Face a Face!... Manuel Rita, ex-Presidente da Câmara do Corvo

“Os políticos açorianos de hoje são fracos”

Manuel Rita foi Presidente da Câmara Municipal do Corvo num tempo bem diferente de hoje. Ele é um homem de ‘antes quebrar que torcer’. Mas, ao mesmo tempo, sensato, prevenido, cauteloso, inteligente e esperto. Em Manuel Rita, com 73 anos, há uns Açores que ficaram no passado e que têm grande dificuldade em compreender o presente. Isto acontece com mais ou menos intensidade na mudança de gerações, mas está mais enreigado no seu fio de pensamento e nas suas palavras. Enquanto repórter fui - durante um longo período da minha vida - todos os anos ao pequeno Corvo e, num dia apenas, estive lá duas vezes. Vivi a ‘grande’ inauguração, com pompa e circunstância, da única caixa multibanco da ilha, que se tornou numa das mais movimentadas dos Açores. As crónicas para o jornal, sempre que o Governo lá ia, eram ditadas por telefone para a redacção e havia filas de jornalistas à espera de vez. As portas de Manuel Rita sempre estiveram abertas para o repórter, até que um dia ele fez chegar-me a mensagem que, se aterrasse ou desembarcasse no Corvo, voltava no mesmo avião ou no mesmo barco para trás. E a história foi simples: Um grupo de jovens queria fazer uma discoteca no Corvo e fui questionar Manuel Rita sobre se autorizava a construção da discoteca. A sua resposta não deixou dúvidas: “no dia em que houvesse discoteca, eu queimava-a”. Ora, a manchete do jornal do dia seguinte, em Ponta Delgada, - ainda não havia a circulação do PDF nem a publicação da capa do jornal no Facebook - foi: “Presidente do Corvo queima a discoteca se os jovens a construírem”. No dia em que saiu esta edição do jornal, estava a regressar a São Miguel. E logo que tomou conhecimento do título, Manuel Rita afirmou, para quem quis ouvir, que o João Paz nunca mais ponha os pés no Corvo. Ora, eu era muito novo. Quando o avião aterrou em Ponta Delgada foi a primeira coisa que me disseram. Claro que voltei ao Corvo muitas outras vezes e quando, agora, conversei com ele por telefone, para registar esta entrevista, o seu sorriso continua o mesmo, inconfundível. Estava numa oficina de carpintaria. Ao fundo ouvia-se a serra e a plana a cortar e aparar madeira. Sempre disponível, evidenciou nas palavras o seu saber e o seu carácter. E, por tudo isto, este ‘Face a Face’ ganha pela sua diferença. Tem a força do peso das palavras de Manuel Rita.

Correio dos Açores - Descreva os dados que o identificam perante os leitores. Quem é Manuel Rita?
Manuel Rita é um homem corvino que gosta muito da sua terra e que fez o que pôde pela sua terra. Eu sei o que me custou a viver no Corvo de antigamente, já tenho 73 anos e  sempre houve dificuldades na vivência do Corvo. Mas, a vida na ilha, no meu tempo, nada tem a ver com a vivência de hoje.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social.
Não tenho nenhum percurso académico. A minha mãe quis que eu fosse até à quarta classe. Ainda íamos descalços para a escola e a minha mala era daquelas de sarapilheira com um cordão em cima. Íamos para a escola mas só havia a quarta classe, de maneira que o meu percurso académico é a quarta classe. Mas posso dizer que tenho a universidade da vida. Tudo aquilo que eu aprendi tem-me servido muito na minha vida que já está no fim. Sempre gostei muito de saber fazer as coisas e de as fazer bem feitas ,para não fazer duas vezes.
No campo profissional, o meu pai era carpinteiro e era construtor naval e eu aprendi isso antes de ir para a tropa. Fui para a tropa e voltei, casei e fui logo para os Estados Unidos. A minha vida profissional nos Estados Unidos era a construção civil e gostei muito.

Depois voltou ao Corvo?
Sim, ao fim de 17 anos, já com duas filhas a crescer nos Estados Unidos, regressei ao Corvo. Enquanto estive no Corvo fiz uma casa que a minha mãe dizia que era fora da vila e hoje está no meio do casario. Comecei a trabalhar e fui autarca 12 anos na ilha do Corvo. Gostei muito de fazer as coisas que fiz e acho que foi bom para a ilha.

Como se define a nível profissional?
Não queria dizer, mas como profissional sou bom. Gostei muito de fazer o que fiz na vida. Aprendi carpinteiro, tenho as minhas ferramentas e tudo ainda, de maneira que sempre gostei da minha vida profissional que era a construção civil.

E enquanto Presidente da Câmara?
Ser Presidente da Câmara é outra coisa. Eu não fui para a Câmara por ser político, como muita gente é. Eu fui para a Câmara para fazer alguma coisa pela minha terra. Eu senti a diferença entre os EUA e o Corvo quando voltei à ilha. Quando saí do Corvo para emigrar era a ilha que conhecia. Mas, na América, temos sempre outra visão das coisas: aprende-se, faz-se e melhora-se sempre as coisas.
A minha intenção enquanto Presidente da Câmara foi essa: fazer mais e melhor para o Corvo.

Quais as suas responsabilidades actuais?
Agora? Agora estou sem fazer nada. Com 73 anos dou, todos os dias, a minha voltinha à volta da pista do aeroporto quando posso. Já não tenho nenhuma responsabilidade na vida, a não ser continuar a viver o dia a dia.

Como descreve a família de hoje?
A família de hoje não tem nada a ver com a família do meu tempo. Quando eu me casei foi quando eu vim do Ultramar, e pensava que se tivesse uma casinha e um trabalho para trabalhar que já tinha tudo. Hoje não. Eles hoje têm tudo e pensam que não têm nada.

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
Hoje não tem nada a ver com o passado. Se estão em casa, estão a ver televisão e no telemóvel e não falam uns com os outros, já não é como era antigamente, quando as mulheres cardavam a lã, depois fiavam e falava-se, conversava-se. Há muita diferença.

Há muitas tensões nas relações entre pais e filhos. Na sua opinião, quais as abordagens que se devem fazer entre pais e filhos para que haja harmonia?
Os filhos pensam que têm direito a tudo. Já o meu pai dizia que tinha que repreender para os filhos serem obedientes. Mas hoje já não é assim. Repreendemos e eles amuam, já não é como antigamente.
E se levarmos um filho para trabalhar com a mãe ou com o pai, dizem logo que é abuso de crianças. No meu tempo não era, e hoje um rapaz com 20 anos de idade ainda não sabe o que é trabalhar. E, no meu tempo, com 20 anos, era-se um chefe de família.
Mas não é que eles sejam menos inteligentes do que no meu tempo, porque eles hoje pegam na tecnologia do computador e eu não sei mexer em nada dessas coisas. Eles mexem em tudo com dez ou 12 anos. Inteligentes são, agora o modo de ver as coisas é que é muito diferente do meu tempo.

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
Eu já não consigo ver muito mais à frente, porque sou muito velho. Eu não sei onde é que isto vai parar. Hoje posso dizer que 90% das terras do Corvo já não são trabalhadas. No meu tempo, 100% das terras eram trabalhadas e tínhamos de tudo no Corvo. E, hoje, se ficamos uma semana sem passar o barco, começam a dizer que toda a gente vai morrer à fome. Eu não sei onde isto vai chegar, mas espero sempre que seja para melhor.

Que importância têm os amigos na sua vida?
 Muita. Tenho muitos amigos e grandes amigos na minha vida e sempre me dei bem com eles. Faz parte da minha vida ter amigos, falar com as pessoas, explicar o que era o Corvo e como vivíamos na ilha. Isso para mim é o essencial na minha recta final.

Como era o Corvo no seu tempo?
Até ir para a tropa não havia iluminação pública. A gente andava com um foco. Não se pode dizer isso na América, mas andávamos com umas pilhas que se tirava à noite quando se chegava a casa e que se punha debaixo do colchão para se conservarem. Não tem nada a ver com os dias do nosso tempo.

Que sonhos alimentou em criança?
Desde que era muito pequenino que gostava muito de andar no mar. O meu sonho era ter um barco – o meu pai tinha quatro –, pegar no barco e ir para o mar apanhar peixe. Hoje é tudo muito virado para o futebol. Mas, naquele tempo, não havia futebol, de maneira que o meu sonho era ser mais e melhor e ter alguma coisa com que me entreter. E no Corvo, era o mar.

O que mais o incomoda nos outros?
Eu penso que a inveja dos outros é muito má. Mas já o meu pai dizia, quando eu era criança, que não tinha medo dos invejosos mas sim daquele que estavam a trabalhar. O invejoso não chega a parte nenhuma e o que sabe trabalhar faz sempre coisas na vida.

Quais são as características que mais admira no sexo oposto?
Uma mulher bonita tem sempre a sua coisa, mas as mulheres hoje já não são como no tempo da minha mãe. As mulheres hoje já não têm nada a ver com as mulheres de antigamente.
Muitas vezes a minha mãe dizia, em conversa com as amigas, (aliás, com as vizinhas, porque naquele tempo não havia amigas), que se conhecia as mulheres “atinadas” ou “com préstimo”, pelos remendos que elas punham nas calças dos maridos. Quem não sabia fazer muito bem deixava o remendo redondo, quem sabia fazer bem feito deixava o remendo quadrado e bem feitinho nas calças. Há uma diferença grande nas pessoas e nas coisas deste tempo para agora.

Gosta de ler?
Sim. Agora estou a ler o livro ‘Os Mal-amanhados’. Mandaram-me o livro o outro dia e estou a lê-lo. Conhecem muito bem a Região e explicam a sua visão daquilo que passaram nas ilhas.

E qual o livro que mais gostou de ler, lembra-se?
Lembro-me. Era muito criança, foi o ‘Moby Dick’. Era criança, tinha uns 11 ou 12 anos e havia um chefe de finanças que mo trouxe ao Corvo, e para mim foi o melhor livro que me ofereceram na vida.
 
Já disse que se relaciona mal com as informações nas redes sociais…
Já não vejo as redes sociais. As redes sociais num dia dizem uma coisa e no dia a seguir já estão a dizer outra…

Conseguia viver hoje sem telemóvel e sem internet?
Sim, lindamente! Uso telemóvel quando me ligam.

Gosta de viajar?
Gosto. Mas hoje só viajo quando preciso, já não gosto de sair do Corvo.

Que viagem mais gostou de fazer?
Fiz muitas viagens. Conheço Portugal de norte a sul, estive na África do Sul, e na América durante 17 anos. De maneira a que gosto de viajar e penso que já conheço o mundo! Ainda quando era pequeno, o meu pai falava-me tanto na Avenida da Liberdade, em Lisboa. Quando era garoto o meu pai foi lá, e ele disse que não lhe espantou nada.
Gosto de ver a natureza, como o Grand Canyon nos Estados Unidos. Mas as grandes cidades não me impressionam.

Quais são os seus gostos gastronómicos?
Como bem de qualquer coisa, mas gosto muito de peixe. O peixe para mim é dos melhores pratos que podemos ter. E é bom de qualquer maneira, seja assado ou frito. Um punhado de lapas à beira-mar com pão de milho e um bocado de queijo velho do Corvo, para mim é das melhores coisas.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Que acabasse a pandemia. Pelo menos, a gente podia-se mexer e andar à vontade.

Qual é a máxima que o inspira?
Quero é ter saúde para viver o resto dos anos que me restam. De resto, não tenho mais inspiração nenhuma. O que me tem movido na vida é o querer sempre mais. A melhor coisa que podemos ter na vida é mais inspiração para fazer sempre mais e melhor.

Em que época histórica gostaria de viver?
Quando estive nos Estados Unidos, nos anos 70 e 80, era muito bom. Trabalhava-se muito, mas a gente tinha tudo o que queria. (…) Gosto de viver a época actual.

O que pensa da política e dos políticos de hoje dos Açores?
Acho os políticos fracos. Quando cheguei cá, depois de vir dos Estados Unidos da América, ainda antes do 25 de Abril, no tempo do Marcelo Caetano, a gente não podia dizer tudo o que queria e eu tinha vindo de África. Estava com sangue na guelra, como se costuma dizer aqui, mas já não há homens com definições e que dêem um soco na mesa e digam “é assim”. Já não vejo esses homens a quem podemos explicar as coisas. Eu tinha grandes dificuldades no campo político, quando era autarca, para  vencer as dificuldades da minha terra, e eu conhecia-as bem e sabia como se podia fazer “zig zag” para chegar lá.
Nunca me vou esquecer de uma vez que estava com uma jornalista em São Miguel, no canto do Sol Mar, e eu queria fazer uma lagoa artificial para o Corvo – não fiz uma, fiz duas – e veio um carro, parou e saiu de lá um senhor. Era o cônsul americano que saiu da parte de trás da sua viatura e que disse que gostava de ver os meus debates na comunicação social a pedir a lagoa artificial. Mas eu quase que não conseguia passar a mensagem para pedir aquilo. Agora, amigo, já não há políticos como antigamente.

Deu muitos murros na mesa nas visitas do Governo ao Corvo?
Sim, sim. Mas eu tinha uma maneira diferente de fazer as coisas. Antes de acontecerem as visitas ao Corvo eu ia correr as secretarias regionais do Governo. Ia com alguma dignidade, digo eu, apalpar o terreno para saber as coisas que se conseguia ou não, naquele ano, para a ilha.
O actual Secretário Regional das Finanças, o Bastos e Silva, era do meu tempo também e fui ter com ele para conseguir a escola do Corvo. A gente tem que bater o pé para as coisas virem. Na altura, fui ter com o Secretário Regional da Educação, o Aurélio da Fonseca, mas ele não queria. (…) Os filhos do Corvo saíam em Outubro e só vinham em Junho do ano seguinte. A um pequeno de 11 anos do Corvo, como é que se explica uma coisa dessas?
Então, davam 300 escudos aos pais, mas isso não era nada. Os filhos precisam é de educação. Iam para as escolas das Flores, para o Faial, para a Terceira ou para São Miguel. Iam para todos os lados. O Governo dava os 300 escudos aos pais e os filhos tinham que sair da ilha para irem estudar para outras ilhas.

Se hoje desempenhasse um cargo governativo, qual era a medida que tomava?
Ainda hoje faltam muitas coisas no Corvo. Penso que os governantes têm que pensar sempre em não perder fundos comunitários, os mais essenciais. Se não fossem os fundos comunitários não estávamos em parte nenhuma hoje. Estaríamos ainda no tempo do Salazar. De maneira que é preciso aguentar e fazer o possível para se ir buscar todos os euros que se possa ir buscar.
São Miguel desenvolveu-se muito, as outras ilhas também. E as ilhas mais pequenas são sempre as mais desfavorecidas, e eu batia muito na mesa por causa dos fundos comunitários. Eles não sabem, mas eu defendia isso: uma obra no Corvo custa mais 30 ou 40 mil euros do que seja em São Miguel.
Se tivéssemos 600 mil euros para o quadro comunitário de sete anos, não iríamos fazer tanto como outra autarquia faria em outra ilha com o mesmo dinheiro. A nossa obra ia custar muito mais no Corvo porque as coisas são mais caras, incluindo as pessoas que vêm para cá trabalhar. A coesão devia ser mais forte para as ilhas pequenas.

Quais são actualmente as grandes necessidades do Corvo?
Ainda há tanta coisa para fazer e há sempre coisas a melhorar na vida das pessoas. Há coisas que temos que fazer e em que as pessoas só vêem benefícios ao fim de algum tempo. Posso dizer que quando estava na Câmara não havia multibanco. Consegui, através de uma empresa, colocar lá um multibanco mas a Câmara teve que meter uma caução. Ao fim de uns meses já nos davam a caução para trás porque aquele era um dos multibancos que mais movimento tinha. Por isso, coisas que melhorem a vida desta gente são sempre boas.

O porto do Corvo deve ser aumentado?
Só há duas coisas para fazer. (…) Ou compram um navio adequado para chegar da Horta até cá de 15 em 15 dias, ou então dragam o porto. O porto está ampliado bastante. Se arranjarem um navio adequado com uma boa velocidade de cruzeiro, o navio demoraria uma noite a ir da Horta ao Corvo, que era como acontecia no meu tempo com o Ponta Delgada e com o Carvalho Araújo, que chegavam à ilha depois de uma noite a navegar. Eles agora saem às três da tarde de um dia do Faial e chegam ao Corvo às nove da manhã do outro.

O Corvo de hoje é muito diferente do Corvo de quando era Presidente?
Agora está melhor. Já saí da Câmara há sete anos.

Hoje a sua vida é passear no Corvo...
Sim. Fiz aqui um hotel para as minhas filhas, por isso há sempre algum trabalho, alguma manutenção e algumas coisas para fazer.

Qual tem sido a ocupação do hotel?
Agora é nenhuma, infelizmente, fora uma pessoa ou outra que vem trabalhar. Tenho amigos que também têm hotéis em São Miguel e, devido à Covid-19, estão fechados.

O que acha das tarifas a 60 euros para viajar de avião para o Corvo?
É muito bom, mas as pessoas têm que ficar no Corvo. Porque, em 2019, veio muita gente ao Corvo, mas vinham das Flores no barco da manhã e duas horas depois regressavam para trás, e este turismo não nos serve no Corvo.

E acredita que o Corvo tem condições para as pessoas ficarem duas noites?
Sim, sem problema algum. Temos restaurantes, há hotéis, há alojamento local e há muita, muita natureza para visitar. Penso que o Corvo é das ilhas mais brutas em natureza que existe nos Açores.

João Paz/Joana Medeiros

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Autor: CA

Categorias: Regional

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