16 de fevereiro de 2021

Opinião

Tempos estranhos

Quer queiramos admitir, quer não, o Covid-19 está a mudar radicalmente as nossas vidas, não apenas na alteração da rotina do dia a dia dentro das cercas sanitárias ou simplesmente em confinamento, em que apenas podemos ir à farmácia ou ao supermercado, mas também privando-nos dos espaços de convívio ou celebrações festivas a que estávamos habituados.
Este vírus está a transformar toda a vida no Planeta com transformações impensáveis que estão a moldar a realidade à nossa volta e, claro está, a vida de cada um de nós, bem como uma nova forma de encarar o futuro num mundo pós pandemia.
Custa-nos, mas temos que nos convencer, que a adaptação ao mundo novo que está aí à porta se torna imperiosa para nos prepararmos para o que vem por aí, porque uma coisa é certa: o mundo tal qual o conhecemos até março de 2020 nunca mais não será como antes.
O povo está triste com esta pandemia, não apenas porque chora os seus mortos; porque sofre com as mazelas e efeitos secundárias de contração do vírus; porque há muita gente que deixou de ter forma de sustentar a família, registando-se dificuldades económicas acrescidas decorrentes desta pandemia; porque está longe dos que mais ama e não os pode abraçar; mas também porque deixou de poder ter oportunidade de viver a vida com alegria e em convívio com os familiares e amigos.
Por outro lado, muitosnão imaginam que o confinamento profilático origina uma série de riscos para a saúde mental, o que corresponde a um aspeto muito negativo para a resiliência da saúde das pessoas. Se é verdade que o isolamento é importante para proteger a nossa saúde física, impedindo o contágio pelo vírus, também é verdade que, quanto mais tempo estivermos isolados, maiores serão os riscos de sofrermos doenças do foro psicológico.
As persistentes cercas sanitárias que se dizem necessárias para combater a propagação do vírus em Rabo de Peixe, tem originado sintomas complicados na saúde mental na sua população, designadamente, irritabilidade, ansiedade, medo, raiva, insónia, falta de humor, etc.. De facto, parece-me que as autoridades de saúde não avaliaram convenientemente as consequências a curto e a médio prazo para a saúde mental que estas medidas provocam.
Por outro lado, a forma como está a ser feito o luto das pessoas que morrem de doenças naturais durante este período de pandemia é muitíssimo dramática. Devido às medidas preventivas de saúde pública, as cerimónias fúnebres estão a ser realizadas quase sem pessoas e muitos familiares e amigos estão privados de se despedirem de quem morre, proibindo-se os abraços e o habitual consolo do luto feito em comunidade foi obrigatoriamente suprimido.
Isto acarreta um enorme sofrimento para todos aqueles que perdem os seus familiares e amigos. Em suma, vivemos tempos estranhos. Neste período levantam-se muitas dúvidas, e irá certamente demorar muitos anos até compreendermos qual foi o verdadeiro impacto da pandemia na saúde mental.
Como resposta ao isolamento social, a economia está a apostar nas vendas online, com as transações financeiras através das chamadas “apps”, com telemedicina, aulas online, fazemos videoconferências e trabalhamos em casa. Os artistas e produtores culturais passaram a enveredar por espetáculos online, assim como em visitas virtuais a museus e outros espaços de cultura, ao ponto do nosso mundo o real se esteja a confundir com o virtual, através do uso das novas tecnologias.
Tal resultado poderá significar que o contato humano será eliminado? Somos seres sociáveis por natureza, com necessidades complexas, por isso, levará tempo até que deixe de ir pessoalmente consultar seus médicos e muitos tipos de trabalhos não são automatizáveis. Contudo, a tendência de aceleração do mundo virtual provavelmente é irreversível.
Se o século XX foi o século da tecnologia, em que o ser humano descobriu o mundo admirável das novas tecnologias e das redes sociais, a pandemia veio mostrar-nos os seus limites. No entanto, abriu-se agora o leque de mais opções, pelo que não será obrigatório, por exemplo, ir ao escritório ou mesmo fazer tarefas operacionais nos locais de trabalho,já muitas delas podem perfeitamente serem executadas remotamente, alterando-se, assim, a maneira como se faz negócios, como trabalhamos, como produzimos bens, como aprendemos, como procuramos serviços e até como nós nos divertimos.
Aqui deixo a minha sentida solidariedade para com a população da minha Vila, pelos transtornos, a nível físico, psíquico, económico, social e religioso que têm de fazer face confinados em cerca, pois ninguém pode imaginar como é viver cerceado das suas liberdades e muitos poucos entendem o modus vivendi muito particular porque demonstram leviana insensibilidade histórica e social daquela localidade.

 

António Pedro Costa

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