Jovem açoriana aposta em empresa de venda de “rosas eternas” e faz sucesso durante a pandemia

Jéssica Machado é natural de Ponta Delgada mas foi na cidade de Bradford que encontrou o seu lugar no mundo, tendo emigrado há cerca de seis anos com o apoio da família, que já vivia no Canadá há vários anos. Actualmente é proprietária de uma empresa dedicada ao comércio de “rosas eternas”, como são denominadas, sendo este um conceito que se tem vindo a tornar mais comum no país.
Apesar da saudade que tem da ilha e da sua família mais directa, a jovem de 23 anos de idade não esconde que esta foi uma decisão fundamental para conseguir concretizar o seu objectivo de “alcançar mais e melhor”, embora nunca pensasse que para isso teria que ir “para tão longe da ilha” de onde guarda com carinho as memórias dos acampamentos em família e dos dias chuvosos.
No entanto, apesar do desejo de procurar o melhor para si e de investir no seu futuro através desta mudança de cenário, Jéssica Machado relembra que conseguir o seu primeiro emprego no novo país foi mais difícil do que pensava, demorando inclusive vários meses até encontrar trabalho na área da restauração, onde permaneceu até aos primeiros passos da sua empresa, a Elegant Eternal Roses.
Durante esse tempo valeram-lhe as poupanças que tinha acumulado enquanto trabalhava também na área da restauração nos últimos anos em que viveu em São Miguel, trabalho este que fazia aos fins-de-semana e que conciliava com os estudos durante a semana, bem como a preciosa ajuda da família que a recebeu de braços abertos.
Para além da dificuldade em encontrar emprego, a sua chegada ao Canadá ficou marcada também pelo seu primeiro contacto com a neve e com as temperaturas muito baixas que são características das épocas mais frias do ano, mas que nos Açores não se fazem sentir com tanta intensidade.
Relembra também a estranheza com que olhou pela primeira vez para as casas canadianas, “tão diferentes das casas dos Açores” e a admiração por se deparar com “tantas culturas e origens étnicas diferentes”, aspecto este que confere ao Canadá a reputação de ser um dos países mais multiculturais e inclusivos no mundo.
Apesar de se manter a trabalhar durante alguns anos, sempre teve o desejo de abrir o seu próprio negócio, vendo na Elegant Eternal Roses uma oportunidade para poder construir um futuro melhor para si e para a sua família e, ao mesmo tempo, pensar numa ideia onde pudesse também fazer as pessoas felizes.
Foi assim que se lembrou de iniciar a sua actividade empresarial em torno do conceito das “rosas eternas”, uma técnica que através da secagem destas flores que são depois submetidas a um tratamento químico que permite substituir a seiva natural das plantas por uma mistura de glicerina e outros elementos, que para além de permitirem dar uma nova cor às pétalas das rosas, fazem com que estas mantenham o seu aspecto natural e fresco durante um ou dois anos, quando bem conservadas por quem as compra.
A ideia nasceu quando Jéssica Machado conheceu o seu actual companheiro, Aaron, que durante o namoro sempre teve o hábito de lhe oferecer rosas. No entanto, apesar da intenção romântica, tendo em conta o preço das flores no Canadá, estas ofertas acabavam por ser uma despesa para o casal e as rosas acabavam sempre por secar e morrer em poucos dias.
Neste processo, explica a empresária, as rosas que são importadas da China e do Equador são colhidas manualmente quando se parecem mais bonitas, passando em seguida por “um processo rigoroso de secagem” que tem uma duração de duas semanas. Depois de secas, com especiais cuidados, as rosas são então tingidas com cores vibrantes, processo este que demora mais uma semana, até ficar concluído.
Depois de tingidas, permanecem ainda mais algum tempo numa sala de secagem ajustada a uma temperatura específica, e é a partir daí que as rosas “mais bonitas” são escolhidas individualmente e utilizadas nos arranjos dos clientes, indicados para qualquer tipo de ocasiões, desde baby showers, dias especiais ou até funerais.
Mesmo sendo um processo demorado, já que uma única rosa implica mais de um mês de trabalho, Jéssica Machado sublinha que este é um investimento que vale a pena, tendo em conta que “no final, os nossos clientes acabam com um produto que ficará lindo durante anos”.
Assim, a Elegant Eternal Roses viria a entrar em funcionamento no passado mês de Maio, precisamente no meio de uma grande crise sanitária devido à propagação do novo coronavírus por todo o mundo, e cerca de dois meses depois de decretado o estado de emergência em vários países.
Porém, apesar do receio inicial de poder perder o investimento na matéria-prima, a pandemia não se acusou como um entrave para a jovem natural de Ponta Delgada, tendo em conta que o facto de as pessoas estarem limitadas às suas casas poderá fazer com que a marca evolua com o aumento das encomendas e com as entregas ao domicílio.
Traçando o panorama das vendas, Jéssica Machado afirma que “as vendas têm crescido devagar desde a abertura” da loja virtual, realçando que, sobretudo no Natal, o casal ficou surpreendido com a quantidade de pedidos efectuados: “Na época natalícia as pessoas optaram por encomendar mais rosas. Ficámos um pouco surpreendidos porque como estamos numa pandemia não pensávamos que iríamos ter boas vendas”, diz.
Desde o Natal, Jéssica Machado refere que os pedidos especiais para o Dia de São Valentim, comemorado dentro de duas semanas, têm também feito aumentar o número de pedidos para adquirir as rosas eternas, havendo por isso boas projecções para o futuro, pelo menos por enquanto.
“Acho que a pandemia não será um obstáculo para as nossas vendas. Sim, estamos numa pandemia mas tenho a certeza que tendo higiene correcta e tendo regras no que diz respeito à entrega ao domicílio, a nossa marca irá continuar acrescer”, afirma.
De momento, a empresária dispõe apenas de uma loja virtual, o que lhe permite continuar a ter algum rendimento mesmo durante a pandemia e o confinamento que o Canadá atravessa, mas não esconde o desejo de continuar a crescer e de, um dia, ter a oportunidade de abrir uma loja em Toronto.
Até que isso seja possível, Jéssica Machado e o companheiro encontram-se a estudar a possibilidade de enviar as suas rosas para outros países, embora este seja igualmente um passo ambicioso, tendo em conta a fragilidade do produto, sendo por isso necessário pesquisar muito sobre a forma mais eficaz de acondicionar as flores para longas viagens.
Entretanto, Jéssica salienta que planeia visitar a ilha de São Miguel “o máximo que puder”, mas que regressar a São Miguel de forma definitiva está fora dos planos actuais. Considera, no entanto, a hipótese de comprar um terreno na sua terra natal para construir uma casa onde possa ficar para visitar os seus familiares em tempo de férias, e planeia a próxima visita para “quando a pandemia acabar”.
 

“Estou inspirada a fazer o bem e gosto de deixar as pessoas felizes, e ao fazer arranjos de rosas sou capaz disso”

Que sonhos alimentou em criança?  
Acho que todos nós quando somos crianças queremos e desejamos “ser” o que não podemos, daí sermos sonhadores. Sempre fui uma menina sonhadora.

O que mais o incomoda nos outros? E o que mais admira?
Admiro a compaixão e a sinceridade. O que menos admiro numa pessoa é o facto de pensarem apenas em si.

Que coisas gostaria de fazer antes de morrer?
Gostaria de viajar mais e aprender mais sobre outros países estrangeiros.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição.
Sim gosto, acho que ler é uma boa “terapia” e o meu livro favorito se chama, Bare. Bare fala sobre mulheres com dificuldades em emagrecer e sobre a auto-estima delas.
Gosto muito deste livro e acho que muitas mais mulheres que sintam que não são o suficiente devem e deveriam ler este livro.

Como se relaciona com a informação que inunda as redes sociais?
Acho que as redes sociais são óptimas em termos de socialização, especialmente na situação em que estamos. Acho que através das redes sociais conseguimos interagir com os nossos familiares que ainda habitam em São Miguel.
Infelizmente, há uns bons aninhos era muito mais complicado interagir com os nossos familiares do que hoje em dia.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet?
Sim conseguia, até consigo me focar melhor sem ter o meu telemóvel por perto, mas como tenho um negócio para gerir tenho que andar sempre com o meu telemóvel perto de mim.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Sim adoro! A última viagem que fiz foi até à British Columbia, uma das minhas paisagens favoritas foi a que se situa em Banff, o lago que se chama Lake Louise. Amei.

Quais são os seus gostos gastronómicos?
Adoro comida mexicana, italiana, chinesa e comida grega. E a lista poderia continuar!!

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Gostaria de poder ler que a pandemia desapareceu, gostaria que todos nós pudéssemos voltar ao normal.

Qual a máxima que o/a inspira?
“I’ve learned that people will forget what you said, people will forget what you did, but people will never forget how you made them feel.” Maya Angelou.
Estou inspirada para fazer o bem e gosto de deixar as pessoas felizes e, ao fazer arranjos de rosas sou capaz de fazer isso. Eu fiz arranjos para ocasiões especiais, como aniversários, chás de bebé e, claro, para romance. Eu também fiz arranjos especiais para pessoas que perderam um ente querido e dá-me consolo em saber que sou capaz de ajudá-los de alguma forma com a sua dor através da minha arte.

Em que época histórica gostaria de ter vivido? Porquê?
Gostaria de ter vivido nos anos 70 acho tão lindo e interessante como se vestiam.
 

 

 

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