23 de fevereiro de 2021

Opinião

Apontamento histórico

Nesta crónica, prefiro escrever um apontamento histórico sobre o típico carnaval de Rabo de Peixe para não abordar mais uma vez as sinistras cercas que aprisionam as boas gentes da Vila, um povo honrado, trabalhador e corajoso que enfrenta de cara levantada esta imposição de quem desconhece como é viver abandonado pelos decisores de todos os tempos. 
Este ano, os “chocalheiros” de Rabo de Peixe não saíram no dia do entrudo pelas ruas da Vila, e a animação inusitada, que é uma secular tradição, não foi vivida naquele que é o carnaval mais típico da nossa ilha, ficando adiada para o próximo ano.
Sem serem considerados como Património Cultural Imaterial da UNESCO, mesmo assim os bandos de mascarados continuam ao longos dos anos a manifestarem-se, numa desorganização organizada, e a cumprir a tradição secular de espantar os espíritos com os seus chocalhos de vacas que colecionam ao logo do ano e a meterem-se com as raparigas casadouras.
O fato dos mascarados passou, com a guerra colonial portuguesa, a ser as camufladas fardas da tropa, mas muitos continuam ainda como dantes com seus trapos velhos retirados propositadamente dos baús, sendo os inúmeros chocalhos, colocados à volta da cintura, a peça fundamental de cada um dos mascarados, que usam também as mais inimagináveis máscaras, tendo em vista um disfarce para ninguém conseguir descobrir de quem se trata na vida real, mesmo os amigos mais próximos, a não ser outro elemento do mesmo bando.
Com a patética cerca sanitária imposta pelo Governo Regional em Rabo de Peixe e com as restritivas condições de confinamento, os bandos de chocalheiros respeitaram a ordem pública e a praça principal da Vila e as suas ruas ficaram completamente desertas, como não há memória, dado que, quem passa por Rabo de Peixe, a qualquer hora do dia, constata que há sempre vida pujante, dando um colorido especial que carateriza aquela localidade.
O entrudo é o auge das manifestações de irreverência que nesta época, não só são permitidas, como constituem uma animação ruidosa e muito vivida pela população que fazem esquecer as agruras da vida que em Rabo de Peixe foram outrora foram mais acentuadas e uma constante, dado o ostracismo a que sempre foi votada o povo daquele lugar.
Nos dias antecedentes e no próprio dia de carnaval, o mascarado é uma personagem central, em torno da qual todos os festejos se desenrolam, desempenhando os mais variados papéis, numa tradição e ritual muito caraterístico de Rabo de Peixe. 
Por isso, esta quadra sempre foi muito pitoresca, mostrando mais uma vez que o povo daquela localidade respeita a forma quase arcaica de uma festaem que se usam trajes que lhes permitem uma vez no ano perder a sua individualidade cotidiana e experimentar uma identidade alheia, numa inversão geral das regras e normas do dia-a-dia.
Para além disso, as pessoas mascaravam-se, igualmente, para brincarem e assustarem os outros, fazendo coisas engraçadas, com as suas fantasias de roupas velhas. Até anos sessenta do século passado havia sempre um rei e uma rainha do carnaval, que muitas vezes eram os mesmos de um ano para o outro, do mesmo ramo familiar, como se de uma descendência real e tratasse, e procuravam assumir o foco das atenções de todas as brincadeiras, pelo que não necessitavam de usar uma máscara.
As mulheres e raparigas também se juntam apenas na terça-feira e percorrem as ruas, faustuosamente fantasiadas e participam nas costumadas brincadeiras com água, enquanto os rapazes se entregam à batalha de ovos e da água, para além de se tingirem uns aos outros de anil. Ninguém leva a mal.
Uma outra caraterística do carnaval de Rabo de Peixe era a forma como se faziam as conhecidas malassadas, tão populares em toda a ilha, mas que ali a diferença deste doce próprio da época carnavalesca volta a ser um elemento diferenciador do modus vivendi das pessoas daquele lugar. 
O segredo do seu gosto delicioso reside na forma como as malassadas eram levedadas. Depois de amassadas por mãos calejadas de cozinheiras bem experientes, a massa uniforme era colocada num cesto de vimes resguardado por um lençol branco enfarinhado, para que a pasta não se colasse e, assim, pudesse ser facilmente retirada para ser colocada no pial do lume aos montinhos. Os cestos eram envoltos por cobertores e capotes remetidos do Havai e que aqueciam a massa antes de ser retirada e posta novamente a levedar. Só depois é que os montinhos eram postos na frigideira e dela saírem deliciosamente saborosas.
Aqui fica este apontamento histórico para que possamos valorizar as nossas tradições tão arreigadas em Rabo de Peixe e que constituem autênticas pérolas da nossa identidade tão específica e que são desconhecidas da maioria da população dos outros lugares.
António Pedro Costa

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