Depois do The Voice Portugal segue-se o Festival da Canção

“Vira e volta a saudade” é o refrão que promete ficar na memória dos portugueses

Desde cedo que Romeu Bairos, jovem natural das Furnas hoje com 28 anos de idade, decidiu que faria da música a sua ocupação principal, motivado, em parte, pela família que sempre manteve uma relação de proximidade com esta vertente da identidade cultural açoriana, preparando-se agora para representar os Açores no Festival da Canção e, quem sabe, em Maio representar Portugal no Festival da Eurovisão.
No entanto, esta sua passagem por concursos não é de agora, já que entre os seis e os sete anos de idade participou por duas vezes na Gala Regional dos Pequenos Cantores Caravela D’Ouro, em conjunto com o irmão, ganhando o primeiro lugar e o segundo lugar e o direito a cantar em Portugal continental e na Madeira nas duas ocasiões.
Mais tarde, aos 22 anos de idade, na esperança de alcançar novos públicos e de fazer chegar a sua música a mais pessoas, participou também no The Voice Portugal, tornando-se numa cara conhecida e concretizando aquele que era o seu desejo inicial, apesar de, desde aí, ter tido uma carreira marcada por altos e baixos, típicos para quem procura subsistir através da música ou das artes.
Seis anos mais tarde, em plena pandemia, surge então o convite para escrever a música que levaria os Karetus ao Festival da Canção. Contudo, com o evoluir do trabalho, Romeu Bairos viria também a dar a voz a “Saudade”, onde, para além de incluir o característico som de uma viola da terra, incluiu também no refrão a frase “vira e volta a saudade”, remetendo para o folclore açoriano.
“[Os Karetus] gostariam de gravar uma guitarra portuguesa de verdade para que o som não perdesse qualidade, só que um músico prestigiado que toque guitarra portuguesa é um bocado caro, e por isso disse que poderia tentar gravar com a minha viola da terra, apesar de não ser um grande entendido no instrumento. Decidiram usar o som e assim a mensagem ficou mais forte, até porque o refrão é “Vira e volta a saudade”, exactamente o mesmo refrão da saudade do folclore da ilha de São Miguel”, explica o músico, adiantando que neste momento a “esperança de ganhar” é grande.
Para além de o grupo estar feliz com o resultado final do trabalho, também a nível europeu as pessoas que seguem atentamente este tipo de concursos parecem ter “Saudade” como uma das suas músicas preferidas, elevando de certa forma as expectativas dos músicos para o próximo dia 20 de Fevereiro, dia em que irão apresentar oficialmente ao grande público o resultado dos últimos meses de trabalho.
Em suma, e independentemente do desfecho final, a experiência de representar o país (e os Açores) no Festival da Canção será “muito positiva”, adiantando o artista que este tipo de participação tinha já sido pensada em algum momento da sua carreira. No entanto, a possibilidade de representar o país na Eurovisão foi algo que “nunca lhe passou pela cabeça”, embora esteja agora mais perto de se concretizar.
Ao ler alguns dos comentários que surgem na internet relacionados com a música, muitos internautas têm vindo a classificá-la como uma espécie de “electrofado”, embora o jovem micaelense considere que, a ser mesmo necessário rotular o trabalho, esta música se enquadra mais numa espécie de ‘electro folclore açoriano’, que já lhe valeu comparações com Conan Osíris, ou até mesmo com Camané, ambas comparações que recebe como grandes elogios.
Depois de ver vários dos seus projectos em suspenso, embora tenha conseguido fazer concertos em algumas ilhas dos Açores no Verão e colabore com outros artistas na escrita de músicas, Romeu Bairos considera que esta participação no Festival da Canção se traduz “num holofote gigante que dá uma visibilidade enorme”, tendo em conta que esta experiência poderá, dependendo do sucesso de “Saudade”, tornar-se num concurso internacional.
“Saudade”, para além de remeter para um sentimento muito característico de Portugal, remete também para “as saudades que existem da vida antes da pandemia”, nomeadamente dos tempos em que as pessoas podiam sair de casa “sem máscara e sem medo de serem infectadas por algo que pode ser dramático nas nossas vidas”, diz.
Independentemente do resultado das votações do próximo dia 20 de Fevereiro, através de chamadas de valor acrescentado e da votação do júri escolhido pela RTP, estação televisiva responsável pela organização do evento, Romeu Bairos não esconde que este será um evento que irá mudar a sua vida, embora pretenda continuar a viver um dia de cada vez, sem acumular grandes ansiedades em relação ao futuro.
A certeza destas mudanças surge por ter já a experiência de ter participado noutros concursos, em específico no The Voice Portugal, o que lhe permitiu “sentir mais de perto a fama”. Isto é, tendo ficado entre os 25 melhores concorrentes deste concurso em que concorreram 10 mil pessoas, o trabalho de Romeu Bairos começou a ser solicitado como nunca antes tinha sido, aproveitando também a oportunidade para investir na sua educação.
“Depois desta experiência toda de televisão foi a primeira vez que senti na minha vida um bocado a fama. Toda a gente queria que eu fosse tocar para todo o lado, e naquele ano e meio ou dois anos a seguir ao The Voice nunca tive tanto trabalho na minha vida. Comecei a ganhar muito dinheiro que decidi investir na minha educação e ir estudar Jazz para o JB Jazz Clube em Lisboa”, relembra o cantautor.
No entanto, mesmo que não tivesse chegado a este ponto de viragem na sua vida, o micaelense realça que “ia fazer isto de qualquer maneira”, tendo em conta que não estaria disposto a voltar as costas ao seu sonho de prosseguir uma carreira na música, como tem conseguido fazer até agora.
Depois do programa de televisão e de algum tempo a viver as experiências que lhe foram oferecidas, o músico tentou também quebrar “com o fantasma” que o mesmo deixou, tendo em conta o amadurecimento pelo qual passou e que o fazia querer romper com o “rapaz do programa de televisão”, ou com “o rapaz das rastas” que “cantava em inglês”.
Começou por mudar o seu visual por completo e por começar a escrever em português, iniciando a gravação do seu primeiro EP, intitulado “Cavalo dado”, em conjunto com Tiago Maia, músico que já passou pelas bandas de Tiago Bettencourt e pelos GNR, trabalho este concluído em 2019 mas que, infelizmente, não resultou como pretendia.
“Apesar de ter tido um bom feedback, foi muito pouco. Foi um bocado o contrário do que aconteceu com o The Voice. (…) Não foi o que estava à espera, pensei que ia ter um maior reconhecimento pelo que fiz, mas não foi bem assim, não por o trabalho não ser bom (…), mas por ter começado a perceber melhor como funcionava a música e a indústria. Vi que não tinha feito as coisas como elas têm que ser feitas para ter sucesso”, refere.
Para contornar esta situação, Romeu Bairos começou a gravar videoclipes, o que o permitiu aproximar-se do seu público. Começou também por fazer mais concertos de originais, e em Setembro de 2019 trabalhava no projecto “Contos e canções”, um espectáculo organizado com mais quatro cantautores açorianos, nomeadamente Cristóvão, Sara Cruz e João Félix.
Chegada a pandemia, viu-se “sem espectáculos e sem meio de subsistência”, chegando inclusive a pensar que “seria o fim” da sua carreira. No entanto, perante o bloqueio de inspiração percebeu que não se chegaria ao fim, e aproveitou ainda o tempo disponível para começar a trabalhar num novo disco.
 

Print

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima