16 de fevereiro de 2021

Opinião - Bilhetes-Postais

A Junta Governativa do Distrito de Ponta Delgada

(continuação)

No dia 18 de Novembro de 1846 houve um motim provocado por alguns desordeiros, principalmente da freguesia de S. Roque, da Calheta e da Arquinha. “Armados de páos e varapáos, com a sua foice de mistura”, entraram na cidade, amontoando-se em grande número ao redor das casas da residência do governador civil. Protestavam contra a exportação de milho.
Saíram piquetes da tropa de linha e da Guarda Nacional. Parte postou-se na Praça Velha, em frente do povo, e parte marchou sobre os povos da Arquinha e de S. Roque. O governador civil e o administrador do Concelho compareceram e, pela persuasão, o segundo fez “entrar o povo na sua orbita promettendo-lhe providencias ás suas exigencias . . .”
A causa do motim seria a falta de milho no mercado e o aumento do preço, de dia para dia. Arengavam os “faladores” que se embarcava muitas centenas de moios de milho. Mas, segundo “O Correio Michaelense”, porta-voz da Junta Governativa, “era o fim real dos amotinados introduzir a desordem na sociedade, para dar instantes de prazer a alguns nossos adversarios politicos; era porem o seu fim apparente obstar ao embarque do milho, para assim evitar a fome, (quanto a nós) evidentemente impossivel, e totalmente imaginaria”.
Comentou o “Açoriano Oriental”: “Tambem se diz, que se observarão alguns dos ralhadores serem d’aquelles, que ha poucos dias foram vender os seus generos aos negociantes já por alto preço, e que neste dias se arvorarão em mandatarios para talvez os obrigarem a destribui-lo de graça! felizmente não houve sangue, e apenas encommodo para não poucos centenares de Cidadãos!”
Em 1846, a colheita de milho em S. Miguel foi abundante (37354 moios); superou em 2600 moios a colheita anterior e excedeu o consumo da ilha(28 615 moios). Em contrapartida, o milho embarcado até à data do motim fora em quantidade diminuta. Ademais, não faltava trabalho em que a classe pobre se pudesse ocupar, pelo que eram “chimericos todos os receios de fome”.
Os anos de 1846 e 1847 foram tempos de muita fome em vários países da Europa. Nos Açores, houve em quase todas as ilhas escassez e, em algumas, considerável falta de subsistências. A Madeira e o Algarve estiveram também ameaçados de fome.
Em Março de 1847, tendo-se procedido à análise da produção e consumo de cereais em S. Miguel no triénio anterior, feito o levantamento das existências e ponderadas as necessidades de consumo até à colheita, o Governo Civil proibiu a exportação de milho e trigo.
Nesse ano, houve uma fome terrível em S. Jorge. “Aquella desditosa população, sobre que cahio o raio devastador, acha-se redusida ao ultimo extremo: – esgotarão se todos os cereaes e legumes; os inhames, que formavão a principal base alimento, hão desaparecido sem ao menos ficarem plantas de que novamente se reproduzão, e já os povos em sua desesperação devorão as raizes d’hervas silvestres e insalubres [fetos e jarros] que com a doença lhes vem ainda agravar sua desastrada situação”.
Em Abril, os municípios jorgenses, em desespero, rogam instantemente o auxílio dos micaelenses, já que o Distrito de Angra pouco podia fazer, por se ter exportado demasiado milho das ilhas Terceira e Graciosa. O governador civil André do Canto nomeia então uma Comissão Central de Beneficência, constituída pelos cidadãos mais abastados do Distrito, à qual preside Frei Estêvão de Jesus Maria, bispo da Diocese. A Comissão correspondeu plena e imediatamente, como era de esperar, na angariação cereais, legumes e dinheiro para socorrer os jorgenses. “Dada a urgente necessidade de serem promptamente socorridos, ainda com risco d’ulteriores privações para os habitantes desta Provincia”, e antes de a comissão produzir resultados, foram embarcados 50 moios de milho para distribuir gratuitamente. “Não mais porque a prudencia aconselhou ás Authoridades limitar a quantidade”. Foram enviados também 16 moios de fava, e deduz-se que outros meios, a avaliar pelos donativos publicados n’ “O Correio Michaelense”.
A Junta Governativa enviou cem moios de cereais para “os irmãos d’armas do Continente do Reino”, “a braços com a guerra, expondo as suas vidas em defensa da causa comum e das garantias e liberdades nacionaes”; em compensação, a Junta importou igual quantidade de milho para venda à população, a preço corrente.
No dia 4de Abril de 1847, comemorou-se o aniversário da Rainha D. Maria II. Ponta Delgada engalanou-se com muitas bandeiras nacionais e estrangeiras, dos consulados e de particulares residentes. Os navios surtos no porto içaram estandartes e galhardetes.
No Campo de S. Francisco, apinhado de povo, houve a formatura dos batalhões de Caçadores 4, Provisório de Infantaria, Guarda Nacional e do Corpo de Artilharia – uma brigada de cerca de mil homens.
Na igreja de S. José, o bispo diocesano celebrou um solene Te Deum, a que assistem a Junta Governativa, Câmara Municipal, autoridades, empregados públicos, convidadose cidadãos de todas as classes. Após o Te Deum, a brigada deu as descargas de alegria, e o comandante levantou os vivas – à Rainha, à Nação Portuguesa e à Carta Constitucional, “reformada segundo os princípios da Revolução do Minho”.
O dia 21 de Maio seguinte foi a ocasião de comemorar o 1.º (e único!) aniversário da Revolução do Minho. O castelo e fortes da cidade, embandeirados, salvaram ao meio-dia. Mas os batalhões não chegaram a formar, porque, entretanto, faleceu o tenente-coronel Francisco Vicente Heitor, comandante da brigada, num prenúncio de que a Revolução do Minho agonizava nesse mesmo dia, com a assinatura, em Londres, do Protocolo para pôr termo à guerra civil.

            (continua)

 

Ferreira Almeida

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