Face a Face!... Rui Pedro Ávila

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Rui Pedro Ávila - Nasci em 22 de Junho de 1952 na vila baleeira dos Açores, Lajes do Pico e resido na vila de São Roque do Pico, desde que casei, em 23 de Agosto de 1975. Actualmente, estou aposentado e desempenhei diversas funções públicas e profissionais.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Curso Geral dos Liceus como aluno externo do Liceu Nacional da Horta, 1967/68; fiz o meu primeiro artigo para o jornal O Dever com 17 anos, que foi publicado na secção “Amanhã somos nós” e era sobre cinema; ingressei na Tesouraria da Fazenda Pública das Lajes do Pico em 18 de Julho de 1970 (Proposto-interino) e depois de concurso nacional (37º lugar, entre 1300 concorrentes) para Aspirante de Finanças. Tomei posse na Repartição de Finanças do Barreiro em 1 de Março de 1972, de onde fui transferido para a da Madalena, Pico, em Outubro desse ano.
Em Julho de 1973 ingressei no Curso de Sargentos Milicianos no RI5 das Caldas da Rainha; RAL4 Leiria; DRM18 Ponta Delgada e BDC1 Horta ,onde terminei o serviço militar obrigatório, em Setembro de 1975, regressando à Repartição de Finanças da Madalena.
 Em Julho de 1976 fui colocado na Repartição de Finanças de São Roque do Pico e aí fiz o Curso de Secretário (Chefe de Repartição) de Finanças em 1980 (bacharelato). Em Maio de 1981 ingressei nos quadros do BCA nas Lajes e em Outubro desse ano fiquei responsável pelo Posto de Prospecção do BCA em São Roque do Pico.
Em Janeiro de 1990 assumi as funções de deputado na Assembleia da República em substituição de Carlos César até ao fim da legislatura e em Março de 1992 voltei a assumir funções no Parlamento Nacional, em substituição de Paulo Casaca até Outubro desse ano, quando fui eleito deputado na Assembleia Legislativa Regional dos Açores pelo círculo da ilha do Pico. Fui eleito em dois mandatos consecutivos até 2000.
Fui ainda chefe de gabinete do Secretário Regional, Dr. Ricardo Rodrigues, de Novembro de 2000 a Fevereiro de 2001.
Entretanto, desde 1976 até 1996 (durante 4 mandatos), fui vereador não executivo na Câmara Municipal de São Roque do Pico e e terminei a minha actividade pública e profissional em 2001.
No campo social desenvolvi inúmeras actividades ligadas a agremiações desportivas, sociais e culturais: Membro do Rotary Clube do Pico, durante vários anos, tendo sido Presidente em 1995; Presidente do Vitoria F.C. de São Roque do Pico em dois mandatos e membro da Direcção da centenária (1880) Sociedade Filarmónica União Artista, de São Roque do Pico, onde ainda hoje sou presidente da Assembleia Geral. Fui Presidente da Assembleia Geral da Cooperativa Rádio Cais, de que sou fundador.
Fui sócio fundador da Cooperativa Agrícola Nortilha, de que fui Presidente da Assembleia Geral em vários mandatos. Fui por vários mandatos, membro do Conselho dos Assuntos Económicos da Paróquia da Matriz de São Roque do Pico. Membro do Conselho Pastoral do Pico e do Conselho Pastoral Diocesano.
Sou sócio fundador da Associação dos Amigos da Engrade que construiu a Ermida de São João Paulo II em 2014. Fui Provedor da Santa Casa da Misericórdia de São Roque do Pico e não continuei por doença familiar a que tive de dar assistência por deslocações quase mensais ao continente.
Membro de diversas Irmandades do Espírito Santo. Pertenci na adolescência e nos primeiros anos de casado a três agrupamentos musicais de baile: The Gabs, Canal73 e Gente do Pico. Toquei na Filarmónica União Artista. Em 2008 fui eleito Presidente da Federação das Bandas Filarmónicas dos Açores.
Na política partidária sou militante do P.S., fui membro de vários Secretariados de Ilha e fui seu Secretariado Coordenador por vários anos, além de ter sido membro da Comissão Regional e delegado a diversos congressos nacionais e regionais.

Como se define a nível profissional?
Fui um profissional exigente comigo mesmo, em todas as funções que desempenhei e fui reconhecido por isso.
    
Quais as suas responsabilidades?
Actualmente estou retirado da política activa e vivo com minha esposa (também reformada) durante longos períodos, numa casa de campo (Adega) na Engrade, zona da Ponta da Ilha, no Pico, ou na Madragoa, em Lisboa.

Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
Sou de uma família numerosa (5 rapazes e 4 meninas) e fomos criados de forma tradicional: respeitadores dos mais velhos e de missa dominical (sem falhar). Procurei seguir os “valores” que meus pais me inculcaram e tentei transmiti-los às minhas cinco filhas, já todas casadas e vou a caminho do 13º neto.

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
É difícil de enumerar porque são muito vastos e alguns aspetos não gosto de os referir…

A relação entre pais e filhos é um foco de tensões. Em sua opinião, que abordagens devem ser feitas?
Esse é um dos aspectos que só no seio familiar (dentro do lar) pode ser resolvido e acima de tudo nunca se devem deixar extremar posições de antagonismo. O mal trata-se antes…

Como e quando se deve interferir nas amizades do adolescente?
Com muito respeito pelas suas opções e sempre com um acompanhamento de “amizade” e não de autoridade. Costumava dizer às minhas filhas, nessa altura, que o Pai era o maior amigo que elas teriam sempre e que nunca deixassem de me transmitir as suas preocupações e problemas.

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
É uma incógnita… Fico apreensivo ao me deparar com tanta ‘doutrina nova’ que vai surgindo e para a qual já não tenho possibilidade de a entender, seja no campo político, seja no campo social com os novos hábitos e costumes a surgirem numa avalanche que me ultrapassa. Digo-o com muita preocupação.

Que importância têm os amigos na sua vida?
Já tiveram mais importância. Hoje vemo-nos (alguns) de tempos a tempos. Sabemos que esses poucos que ainda existem, ‘eles estão lá’, é verdade, mas com esta opção livre de vida retirada e de muitos que já se foram, não posso dizer que tenham hoje a importância que já lhes dediquei e, também hoje tudo é tão diferente. E quem o poderia (?) hoje com uma família tão numerosa como a minha e a quem me dedico: De meu pai (sete irmãos) já só tenho um tio, que muito estimo; minha mãe era filha única; nove irmãos (um falecido) e seus familiares e as minhas filhas e suas famílias…
Guardo nas minhas memórias, com muita emoção, e entre tantas outras, a recente viagem que fiz a Santa Maria há dois anos, ao 70º aniversário do José Humberto Chaves, e mais recentemente (Julho 2020) a viagem que nós, os três (amigos): José Humberto Chaves, Francisco Oliveira e eu próprio fizemos à ilha do Corvo, vinte e tal anos depois…

Reformado mas nem tanto. Que actividades gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Levanto-me pelas 8 horas e deito-me pelas 22 horas e nunca, tal como meu pai sempre fez até aos seus 102 anos, fico um dia por me barbear. Uma volta de manhã para compras da casa e depois raramente saio, a não ser no Verão para algum salão a um jogo de dominó, cada vez mais raro…
Tenho sempre um livro à cabeceira. Navego várias horas por dia na net e mantenho a “obrigação” de escrever semanalmente e quinzenalmente para os jornais: O Dever, da vila das Lajes, e o JP – Jornal do Pico, da vila de São Roque.

Que sonhos alimentou em criança?
Ir ver jogar o Sporting a Lisboa (sobejamente concretizado) e ser Engenheiro Agrícola (não concretizado).

O que mais o incomoda nos outros?
Hipocrisia e o “passar à frente dos outros sem olhar a meios”.

Que características mais admira no sexo oposto?
Argúcia de pensamento e o “carinho natural” que nos dispensam (esposa e filhas).

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Gosto muito de ler e já li tantos que não posso dizer que tenha um especial para referir, mas sim três: “Pedras Negras”, de Dias de Melo (li com 13 anos); “Raiz Comovida…”, de Cristóvão de Aguiar; e “Gente Feliz com Lágrimas”, de João de Melo.

Como se relaciona com as redes sociais?
Cada vez mais vou fazendo uma rigorosa selecção.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
Não seria fácil. O manancial de informação e de contactos virtuais que temos ao nosso dispor (quantas amizades de infância fui reviver?) e a fácil comunicação proporcionada pelo telemóvel, hoje, seria impensável deixar de contar com essas ferramentas de “preenchimento do nosso dia-a-dia”.

Costuma ler jornais?
Assino alguns on-line. Em Lisboa sim, todos os dias compro três jornais de referência – edição impressa.

 Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Sim muito. Ao Corvo, por um lado, e às Montanhas Rochosas em 2017. E, depois, um cruzeiro onde adorei Marselha… Jamais esquecerei o Castelo de If e a lembrança daquele filme da minha adolescência: “Conde de Monte Cristo”

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Já fui “um bom garfo” mas hoje já não. Uma refeição ao almoço mais avantajada e depois, à noite, é pouco mais que um lanche. Prato preferido: Cozido à portuguesa, no continente; no Pico – Polvo guisado à moda das Lajes.

 Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Não sou de acreditar em fantasias.

Qual a máxima que o/a inspira?
Perseverante sempre.

Em que Época histórica gostaria de ter vivido?
Nesta.

 O que pensa da política e dos políticos?
Os que lá estão, por ideal, fazem o melhor que podem e sabem, tal como eu assim procedi.

Que evolução teve a política e os políticos nos Açores?
Não sou muito apreciativo da actual classe política. Julgo que já foi melhor…


Se desempenhasse um cargo governativo descreva uma das medidas que tomaria?
Essa questão não se põe.

Como tem evoluído e como deveria evoluir a banca nos Açores?  
Nunca a Banca ganhou tanto dinheiro à custa do depositante, por isso não consigo perceber o fim do dito “serviço social” que, no meu tempo, a Banca primava por prestar, nos mais diversos aspectos. Hoje, muito do trabalho e da abordagem aos mais diversos serviços bancários pode ser feita em casa, como é o meu caso, mas ainda há muita gente que não o sabe, nem pode fazer. A existência (abertura ou seu encerramento) de balcões bancários nas diversas localidades dos Açores, e falo só cá nos Açores, deveria ser regulada pelo Governo dos Açores e quem não aceitasse iria para outro lado exercer essa actividade.
Tal como a Banca aqui há anos, também agora, há poucos anos, a RIAC veio dar outras possibilidades aos açorianos no meio rural, com toda a panóplia de serviços que lhes veio disponibilizar. Por isso, espero que agora não enveredem pela via liberalizante e pretendam fechar essas Lojas da RIAC, que tantas esperanças trouxeram ao meio rural…

Tem seguido com atenção a evolução do transporte aéreo nos Açores e a relevância que tem o grupo SATA neste contexto. Como viu a liberalização do espaço aéreo dos Açores? Como enquadra o aeroporto do Pico neste contexto?
A liberalização do espaço aéreo nos Açores foi um bem imediato mas que não sabemos ainda como irá evoluir. Lembro que, quando um Governo da República na privatização da TAP deixou cair imediatamente (de um dia para o outro) as ligações de serviço público Lisboa-Pico e Lisboa-Horta, foi a SATA (Air Azores) e o Governo dos Açores que procuraram e conseguiram suprir essa indesculpável atitude de Lisboa. Neste contexto, já se viu que a liberalização do espaço aéreo dos Açores tem dois paradigmas: São Miguel e as restantes ilhas. Queiramos ou não.
No caso do aeroporto do Pico, já deveriam estar concluídos os estudos mandados fazer pelo Governo de Vasco Cordeiro. Não passa pela minha cabeça, que não venha a ser aumentada a pista do aeroporto do Pico, pois terreno existe em “abundância” e enquadramento comunitário também e as ajudas já implementadas do “ILS” e do grooving na pista, vieram dar outra segurança na operação de aterragem, apenas faltando o aumento da pista para que possa ser considerado o aeroporto do Pico a outro nível de exigência aeronáutica.

De que forma uma interligação entre o Turismo e a Agropecuária pode tornar mais robusta a economia açoriana?
Para já e atendendo à diversidade que se nos depara de ilha para ilha, não vejo o Turismo a ser aproveitado no âmbito das explorações agropecuárias, mas não tenho opinião definitiva sobre o tema.
Mas, se me permitem, gostaria de abordar outro aspecto da vertente do desenvolvimento turístico dos Açores: A ampliação da doca do porto de São Roque do Pico, cujos estudos ficaram entregues no LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil, e o recomeço (quando possível, por razões sanitárias) das viagens dos ferrys inter-ilhas.
Tenho sentido, na actual governação açoriana e nos órgãos de comunicação social micaelenses, como que um “silêncio ensurdecedor” sobre o retomar das operações dos dois navios ferrys inter-ilhas, como aconteceu desde 1997.
Aqui deixo um pequeno extrato da minha intervenção no Plenário da Assembleia Legislativa Regional dos Açores de 18 de Maio de 1999: “Em 1997, já na vigência deste Governo, (PS) novos barcos rápidos operaram nas ilhas do grupo central e oriental e no ano transacto um novo operador surgiu na região, operando com o ferry “Lady of Mann” que veio preencher uma lacuna que se fazia sentir, mas que tardava em ser colmatada. Referimo-nos ao transporte de passageiros e viaturas abrangendo a maioria das ilhas de Santa Maria às Flores, com viagens regulares durante o Verão”, fim de citação.
Volto a repisar: quando possível, por razões sanitárias, serão retomadas, na época alta, as viagens com os dois ferrys, passageiros e viaturas, desde Santa Maria às Flores?

O número de pobres continua a crescer nos Açores.  Em sua opinião, a que se deve esta circunstância?
Muito se tem estudado por esse mundo fora e as respostas não aparecem, porque não se querem promover políticas mais consentâneas com a ajuda aos mais desprotegidos. Lembro-me da iniciativa de António Guterres, Primeiro-ministro, com o Rendimento Mínimo Garantido, que veio dar ânimo a muitas famílias monoparentais (por exemplo), e aos seus filhos, que passaram a ter um mínimo de subsistência, mas logo surgiram os “invejosos não sei de quê” e o Governo seguinte (PSD/CDS) logo lhe deu uma machadada e passou a Rendimento Social de Inserção. Agora, cá nos Açores, até queriam reduzir/acabar com essa medida social. Que dizer?

Que importância tem e pode vir a ter a ilha do Pico no desenvolvimento dos Açores?  
O Pico é uma ilha diferente no contexto do desenvolvimento dos Açores porque tem características humanas e de savoir faire que não se comparam com nenhuma outra. E dou só um exemplo: A ‘universidade da baleação’ foi no Pico, e das Lajes saíram ‘professores’ para todas as outras ilhas e até ao Porto Moniz, na Madeira, a ensinar a arte da baleação em bote baleeiro, no arpoamento do cachalote. O turismo em espaço rural no Pico ocupa já uma fatia importante da ocupação de camas na nossa ilha, mas não acho que seja um fim.
Para que o Pico ganhe outra pujança na economia açoriana, além daquela que já possui, seria necessário que as indústrias não fechassem, como aconteceu com a Tunapesca, em São Roque do Pico, e parece vir a acontecer (?) com a Cofaco, na Madalena. Tenho alguma preocupação pelo que vai acontecer à reconversão da vinha daqui a 10 anos e confio que esse sector poderá vir a alavancar uma nova mão-de-obra mais especializada, o que não acontece agora. Mas, o grande pólo de desenvolvimento do Pico está na agropecuária e, por último, falta-nos gente… Aí procurámos dar o nosso contributo (eu e minha esposa); das nossas 5 filhas, duas vivem na ilha, mas as outras três estão no continente…
Vemos terras micaelenses com tanta gente e com poucos recursos. Aqui no Pico temos ainda muita terra abandonada e várias casas devolutas… É assim mesmo.
Não sei qual a volta a dar.

Tem algo mais que considere interessante e importante abordar no âmbito desta entrevista?
Não e agradeço a vossa ‘lembrança’ para com alguém, como eu, que ainda pensa muito, mesmo muito, em como posso ser um cidadão ainda útil à minha Terra.

                                               

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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