Deputados do Chega votaram contra porque os contribuintes não têm de pagar medidas sociais

Proposta do BE aprovada leva Governo a anunciar que vai adquirir 5 mil novos equipamentos informáticos para as escolas

Ontem, em discussão no Parlamento açoriano esteve a proposta do Bloco de Esquerda para garantir o acesso a equipamentos informáticos para os alunos em ensino a distância e para a realização de um estudo sobre o impacto desta modalidade de ensino durante a pandemia.
A proposta do Bloco de Esquerda foi aprovada com o apoio de todos os partidos, à excepção do Chega, que votou contra.
A proposta defende que todos os alunos em ensino à distância que o solicitem, ou sejam sinalizados pela escola, vão ter acesso a um computador portátil e internet por empréstimo. A prioridade é para os alunos cujas famílias não disponham de nenhum destes equipamentos e a distribuição tem que começar dentro de uma semana. “Passados dez meses após a primeira vaga de Covid-19 persiste a inexistência de computadores para todas e todos os alunos que estão em ensino à distância. E continuam a ser contabilizados computadores por lar e não por aluno, e continuam a ser contabilizados tablets e telemóveis” como equipamentos compatíveis com o ensino à distância, alertou a deputada Alexandra Manes, do Bloco de Esquerda.
“É por isso imprescindível que o Governo Regional proceda à aquisição de computadores, numa primeira fase para disponibilizar aos alunos que não dispõem desse recurso, bem como de assegurar o acesso à internet”, explicou a deputada.
Alexandra Manes salientou ainda que o encerramento de escolas, quer na primeira vaga da Covid-19, quer no momento em que estamos, colocou mais uma vez em evidência as desigualdades sociais dos Açores e “trouxe à tona o número de alunos, na nossa Região, sem computador, demonstrou que existem habitações sem ligação à internet, mostrou que há agregados familiares com 4, 6 e mais dependentes, a frequentar o ensino e com um único computador disponível”. Problemas que esta proposta do Bloco de Esquerda vem agora atenuar, porque determina que todos os alunos que o solicitem ou sejam sinalizados pela escola passam a ter direito a ter um computador e internet por empréstimo sempre que estejam em ensino à distância.
A resolução aprovada determina também que o Governo Regional vai encomendar à Universidade dos Açores um estudo que avalie os efeitos do ensino à distância no processo de ensino-aprendizagem e no desenvolvimento das crianças e jovens de todos os níveis de ensino das escolas que, por determinação das autoridades de saúde ou do Governo Regional dos Açores, encerraram durante mais de um mês nos anos lectivos de 2019-2020 e 2020-2021.O estudo terá duas fases, a primeira, que deverá estar concluída até ao final do presente ano lectivo, vai incidir na avaliação preliminar dos efeitos do ensino à distância e propor estratégias para atenuar os principais impactos negativos deste método de ensino. A segunda fase deve ter uma perspectiva de médio e longo prazo, avaliando o desenvolvimento, o percurso académico e a integração social das crianças e jovens, particularmente nas comunidades mais afectadas pelo encerramento de escolas.

Os deputados do Chega votaram
contra e justificaram
O deputado José Pacheco disse que até compreende o princípio do diploma apresentado pelo BE, quanto à cedência de equipamentos, mas não compreende a necessidade de mais estudos sobre sucesso escolar, algo facilmente apurável através das escolas, sem custos e de forma imediata.
Disse também que era importante perceber a manipulação das notas escolares, que se registou em anos transactos, para camuflar os rankings escolares nos Açores, afirmando que este sim é um estudo urgente que se deve fazer, para apuramento dos responsáveis.
Quanto ao empréstimo de equipamentos aos alunos, o deputado chamou a atenção para a falta de conhecimento do preponente, uma vez que este deve desconhecer todos os “expedientes” possíveis e imaginários que foram usados para contornar a ida às aulas, assim como para terem mais um equipamento informático em casa de forma gratuita.
Também do Chega, o deputado Carlos Furtado disse que “no início da pandemia muitos professores e muitos pais, adquiriram equipamentos informáticos a preços exorbitantes, atendendo à indisponibilidade de stocks existentes no país, cumprindo assim a sua parte, no objectivo de levar por diante a calendarização dos programas escolares, de forma não presencial e que estes agora constatam que, uma vez mais, a classe média paga aquilo a que tendencialmente é obrigada, e que ainda terão de suportar os custos da implementação de medidas sociais, que podendo de alguma forma ser justas, são profundamente injustas para classe média, que habitualmente paga todos os encargos que lhes são imputáveis”.
Ambos os deputados do Chega referiram ainda “a situação de que existem inúmeras famílias supostamente fragilizadas, em que os progenitores dispõem de equipamentos electrónicos de ultima geração, mas não dão a devida atenção para a aquisição de computadores para os seus educandos, remetendo irresponsavelmente esta obrigação para o Estado, que no fundo são os contribuintes”.

Proposta do CDS aprovada não foi posta
em prática pelo PS, diz Cabeceiras
No âmbito desta discussão sobre Educação a deputada Catarina Cabeceiras declarou que “é fundamental promover as diligências para assegurar aos professores, alunos e famílias, as melhores condições para a adopção de um modelo de ensino à distância”, e foi nesse sentido que “o Grupo Parlamentar do CDS apresentou em Abril passado uma iniciativa que visava também atribuir, aos alunos que precisavam, computadores e acesso à internet”. Iniciativa esta, aprovada, e que também previa a criação de uma rede de apoio tecnológico à iliteracia digital de professores e alunos.
“Um dos objectivos desta proposta do CDS-PP foi mitigar as desigualdades no acesso às condições de ensino que mais intensamente se manifestaram entre os alunos no regime à distância, devido a não ser possível a todas as famílias adquirir os meios tecnológicos necessários ou promover o acompanhamento destas crianças e jovens neste período desafiante”, declarou Catarina Cabeceiras, observando que “se o anterior Governo Regional tivesse cumprido na íntegra a resolução do CDS-PP, não estaríamos hoje a ter esta discussão, pois a comunidade escolar já teria ultrapassado essas dificuldades.”
Catarina Cabeceiras afirmou ainda que “o ensino à distância não substitui o ensino presencial. No entanto, a situação pandémica que vivemos desde há quase um ano obrigou-nos a uma adaptação, conduzindo-nos a essa resposta. Todos compreendem que não é possível fazer uma revolução tecnológica numa semana, pelo que nos cabe analisar as dificuldades com que a comunidade escolar se depara, e decidir em conformidade”.

Governo com plano de compra
em marcha para ensino à distância
A Secretária Regional da Educação anunciou aos deputados que o Governo vai adquirir quatro mil computadores portáteis e mil tablets para todas as escolas da Região, “mais do que duplicando o material existente neste momento nos estabelecimentos de ensino público dos Açores”.
Sofia Ribeiro referiu que no ano lectivo anterior, “as escolas dispunham de apenas 1.585 computadores para uso exclusivo dos alunos, sendo que 317 destes eram considerados como não estando em bom estado”.
Segundo adiantou, nesse ano, foram disponibilizados pelas escolas 1.920 portáteis, utilizados no âmbito do Projecto Atelier do Código, tendo sido adquiridos outros 500.
Sofia Ribeiro esclareceu também que, no total, “o número de computadores disponíveis em bom estado é inferior a 4.000”, destacando o “esforço das autarquias, de todos os espectros políticos”, na aquisição complementar destes equipamentos.
A titular da pasta da Educação sugeriu a criação de uma comissão de trabalho no Parlamento, para “auscultar quem efectivamente está no terreno e conhece as especificidades do modelo de implementação do ensino a distância, que possa dar orientações relativamente à definição dos critérios reais e adequados para constituir um modelo de avaliação”.
De acordo com a governante, na próxima semana, as escolas que reabrem vão promover uma avaliação do ensino a distância nos Açores, na sequência do que foi anunciado quando elaborado o guião desta modalidade de ensino pela Secretaria Regional e pelos Conselhos Executivos das escolas da Região.
Sofia Ribeiro anunciou ainda que a tutela está já a trabalhar para garantir “formação em literacia digital para os alunos, professores e encarregados de educação”, a par da aquisição dos novos equipamentos “imprescindíveis para garantir que os alunos consigam também desenvolver pensamento computacional”.

 

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima