Luís Melo, sócio gerente da Cybermap

“A empresa pública Global EDA não deveria existir no mercado”

 Quando e como surgiu a Cybermap?
A Cyvermap nasceu no ano 2000 e somos, neste momento, 14 pessoas na empresa. Inicialmente, o grande objectivo passava por nos dedicarmos à área dos sistemas de informação geográfica mas, com o decorrer do tempo, fomos aumentando as nossas competências e alargando ao nível do desenvolvimentos de sistemas de informação. Essencialmente, a Cybermap transformou-se numa consultora, ou seja, somos capazes de desenvolver projectos em praticamente todas as áreas de negócio.

Também fazem georeferenciação?
Sim. Numa fase inicial, até praticamente 2012, isso era o nosso core (núcleo) de negócio. Tínhamos uma parceria com um fabricante internacional que era líder de mercado e, a partir de 2012, sentimos necessidade de diversificar mais e neste momento essa área de gestão de sistema de informação geográfica já é mais residual. Enquanto em 2012 representava cerca de 60 a 70% do volume de negócios da empresa, neste momento representa entre 5 a 10% do volume de negócios. Houve uma inversão na utilização dessa tecnologia.

Qual a razão para isso?
Essencialmente porque quando começamos não havia absolutamente nada na Região. As competências que existiam, tanto na Administração Pública Local e Regional, eram muito pequenas e houve muita necessidade de fazer projectos nessa área. A partir de 2012 as próprias administrações locais e regionais, que são os principais clientes, mas também as grandes utilitárias, como as empresas de telecomunicações, de energia, de águas, começaram a construir as suas equipas e começou a haver menos necessidade de recursos nessa área e começaram a internalizar os projectos. Além de fazermos gestão de serviços no desenvolvimento de sistemas de informação geográfica, fazíamos também o levantamento de informação no campo. Não se sabia onde estavam as estradas, não estavam georreferenciadas, onde estavam as comunicações, as redes de energia, de águas e isso foi um grande enfoque até praticamente 2012. Não havendo necessidade por via dessa internalização, a empresa aos poucos foi diversificando a sua área de negócio.

Presentemente o que faz exactamente a Cybermap?
Somos essencialmente uma empresa consultora e desenvolvemos sistemas de informação a pedido dos clientes. Não temos propriamente um software que replicamos para todas as empresas. Trabalhamos desde a área de gestão e uma das grandes apostas dos últimos anos tem sido a parte do comércio electrónico, nomeadamente para empresas da área do turismo. Também trabalhamos com a Administração Pública Local e Regional para o desenvolvimento de soluções verticais no mercado. Um dos projectos mais emblemáticos que fizemos em 2020 foi o desenvolvimento da plataforma de gestão do Covid na Região.

Como tem corrido esse projecto?
Foi muito desafiante porque, numa fase inicial, o convite que nos foi feito pedia que fizéssemos o projecto “para a próxima semana”. O objectivo era ter um circuito que permitisse, a partir da Linha Saúde Açores, recolher toda a informação dos contactos que eram registados e, a partir daí, disseminar essa informação pelas partes interessadas; o gabinete técnico da Secretaria, as unidades de Saúde, hospitais, bombeiros, polícia, e, portanto, toda essa informação era disseminada pelas várias entidades. A partir daí foi-se sempre desenvolvendo e integrando com os laboratórios. Sempre que há uma análise e os laboratórios registam, essa informação é comunicada automaticamente para os utentes.  

Sente alguma pressão acrescida por ser o responsável por esta plataforma?
É uma responsabilidade muito grande e é um desafio atendendo às circunstâncias. Fui contactado no dia 15 de Março de 2020 pelo responsável na altura pela Linha Saúde Açores, que nos questionou se tínhamos capacidade de fazer rapidamente um registo das ocorrências. Eles tinham muita urgência e tinham alguma dificuldade em gerir o processo, porque este era todo feito em papel. Eu, por coincidência, estava na Terceira e devido ao confinamento, estive praticamente 24 horas por dia/7 dias por semana, na Terceira. Praticamente até Junho tivemos 5 elementos apenas dedicados a este projecto e partir daí fomos desenvolvendo outras valências. Este é um projecto que continua sempre em curso. O grande desafio será a parte da vacinação em massa que em princípio também será integrada na plataforma.

Tiveram em mãos este importante projecto, mas para além disso como foram vividos estes tempos?
A nossa área de negócio neste momento é praticamente 50% de empresas e a outra metade é com a Administração Pública Regional e Local. Na vertente das empresas, a grande aposta tem sido o comércio electrónico, que com o Covid também foi interessante, porque houve muitas empresas que tiveram necessidade de desenvolver os seus sistemas nesta área, mas a grande parte dos projectos que vinham de trás eram na área do turismo que teve uma grande quebra. Notamos que as necessidades de projectos de comércio electrónico, ao nível do turismo, sentiram uma quebra. As pessoas querem continuar a desenvolver os projectos mas estão mais em stand by. Gostava de referir o Vale PME Digital, que considero ter sido uma das melhores medidas implementadas recentemente a nível de apoio à transição digital das empresas. É uma medida que tem um impacto muito positivo não só para as empresas prestadoras de serviços, como nós, mas também para as empresas que recebem este tipo de apoio. É um Vale que apoia o desenvolvimento de projectos na área de sistemas de informação, virados muito para a parte do comércio electrónico, até 10 mil euros a fundo perdido.

Tem tido muitas empresas a procurá-lo?
Muita procura, mas esta medida tem alguns problemas. O Vale é um pouco complexo para as empresas que se queiram candidatar. Existe alguma complexidade e a Direcção Regional responsável por esta medida teve inicialmente alguma dificuldade em operacionalizar todo o processo. Neste momento já está mais rápido, mas ainda continua a ser um pouco burocrático e julgo que havia forma de ultrapassar essa burocracia no processo de análise. Para as empresas prestadoras de serviços, neste momento, existe uma restrição que é bastante limitativa no desenvolvimento de novos projectos. O número de projectos activos é limitado a 15. Julgo que esta restrição devia ser abolida. Uma empresa que nos procura é porque quer desenvolver o projecto connosco. Existem 10, 15 ou 20 empresas que podem prestar esses serviços e a partir do momento que nos procuram é porque têm confiança na nossa capacidade e não percebo porque existe esta limitação. O Vale Digital termina agora no dia 31 de Março e, atendendo aquilo que foi anunciado pelo Governo dos Açores, de uma grande aposta na transição digital, julgo que essa aposta deveria continuar. Continuamos a receber muitos contactos de empresas que querem desenvolver os seus projectos, mas com a limitação dos 15 projectos é muito difícil dar resposta. Já desenvolvemos mais de 20 projectos nesta área.

E que tipo de empresas são essas?
De todas as áreas e isso é muito interessante. Claro que houve algum peso na área do turismo e, mais recentemente, há uma grande preocupação ao nível da promoção dos seus serviços, especialmente ao nível do marketing digital nas redes sociais ou no Google Search, mas também algumas empresas que ainda não tinham canal de oferta. Ou seja, que não tinham sistemas de informação que se integrassem com os sistemas que utilizam na gestão e precisavam, por exemplo, de integrar o seu site na internet com o sistema de gestão para receberem as reservas automaticamente. Ultimamente, a grande necessidade que se nota é a promoção ao nível do digital. Esta é uma área que até há pouco tempo não mereceu uma grande aposta. A própria Associação de Turismo dos Açores (ATA) continua a apostar muito na tour operação e pouco no marketing digital. Há sempre um discurso que agora o digital é que é mas, na prática, esse discurso não se concretiza. Somos agentes e parceiros da Google nos Açores, fizemos um projecto muito pequeno para a ATA há uns 3 ou 4 anos atrás e, até agora, não existiram mais projectos com uma dimensão que pudéssemos dizer que a nível digital os Açores foram postos na ‘crista da onda’. O que existe sempre é uma aposta na tour operação, no apoio ao avião para trazer o turista quando existem casos, como a Islândia, que se compara muito com os Açores, em que a aposta foi toda no digital. Esse modelo devia ser seguido aqui nos Açores. Continuamos à espera que essa aposta seja realmente feita.

No ano passado sentiu quebras de facturação?
Tivemos uma ligeira quebra na facturação. Não foi muito expressiva porque tínhamos muitos projectos que vinham de trás e isso deu-nos alguma garantia de continuidade. Não apareceram muitos projectos novos mas os que tínhamos em carteira foram suficientes para termos um ano razoável. O ano de 2021 é de transição porque grande parte dos projectos na área dos sistemas de informação são financiados por fundos comunitários e atendendo que há mudança de Quadro Comunitário, uma mudança de Governo Regional que também obriga sempre a que os novos responsáveis conheçam os cantos à casa e identifiquem os projectos prioritários, vai igualmente haver Eleições Autárquicas e por isso, jugo que teremos um ano de 2021 mais desafiante.

Que projectos estão a desenvolver actualmente?
Temos alguns projectos ao nível da Administração Pública Regional que estão a terminar, mas não me parece correcto falar deles até porque devem ser eles a publicitá-los. É algo que será feito pela primeira vez nos Açores. Como já referi, a maior parte dos projectos que temos entre mãos são na área da promoção digital. Muitos projectos de integração, comércio electrónico, promoção digital e muitos deles virados para a área do Turismo.

Quais são as maiores dificuldades com que se deparam?
Julgo que há um aspecto importante ao nível do mercado das empresas que actuam nesta área e que é um assunto que também o Governo dos Açores já abordou. Foi referido que havia uma necessidade de reduzir as empresas públicas e existe uma aqui na Região, a Global EDA, que não deveria existir no mercado. É uma empresa que, em 2019, facturou 7 milhões de euros, sendo que desses, cerca de 50% são de serviços prestados à EDA. Esses 3,5 milhões facturados à EDA dão perfeitamente para pagar os custos com ordenados, sobrando cerca de 1,5 milhões. Eu gostava de ter um sócio destes. Para além disso, emprestaram 1,5 milhões à própria Global EDA e eu também gostava de ter um banco que me pudesse emprestar esse valor, sem mais nem menos. Isto transforma muito o mercado ao nível dos sistemas de informação. Esta empresa já teve uma altura em que foi vendida, entre aspas, e enquanto esteve nessa esfera acumulou prejuízos enormes. Só voltou a dar lucros quando foi integrada na EDA. Há aqui alguma coisa que funciona bem quando está dentro da EDA, mas quando está em concorrência directa com outras empresas não funciona. Isto demonstra que existe uma concorrência desleal. Além disso, os próprios administradores da empresa, sendo na sua grande maioria administradores públicos, têm contactos privilegiados com a própria Administração Pública Regional e com as autarquias por onde passaram. No passado, tiveram praticamente em contratos públicos 1,5 milhões de euros, que é bastante mais do que facturo durante um ano. Esta forma de estar no mercado distorce completamente. Se fosse uma empresa que estivesse aqui nos Açores e prestasse serviços para fora..., mas não é isso que acontece infelizmente. Apenas 5% dos seus negócios são feitos para o exterior. Têm uma área, a das telecomunicações, em que percebo que poderá haver uma necessidade com esse cariz, mas deveria ser uma empresa privada e nunca uma empresa que estivesse no grupo da EDA.

Qual é a vossa facturação anual?
A Cybermap factura cerca de 500 mil euros por ano. É uma empresa pequena e somos 14 pessoas.

Fazendo uma análise a este sector em que se integram, como vê esta área aqui na Região?
Esta área tem tido um desenvolvimento muito positivo. Não só o Parque Tecnológico onde estou integrado, o Nonagon, atraiu muitas empresas ,como também o próprio projecto do Terceira Tech Island, foi muito positivo para a Terceira. Inclusivamente abrimos lá uma sucursal da Cypermap. É pequena e com a Covid não houve possibilidade de crescer. O objectivo do pólo da Terceira passa por desenvolver soluções que pudessem ser replicadas por várias empresas.

Quais são os vossos objectivos para este ano de 2021?
Espero que surjam mais oportunidades, porque um dos projectos que desenvolvemos na Terceira foi um sistema de gestão virado para o ramo automóvel, especialmente para a parte do comércio de usados e que seria muito útil para outras empresas. O ramo automóvel foi uma das áreas onde houve maior crise e é normal que as empresas agora estejam mais retraídas. Outra área é a do mercado imobiliário. O nosso objectivo era replicar estes projectos para outras empresas mas, devido às circunstâncias, não conseguimos atingir os objectivos.

Olhando mais para a frente, como gostaria que a sua empresa estivesse daqui a 10 anos?
Em 2019 tínhamos um projecto internacional muito interessante. Fizemos uma parceira com uma empresa consultora na Arábia Saudita e desenvolvemos alguns projectos-piloto com eles. Devido à Covid esses projectos pararam e essa parceria encontra-se suspensa neste momento. O meu sonho era que a Cybermap pudesse retomar esse projecto de internacionalização. Aqui, nos Açores, é muito difícil crescermos mais porque sendo um mercado pequeno e muito sujeito aos ciclos de investimento dos fundos comunitários, embora durante um ciclo de um Quadro possamos crescer, depois, quando se dão as transições de Quadro, temos dificuldade. A minha opção, desde 2012, foi não crescer mais do que a dimensão que temos neste momento. Nunca se sabe o dia de amanhã, mas enquanto actuarmos essencialmente no mercado regional, não se justifica termos uma equipa maior. Houve também uma área onde, em 2019, fizemos uma aposta muito grande, mas que em 2020 não foi oportuno desenvolver que é a Inteligência Artificial (IA). Isto será certamente uma aposta nossa em 2022.
                                               

Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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