Padre Francisco Zanon fala da dor do confinamento em Rabo de Peixe

Vírus trouxe sofrimento e afastamento espiritual, mas o tempo da Quaresma traçará o caminho para a libertação

Correio dos Açores: A cerimónia da imposição das cinzas dá início a um período espiritual singularmente importante para todo cristão que procura preparar-se para viver melhor e mais profundamente o Mistério Pascal, que se reflecte na Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo.
Este ano, devido à pandemia, esta cerimónia não tem o ritual seguido todos os anos. Contudo, no essencial mantém-se. Na sua perspectiva como estão a viver hoje os cristãos a Quaresma e qual a importância da Quarta-feira de cinzas para a vida dos crentes?
Padre Francisco Zanon: Nós já estamos em Rabo de Peixe com a igreja aberta e tal como qualquer igreja temos em vigor as normas sanitárias. Mas com todas as dificuldades que a Igreja vem sofrendo em tempo de pandemia, não só a igreja, estou a falar da Igreja, é claro que o número de pessoas diminuiu muito, não só pelas restrições impostas, mas também há muitos medos, pois há uma série de sentimentos que passam pela cabeça das pessoas, só que temos todo o distanciamento sanitário e não há razão para ficarmos com a igreja fechada.
Mais do que nunca precisamos de orar, de pedir clemência e misericórdia e as graças divinas para que a sua mão poderosa recaia sobre a Humanidade, que nos ajude e nos coloque para cima.
Mais do que nunca, há necessidade de ter as igrejas abertas para orarmos e suplicarmos a Deus. Até amanhã (hoje) teremos Quarta-feira de Cinzas. Claro que não vamos impor as cinzas, vamos sim marcar este grande momento e forte da nossa Igreja que é a Quaresma e de preparação para a Páscoa  (...) É nessa caminhada, de itinerário como nós somos peregrino,s que a Quaresma retrata muito bem: Jejum, Penitência. Do pó viste e em pós te tornarás. Neste sentido, vamos participar activamente nesta Quarta-feira de Cinzas e na Quaresma, se Deus quiser.

Não há imposição de cinzas por uma questão de saúde pública, mas procura-se preparar esta comunidade para viver melhor e mais profundamente o mistério pascal?
Exactamente. A Quaresma já tem toda essa espiritualidade numa caminhada, lembrando também a nossa vida, da nossa breve vida, porque não podemos esquecer que a nossa passagem é rápida… Mesmo com longevidade, tudo passa rapidamente, e lembrando a nossa caminhada de peregrinos, devemos ir em marcha, procurando estar na presença de Deus, pedindo perdão pelas nossas faltas e preparando esse mistério de modo paixão, morte e ressurreição, numa luta contra o pecado, a maledicência e do que nos afasta do amor de Deus. É nessa luta constante, na qual a Quaresma tem a força espiritual, que nos prepara sempre para a Páscoa, mas também nesta constante busca de viver Jesus ressuscitado, passando também pela cruz que enfrentamos o nosso dia-a-dia.

Sendo a Quaresma também um sinal de sofrimento e de posterior libertação na Páscoa, estando o povo de Rabo de Peixe em sofrimento devido ao confinamento  (à semelhança do que acontece em Portugal continental e em outros países), também aguarda a sua libertação. Podemos fazer esta analogia?
Claro que sim. É uma questão bem colocada. Mais do que nunca, para os demais esta é uma comunidade que tem o seu sofrimento, a sua peculiaridade, um pouco díspar dos Açores no seu todo, mas o que vejo aqui é uma grandeza, uma riqueza muito grande, agora é preciso é que nós consigamos enxergar essa grandeza que tem Rabo de Peixe. Não podemos esquecer que a vila tem um sofrimento bastante grande, até pela própria geografia da vila, com um contingente grande de pessoas, com casas muito próximas, algumas com famílias bastante numerosas. Só que agora com a proliferação do vírus evidenciou mais este sofrimento.
Claro que, dentro do possível, incentivamos as pessoas a participar na Santa Missa, configurando a sua vida, procurando cada vez mais a imagem de Nosso Senhor, em Cristo, que sofreu na sua carne, e nós devemos também fazer esta passagem desse sofrimento para uma libertação, participando activamente desse momento crucial de Nosso Senhor e colocar em nossa vida, assim como Ele venceu somos sofredores. Ele sofreu muito para uma libertação, vamos também abraçar esse sofrimento e procurar a libertação em Jesus Cristo, que é isso que dá sentido inclusive à dor, ao sofrimento e até à morte. É neste sentido que nós estamos actuando com alguma acção pastoral e com essa reflexão para que isso alivie, impulsione anime as pessoas a continuar de cabeça erguida e de coração aberto a Deus.

Essa vivência de Rabo de Peixe confinada e de alguma tensão vai precisar de muito apoio espiritual após a abertura da cerca?
Pela limitação que estamos vivendo, devido à não aproximação das pessoas, regra geral as pastorais e os movimentos não podem reunir presencialmente e fazem-no pelas redes sociais mas não é a mesma coisa e até em muitos casos é difícil porque nem todas as pessoas têm equipamento, outras não sabem mexer nisso, mas em todos os casos temos tudo o que Deus nos vai iluminando procurando intervir e ajudar no que for possível e sempre que as pessoas deixam.

Está consciente de que quando for ultrapassada esta situação, a igreja vai ser mais solicitada do que tem sido e o senhor como padre e membro dessa comunidade também vai ser chamado a intervir?
Saindo deste contexto novo e histórico da humanidade, todas as iniciativas, sobretudo as mais contundentes, vão ser necessárias e vamos ter que intervir.
Vamos promover encontros, retiros espirituais e até mesmo fazer visitas às pessoas… Enfim, temos que fazer também uma readaptação. Eu tenho pensando nisto, juntamente com os movimentos e pastorais da igreja.
Há muito trabalho a fazer numa acção emergencial, podemos dizer, para colocar um pouco mais de ânimo nas pessoas e na tentativa, com a graça de Deus, de curar as feridas abertas. Isso não é fácil. Não se trata apenas do vírus, mas de todo o medo que se instalou. Podemos dizer que há um abalo psicológico e até mesmo um esfriamento da fé. Há muita gente está assustada. É preciso uma voz de ânimo e que Deus nos ilumine para promovermos e seguirmos com as nossas acções pastorais.
          

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