Enfermeira açoriana caminhou durante cinco meses até chegar a Santiago de Compostela

Depois de uma licenciatura em enfermagem tirada em Braga e de um período dedicado ao programa Estagiar L na ilha das Flores, Maria João Morais, natural de Ponta Delgada, decidiu arriscar uma carreira no exterior do país e entregou-se de corpo e alma ao serviço de saúde britânico, onde trabalhou durante cinco anos, num hospital, nos serviços ligados à cardiologia e, posteriormente, no serviço de urgências.
Entretanto conheceu Gonzalo, o seu companheiro, e decidiu dar uma oportunidade a Espanha, país onde actualmente vivem, mas não sem marcar este ritual de passagem com uma das experiências pela qual muitos peregrinos e amantes de viagens anseiam: a de fazer o Caminho de Santiago de Compostela.
No total, esta foi uma viagem com cinco meses de duração marcada pelos mais de 3 mil quilómetros percorridos com uma tenda e apenas bens essenciais às costas, que para sempre viria a mudar a perspectiva da açoriana em relação à vida, iniciando a viagem ainda em Inglaterra.
Iniciar esta peregrinação a partir de Portugal estava também entre as opções, mas quando o casal decidiu mudar-se para Espanha, país de onde é natural o companheiro desta açoriana, decidiu também tirar uma espécie de ano sabático e optar por uma experiência diferente e mais demorada, o que os levou então a decidir sair de Inglaterra, do porto de Harwich, no dia 4 de Junho de 2019, de onde seguiram até Roterdão, na Holanda.
O desejo era passar por Haarlem, pelo facto de ser uma das primeiras guias do Caminho de Santiago, seguindo por uma das rotas mais antigas documentadas e possibilitando o contacto com a Associação dos Amigos do Caminho de Santiago que ajustou a rota do casal que, depois da Holanda, partiu em direcção à Bélgica.
No entanto, sendo esta uma rota exigente, quer ao nível da preparação mental, quer ao nível da preparação física, Maria João Morais adianta que não teve muito tempo para se preparar para esta caminhada, apostando em vez disso em bom material para a caminhada.
Apesar de o companheiro da enfermeira ter já muita experiência em caminhadas deste tipo, valendo-lhe os conselhos úteis para os cinco meses de percurso, esta realça que o casal saiu do Reino Unido sem uma rota predefinida, e que por isso, até encontrarem “as setas amarelas”, o auxílio de aplicações como o Google Maps revelou-se essencial.
Durante este período de tempo, a micaelense conta que foram surpreendidos com várias oscilações de temperaturas, entre um calor abrasador em França, país que demoraram dois meses e meio a cruzar, e neve à chegada a Espanha, sem contar com os dias e noites de trovoadas e chuvas intensas das quais sempre se procuraram abrigar.
“No início eu estava muito nervosa e ansiosa com toda esta viagem, porque nunca tinha feito nada parecido e porque tinha a noção de que iam ser bastantes meses. Mas o meu maior medo era a Inglaterra, porque não havia caminho sinalizado no sítio onde estávamos, o que se podia tornar um pouco mais complicado encontrar sítio para dormir”, relembra Maria João Morais.
Para esta aventura, o casal decidiu transportar consigo uma tenda com colchões insufláveis, almofadas insufláveis e sacos de cama, e montá-la, essencialmente, onde fosse possível, incluindo parques de campismo perto do Caminho mas não só. Porém, passar os dias “sem saber onde íamos dormir” era uma das maiores ansiedades da açoriana, relembrando que, no primeiro dia, o casal dormiu debaixo de uma ponte que, apesar de tudo, fez com que Maria João Morais se sentisse mais ou menos confortável por conter arte urbana que a fazia lembrar os Açores e o extenso mar que banha as nove ilhas.
Neste sentido, relata ao nosso jornal, uma das primeiras coisas que esta experiência lhe permitiu aprender é que “por muito que se planeie, uma viagem nunca vai correr como se planeou, e ainda bem. Não posso dizer que nos tenham acontecido coisas muito dramáticas, mas acontece conhecermos pessoas, haver um bom ambiente, sermos convidados para jantar e não chegarmos ao destino que tínhamos planeado para aquele dia”, conta.
Tendo em conta estes momentos mais imprevisíveis, afirma que esta viagem foi muito importante para que no seu dia-a-dia não sinta tão frequentemente “a necessidade de estar sempre no controlo de tudo”.
Como outro exemplo disto, e apesar da hospitalidade com que foram recebidos na grande parte dos locais onde precisaram de parar, Maria João Morais relembra um dos dias em que, ainda em Inglaterra, o casal necessitava de pernoitar na sua tenda mas, se possível, abrigado da chuva, necessitando de alterar os seus planos iniciais.
“Houve um dia em que estávamos numa igreja à espera que as pessoas que lá estavam saíssem e falámos com um padre. (…) Explicámos que estávamos a fazer um caminho religioso e que procurávamos um sítio para dormir, porque apesar de termos tenda, molhá-la implica mais trabalho no dia seguinte, por isso tentávamos sempre não a molhar. Mandou-nos ir a um bar, já de noite, e nesse momento comecei quase a entrar em pânico. Mas lá fomos ao bar pedir ajuda ao senhor que lá estava e ele deixou-nos ficar lá (…), o que para mim foi como se fosse uma salvação”, conta.
Contudo, salienta que “mais foram as pessoas que nos ajudaram de forma desinteressada do que as que recusaram os nossos pedidos”, relembra a peregrina, referindo que, pelo Caminho, nos vários caminhos que cruzaram, encontraram pessoas que lhes cediam a sua própria casa ou quintal onde o casal poderia montar a sua tenda e pernoitar.
Tendo isto em conta, mesmo sabendo que o melhor seria “não esperar nada de ninguém”, a enfermeira de 32 anos de idade aconselha aqueles que desejam fazer este Caminho a colocarem o seu plano em prática quando houver possibilidade para tal.
“Aconselho todas as pessoas que puderem fazer este caminho que o façam, independentemente do tempo que tenham. Não precisa de ser uma corrida, o mais importante é desfrutar da viagem e nós, desde o princípio, tínhamos isso muito claro. Para mim, o que faz a viagem não são os quilómetros que andamos mas sim as pessoas que encontramos e as conexões que se criam com elas.
Quando vamos para um local como turistas não somos tratados da mesma maneira como se fôssemos peregrinos, são papéis diferentes e foi bastante interessante ver como é que nos diferentes países as pessoas lidam com os peregrinos”, relata, adiantando ainda que voltaria a fazer este Caminho novamente e que não está fora da sua lista de “viagens” futuras.
Mesmo que a chegada ao destino final tenha sido inesquecível, a verdade, conta a peregrina, é que já se encontrava a “fazer o luto” desta experiência desde que passaram as fronteiras de Espanha, sendo que a partir daquele momento apenas restava um mês para chegar ao fim do Caminho.
“Para mim foi muito mais emocionante chegar a Espanha, porque pensava que não ia conseguir chegar lá, e o sentimento era de que apenas faltava um mês e que o pior tinha passado. Quando chegámos a Santiago foi uma emoção e foi muito interessante e encontrámos pessoas com quem nos tínhamos cruzado em França!”, relembra.
O único momento em que a peregrinação ficou verdadeiramente em causa deu-se quando Gonzalo, por carregar uma mochila com peso a mais, acabou por desenvolver um problema de saúde num pé, que obrigou o casal a fazer uma pausa forçada de quatro dias em França e a repensar a viagem. Contudo, o peregrino rapidamente recuperou e optaram assim por seguir viagem.
Depois desta experiência de peregrinação, que terminou a 14 de Novembro de 2019, Maria João Morais iniciou a sua vida em Espanha, mas depressa o novo coronavírus estragou os planos que tinha para o seu futuro profissional, tendo em conta que o confinamento atrasou a sua capacidade de reunir todas as burocracias necessárias para voltar a exercer enfermagem no Reino Unido.
Apesar deste contratempo, que a impossibilitou de exercer a sua profissão e ajudar os profissionais de saúde a combater o vírus que invadiu o mundo nos piores momentos da pandemia, Maria João Morais sabe que conseguirá trabalhar em qualquer lugar do mundo que deseje, graças ao curso que escolheu.
No fundo, gostaria de ter a oportunidade de regressar aos Açores de forma mais definitiva, embora as condições de trabalho sejam piores e, no seu entender e no da classe de uma forma geral, estas devem ser revistas, mas pelo caminho terá também que convencer o namorado que, de momento, está a formar-se em Espanha para ser chef de cozinha.

 

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