Depois do cancelamento da Batalha das Limas

“Toda a gente com quem falo garante que para o ano a batalha das Limas será a dobrar”, afirma Ricardo Possidónio

Neste Carnaval, a Pandemia impediu os habituais festejos carnavalescos por toda a região e muitas das tradições que normalmente ocorriam tiveram de ser canceladas. Na ilha de São Miguel, os habituais bailes do Coliseu, de máscaras no Teatro Micaelense e na Povoação não se realizaram, assim como outros assaltos carnavalescos que existiam por toda a ilha. Na Terceira, os famosos ‘bailinhos’ também não aconteceram bem como os bailes na Ilha Graciosa. Os cancelamentos de festividades estenderam-se às restantes ilhas dos Açores. Voltando a São Miguel, mais concretamente em Ponta Delgada, o dia de hoje era marcado pela Batalha das Limas, uma tradição que todos os anos decorria na Avenida Infante Dom Henrique (Marginal). Ricardo Possidónio, de 43 anos, um dos ‘veteranos’ desta Batalha e que participa no evento “há 35 anos”, confessa ao Correio dos Açores a sua tristeza pelo cancelamento deste ano.
Normalmente pelas 15 horas desta terça-feira, a Avenida Infante Dom Henrique em Ponta Delgada seria o palco da Batalha das Limas, uma tradição já com largos anos nos festejos de carnaval da cidade. Este ano e pelos motivos já sabidos, a sua realização foi cancelada. Apesar disso, fomos conversar com Ricardo Possidónio, presença constante neste evento há “mais ou menos 35 anos”, que lembra tempos idos desta Batalha.
“Começávamos a fazer limas 1 ou 2 meses antes do Natal. Antigamente tínhamos a fábrica de lacticínios onde arranjávamos aquela cera dos queijos, a Igreja do Santo Cristo onde íamos comprar as velas partidas e aquilo de que não precisavam”, afirma.
A passagem das limas para os sacos de água também se deu por “ser mais rápido e fácil”. As transformações que se foram sucedendo, com mais afluência de pessoas e com o facto de os camiões passarem a ser mais altos, também tiveram influência nesta transformação.
Ricardo Possidónio admite que no tempo em que se utilizavam as limas, por vezes aconteciam alguns excessos.
“Algumas pessoas, com as limas, pensavam que iam para uma guerra e faziam limas de cera para magoar os outros, mas o carnaval não é isso. Eu cheguei a fazer limas e se ficavam um pouco mais grossas, derretia para dar duas. Estamos ali para brincar e não para magoar ninguém”, destaca.
No caso do grupo ‘Sempre Presentes’, de que faz parte, Ricardo explica que se “vai trabalhando o ano inteiro” e conta como é feita a preparação de toda a logística para a Batalha.
“Começamos a encher os sacos cerca de 3 ou 4 semanas antes do Carnaval. Fazemos uma média de 120 a 150 de quilos de sacos. Temos a logística dos bidões e das paletes que dá muito trabalho. Para fazer um camião e colocá-lo na avenida é preciso uma média de 1500 euros”, afirma. Precisamente nesta vertente financeira, Ricardo explica que a sua politica com os pedidos de patrocínio passa por pedir apenas material e “nunca dinheiro”.
“Num café ou num restaurante dão-nos um barril de cerveja. Noutro sítio dão-nos os sacos plásticos. Sempre trabalhei desta forma. Temos uma política em que pagamos 5 euros por mês e posso dizer que temos uma média de 20 a 25 pessoas entre os 12, 13 anos até aos 50”, realça.
Chegado o dia da Batalha das Limas e “depois do Coliseu, onde vão quase todos, encontramo-nos no local combinado (antes era na Melo Abreu). Preparamos e enchemos tudo na sexta e no sábado, para que na segunda e terça possamos estar descansados e divertirmo-nos à vontade”. De manhã, Ricardo Possidónio conta que é realizado “um churrasco e toda a gente está convidada a aparecer. Está tudo pago e não queremos dinheiro. Depois vamos à concentração e metemos os miúdos em cima do camião enquanto nós vamos no chão. Quando começa a batalha, tiramos os miúdos e subimos nós ao camião”.
Apesar de considerar que esta tradição está a passar por bons momentos, Ricardo Possidónio lembra que a Batalha das Limas viveu dias menos bons há uns anos atrás e destaca a importância da intervenção da Câmara Municipal de Ponta Delgada para o reavivar da tradição.
“Na altura em que a Berta Cabral decidiu começar a patrocinar só foi um camião para a Avenida. A Câmara depois começou a patrocinar e apareceram 15 ou 16 camiões, também era demais. O máximo deve ser 10 camiões”, considera.

Objectivo e importância de uma
Associação
Ricardo Possidónio revela que existe a intenção de, vários dos intervenientes nesta Batalha, criarem uma Associação que pudesse dinamizar ainda mais a Batalha das Limas. O alcance e importância dessa Associação começaria, desde logo, por ser responsável pela fiscalização das regras do evento.
Apesar de admitir que na “fase em que nos encontramos será difícil” a sua criação, destaca igualmente o papel que a Associação poderia ter na promoção turística da ilha de São Miguel.
“Podíamos celebrar protocolos com o Turismo, como se faz com a Tomatina ou na Laranjina, em Itália. Assinar um protocolo com a SATA em que eles vinham para cá com os camiões todos pagos. Existem várias ideias”, salienta, antes de contar casos “de turistas que perguntavam como podiam entrar na Batalha. Já tivemos romenos e americanos que participaram (…) Esta Associação bem organizada e bem gerida tem potencial para promover a época do Carnaval. Fazer, por exemplo, um pacote turístico que incluísse o Hotel, o baile do Coliseu e a entrada no camião. Este evento é único no mundo e temos de aproveitar”.

“Para o ano será a dobrar”
Falando do cancelamento deste ano, Ricardo Possidónio admite uma “grande tristeza” pela não realização do evento, considerando que apesar do contratempo de 2021, o evento virá com força redobrada no próximo ano.
“Toda a gente com quem falo garante que para o ano será a dobrar. As pessoas estão com vontade e penso que para o ano as pessoas estarão ‘com fome’. Somos um grupo em que, por vezes, se passa um ano em que não nos vemos. O processo de fazer os sacos e esses convívios levam a que encontremos pessoas que não vemos durante praticamente o resto do ano. O melhor disto é mesmo o convívio”, garante.

Resposta às críticas
Há mais de três décadas a participar no evento, Ricardo Possidónio confessa que já ouviu muitas críticas sobre a Batalha das Limas. Uma das principais está relacionada com a questão ambiental, algo que considera ser “um pouco exagerado”.
“Penso que andam a exagerar um pouco. Se isto fosse constante, mas são apenas 2 horas uma vez por ano. A Câmara o ano passado foi incansável. Foram colocadas redes, encurtamos o espaço e a limpeza foi feita. Tudo para não haver confusões. Penso que ano passado correu muito bem nesse aspecto”, afirma.
Outras das críticas apontadas à Batalha das Limas prende-se com as acusações de ser um evento violento. Ricardo refuta essa ideia.
“Isto é uma tradição e eu não considero isto como sendo violento. Estamos ali a bater e a atirar com sacos de plástico com água. É uma diversão”, atira antes de explicar que “só lá vai quem quer (…) uma coisa é certa, a Batalha das Limas está sempre cheia de gente. Respeito todas as opiniões mas se essas pessoas que criticam vivessem por dentro e vissem o convívio e todo o processo de preparação, mudavam garantidamente de ideias”.   

 Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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