Face a Face!... com Henrique Schanderl

“O PS/Açores ainda não percebeu que é oposição e muito menos o caminho para voltar um dia ao poder”

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Chamo-me Henrique Schanderl, sou casado há 44 anos com a minha querida Luísa, tenho uma filha (Catarina) e um filho (Rodrigo) maravilhosos, ambos licenciados, mas actualmente empresários, e um neto (Gil) fantástico. Sou uma pessoa que me considero, modéstia à parte, integra, frontal, onde os valores, a ética a moral e a honestidade me definem. Abomino a mentira.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
O meu percurso académico foi um bocado “ziguezagueante”. Comecei por tirar o Curso de Regentes Agrícolas (hoje denominados de Eng. Técnicos Agrários) com o objectivo de trabalhar em fitossanidade. No entanto, e ainda no último ano do curso, recebi um convite para estagiar na Nestlé, na Holanda, e integrar, posteriormente, os seus quadros. Assim, comecei a ter, mais a minha mulher, explicações de holandês com este propósito. No entanto, nasceu o Instituto Universitário dos Açores e a força da família falou mais alto, pelo que desisti de ir para a Holanda e integrei o quadro do Instituto Universitário dos Açores, equipa liderada pelo professor Vasco Garcia, na especialidade ainda desconhecida de muitos açorianos de luta integrada. Parti para França, para Marselha, onde continuei os meus estudos, culminando com o Doutoramento em Ciências. Regressei posteriormente à Universidade dos Açores e obtive o meu Doutoramento pela Universidade de Lisboa em Biologia e Biossistemática e continuei o meu percurso como investigador e professor. Ainda no âmbito profissional, fui Presidente da Comissão de Instalação do Ensino Politécnico na Universidade dos Açores.
Em termos de cidadania, fui uma das primeiras pessoas a dar voz à Ciência e Tecnologia nos Açores, nos dois primeiros governos socialistas, onde tive a honra de liderar dois projectos considerados mesmo a nível Europeu como estruturantes: o Programa Açores Região Digital e o Programa de Desenvolvimento e Inovação Científica. Tendo sempre como preocupação dar possibilidade aos jovens, adultos e todos os interessados de se actualizarem, combatendo assim a infoexclusão. No aspecto social, fui Presidente da Assembleia Geral da Sociedade Afonso de Chaves, e igualmente do Clube Naval de Ponta Delgada.

 Quais as suas responsabilidades?
Há já algum tempo que estou aposentado, pelo que as minhas responsabilidades prendem-se, sobretudo, com a família, mas não descurando a ciência e faço o possível por manter-me actualizado. Assim, por causa da pandemia, tenho-me debruçado, sobretudo, pelas áreas da virologia e epidemiologia.

Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
A família é para mim o eixo principal da vida, pelo que lhe reservo um espaço preponderante. Nos Açores, ainda hoje em dia, a família tradicional, de vida comunitária, é a mais importante, apesar das circunstâncias do desenvolvimento socioeconómico que têm feito partir os nossos jovens à procura de novas experiências, mas sobretudo de realização profissional.

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
É visível, nos meios mais desenvolvidos, que os jovens têm acesso a um nível de ensino, de actividades culturais e sociais muito mais desenvolvidas e que aliados, no caso de Portugal, à falta de empregabilidade de acordo com os seus conhecimentos, voam para outras paragens à procura de estabilidade, mas também do reconhecimento das suas capacidades.
 Tal movimentação dos mais novos implica, necessariamente, alterações na vida comunitária familiar, fazendo que os mais velhos percam o elo embrionário com os seus filhos e netos e, como resultado, a uma vida mais solitária, mais frágil e menos sorridente.

A relação entre pais e filhos é um foco de tensões. Em sua opinião, que abordagens devem ser feitas?
Não vejo que tal seja verdadeiramente uma realidade, é natural que haja tensões, fazem parte do desenvolvimento normal dos jovens. A abordagem deve ser feita desde muito jovens, promovendo o diálogo, a transmissão de valores e compreensão por parte dos mais velhos. No fundo, vejo mais como uma “rebeldia” passageira, uma maneira de se quererem afirmar. No entanto, não sou psicólogo.

Como e quando se deve interferir nas amizades do adolescente?
Desde que exista um diálogo permanente e aberto com os jovens, que não têm necessariamente de ser adolescentes, onde a transmissão de valores e a compreensão de parte a parte seja uma constante, não vejo razão para uma intervenção. Muitas vezes tenho presenciado reacções musculadas que, no fundo, só servem para aumentar a rebeldia dos jovens.
 A relação entre o professor e o aluno deve ir além da sala de aula?  
A relação entre o professor e o aluno deve ser sempre de respeito mútuo e, igualmente, de amizade, sendo que sempre que possível se deve fomentar um convívio salutar, mas que traduza o aprofundar do conhecimento junto do jovem, e não somente a conversa banal.

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
Tudo se transforma, nada se perde, assim é a Sociedade, esta está sempre em movimento, não significando que tal movimento se faça sempre no bom sentido, mas naturalmente que a parte positiva é muito superior à negativa.

Que importância têm os amigos na sua vida?
Muito importante! Não é só um motivo de convívio, mas sobretudo de discussão de ideias e de aprendizagem. Estamos sempre a aprender, e muitas vezes com quem menos esperamos.

Que sonhos alimentou em criança?
Partir para África e trabalhar numa reserva natural.

O que mais o incomoda nos outros?
Uuiii! Muita coisa, mas sobretudo a mentira, a falta de moral de ética e de valores.

Que características mais admira no sexo oposto?
A inteligência!

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Sim! É difícil de responder, são tantos, mas aquele que me vem à memória neste instante, “La Mer”, de Phillip Plisson

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
Gosto de navegar! Vou aprendendo sempre alguma coisa, mas a grande maioria, infelizmente, é lixo.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
Hoje já não.! São importantes fontes na comunicação e no conhecimento Global.

Costuma ler jornais?
Sim! Todos os que me vêm parar às mãos.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Sim! Muito, considero-me um cidadão do Mundo e adorei a África, Brasil …. E, porque não, Paris ou Milão?

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Gosto de experimentar de tudo, mas a gastronomia mediterrânea é a minha preferida. Não tenho verdadeiramente um prato preferido, mas adoro um bom bife.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Que se tinha descoberto uma vacina contra a Covid-19 eficaz a mais de 90% para todas as variantes do Sars-CoV-2

Qual a máxima que o/a inspira?
A vida faz-se caminhando!

Em que Época histórica gostaria de ter vivido?
Ainda está para vir! Num futuro longínquo.

O que pensa da política e dos políticos de hoje?
A política poderia ser fantástica, mas encontra-se na sua maioria, tal como sempre, (veja-se o caso de Roma e de outras grandes civilizações), denegrida por chamados políticos que mais não são do que pessoas interesseiras e submissas às grandes corporações. Há uma série na Netfix chamada “Borgen” que todos os políticos, mas sobretudo os cidadãos, deveriam ver e que põe a nu a política tal qual é hoje em dia, neste caso, na Dinamarca.

Acredita no actual Governo dos Açores resultante da aliança entre PSD/CDSPP/PPM com acordos parlamentares com o Iniciativa Liberal e o Chega? Quais as suas vulnerabilidades e pontos fortes?
É demasiado cedo para se tirar ilações, só tenho observado medidas de cosmética em programas e projectos que vinham do Governo de Vasco Cordeiro, mas por princípio não estou de acordo com a formação deste Governo, como não estive com a Geringonça.

Tem sido a mais correcta a estratégia do PS/Açores na oposição? O que falta?
Qual estratégia? Penso que ainda não perceberam que são oposição e muito menos o caminho que têm de fazer se quiserem voltar um dia ao poder.

Se fosse um interveniente político, quais as prioridades para uma revisão do Estatuto da Autonomia e da Constituição?
Este é um assunto que considero de extrema importância e começava, desde logo, com a alteração da lei eleitoral nos Açores. Proponha a eleição dos deputados através de listas nominais, criava um orçamento participativo de Ilha sob alçada da Assembleia de Ilha, de modo que  cada ilha decidisse os caminhos a trilhar para o seu futuro. Um Governo Regional com responsabilidades nas áreas macroeconómicas, empresas públicas e na fiscalização dos programas e projectos da União Europeia. Reduzia substancialmente o número de deputados na Assembleia Legislativa Regional dos Açores e aumentava a sua capacidade legislativa e de fiscalização das políticas regionais. Nomeação de gestores públicos e directores regionais e equiparados através de concurso público. Definição e manutenção das Secretarias Regionais através de aprovação da Assembleia Legislativa Regional dos Açores, entre outros aspectos e autonomia administrativa e financeira efectiva das empresas públicas.
Obrigatoriedade de voto, através de um sistema electrónico para as Eleições Legislativas Regionais.

Se desempenhasse um cargo governativo, descreva uma das medidas que tomaria?
Não voltaria a desempenhar qualquer outro cargo político. A política hoje em dia não dignifica em nada a cidadania.

Tem seguido com atenção a evolução do transporte aéreo nos Açores e a relevância que tem o grupo SATA neste contexto. O que lhe diz menos aviões, menos voos e a impossibilidade de crescer no Plano de Reestruturação do Grupo SATA, ao mesmo tempo que se baixa salários em 10%?
Não conheço o Plano em pormenor, como nenhum açoriano igualmente conhece. O projecto de reestruturação da SATA é um autêntico tabu deste Governo, que em nada o dignifica, pois somos todos nós açorianos que o sustentamos. Se são mais ou menos aviões, se mudam de aviões, se mexem nas gateways, se alteram rotas, se mexem nos ordenados, se despedem pessoal e até o tempo e valores até chegarem a uma verdadeira estabilidade financeira, são meras hipóteses de que se fala.

Em sua opinião, como tem evoluído a investigação e a ciência nos Açores? Onde já deveríamos estar?
Sinceramente não sei! Pelo que me tem sido dado a observar, tem havido muitos avanços mas também muitos recuos

Com o Fundo de Resiliência e Recuperação da União Europeia com 500 milhões de euros para as empresas, de que forma uma interligação entre o Turismo e a Agropecuária pode tornar mais robusta a economia açoriana?
500 milhões são uma gota de água. Este dinheiro tem de ser muito bem gerido e utilizado sobretudo em matérias de real valor acrescentado e não para manter os serviços públicos do Estado ou da Região Autónoma dos Açores. Tem que se, obrigatoriamente, diminuir a subsídio-dependência, sobretudo na Agropecuária. É inconcebível que 40 anos depois, esta actividade necessite constantemente de apoios significativos e que fazem muita falta noutros sectores.

Tem algo mais que considere interessante e importante abordar no âmbito desta entrevista?
Seria muito interessante que o jornal, uma vez por semana, publicasse um resumo das actividades da Assembleia Legislativa Regional dos Açores.
                                          

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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