Entrevista ao Director do Okeanos, João Gonçalves

“É inexplicável a falta de investimento nas ciências dos oceanos, sobretudo a nível nacional e também nos Açores”

Correio dos Açores – Apesar de ter sido adiada para 2022, que importância tem a realização da Conferência dos Oceanos 2021-2030, programada para Lisboa?
João Gonçalves (Director do Okeanos-UAc, Instituto de Investigação em Ciências do Mar da Universidade dos Açores) - Pode-se dizer que esta conferência é o ponto de partida da grande iniciativa da ONU de mobilizar a sociedade internacional para a importância da Ciência dos Oceanos para o Desenvolvimento Sustentável, no período de uma década (2021-2030). É uma das formas encontradas para se materializar o Objectivo 14 de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que constitui a Agenda 2030, aprovada em 2015 pela Assembleia Geral da ONU, que tem um total de 17 grandes ODS.
Em 2017 decorreu a primeira conferência, na sede na ONU em Nova York, em que foi preparada esta grande iniciativa global. O arranque efectivo deveria ter acontecido em Junho de 2020 em Lisboa, não fora o aparecimento inesperado da pandemia da Covid-19.
É de salientar que o ODS 14 da Agenda 2030 é dedicada à protecção da vida marinha e tem uma dezena de metas calendarizadas, umas mas fáceis de alcançar do que outras.

E qual a importância de uma conferência desta envergadura se realizar em Lisboa?
Apesar desta conferência ser co-organizada por Portugal e pelo Quénia, a escolha da Lisboa foi o resultado do trabalho notável que o serviço diplomático português tem feito na ONU.  
Na minha perspectiva, o facto desta conferência decorrer na capital do país tem o simbolismo de termos sido nós um dos países pioneiros no estudo dos oceanos, quando iniciamos de forma concertada as grandes navegações oceânicas, justamente a partir do estuário do Tejo. Pode ser que daqui parta novamente uma consciencialização global da importância da conservação dos oceanos e que a sua exploração tem que ser feita de forma sustentável.

O nível do mar continua a subir devido às alterações climáticas. Que dimensão pode ter esse problema nos Açores?
A subida do nível do mar é um dos muitos problemas que afectam o oceano global. É um problema fatal para muitas nações insulares que correm o risco de desaparecer. Apesar do arquipélago dos Açores não correr este risco, trará certamente problemas na ocupação da orla costeira. Esta possibilidade tem que ser seriamente considerada pelas autoridades regionais no sentido de indicarem soluções de médio prazo que permitam mitigar os potenciais problemas que esta alteração vai trazer.

Os oceanos estão a ficar mais ácidos e há mais plásticos no mar. De que forma se sentem estes problemas na Região?
A acidificação dos oceanos é outros dos problemas que se colocam aos oceanos, mas numa escala temporal diferente da poluição por plásticos. Este é sem dúvida um dos problemas mais urgentes que já estão a afectar os Açores, seja na forma dos plásticos de maiores dimensões que arrojam na costa das ilhas açorianas, seja em consequência da sua fragmentação, criando os micro-plásticos.
De acordo com alguns estudos que estão a ser feitos por colegas, há praias dos Açores que têm dos maiores níveis de contaminação por micro-plásticos a nível europeu. Para além disso, estes plásticos acabam por afectar a vida marinha, sobretudo dos vertebrados marinhos, que os ingerem ou ficam neles enredados, aumentando a sua mortalidade. Não tendo os Açores uma grande densidade populacional humana, e estando em vigor sistemas locais de gestão de resíduos sólidos cada vez mais eficientes, é fácil perceber que a maioria dos plásticos que chegam às nossas costas são de origem exógena. Sendo um problema que nos atinge, deveria haver apoios externos que nos ajudem a combater este problema que nos afecta de forma preocupante.

O Secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou que para inverter a tendência do declínio do mar, “precisamos de revolucionar a forma como usamos as ciências oceânicas”. Como analisa esta afirmação?
Parece-me que esta afirmação deve ser entendida no sentido de dar maior ênfase às ciências do oceano. Actualmente, investe-se mais na exploração espacial do que no conhecimento e conservação do oceano. Já foram mais homens à Lua e ao espaço envolvente da Terra, do que às zonas mais profundas dos oceanos, que não deixa de ser o nosso espaço interior e muito mais próximo.

Os Estados só estão a investir, em média, 1,7% dos seus orçamentos nas ciências do mar. No caso dos Açores, que dimensão deve ter o investimento nas ciências do mar?
É inexplicável a falta de investimento nas ciências dos oceanos, sobretudo a nível nacional e também ao nível dos Açores. Somos a região do país com as piores percentagens em termos de alocação de verbas para investigação e desenvolvimento (I&D) relativamente ao PIB (0,3%) e em recursos humanos em função da população activa (2,9%). Ainda por cima, estes indicadores referem-se a toda a actividade de investigação, ficando para as ciências dos oceanos uma parte ainda mais residual. Considerando que toda a investigação que se faz no oceano é pelo menos dez vezes mais cara comparativamente à que se faz no ambiente terrestre, pela óbvia dificuldade de acesso, sobretudo ao mar profundo, ainda é mais fácil de perceber a dimensão do sub-financiamento.
A tarefa de conhecer melhor o mar dos Açores (considerando apenas a Zona Económica Exclusiva - ZEE) é hercúlea se considerarmos a sua dimensão. A área da ZEE dos Açores representa dez vezes toda a área emersa nacional e 410 vezes a superfície emersa das nossas ilhas, acrescida pelo facto da maior parte dos nossos fundos marinhos terem uma grande profundidade média (cerca de 3 km). Não é possível levar a cabo esta tarefa sem mobilizar recursos humanos especializados por períodos de médio e longo prazo. Parte destes recursos humanos já existe, mas associados a regimes de contratação muito precário e isso tem que ser alterado.
Qualquer acréscimo que se venha a ter no financiamento das ciências dos oceanos nos Açores será muito bem-vinda, aliada à consolidação das instituições que se dedicam à investigação deste meio. Seria olímpico se conseguíssemos chegar ao valor indicado na pergunta. Note-se que este financiamento não tem que ser só do Governo Regional, mas também do nacional, que sempre tutelou o espaço marítimo dos Açores.

A Região está a precisar de um navio científico maior e mais sofisticado para corresponder às novas exigências da investigação das ciências do mar. O que deveria ser feito para isso acontecer?
Dada a dimensão da área oceânica dos Açores é claro que a Região devia ter um conhecimento sobre as suas potencialidades nesta área. Não faz sentido que este conhecimento seja feito em grande parte por outros. A cooperação externa é importante, mas o conhecimento local tem que ser aprofundado.
Um navio de investigação constitui uma das ferramentas principais para poder aceder ao oceano. Temos tido uma experiência interessante com a utilização do navio ‘Arquipélago’, que agora está a chegar ao final da sua vida útil. Apesar de ser um navio de pequena dimensão que tem dado um apoio fundamental às políticas públicas regionais, sobretudo relacionadas com a gestão dos recursos pesqueiros, é insuficiente para a investigação do mar profundo.
Não há dúvida que precisamos de um navio maior que permita a utilização dos modernos equipamentos utilizados neste tipo de estudos. Além do navio é fundamental ter um veículo de operação remota (ROV) com alcance semelhante ao da profundidade média do mar dos Açores. Este navio tem que ter também capacidades tecnológicas que permitam o mapeamento detalhado dos nossos fundos marinhos e sua natureza. Com uma operação regular de um navio é possível melhor substancialmente o nosso conhecimento sobre os nossos mares numa janela temporal de médio prazo.

Concorda que a população mundial, e também os açorianos, “têm de mudar a maneira como entendemos, gerimos e usamos os recursos marítimos e as áreas costeiras”? De que forma?
O problema da gestão dos recursos marinhos é um exemplo clássico da chamada “tragédia dos bens comuns”. A acção individual sobre recursos finitos leva à exaustão dos recursos comuns, sempre que o número de indivíduos que os explora é grande e não têm grande ligação comunitária. Em pequenas comunidades isso consegue ser superado uma vez que facilmente se percebe que comportamentos egocêntricos acabam por prejudicar toda a comunidade, surgindo formas de controlo colaborativo que acabam por evitar que a tragédia se concretize.
No caso dos oceanos, a sua imensidão induziu a falsa sensação de ser um meio infindo, em que os seus recursos que poderiam ser explorados de forma ilimitada, o mesmo acontecendo com a deposição de resíduos. Com o aumento da população mundial e a eficiência crescente das tecnologias de exploração que se acentuaram durante o século XX, ficou plenamente demonstrado que os oceanos são finitos e um bem comum a toda a Humanidade que passou a estar em perigo de exaustão. Assim, a sua utilização tem que assentar em princípios éticos precaucionários, pondo os ecossistemas e a sua sustentabilidade no centro da nossa atividade, ou seja baseado no eco-centrismo, neste caso particular diria, no oceano-centrismo.
No caso dos açorianos a situação é menos grave, sobretudo por sermos poucos, mas há muito a fazer para melhorar na nossa relação com os oceanos, seja na exploração dos recursos como na gestão dos resíduos. Nos recursos costeiros, como é o caso das lapas, é um caso paradigmático. Se a exploração continuar a ser feita da forma em que está, levará certamente ao esgotamento deste recurso em muitas ilhas.   

As pressões humanas, incluindo a sobre-exploração, pescas desreguladas, ilegais, práticas de aquacultura instáveis e poluição marítima estão a ter um peso significativo sobre os oceanos. Esta é uma observação das Nações Unidas. Já se sentem estas pressões nos Açores?
Estes são alguns dos problemas que afectam os oceanos na actualidade, a par dos que foram abordados nas questões anteriores. A localização geográfica dos Açores protege-nos de algumas destas pressões, mas pode acentuar outras. A natureza irregular dos nossos fundos protege-nos das pescarias de arrasto. A aquacultura é uma actividade incipiente nos Açores. Contudo, a pesca ilegal pelágica no alto-mar é um problema potencial. As embarcações piratas que praticam este tipo de pesca furtiva no alto-mar são muito difíceis de detectar. A fiscalização, que já é exígua, concentra-se nas zonas de soberania nacional, deixando a vastidão do alto-mar sem protecção.  
O facto de haver uma grande zona de acumulação de plásticos flutuantes no Atlântico Norte, a “ilha de plástico” do mar dos Sargaços, próxima do nosso arquipélago, expõe-nos mais a esta forma de poluição e já devemos estar a sofrer as consequências disso.

A Escola do Mar dos Açores já devia estar a funcionar? De que forma pode ajudar em alguns dos problemas que se vivem nos Açores ao nível dos mares?
Apesar de não estar directamente envolvido na implementação da Escola do Mar dos Açores, sei que está em fase de final de instalação e certificação, depois de um período de adaptação de espaços e de aquisição e instalação de novos equipamentos. Esta fase de certificação é uma etapa essencial para poder entrar em funcionamento. Estes processos são frequentemente demorados, uma vez que envolvem diversas entidades externas, com os seus timings próprios.
Espera-se que esta escola venha a formar os profissionais na área das pescas, dos transportes marítimos e do turismo marinho, que são necessários para que estas actividades económicas possam ser feitas de forma mais sustentável. Durante o ano corrente devem iniciar-se as primeiras formações, esperando-se que no próximo esteja em pleno funcionamento.

Carla Dias/João Paz

 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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