Fernando Neves, representante da Associação de Hotelaria de Portugal

“O turismo tem futuro nos Açores mas está neste momento moribundo”

 Correio dos Açores - O turismo está parado…
Fernando neves (Representante nos Açores da Associação de Hotelaria de Portugal) No momento actual, tal como nos últimos tempos, o turismo está numa crise profunda. Se quiser ser radical, diria que está moribundo. E está numa fase em que necessita de grandes apoios e de grandes decisões para que possa recuperar o posicionamento estratégico que tinha no desenvolvimento da economia dos Açores.
O turismo é responsável pelo desenvolvimento de outros sectores da economia. A transversalidade do turismo faz com que os outros sectores também cresçam, até porque a nossa oferta turística será muito melhor e muito mais qualificada e muito mais diferenciada quando os outros sectores, nomeadamente os sectores primários, crescerem e forem fortes. E, assim, possam valorizar a nossa oferta turística.
Para que o turismo possa continuar a manter um papel fundamental no desenvolvimento da economia regional é importante que sejam criadas as condições para que o turismo dos Açores possa continuar a ter uma oferta diferenciada e qualificada.

Há indícios de que isso possa acontecer…
Entendo que é fundamental que isto aconteça. Para todos nós açorianos, é importante que isto aconteça.
Penso que há alguma consciênciaa nível governamental desta necessidade de segurar e aguentar o turismo. Agora, é preciso levarmos muitas vezes as coisas à prática e não ficarmos pelo discurso.
Tem havido sinais positivos neste sentido. É importante que se continue a trabalhar na simplificação e na desburocratização de todos os apoios e, acima de tudo, há a necessidade de reforçar algumas áreas.
No caso da hotelaria, estamos parados há mais de um ano. Quando a crise começou, em Março de 2020, estávamos preparados para um crescimento de mais 65% que em 2019 e o que aconteceu é que, chegamos ao fim do ano, e tivemos 20% de actividade. Tivemos uma quebra na ordem dos 80%.
Tudo isto trás fragilidades às empresas. Tanto mais que, quando na altura em que a crise se iniciou, o que era previsível é que, durante o Verão, a situação estivesse normalizada. E o que é certo é que, ao fim de um ano, nós estamos sem perspectivas de quando é que, efectivamente, a recuperação vai acontecer. A situação continua bastante má. A hotelaria está basicamente parada. A maioria dos hotéis está encerrada. Este mês (Fevereiro) houve mais hotéis que encerraram a sua actividade. E quando há algum tempo havia a perspectiva de que, em Março ou Abril deste ano seria para abrir todos os hotéis, neste momento é uma incógnita e, possivelmente, vamos passar alguns meses até que todos os hotéis estejam novamente reabertos.

Podemos passar o Verão com hotéis fechados?
É uma incógnita, mas há a possibilidade que isso aconteça. E até poderá haver a possibilidade de alguns hotéis não voltarem a abrir se não forem criadas as condições para que eles possam reabrir. Neste momento, há este perigo…

…de hotéis fecharem em definitivo?
Sim, isto se não forem criadas as condições para que isso não aconteça. E é por isso mesmo que é preciso ter a consciência da importância de manter a nossa capacidade produtiva. A capacidade actual do turismo, e no caso também da hotelaria, é o resultado de muitos anos de trabalho, muitos anos de investimento, muitos anos de formação de recursos humanos, muitos anos de melhoria da nossa oferta turística. E este capital não pode ser perdido. É preciso que consigamos manter a nossa oferta turística a todos os níveis, hotelaria, alojamento, restauração, rent a car, animação turística, os guias turísticos… Tudo isto faz parte da oferta turística e é fundamental que seja preservado.
Ao nível de condições de oferta turística, o nosso produto é forte. Temos seguido, nos últimos anos, um caminho que é fundamental que se prossiga que é o caminho da sustentabilidade no turismo. É uma oferta que está muito dentro do que são as expectativas do turismo do futuro: a sustentabilidade, a natureza, os espaços abertos. E nós temos esta oferta muito diferenciada e muito forte. Portanto, é importante que os serviços também acompanhem esta oferta.
Todos os mercados estão parados e o que vai acontecer quando o turismo recuperar, na retoma, é que todos eles vão surgir à procura de turistas. Vai haver grande concorrência. E nós temos de estar bem preparados para responder a toda esta forte concorrência que vai surgir com a retoma.

Há indícios de que vamos estar preparados quando chegar a altura?
Da parte das empresas tem havido um esforço neste sentido. Nós temos feito um esforço muito grande em manter os postos de trabalho. É importante que haja também este entendimento das entidades públicas para que, quando for a altura de se iniciar a retoma, estejamos preparados para darmos a resposta à devida dimensão para que o turismo dos Açores continue a crescer e continue a desempenhar o papel importante que tem na dinamização da economia da Região.

Uma duplicação do investimento na promoção turística é suficiente?
A promoção vai ser muito importante. Nesta fase imediata, nós temos de ter uma promoção orientada para manter a nossa imagem, de manter a Marca Açores e continuarmos a estar vivos. Isto é importante.
Numa primeira fase vai ser fundamental um investimento no mercado interno, Portugal continental. O nosso mercado interno, nas ilhas, é muito pequeno. Mas, ao nível do continente é importante.
Muitos dos mercados emissores de turistas estão com dificuldades. A crise pandémica tem-se agravado. As perspectivas, apesar da vacina, não são, neste momento, as melhores. Portanto, prevê-se que todos os mercados emissores estejam também com muitas dificuldades, Inglaterra, França, Alemanha, os mercados europeus. O mercado americano estava a ter, cada vez mais importância nos Açores e também está com algumas dificuldades. Portanto, é de prever que este ano estejamos muito direccionados para o mercado português.

Como olha para a tarifa de 60 euros para residentes nas ligações entre as ilhas?
Na altura em que foi lançada esta medida, tive o gosto de estar presente numa reunião em que se discutiu esta proposta com o então candidato José Manuel Bolieiro. E entendo que é uma medida bastante útil para o desenvolvimento do turismo interno e, principalmente, para a coesão das ilhas mais pequenas. Este será um meio de nós todos conhecermos melhor os Açores. E é uma forma das ilhas mais pequenas poderem ter alguma dinamização económica e a visita de mais açorianos.
Entendo que esta é uma medida importante para a coesão das ilhas e para o desenvolvimento de algum turismo interno.

Os empresários queixam-se muitos de os apoios governamentais obrigarem a manter o emprego nas empresas. Tem sido fácil atingir este objectivo?
Os apoios têm criado algumas dificuldades às empresas. Algumas dificuldades que são evidentes em demasiada burocracia, pouco simplificação de processos e dispersão de apoios. Há dezenas de apoios diferentes com alguma burocracia associada. Isto faz com que as empresas que concorrem a estes apoios tenham que realizar um processo que é muito longo e muito burocrático e muito administrativo. Principalmente as empresas mais pequenas têm dificuldades acrescidas. Depois, quando chega às entidades oficiais, há muita burocracia para verificar, para conferir toda a documentação. E isto faz com que os apoios levem muito tempo a chegar às empresas, o que também não é bom. Tem-se verificado um grande atraso no recebimento dos apoios pelas empresas.
Depois, tem estado associado aos apoios uma componente que cria grandes dificuldades às empresas e que tem a ver com a manutenção a 100% dos recursos humanos. As empresas e, no caso concreto, a hotelaria, quando a crise se iniciou, estava preparada para ter um crescimento das suas actividades. Previa-se que houvesse mais 65% de actividade em relação a 2019. E o que se verifica é que tivemos uma actividade que representou cerca de 20% do que foi 2019. É evidente que isto cria dificuldades muito grandes para a manutenção dos postos de trabalho. Há consciência por parte dos empresários de ser fundamental manter a sua capacidade produtiva. Mas, a capacidade produtiva é o resultado de muito investimento e de muita formação nos últimos anos que permitiu a qualificação da oferta e a qualificação dos recursos humanos. Mas não se pode exigir às empresas que tenham este esforço na manutenção de 100% dos postos de trabalho.
Tanto mais que estava previsto no início que esta era uma crise que começou em Março e já se dizia que no Verão as coisas estariam, mais ou menos, normalizadas. E o que é certo é que um ano depois nós continuamos sem perspectivas de quando vai iniciar a recuperação do turismo e a retoma do turismo.
E a reestruturação das empresas de turismo vai ser fundamental. Estamos a notar, por exemplo, nas empresas de transportes aéreos, que estão a receber milhares de milhões de apoios e, mesmo assim, estão a reestruturar-se, estão a reduzir os seus activos a nível de recursos humanos. Todos sabemos o que aconteceu não só a nível nacional como a nível internacional. As empresas estão a adaptar-se a novas condições para que possam continuar economicamente rentáveis porque isto é fundamental para que se possa manter, não a 100% mas, pelo menos, a 80 ou a 90% dos postos de trabalho que as empresas tinham no início da crise.
Na hotelaria, as empresas também têm que se reestruturar para terem capacidade de responder à procura no futuro e estarem estruturadas para terem esta capacidade de sobrevivência. Corre-se o risco de haver algumas empresas que fechem. E se tivermos empresas a fechar e perdemos 100% do emprego, será muito pior do que se conseguir manter 80 ou 90% do emprego.

Quais as suas expectativas para o futuro?
Eu acredito no turismo. Eu acredito que o turismo vai recuperar. E o que temos de fazer é mantermo-nos e ter capacidade para darmos resposta à procura que vai existir. Nós temos uma oferta única. Penso que foi inteligente de há três a quatro anos atrás começarmos no caminho da sustentabilidade. E hoje em dia confirma-se que o novo paradigma do turismo passa pela sustentabilidade, um turismo de natureza activa, uma natureza de espaços livres, onde as pessoas estejam muito mais seguras. E são estas respostas que temos de dar.
Neste momento, há uma outra área que também é fundamental que estejamos atentos, que são os transportes aéreos. Nós podemos ter a melhor oferta turística mas, se não tivermos transportes, a nossa oferta turística não serve de nada. É fundamental que haja um enfoque muito grande nos transportes aéreos e que possamos continuar a assegurar rotas diferenciadas e directas para que os turistas possam chegar até nós com mais facilidade.
Neste momento, para além da continuação do caminho da sustentabilidade que temos de prosseguir, é determinante nós termos o enfoque em mantermos rotas, em mantermos o transporta aéreo, relevando a importância do grupo SATA.

A reestruturação em curso do Grupo SATA anima-o?
É importante a definição de manter o Grupo SATA. A SATA pode ser um instrumento importante para o desenvolvimento dos Açores e tem de cumprir o seu papel. E muitas vezes o papel da SATA não pode ser só transportar e criar rotas mas também dinamizar este mercado aonde se dirige.
Neste momento a SATA vai iniciar uma rota com França e é importante que, paralelamente, desenvolva acções de marketing, de dinamizar a rota para promover os Açores para que os aviões possam vir mais cheios e que possam dinamizar o turismo na Região.

 Há uma certa expectativa com a chegada de fundos comunitários à economia açoriana e, nomeadamente, ao turismo…
Pois, é a chamada ‘bazuca’. Ela tem sido muito falada. Oxalá não seja uma bazuca de pólvora seca e seja, efectivamente, uma forma de dinamizar a economia. É importante que os fundos do Plano de Resiliência e Recuperação cheguem à economia e seja uma forma de dinamizar a actividade económica.

Está com algum receio que este dinheiro vá para obras públicas e não seja canalizado para a economia?
Oxalá não cometam erros que já foram cometidos no passado. Verbas que foram aplicadas em obras de grande dimensão, com muito betão, e não chegaram a quem, efectivamente, cria riqueza que são os privados.

Estas verbas devem estar orientadas, prioritariamente, para a economia…
É fundamental que se faça chegar dinheiro à economia e que haja uma forma de o sector privado crescer nos Açores, com a criação de riqueza e de postos de trabalho.


                                                   

Print
Autor: João Paz

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima