Rostos açorianos - Emanuel Machado

“Se tenho a vida que tenho hoje e se eu consegui subir na pesca devo tudo a meu pai e a meu avô”

  Correio dos Açores – Lembra-se dos seus primeiros dias na pesca?
Emanuel Machado (Armador de uma embarcação de chicharro) – Foi no início dos anos 80 do século passado. Tinha 13 a 14 anos quando comecei a ir à pesca com meu pai. Não me lembro bem do dia. Embarquei no barco ‘Caloura’, com cerca de 11 metros de comprimento. Era um barco familiar. Pertenceu a um tio-avô meu. Foi vendido a um outro tio que, tempos depois, foi para o Canadá. E, na altura, meu pai comprou a embarcação, em parceria com um amigo.
Estive na escola no Convento dos Frades. Fiquei três anos, sempre na quinta classe. Passava os dias no porto da Lagoa a ver os barcos a chegar e a partir. E meu pai, depois de tanto insistir para estar na escola, acabou por me levar para o mar.
Os primeiros dias não foram fáceis. Enjoava que era uma coisa séria. Mas, de tanto gostar desta vida, fui sempre insistindo até me habituar.
Pescávamos várias espécies, desde chicharro a peixe de fundo. Na altura, também íamos à pesca dos atuns, o bonito e a albacora. Não havia licenças de pesca. Cada armador pescava o que queria e onde queria. Eu sou desse tempo.
A certa altura, meu pai chegou à conclusão que “meias são só para as pernas”. Falou com o sócio e adquiriu a parte dele no barco. A bordo chegavam a estar 14 a 20 homens. Eram muitas as famílias que viviam da pesca. E o peixe dava para todos. E eu, durante o dia, pescava ao atum e à noite ia ao chicharro. As dificuldades eram imensas e trabalhávamos de noite e de dia.
Era ‘rapaz do barco’ e estava tudo à minha responsabilidade. Ia chamar os pescadores a casa. Tinha de levar os anzóis às costas numa tina azul enfiada num pau. Era eu que transportava o gasóleo e o petróleo para o ‘petromax’. Fazia todo este trabalho desde Água de Pau para o porto da Caloura.
Chegou a haver dias em que me esquecia de chamar alguns homens para o mar... E ia a pé, às 2 e 3 horas da manhã, com 14 a 15 anos, da Caloura até à freguesia, chamá-los. Algumas vezes batia-lhes à porta e eles diziam que, naquele dia não iam pescar. E voltava sozinho para o porto. Era obrigação do ‘rapaz do barco’ chamar o pessoal para o mar.
Em dado momento, o senhor António Marracho, já falecido, fez o empréstimo do seu barco ‘João Victor’ a um armador de Água de Pau. Era um barco maior do que aquele que tínhamos e que se estava a degradar. E quando terminou o prazo do empréstimo, meu pai foi falar com o senhor António Marracho a perguntar se queria vender o ‘João Victor’. Para isso, candidatou-se a um apoio da Secretaria das Pescas, na altura em que Adolfo Lima era governante. O projecto foi aprovado e ficamos com o barco. Deixe dizer-lhe que Adolfo Lima é um grande homem. Confiou e disponibilizou muitos meios financeiros a muita gente pobre que percebia da arte de pescar.
O ‘João Victor’ era um barco com 12 metros de comprimento, três metros de largura e um bom pontão. Já tinha uma sonda e era um barco de boa construção. Meu pai tinha pescado com palangre de fundo para o senhor António Marracho, a partir da Lagoa, na embarcação ‘Marrachinho’ que foi, depois, vendida ao António Sacadura, da Ribeira Quente.
E, com o ‘João Victor’, meu pai foi dos primeiros armadores da costa Sul de São Miguel a utilizar o palangre de fundo. Nessa altura fazíamos pescarias de 800 a mil quilos de peixe de fundo de várias espécies. Era fraca a pescaria quando chegássemos a terra com 200 a 300 quilos de peixe. Esta foi a altura que meu pai melhorou de vida.

Foi ‘rapaz de barco’ durante quanto tempo?
Durante quatro a cinco anos. Neste período de tempo ficava com os restos das soldadas (quinhões) e, em alguns dias não crescia nada para mim. Já com 17 a 18 anos estava a trabalhar a bordo e já tinha o meu quinhão. Casei-me com 19 anos e comecei a ter uma família para sustentar. E, na altura, a vida não foi fácil. Comecei a viver em casa de uma tia e, depois, em várias casas arrendadas. Quando pude, comprei uma casa.
Entretanto, meu pai vendeu o barco ‘João Victor’ a um tio meu e esteve a trabalhar na Lotaçor, na Caloura, durante cinco a seis anos. E, então, tive que ir fazer a minha vida. Fui pescar para o barco atuneiro ‘Princesa Alice’. Em 1996 foi tirar o curso de contra-mestre para o continente. Estive, depois, pouco mais de dois meses a pescar ao atum no barco ‘Milão’, com o mestre Jorge. Não era fácil pescar ao atum. Nos primeiros meses não havia ganhos do atum e tinha de pagar renda de casa e sustentar a família, pois já tinha um filho bebé. E o meu filho nasceu com alguns problemas de saúde. Meu pai via que eu estava a passar dificuldades. Trabalhava de dia e de noite para conseguir o rendimento necessário e nem sempre conseguia.

Portanto, esta foi uma fase difícil da vida…
Sim, até que um dia meu pai comprou uma nova embarcação, o ‘Totobola’ para eu começar a andar sozinho no mar. Era um pequeno barco de seis metros. E, hoje, posso dizer que se tenho o que tenho – que não é muito – favores devo a meu pai. Meu pai é que me lançou como armador. E, na altura, para comprarmos um barco na Caloura, tínhamos que ter parque de estacionamento e uma casa de aprestos. E meu pai disponibilizou-me tudo isto. Nessa altura, não havia distâncias na pesca, número e tamanhos de anzóis. E eu comecei a pescar ao peixe de fundo com palangre à mão. Apanhava-se peixe em qualquer lado e vendia-se tudo e mais alguma coisa. Tudo o que ia para a lota se vendia. As coisas foram andando até que um dia meu pai viu que o ‘Totobola’ não era o barco ideal para eu progredir. E, então, comprou-me uma outra embarcação, a ‘Rosária Maria’, já com 8.20 metros, com duas proas e um motor com mais potência. Podia ir mais longe a as minhas pescarias aumentaram.
Entretanto, solicitei à Secretaria das Pescas uma licença para pescar com cerco ao chicharro. E deram-me a licença. Só que não tinha barco de cerco. E, mesmo sem ter barco, fui sempre renovando a licença. Isto porque quem andava no mar ao cerco ganhava dinheiro.
Em 2005 coloquei na Secretaria das Pescas um projecto para a reconstrução da embarcação ‘Rosária Maria’ que foi aprovado e fiz um barco novo de nove metros de comprimento e três metros de largura. Então, precisava de uma rede de cerco e não tinha dinheiro para isto. E meu pai, lá foi ele outra vez buscar o seu dinheirinho para comprar uma rede de cerco do Fernando Pacheco, da Lagoa, que tinha o barco ‘São José Patrocínio’. E assim fui andando.
Quando começamos a pescar ao chicharro, trazíamos para terra 800 quilos de peixe e vendia-se tudo. Mas, depois, os governos foram sempre reduzindo as pescarias para 600 quilos, 500 quilos, 400 quilos e já veio para o limite de 300 quilos por embarcação.
No tempo em que era Subsecretário das Pescas Marcelo Pamplona, havia muito dinheiro para a reconstrução e construção de novos barcos. Foi nesta altura que deram barcos de pesca a lavradores, pedreiros, carpinteiros….
Entre os barcos que estavam a pescar chicharro com cerco, o meu era o mais pequeno. Comecei por decidir fazer um barco em madeira, mas acabei por optar pelo projecto de um barco de alumínio. Num dia telefonei para o estaleiro, no continente e, uma semana depois, o responsável estava em São Miguel. Propôs-me um barco cabinado e eu quis um barco de boca aberta. Esta foi a maior cabeçada que dei na minha vida.
O projecto começou por ser apenas do casco do barco, fazer o convés e o motor. Fui acompanhando a construção da embarcação no estaleiro. Ia ao continente de dois em dois meses. E, na conversa com o construtor, falei na instalação de duas moto-bombas para colocar tinas para a pesca do atum e a sua resposta foi: porque não coloca duas bombas eléctricas no barco. Respondi que não o podia fazer porque não tinha geradora. “E porque não monta a geradora?”, perguntou o construtor. E conversa puxa conversa, fui candidatando-me a apoios governamentais para a instalação dos equipamentos no barco. Eles sugeriam-me o que devia fazer, faziam as facturas proforma, mandava-as para a Secretaria das Pescas e recebia os apoios. Tudo o que pedi foi aprovado pelo Governo dos Açores. E, hoje, o ‘Baía da Caloura’ é o melhor barco de boca aberta da Região.
O que aconteceu foi que eu vendi a embarcação que tinha, a ‘Rosária Maria’, com o objectivo de construir o ‘Baía da Caloura’. Só que, para ter apoios governamentais para a construção de um novo barco, tinha de abater uma embarcação. E, mais uma vez, surgiu o apoio de meu pai que comprou o barquinho “Maria da Luz” que me vendeu pelo preço simbólico de mil euros para o abater como contrapartida para construir o ‘Baía da Caloura’. Não se podia construir um barco novo sem abater um velho.
Estes são todos favores que eu devo a meu pai. Se tenho a vida que tenho hoje e se tenho o barco que tenho hoje e se eu consegui subir na pesca, a meu pai devo. Ele, agora com 71 anos, ainda está ali a ‘amanhar’ o aparelho de palangre para pescar com o seu barco ‘Manuel Elias’. E, de Verão, ainda vai à pesca do atum.

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“Ao longo da nossa vida nunca passamos fome, mas passamos algumas dificuldades. Havia alturas em que eu, enquanto rapaz, ir para casa de meu avó comer. Todos os Domingos meu avô batia-me à porta para ir almoçar com ele. Meus avós foram os meus segundos pais e, algumas vezes, foram os meus primeiros pais. Meu avô é que me comprou o fato para eu me casar. Ele é que me pagou uma boda com 60 pessoas no meu casamento. Meu avô é que me pagou o carro de praça para ir casar a Vila Franca. Eu casei num Sábado e, na Sexta-feira antes de me casar, tinha dado 15 contos a minha mãe. E meu pai, daquele dinheiro, pegou em cinco contos e deu-me a oferta de casamento. Fui para a igreja a pé, saí da igreja a pé para a boda em casa de uma tia minha em Vila Franca. Foi assim…” (sorriso).
Não será preciso mais para perceber quem é Emanuel Machado? E, assim, entender as razões porque é um homem de lutas e não baixa os braços em defesa da pesca. Ele que, acima de tudo, é um pescador de âncoras!...

                                      

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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