Números revelados pelo Director Regional de Prevenção e Combate às Dependências

640 pessoas no tratamento com metadona em São Miguel no final do ano passado

Existem dados relativamente à toxicodependência em 2020?
Ainda não temos dados, porque o relatório que é feito pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependência (SICAD) ainda não foi publicado. Trata-se de relatório trianual e leva algum tempo. As últimas estatísticas são relativas a 2016/2017.

Está a ser pensado realizar um estudo a nível regional?
Ainda não se equacionou isso, mas faria todo o sentido realizar esse estudo.

Tem existido um aumento do número de toxicodependentes?
Não podemos dizer que esse número de toxicodependentes tenha aumentado porque não existem dados concretos que suportem essa constatação. O que tem aumentado é o número de utentes em tratamento. Isto significa que existe uma maior procura por parte destes utentes e que existe também uma maior referenciação para tratamento pelos diferentes serviços, quer sejam de saúde, sociais ou judiciais. Não existe qualquer estudo que indique que exista um grande aumento do número de toxicodependentes.

Passando para o tratamento, quantas pessoas estão a realizar o tratamento de metadona na ilha de São Miguel?
Aqui, o programa de manutenção por agonistas opiáceos, estamos a falar de metadona e de buprenorfina, é desenvolvido pela Associação ARRISCA. Temos valores bastante recentes. Em 31 de Dezembro de 2020 estavam integrados 640 utentes nesta instituição a realizar este tipo de programa. Existe também outro programa de tratamento em ambulatório, denominado ‘Livre Drogas’. Este é um programa indicado para promover a abstinência de consumos, mas sem a prescrição de um destes substitutos opiáceos, nomeadamente o cloridato de metadona, a buprenorfina ou buprenorfina mais novaxona. Este último tratamento é desenvolvido pela Associação ARRISCA e pela Alternativa. Neste programa, a 31 de Dezembro de 2020, estavam integrados 632 utentes na ARRISCA e 22 utentes na Alternativa. No mesmo período do ano de 2019, estavam 665 utentes no programa de metadona, 522 utentes no ‘Livre Drogas’ na ARRISCA e outras 23 pessoas na Alternativa.

É um número considerável de pessoas…
Bastante, atendendo à nossa população. Este é um problema transversal a todo o país e estamos mais ou menos na mesma linha do que outras cidades.    

Como tem sido o comportamento dos adictos em tempos de pandemia?
O que vemos é que, neste tempo de pandemia e em consequência do confinamento, se verifica um aumento da procura para tratamento, quer em regime ambulatório quer ao nível de regime de internamento ao nível das diferentes substâncias psicoactivas. Estamos a falar naturalmente de álcool e drogas.

Quais são os motivos para o aumento das drogas sintéticas na Região?
Esta situação preocupa-nos bastante. O aumento não se verifica apenas na Região Autónoma dos Açores mas em todo o país e este aumento é consequência da produção caseira que existe destas substâncias que são muito difíceis de identificar pela tipologia de produtos/químicos usados no fabrico das mesmas. Estamos a falar de substâncias que, atendendo à sua maleabilidade, são facilmente manipuláveis porque a sua formula química é facilmente alterada. Isso torna-os de difícil inclusão na lista de substâncias criminalmente puníveis. Estas substâncias que estão à venda online são potenciadoras do aumento de consumos pela sua fácil acessibilidade e aquisição.

Este aumento está relacionado com a pandemia?
Sim, pelo facto de estarem confinados e de esses produtos não serem criminalizados. Quem é apanhado sofre uma coima entre 700 a 3.000 e poucos euros. Ao contrário das outras drogas, como heroína ou o haxixe, que são ilícitas e em que as pessoas são criminalizadas, nas drogas sintéticas isso não acontece. Os consumidores requisitam pela internet, os componentes vêm separados, o consumidor junta e faz esse tipo de drogas mais nocivas. Não é fácil criminalizar este tipo de produto.

Com a pandemia, e sabendo que a maior parte das drogas são importadas para a Região, começa também a existir mais dificuldade em ter acesso a essas drogas…
Isso é uma constatação. Naturalmente que os correios de droga são mais limitados. Há uma fiscalização maior e as drogas comuns, como a canábis ou a heroína, que tinham os seus correios de droga, neste momento vêm-se privados e muito mais condicionados. Logo os consumidores procuram um acesso mais fácil e o mais fácil é requisitar substâncias ou produtos químicos para o fabrico de um modo mais caseiro.

Esta é uma situação preocupante? Que medidas estão a ser tomadas para travar este aumento?
Posso dizer que este é efectivamente um problema de saúde pública e extremamente preocupante, até porque o consumo de drogas sintéticas despoleta sobretudo doenças psiquiátricas, provocando sobretudo episódios psicóticos que se traduzem em alucinações ou delírios e, por vezes, levam ao internamento em serviços de psiquiatria. Estas substâncias quando consumidas frequentemente provocam quadro irreversíveis ao nível da saúde mental, bem como a nível orgânico, nomeadamente no sistema hepático e cardíaco. Este aumento só pode ser travado com a revisão da legislação, de forma a criminalizar estas substâncias. Ou seja, criar as condições e as ferramentas necessárias para que as autoridades policiais e os tribunais possam intervir de forma eficaz, contribuindo no combate ao tráfico e, consequentemente, ao consumo. Este é o caminho para travar este aumento.

A nível geral, estão a ser planeadas novas medidas para combater a toxicodependência?
Estão a ser planeadas e estudadas para intervir ao nível dos comportamentos adictivos e das dependências. Essas medidas serão incluídas no Plano Regional para a área dos comportamentos adictivos e nas dependências que será elaborado a seu tempo e será transversal a todos os eixos de intervenção, ou seja, prevenção, dissuasão, redução de riscos e minimização de danos, tratamento e reinserção.

Está a ser tomada alguma medida especial relativamente à vigilância dos toxicodependentes nestes tempos de pandemia?
Só podemos intervir junto dessas pessoas quando elas pedem ajuda. Não podemos, de um modo compulsivo, interná-las. A nossa lei, em termos de saúde mental, contempla essa valência e pode-se internar compulsivamente uma pessoa com problemas mentais se ela representa um risco para si e um risco para os outros mas no âmbito das dependências a lei ainda não é clara e não se pode internar uma pessoa compulsivamente.                                                            

Luís Lobão

 

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima