde e bem estar psicológico. Temos que avançar para o apoio aos nossos munícipes”.
Numa situação pandémica e de confinamento em que as “regras” podem mudar semanalmente – ou quase diariamente na primeira vaga – há quem possa ficar confuso e desconhecer a legislação em vigor e também há que trabalhar essa área da comunicação. E além desse desconhecimento, há ainda a questão da vivência 24 horas por dia de um agregado familiar, com teletrabalho, ensino à distância “e tudo isso gera ansiedade, bem como o luto, que teve de ser feito em caso de óbitos, e com toda esta pressão de não podermos fazer a vida de forma livre, é contra-natura. Isso corresponde a um ‘ruído’ que nos vai comprometer toda a nossa natural vivência do quotidiano, em termos emocionais e psicológicos, com toda a restante família. O medo e o desconhecido causam angústia que podem causar depressões e ansiedade que terão de ser trabalhadas depois”, refere Paulo Mendes.

Actuar na crise
Mas nem só o apoio psicológico faz sentido nesta altura de pandemia e há que dar resposta às restantes necessidades. Neste sentido, e durante o primeira cerca sanitária à vila de Rabo de Peixe foi criado um Gabinete de Crise para dar uma resposta imediata à população e que ainda se mantém, com três técnicos no terreno: um assistente social e dois sociólogos.
Esse Gabinete de Crise permitiu dar resposta ao número de pedidos de ajuda “seja económica, seja de apoio psicológico ou de detecção de determinados critérios que permitam encaminhar o caso para a psicóloga da autarquia que faz uma abordagem e acompanhamento às famílias”.
Foi essa “equipa de crise” que também teve nas mãos a avaliação das famílias que mais necessitavam para atribuição de cabazes alimentares, no caso de estarem impedidas de poder sair de casa por se encontrarem em isolamento profiláctico ou fossem casos positivos.
“Para além dessa questão relacionada com a Covid, tentámos acautelar a perda de rendimentos inerente aos isolamentos. Sabendo que a comunidade piscatória, ficando em isolamento ou positivos, não pode ir ao mar, logo haverá quebra de rendimentos. O que vai constituir e aumentar problemas que algumas famílias já possuem. Porque não é só perda de rendimentos, os pescadores trazem alimentação em género para casa quando vão ao mar e até me arriscaria a dizer que são duplamente prejudicados: não ganham dinheiro porque não vão para o mar e aumentam as suas despesas ao nível da alimentação porque não trazem em género comida para casa”.
Neste sentido, e através de um protocolo estabelecido com a Santa Casa da Misericórdia da Ribeira Grande, para cabazes alimentares, foram atribuídos cerca de 200, abrangendo mais de 1.200 pessoas. Ajudas que procuraram complementar as respostas existentes, “não sobrepor-se”, e que representaram um valor protocolado de 15 mil euros. Ajudas que não conseguiram chegar a todos e, acredita Paulo Mendes, “os números dispararam posteriormente à extinção do protocolo, que deixou de existir por ter sido gasta toda a verba”.
Na segunda cerca sanitária à vila, e desde 12 de Janeiro deste ano,  através da DASE/Gabinete de Crise foram efectuadas mais de 300 sinalizações/pedidos em Rabo de Peixe: 87 sinalizações para Núcleo Acção Social para alimentação; foram atribuídos 142 cabazes da Cáritas (acumulando com os atribuídos também em Dezembro); três apoios para gás; 10 apoios para medicação; 7 apoios para realojamento profiláctico e 20 pedidos para equipamento de protecção individual (máscaras e álcool gel).
“Houve na primeira cerca uma massificação de pedidos. Hoje em dia os pedidos já estão a fluir de outra forma, com outro tipo de respostas por parte das entidades que se foram articulando também”, explica Paulo Mendes.
Os recursos têm de ser maximizados para se conseguir chegar a todos e que “infelizmente neste momento estão todos direccionados para a intervenção e posteriormente terão de ser vocacionados para uma intervenção diferenciada, para as consequências – de saúde, da economia, sociais e culturais – que irão perdurar durante algum tempo”, lamenta o responsável pela Divisão de Acção Social da Câmara da Ribeira Grande.

Outras ajudas desde Março
Desde meados de Março que a Divisão de Acção Social e Educação da Câmara Municipal da Ribeira Grande começou a delinear algum tipo de apoio que antecipavam vir a ser necessário “e diligenciar que fosse rápido”.
Neste sentido foi criada a resposta, gratuita, para alojamento de profissionais de saúde/PSP/bombeiros que  necessitassem de salvaguardar o agregado familiar, dando resposta a 23 pessoas durante cerca de 40 dias. Houve ainda articulação inter-institucional, com a delegação de saúde da Ribeira Grande, para alojamento no concelho para a realização de sete quarentenas.
A DASE da autarquia criou também um serviço de apoio sénior em que facilitava em termos de aquisição, logística, transporte e distribuição alimentos e medicação para os munícipes mais velhos do concelho. Uma área multidisciplinar – com uma psicóloga, assistente social e profissional de gerontologia – que além de assistir a terceira idade face às questão relacionadas com a pandemia também se propõe ajudar nesta fase delicada da vida. “Fizemos esse grupo de trabalho que vai criar as condições para uma comissão de apoio ao idoso. Está a ser estruturada, será regulamentada, também no sentido de trabalharmos e termos na sua constituição diversos parceiros da comunidade, que trabalhem na área do idosos, forças vivas, grupos informais, no sentido de podermos trabalhar mais especificamente a área da violência no idoso e questões implícitas que hoje são enquadradas de forma genérica, e não de forma específica, como a violência doméstica. Trabalhando também a questão do isolamento, da solidão, ansiedade e depressão que nesta situação de pandemia assolam todos, mas em particular os que se encontram numa fase mais vulnerável da sua vida que são os idosos”, explica Paulo Mendes.
Outra medida da autarquia, foi a alteração “urgente” do regulamento do Fundo de Emergência Social – nomeadamente o alargamento do número de beneficiários – com a alteração do valor de referência do Rendimento per capita de 50% do valor da pensão social para 100% - de cerca de € 105.00 para € 211.79 - o que aumentou exponencialmente a população a apoiar. “Acrescentámos ainda um artigo que previu a quebra abrupta de rendimentos, não só mas também com o intuito de alcançar a classe média devido aos riscos de cortes nas remunerações e consequências que daí advinham – o valor de referência passou a ser o valor do indexante dos apoios sociais € 438.81 sendo que cumulativamente tinham que apresentar uma quebra de rendimentos de 33% em comparação com o mês anterior e motivado por questões relacionadas com a Covid-19”, refere o responsável pela área social da autarquia.
Foram ainda isentados os arrendatários camarários do pagamento de rendas até Junho de 2020, mas apenas os que possuíssem as mesmas regularizadas “utilizando um factor diferenciador e responsabilizador”.
Para fazer face às dificuldades com o pagamento de medicação, foi também implementado o Cartão Emergência ABEM:Covid-19 em parceria com a Associação Dignitude – que permite apoiar e custear medicação, desde que prescrita pelo Serviço Regional de Saúde, a 100% do custo imputado aos utentes – abrangendo 89 beneficiários. “Saliente-se que já somos parceiros do Cartão ABEM – que existe para apoiar na aquisição de medicação mas que está sujeito a regras de avaliação/atribuição mais rígidas”, refere Paulo Mendes que refere que além de todo este trabalho desenvolvido para fazer face à pandemia, a DASE continuou com as respostas sociais já existentes.
Tudo para que consigam continuar a chegar a todos, não apenas aos mais afectados pela pandemia.

                                           

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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