Face a Face!... com o professor Fernando Faria, ex-dirigente do PSD/A

“O idealismo autonómico submergiu por interesses pessoais e mesquinhos caprichos de grandezas fúteis”

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Chamo-me Fernando Manuel Faria Ribeiro, nasci a 16 de Abril de 1944 na freguesia de Castelo Branco, concelho da Horta. Casado há 51 anos com Maria Regina Vieira Fortuna de Faria Ribeiro, pai de três filhas e avô de um neto e quatro netas.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Depois de frequentar o Liceu da Horta e o de Ponta Delgada, tirei o Curso de Magistério Primário (1964) e, posteriormente, licenciei-me na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em Ciências Históricas (1973).
Fui professor efectivo no Liceu da Horta, hoje Escola Secundária Manuel de Arriaga.
Dediquei também boa parte da minha vida à actividade política, como militante e dirigente partidário (PSD), deputado regional e autarca.
Fui director do diário Correio da Horta durante 14 anos, colaborador e fundador do semanário Tribuna das Ilhas. Fui também membro do Núcleo Cultural da Horta e presidente da direcção de 1988- 1991; Presidente da Direcção do Fayal Sport Club (1978-1980) e durante alguns anos Presidente da sua Mesa da Assembleia Geral.
Pratiquei muito desporto neste clube (o mais velho dos Açores), com especial predilecção para o futebol, o atletismo e o basquetebol. Na disputa dos então chamados Torneios Açorianos, joguei futebol em Angra e em Ponta Delgada, ao passo que em 1965 fiz parte da selecção da Associação de Futebol da Horta que se deslocou aos Estados Unidos, onde teve entusiásticas recepções e onde realizou boas exibições reflectidas nas sete vitórias, dois empates e uma derrota.
Em plena guerra colonial ingressei no Exército em Janeiro de 1968. Na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, fiz a recruta e a especialidade de atirador, sendo depois colocado na Bataria Independente de Defesa de Costa nº1, na Horta. Aí passei à disponibilidade em Abril de 1971. Como não fui mobilizado para o Ultramar, estava previsto que voltasse a Mafra para um curso de capitães milicianos em Maio de 1974. Felizmente, o Movimento dos Capitães resolveu esse meu angustiante problema em Abril de 1974!
Como investigador histórico publiquei os livros: “Em Dias Passados – Figuras, Instituições e Acontecimentos da História Faialense”; “Nos Cem Anos da Filarmónica Euterpe de Castelo Branco”; “O Faial e a Aviação – dos primórdios até à chegada da TAP em 1985” e, recentemente, “Governadores Civis do Distrito da Horta”.

Como se define a nível profissional?
No desempenho da profissão de professor procurava ser competente, honesto e compreensivo, visando entusiasmar os alunos para melhor conhecerem o nosso passado e assim entenderem a sociedade actual com as suas dificuldades e virtualidades, explorando-as na construção de um futuro digno e promissor.

Quais as suas responsabilidades?
No exercício do magistério uma das maiores responsabilidades era o testemunho de vida, a seriedade e a amizade que, para além de ajudarem à formação de caracteres, eram importante estímulo para a captação do interesse e do gosto dos alunos.

Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
De um modo geral, a família de hoje perdeu o seu estilo patriarcal, o sentido de serviço e de apoio, deixando de ser, em muitos casos, a comunidade de amor e de inter-ajuda que tão bem a caracterizava.

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
O desaparecimento da família tradicional tornou as pessoas menos generosas e menos participativas, talvez mais egoístas. Todavia, permitiu uma maior libertação da mulher, abrindo-lhe o mercado de trabalho e tornando-a menos dependente do antigo “chefe  de família”. De qualquer modo, a família detinha valores essenciais que muito contribuíam para a valorização da sociedade. E esses valores estão fazendo muita falta.

A relação entre pais e filhos é um foco de tensões...
Não é fácil apresentar um receituário para abordar esse problema. Acima de tudo – e guiando-me pelo que observo na forma como os meus netos são educados pelos seus pais – é imprescindível uma constante disponibilidade para dialogar com eles, para os disciplinar e, sobretudo, para os amar.

E quando se deve interferir?
Não há medidas estandardizadas. Penso que tendo a plena confiança dos seus filhos, estes mais facilmente partilham com os pais os seus problemas, as suas alegrias e as suas relações. A partir daqui os filhos adolescentes, sabendo que têm os pais como os seus maiores amigos, respeitadores da sua crescente autonomia, e que apenas querem, com os seus conselhos, que tenham um crescimento saudável e harmonioso, de modo a poderem enfrentar os seus problemas, ultrapassando-os com êxito.

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
A nossa sociedade evolui de forma vertiginosa, estando marcada com avanços tecnológicos que ainda há pouco tempo eram inimagináveis. Estes, se por um lado trouxeram apreciáveis benefícios para boa parte do mundo, acabaram por acentuar ainda mais os problemas e as desgraças dos países pobres. Assiste-se, paradoxalmente, aos primeiros ocupados com o seu bem-estar, ao passo que os segundos a tudo se sujeitam para fugirem dos seus países onde alastra a fome, a miséria e a guerra em muitos deles. E são estes que, esperançados numa vida melhor, procuram a Europa ou os Estados Unidos, sendo rejeitados no Velho Continente e morrendo muitos deles nos naufrágios no Mediterrâneo ou nos campos minados do Muro americano.

Que importância têm os amigos na sua vida?
Os amigos são essenciais. Pena é que, pela lei de vida, os vá perdendo a pouco e pouco. Nestes casos – que têm sido vários ultimamente – fica a grata memória e a eterna saudade.

Reformado mas nem tanto. Que actividades gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Apesar de aposentado, tenho os meus dias bem preenchidos. Exerço a “profissão” de avô – levo os netos à escola e de lá os trago – faço investigação relativa à história local, escrevo, convivo com amigos e dedico-me igualmente à família.

Que sonhos alimentou em criança?
Em criança, as fardas sempre me seduziram! Em especial as das filarmónicas ou a da Marinha de Guerra Portuguesa. Todavia, a sedução não me fez músico nem navegador.

O que mais o incomoda nos outros?
A mentira, a pesporrência e a vaidade. Mas, na minha idade, até isso já pouco me incomoda.

Que características mais admira no sexo oposto?
A firmeza de carácter, a generosidade e, naturalmente, a beleza.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Gosto muito de ler. São muitos os livros de eleição, mas já que tenho de eleger um, opto por “Crime e Castigo” de Fiódor Dostoiéwsky

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
Procuro seleccioná-lo, destrinçando, sempre que possível, o trigo do joio.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
Vivia, mas não seria fácil. Além do seu carácter utilitário, são uma extraordinária fonte de informação, quase instantânea. O ponto aqui é saber utilizar um e outra.

Costuma ler jornais?
Leio, mas já li mais. Neste momento - e cá está a internet! - leio mais o Observador online. Também, e sempre que possível, leio jornais regionais e os dois que se publicam na Horta, ou seja, o Incentivo e o Tribuna das Ilhas, de que sou colaborador e um dos fundadores.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Sim, gosto de viajar, o que agora não é possível, nem aconselhável. As viagens pelas ilhas dos Açores e pelos Estados Unidos, com destaque para a Califórnia e para a bonita cidade de Seattle, sede da Boeing.

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Não sou “esquisito”, como o que há. Prato preferido e, pensando em Ponta Delgada, era o “Bife do Alcides”.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Muitas e boas notícias eram o meu desejo. Como quer apenas uma, seria a de que, finalmente, tinha havido um verdadeiro e eficaz acordo de desarmamento nuclear.

Qual a máxima que o/a inspira?
A boca fala da abundância do coração.

Em que Época histórica gostaria de ter vivido?
 Nesta que vivemos.

O que pensa da política e dos políticos?
Sendo uma actividade nobre e fundamental à vida em sociedade, sinto que a política está um tanto desacreditada, mercê do alheamento de uma boa parte da população e, não raras vezes, da incapacidade de alguns agentes políticos que transmitem exemplos pouco abonatórios, como seja terem transformado o que era serviço público em instrumento de vaidade, de ganância e até de corrupção. E o mal é que o povo tudo generaliza.

É do tempo em que se suava a camisola no exercício da política em defesa dos ideais autonómicos e da unidade regional. Que evolução teve a política e os políticos nos Açores?
Esse foi o tempo do entusiasmo e da ilusão. Idealizava uma sociedade açoriana unida e solidária, com as populações a serem as beneficiadas da acção positiva dos nossos órgãos de governo próprio que a tanto custo conseguimos pôr a funcionar. Como é próprio da vida, esse idealismo autonómico e de fomento da unidade regional acabou por ser, em boa parte, submergido por interesse pessoais (é ver como se escolhem os candidatos a lugares de governação) e por mesquinhos caprichos de grandezas fúteis e até inexistentes.

Se fosse um autor político, quais as prioridades para uma revisão do Estatuto da Autonomia e da Constituição?
Preocupar-me-ia para que as competências autonómicas já existentes fossem efectivamente utilizadas e teria como prioridade na revisão da Constituição (e do Estatuto) a autorização para existirem partidos regionais e uma clara delimitação do que é o interesse regional.

Se desempenhasse um cargo governativo descreva uma das medidas que tomaria?
Procuraria melhorar e garantir as acessibilidades aéreas e marítimas, vitais para a nossa vida de comunidade insular.

Acredita que o actual Governo dos Açores resultante da aliança entre PSD/CDSPP/PPM com acordos parlamentares com o Iniciativa Liberal e o Chega?  
Não se trata de uma questão de fé! Os subscritores desses acordos é que têm de ser responsáveis e assumirem até ao termo da legislatura os compromissos que firmaram.
Tem seguido com atenção a evolução do transporte aéreo nos Açores e a relevância que tem o grupo SATA neste contexto. Como viu a liberalização do espaço aéreo dos Açores? Como enquadra o aeroporto do Faial neste contexto?
Pareceu ser uma medida acertada, mas, com a actual pandemia e suas dramáticas consequências, o futuro é mais que incerto. O aeroporto da Horta necessita urgentemente de ser ampliado por uma questão de segurança e desenvolvimento do Faial e do Triângulo.

De que forma uma interligação entre o Turismo e a Agropecuária pode tornar mais robusta a economia açoriana?
A interligação do Turismo com a Agropecuária é, a meu ver, vital para a economia açoriana, até pela beleza que os nossos verdes campos e o pastoreio dos animais oferecem aos que nos visitam. Conjugada com o Ambiente e os Transportes ajudaria a economia açoriana a recuperar dos destroços provocados pela pandemia Covid-19 e, posteriormente, seria essencial para o seu crescimento e robustez.

Que importância tem e pode vir a ter a ilha do Faial no desenvolvimento dos Açores? O que é necessário para que o Pico ganhe pujança na economia açoriana?
O Faial sempre teve papel preponderante no domínio das comunicações, nomeadamente marítimas, aéreas e telegráficas. Historicamente, foi um dos pólos de desenvolvimento dos Açores e tem de voltar a sê-lo. Assim o queiram os nossos governantes regionais e autárquicos.
O Pico tem excelentes condições para se desenvolver ainda mais, seja no domínio do turismo, da vitivinicultura ou da agro-pecuária. Tal como o Faial – que com ele forma a Comunidade do Canal – falta-lhe mão-de-obra para os trabalhos agrícolas e de construção civil, sobrando-lhe os funcionários públicos e os aposentados!

Tem algo mais que considere interessante e importante abordar no âmbito desta entrevista?
Considero importante que não fomentemos certos bairrismos que, ao fim e ao resto, a ninguém aproveitam. Somos uma pequena Região que deve valorizar-se harmonicamente. De contrário, com os tempos difíceis que aí vêm não passaremos da cepa torta.
Aproveito para agradecer esta oportunidade do Correio dos Açores, nas pessoas dos seus directores, Américo Natalino Viveiros, e subdirector João Paz, que teve a amabilidade de me contactar.


                                                           

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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